Com vistas à comemoração dos noventa anos da Guerra Cível Espanhola, completados no recém findo mês de julho , o artigo abaixo de Milagros Moreno, a partir das obras “Homenagem à Catalunha”, de George Orwell, de “Por Quem os Sinos Dobram” de. Ernest Hemingway e da citação de poemas de Miguel Hernández,  permitem percorrer esse processo a partir de diferentes perspectivas e com interpretações variadas do conflito. 

Cabe aqui remarcar que Orwell participou da guerra se alistando ao POUM em seguida à sua chegada na Espanha em 1936. Hernandez, lutou e morreu aos 31 anos na prisão, após a vitória de Franco. Hemingway,cobriu a Guerra Civil Espanhola em 1937 como correspondente de guerra da North American Newspaper Alliance (NANA), americana.

Da leitura do relato dessas obras, MIlagros vai dar relevância aos fatos ocorridos e narrados por Orwell e Hemingway, no chão da luta, onde vivifica a real luta de classes, onde elementos, nada romanceados, permitem chegar na “análise concreta de uma situação concreta.”

Milagros, enxerga aí, que a Guerra Civil Espanhola não foi apenas um confronto entre fascismo e República, uma leitura unilateral para ela, mas um processo no qual guerra civil, revolução social e luta de classes se desenvolveram simultaneamente, onde a vitória do franquismo não pode ser analisada a partir tão somente da conciliação traidora do PCE e PSOE com a burguesia republicana nacionalista, seguida da adesão do POUM e CNT, à Frente Popular, assim como a derrota da Frente Popular se debite totalmente no apoio político-econômico-militar do nazismo alemão e do fascismo.italiano ao franquismo.

São os relatos vívidos que demonstram que após o golpe de Franco, trabalhadores de cidades como Madri e Barcelona derrotaram os militares insurgentes e iniciaram experiências de controle operário das fábricas, coletivização das terras, formação de comitês populares e organização de milícias, bem como a fé revolucionária dos espanhois, descritas por Orwell como “[…] Acima de tudo, havia fé na revolução e no futuro, um sentimento de ter entrado, de repente, em uma era de igualdade e liberdade. Os seres humanos procuravam comportar-se como seres humanos, e não como engrenagens da máquina capitalista…..” foi o que impulsionou  militantes, militares, trabalhadores, intelectuais e outros a construir as Brigadas Internacionalistas, retratada em Hemingway, na figura de Robert Jordan, um norte-americano especialista em explosivos.

“Os confrontos em Barcelona não expressaram apenas um conflito militar, mas uma disputa entre duas estratégias irreconciliáveis: a daqueles que aspiravam levar a revolução até suas últimas consequências e a daqueles que, em nome da unidade antifascista, consideravam que ela deveria ser contida…..”

Milagros propõe então que uma leitura mais próxima da realidade aponta que “A força militar de Franco, apoiada pela Alemanha nazista e pela Itália fascista, foi um fator importante para a vitória do franquismo, mas a derrota da Revolução Espanhola teve sua origem centralmente na política da Frente Popular de dissociar a guerra da revolução social, destruindo, nesse processo, a independência política e organizativa que a classe trabalhadora havia conquistado nos primeiros meses da guerra.”

E termina conclamando: “A experiência da Guerra Civil Espanhola continua sendo uma experiência de enorme riqueza, da qual é possível extrair lições estratégicas. … recuperar uma experiência que continua interpelando o presente, ainda mais diante das ameaças da extrema direita internacional que enfrentamos na atualida,de; porque, como demonstra a Revolução Espanhola, a luta contra o fascismo não pode, nem deve, ser separada da luta pela emancipação dos explorados e dos oprimidos”

Que lições podemos tirar para nós no Brasil. Vivemos uma conjuntura dramática, onde a extrema-direita cresce e se reorganiza de um lado e, de outro, um fracassado governo de conciliação de classes de Lula, mas também de um importante acionamento de protagonismo por baixo dos novos e velhos setores da classe trabalhadora que impõem derrotas à burguesia, extrema direita e ao governo. 

Esse protagonismo desde baixo, nos coloca conclamar a urgentemente a unidade de ação e uma frente político-eleitoral – não importando se não foi possível sair como um candidatura unificada, nesse momento – da esquerda socialista em defesa dos direitos e demandas da classe trabalhadora como um todo, mais particularmente contra a escala 6×1 e pela redução da jornade de trabalho, em defesa dos direitos dos entregadores, pelo projeto de lei da misoginia e contra a intervenção direta de Trump à soberania politica e economica nacional.

