Por ROBERTO SAÉNZ 

No dia 23 de maio de 2026, no Festival Marx, no Espaço Cultural Elza Soares, foi apresentada a obra O Marxismo e a Transição Socialista: Estado, poder e burocracia, publicada no Brasil pela Boitempo.

O autor de O Marxismo e a Transição Socialista apresentou a edição em português de sua obra pela editora Boitempo, no marco da Festa de Aniversário de Marx em São Paulo, Brasil. Trazemos aqui a transcrição de sua intervenção no evento, no qual participou da mesa “Fascismo e disputa eleitoral: estratégias e horizontes para outubro”.


“O mundo é muito complexo e é preciso saber olhá-lo com os dois olhos. O Brasil vem de uma enorme tradição de luta, embora a conjuntura neste momento seja complexa. Como as imensas greves metalúrgicas do final dos anos 1970, que foram fundacionais da CUT e do PT, e que formaram um movimento operário reformista, mas classista.

Com respeito, vou polemizar com Álvaro (Bianchi), que diz que a esquerda abandonou essas tradições. Não concordo. Não concordo com sua coloção quando diz que a “rebeldia é da direita”. Temos elementos de rebeldia de esquerda hoje, imensos. Temos um movimento de luta na Bolívia que é imenso. Um movimento LGBT mundial que é imenso.

Mas há luta, disputa. Há polarização no mundo.

Mas há um problema. Para vencer, nas eleições, por exemplo, não se pode estar bem com Deus e com o Diabo. Se você está com Deus e com o Diabo, não está com ninguém. Se o governo do Lula tomasse medidas anticapitalistas — algo praticamente impossível —, se fizesse concessões reais às massas enfrentando os interesses capitalistas, seria outra a história. Eu me lembro dos últimos anos: as últimas campanhas do Lula são apenas campanhas eleitorais. Não me lembro de nenhuma campanha de massas, de mobilização de massas com reivindicações de massas.

Por exemplo, as lutas dos entregadores são lutas imensas, históricas, que surgem desde baixo, com reivindicações de baixo, enfrentando as empresas de aplicativos e as burocracias. À maneira de Rosa Luxemburgo, é um movimento espontâneo de base que enfrenta o conservadorismo dos aparatos.

Essa é a situação: é errado ficar preso na discussão da extrema-direita e não ver tudo o que está à esquerda. É preciso ver o mundo com os dois olhos, não com um só.

Mudando de tema, estou apresentando um texto: O Marxismo e a Transição Socialista. É muito difícil resumir isso aqui, ainda mais com a temática deste painel. Mas quero dizer algo que me parece muito importante. Na experiência do século passado, das revoluções anticapitalistas, houve um processo de substituição das bases pelas direções burocráticas.

Marx dizia que a história não é mais do que a história da luta de classes, da revolução e da transformação feita pelos próprios trabalhadores. Sua posição era que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. A revolução só pode se consumar com o protagonismo das grandes massas e não apenas dos aparatos, não apenas das direções, não apenas de cima, não apenas institucionalmente. Sim, criando outra institucionalidade, surgida de baixo, emergida da atividade e da criação das próprias massas.

Não é o parlamento. Não é a câmara municipal. Claro que é preciso participar taticamente dessas eleições. Mas o que queremos é substituí-los por associações de trabalhadores e vizinhos, que constroem suas organizações de baixo para cima e que disputam o poder com o Estado burguês. Se vocês acompanharam a experiência de Minneapolis, vão poder ver que as pessoas se auto-organizaram a partir das bases para enfrentar o ICE, montaram instituições paralelas ao Estado, colocando-se objetivamente à esquerda da situação. E essa experiência foi em janeiro deste ano. A construção da organização independente das massas para disputar e exercer o poder é algo historicamente muito atual.

O problema das revoluções do século XX foi sua burocratização. A transformação de um processo de baixo para um processo de cima. Christian Rakovsky, um grande marxista revolucionário da geração bolchevique, dizia que durante a revolução a praça fervilhava de pessoas. Lenin e Trotsky se revezavam no Congresso dos soviets e dormiam um ao lado do outro porque as pessoas esperavam para ouvi-los. É uma anedota simpática. Lenin se deitava, Trotsky se levantava; Trotsky se deitava, Lenin se levantava. Porque as pessoas estavam se politizando, se enriquecendo em debates entre milhões e milhares, também ouvindo outros dirigentes, claro, porque a revolução foi uma obra coletiva.

Rakovsky dizia que, com a burocratização stalinista, a praça ficou vazia. Já não havia mais o burburinho popular. Quando a praça está vazia, o único elemento ativo que resta é a burocracia. Isso também dizia Rosa Luxemburgo em seu texto sobre a Revolução Russa. De novo: se a praça não está cheia, o único elemento ativo é a burocracia. A revolução socialista, a transição socialista, a transformação social, a derrota da extrema-direita exigem a praça cheia, exigem a participação ativa das grandes massas. Isso não vai ser resolvido por nenhum aparato por cima: nem contra Bolsonaro, nem contra Trump, nem na revolução, nem na transição socialista.

É preciso recuperar esse pensamento simples e ao mesmo tempo profundo de Marx: a emancipação do proletariado deve ser obra do próprio proletariado. Isso é apelar às bases, ao ativismo, ao trabalho político por baixo, à criação de organismos alternativos de poder.

No que diz respeito ao Brasil: as eleições não são suficientes para derrotar a extrema-direita. Será necessário recuperar a experiência de luta da greve geral de 1988. É preciso construir um programa anticapitalista. As conquistas arrancadas pelas massas derrotam qualquer disputa ideológica, porque são conquistas concretas.

Muito obrigado, companheiros.”