Das lições de 36-39 o que fica claro é que, a unidade de ação se faz com o “diabo e sua avó” para derrotar o fascismo. Quando se trata de frentes de luta, temos que estar com os integrantes da nossa classe e quando se fala em frentes politicas (frentes para o poder), não podemos tergiversar, essas devem ser construídas a partir da total independência de classes.  Linhas politicas de frentes para o poder que romperam o critério da independência de classe – como faz o PSOL com a frente Lula-Alckmin – fracassaram na história e continuam fracassando na atualidade. 

A frente entre os revolucionários não pode cair em mais uma fórmula frentepopulista sem princípios e estratégias comuns, pois essa postura não contribui para o impulsionamento da necessária auto-organização da classe trabalhadora para que nossa classe possa intervir de forma signficativa no processo dramático – de perigos e possibilidades – no qual estamos inseridos. 

Nesse sentido, não basta formular exigências e esperar passivamente que as direções burocráticas tomem a iniciativa, como faz a direção majoritária da CSP-Conlutas (PSTU). É preciso intervir ativamente para impulsionar, organizar e unificar as lutas que estão sendo realizadas por baixo.

Por José Roberto Silva, pela Redação.

Guerra Civil Espanhola: a literatura como testemunha

Por Milagros Moreno

A juventude sempre impulsiona,
a juventude sempre vence,
e a salvação da Espanha
depende de sua juventude.

A morte junto ao fuzil,
antes que sejamos desterrados,
antes que cuspam em nós,
antes que sejamos afrontados,
e antes que, entre as cinzas
que restarem do nosso povo,
arrastados sem remédio,
gritemos amargamente:

Ó Espanha da minha vida,
ó Espanha da minha morte!

(Miguel Hernández; “Llamado a la Juventud”)

A Guerra Civil Espanhola ocupa um lugar particular na história do século XX, não apenas porque antecipou o confronto entre fascismo e antifascismo que marcaria a Europa poucos anos depois, mas também porque, em seu interior, coexistiram uma revolução operária, uma guerra civil e uma das derrotas mais transcendentes do movimento socialista internacional.

Essa experiência deixou uma marca profunda na literatura: escritores e poetas que combateram, presenciaram ou sofreram aqueles acontecimentos transformaram suas obras em testemunhos de uma época em que o futuro estava em disputa, sem que houvesse um desfecho certo. Ainda hoje, noventa anos depois dos acontecimentos, muitos escritores continuam recuperando esses fatos e as profundas marcas que deixaram nas gerações posteriores. Voltar a essas páginas é também voltar às questões políticas que a história deixou em aberto e às lições legadas pela experiência revolucionária daquele período.

Entre a guerra e a revolução

A Guerra Civil Espanhola costuma ocupar um lugar central na memória do século XX como um confronto entre o fascismo e a república. No entanto, essa ideia é unilateral e insuficiente para compreender a magnitude e a complexidade do processo vivido pela Espanha entre 1936 e 1939 (resultado das contradições e da crise acumuladas desde o final do século XIX e durante a consolidação da Segunda República). O golpe militar de Francisco Franco, na noite de 17 para 18 de julho de 1936, irrompeu sobre um país instável, como resposta dos setores da direita, da hierarquia eclesiástica e de uma parte do Exército diante da ascensão da mobilização operária e camponesa.

No entanto, o golpe não obteve a vitória imediata que seus organizadores esperavam. Em cidades como Madri e Barcelona, foram os próprios trabalhadores, organizados em sindicatos, partidos e milícias populares, que derrotaram o Exército. Ali onde o levante fracassou começou a desenvolver-se um fenômeno muito mais profundo do que uma simples resistência militar: fábricas colocadas para produzir sob controle operário, terras expropriadas dos grandes proprietários e entregues aos camponeses, comitês populares que assumiram funções de governo e operários armados que substituíram, em muitos casos, as estruturas do Estado burguês. A guerra civil foi atravessada por uma revolução social que questionou as próprias bases do capitalismo espanhol.

Enquanto milhões de trabalhadores compreendiam que a derrota do fascismo exigia aprofundar as transformações sociais iniciadas em julho de 1936, a política da Frente Popular, hegemonizada pelo PC stalinista e pelo PSOE (a CNT anarquista não integrou a Frente Popular, mas acabou capitulando e ingressando no governo), consistiu em conter a revolução para preservar a aliança com os setores republicanos da burguesia. Em nome da “unidade antifascista”, foram desmantelados organismos de poder operário, reprimidas as correntes revolucionárias e subordinada a iniciativa independente da classe trabalhadora à reconstrução do Estado republicano. Essa orientação, denunciada por Leon Trotsky e vivida na própria pele por numerosos combatentes, marcaria um dos debates decisivos da guerra e uma das chaves para compreender seu desfecho.

Embora muitas vezes, na história, o processo seja reduzido ao golpe franquista e aos relatos republicanos da defesa da democracia burguesa, é importante destacar que, na Espanha, havia se aberto uma das experiências revolucionárias mais profundas do século XX. A riqueza e as contradições desse processo encontraram na literatura um de seus testemunhos mais duradouros. Percorrer essas páginas é também recuperar uma história que os vencedores tentaram encerrar e, além disso, revisitar uma das experiências mais decisivas para refletir sobre o processo revolucionário.

Um testemunho da guerra e da revolução

Entre as obras surgidas no calor da Guerra Civil Espanhola, Homenagem à Catalunha, de George Orwell, ocupa um lugar singular porque foi escrita a partir do interior do próprio conflito. Orwell chegou a Barcelona no fim de 1936 com a intenção de combater o fascismo e integrou o Partido Operário de Unificação Marxista (POUM).

Nesta obra, Orwell retrata com grande lucidez uma Barcelona atravessada por uma transformação social sem precedentes: as fábricas funcionavam sob o controle de seus trabalhadores, os hotéis e comércios haviam sido coletivizados, as milícias organizavam-se segundo critérios igualitários e as antigas hierarquias pareciam ter desaparecido. Aquela cidade refletia que a resposta ao golpe militar não havia consistido apenas em enfrentar o fascismo: também deu lugar a uma revolução impulsionada de baixo para cima por operários e camponeses.

No entanto, esse processo convivia com uma complexa disputa política, já que, enquanto amplos setores da classe trabalhadora entendiam que derrotar o fascismo implicava aprofundar o processo revolucionário, a direção da Frente Popular sustentava que era necessário conter esse processo nos marcos da defesa da democracia burguesa para preservar a aliança com a burguesia republicana. Essa orientação (abertamente promovida pelo PCE stalinista sob a influência do Kremlin) voltou-se contra toda forma de auto-organização e de duplo poder desenvolvida pela classe operária espanhola, privilegiando uma estratégia de conciliação de classes para restabelecer a autoridade do Estado burguês “republicano” e reconstituir suas instituições.

Orwell narra os fatos com uma mistura de perplexidade e precisão, muito característica de sua escrita minuciosa, utilizando uma linguagem clara que prioriza a exposição das impressões que todos aqueles acontecimentos lhe provocavam. Em seus parágrafos, expõe as tensões vividas, os sentimentos das pessoas ao seu redor e uma percepção da atmosfera que o cercava com uma lucidez que nos permite conferir à nossa análise histórica um caráter e uma profundidade mais humanos.

[…] Acima de tudo, havia fé na revolução e no futuro, um sentimento de ter entrado, de repente, em uma era de igualdade e liberdade. Os seres humanos procuravam comportar-se como seres humanos, e não como engrenagens da máquina capitalista. Nas barbearias (os barbeiros eram, em sua maioria, anarquistas), havia cartazes explicando solenemente que os barbeiros já não eram escravos. Nas ruas, cartazes chamativos aconselhavam as prostitutas a mudar de profissão. […]”
(Homenagem à Catalunha, George Orwell, p. 5)

Os confrontos em Barcelona não expressaram apenas um conflito militar, mas uma disputa entre duas estratégias irreconciliáveis: a daqueles que aspiravam levar a revolução até suas últimas consequências e a daqueles que, em nome da unidade antifascista, consideravam que ela deveria ser contida. A posterior perseguição ao POUM e a repressão contra setores revolucionários da CNT evidenciaram que o aparato stalinista havia passado a combater uma parte da própria classe trabalhadora.

Esse episódio constitui uma das chaves para compreender a derrota da Revolução Espanhola. Como advertiu Leon Trotsky durante aqueles anos, a política da Frente Popular subordinou a independência política da classe operária a uma aliança com setores da burguesia republicana, desarmando o processo revolucionário desde o seu interior. A força militar de Franco, apoiada pela Alemanha nazista e pela Itália fascista, foi um fator importante para a vitória do franquismo, mas a derrota da Revolução Espanhola teve sua origem centralmente na política da Frente Popular de dissociar a guerra da revolução social, destruindo, nesse processo, a independência política e organizativa que a classe trabalhadora havia conquistado nos primeiros meses da guerra.

Essa tensão, que percorre toda a obra, faz de Homenagem à Catalunha uma leitura indispensável para compreender a Guerra Civil Espanhola não apenas como uma guerra contra o fascismo, mas como uma revolução cujo desfecho foi profundamente condicionado pela crise da direção do movimento operário (isto é, do PCE, do PSOE, da CNT anarquista e do POUM).

É precisamente essa complexidade que explica por que, quase noventa anos depois, o livro continua sendo uma referência incontornável para compreender um dos episódios mais marcantes da luta de classes do século XX.

O internacionalismo revolucionário romanceado

Publicado em 1940, Por Quem os Sinos Dobram constitui um dos romances mais emblemáticos sobre a Guerra Civil Espanhola. Ernest Hemingway não foi um combatente, mas conheceu o conflito em primeira mão como correspondente de guerra, percorrendo a frente republicana e documentando o desenrolar da guerra. Essa experiência se reflete em uma narrativa na qual a guerra não aparece como um cenário distante, mas como uma realidade cotidiana atravessada pelo medo, pela solidariedade e pela incerteza.

O romance acompanha Robert Jordan, um norte-americano especialista em explosivos que viaja à Espanha para integrar as Brigadas Internacionais. Ali, recebe a missão de destruir uma ponte estratégica em território controlado pelas forças franquistas, uma operação que deverá coordenar junto a um pequeno grupo de guerrilheiros republicanos na serra. Nesse grupo, conhece María, uma jovem por quem se apaixonará.

Ao longo de apenas quatro dias, Hemingway constrói uma narrativa na qual a ação militar convive com profundas reflexões sobre o compromisso político, o amor, a morte e o sacrifício.

A partir dessa história particular, Hemingway consegue transmitir a dimensão internacional que a Guerra Civil Espanhola adquiriu. Robert Jordan não combate por patriotismo nem por interesses nacionais. Como milhares de brigadistas que chegaram de diferentes partes do mundo, entende que o avanço do fascismo na Espanha representa uma ameaça para toda a Europa e que defender a República significa defender a possibilidade de um futuro diferente. O romance reflete, assim, o enorme impulso internacionalista despertado pela Revolução Espanhola, que transformou o país em um ponto de encontro para militantes, intelectuais e trabalhadores de dezenas de nacionalidades.

Por esse motivo, neste romance permanece em segundo plano o conflito que atravessou o campo republicano entre aqueles que defendiam a estratégia da Frente Popular e os setores que apostavam na radicalização do processo, unindo a guerra contra o franquismo à revolução social. Enquanto Homenagem à Catalunha permite observar o confronto aberto entre essas duas orientações, Hemingway privilegia a experiência compartilhada do combate ao fascismo e dá protagonismo àqueles que decidiram arriscar a própria vida por essa causa.

Essa diferença não diminui o valor e a riqueza do romance; pelo contrário, permite compreender que a guerra civil e a revolução que estava em gestação geraram uma grande solidariedade internacional. O romance preserva a memória daqueles que compreenderam que a luta contra o fascismo transcendia fronteiras.

A poesia de uma geração revolucionária

Se eu morrer, que eu morra
com a cabeça bem erguida.
Morto e vinte vezes morto,
com a boca contra a relva,
terei os dentes cerrados
e a barba resoluta.
Cantando espero a morte,
pois há rouxinóis que cantam
sobre os fuzis
e em meio às batalhas.

(Miguel Hernández, “Vientos Del Pueblo Me Llevan)

A obra de Miguel Hernández permite compreender o custo humano da derrota sofrida pela classe trabalhadora com a vitória do franquismo. Filho de uma família camponesa de Orihuela, Hernández conheceu desde muito jovem a dureza do trabalho rural e encontrou na poesia uma forma de dar voz àqueles que raramente ocupavam um lugar na literatura de seu tempo. Quando eclodiu a Guerra Civil, incorporou-se ao Exército Popular da República, escreveu para fortalecer o moral dos combatentes e transformou sua obra em uma expressão direta da luta que atravessava a Espanha.

Coletâneas de poemas como Vento do Povo refletem com clareza esse compromisso. Em seus versos aparecem os trabalhadores rurais, os operários, os camponeses e os milicianos não como figuras abstratas, mas como os verdadeiros protagonistas da história. Hernández não escreve a partir da contemplação, mas da convicção de que a poesia também pode intervir na realidade, acompanhando aqueles que enfrentam a exploração, a guerra e o avanço do fascismo. Sua palavra é atravessada pela esperança de um mundo novo, mas também pela certeza de que esse mundo só poderia ser construído a partir da ação coletiva dos setores populares.

A derrota republicana transformou profundamente sua escrita. Após a vitória franquista, foi preso em diversas ocasiões e condenado à prisão. Nas cadeias da ditadura escreveu alguns dos poemas mais comoventes da literatura espanhola, nos quais a dor pela separação de sua família, a fome e a doença se entrelaçam com uma dignidade que jamais cede diante de seus algozes. Morreu em 1942, com apenas trinta e um anos, vítima de tuberculose agravada pelas condições de encarceramento impostas pelo regime de Franco.

Sua trajetória resume, em muitos sentidos, o destino de uma geração que acreditou ser possível transformar radicalmente a sociedade e acabou enfrentando o exílio, a perseguição, a prisão ou a morte. Mas essa derrota não deve ser interpretada como o fracasso da capacidade revolucionária da classe trabalhadora espanhola. Não devemos cair em ideias catastrofistas; pelo contrário, as páginas de Hernández recordam a enorme força social que se desdobrou durante aqueles anos e que acabou sendo contida tanto pela violência da contrarrevolução franquista quanto profundamente traída por uma direção stalinista que traiu abertamente as perspectivas possibilitadas pela insurreição de julho de 1936 contra o golpe fascista (assim como pela capitulação histórica do anarquismo da CNT).

Lida em conjunto com Homenagem à Catalunha e Por Quem os Sinos Dobram, a poesia de Miguel Hernández completa um mesmo percurso histórico. Orwell mostra o nascimento de uma revolução e as contradições que começaram a sufocá-la a partir do interior do campo republicano; Hemingway retrata a solidariedade internacional que transformou a Espanha em uma causa comum para milhares de trabalhadores e militantes de todo o mundo; Hernández, por fim, dá voz àqueles que sustentaram essa luta até as últimas consequências e carregaram sobre seus corpos o peso da derrota. Em conjunto, essas obras preservam a memória de um processo revolucionário cuja riqueza e complexidade ultrapassam qualquer leitura que reduza a Guerra Civil Espanhola a um simples confronto entre fascismo e democracia, demonstrando que os protagonistas do processo histórico foram, indubitavelmente, os explorados e os oprimidos, que lutaram com a convicção não apenas de derrotar o levante franquista, mas também de transformar o mundo desde suas raízes.

Os ecos de uma derrota histórica

A literatura espanhola contemporânea não permaneceu alheia a esses acontecimentos. Atualmente, podemos encontrar autoras e autores que continuam retomando e aprofundando aquele processo histórico; suas consequências permanecem gravadas na memória e continuam projetando suas sombras sobre o presente. Carcoma, de Layla Martínez, não reconstrói os combates de 1936 nem os últimos dias da República. Seu cenário é outro: uma velha casa em um povoado da Espanha rural, onde duas mulheres sobrevivem cercadas por ruínas, silêncios e presenças que se recusam a desaparecer. No entanto, os fantasmas que percorrem o romance não pertencem apenas ao terreno do sobrenatural; são a expressão de uma história que nunca chegou realmente ao fim. Com o recurso do fantástico, Layla se permite aprofundar os ecos de uma derrota histórica que deixaria profundas marcas na sociedade espanhola.

Por meio de uma escrita que combina terror, memória e crítica social, Martínez constrói uma poderosa metáfora sobre as consequências da vitória franquista. A violência que atravessa a casa não surge de uma maldição inexplicável, mas de décadas de exploração, pobreza, patriarcado e repressão acumuladas em suas paredes.

Em diferentes intervenções públicas, a autora tem insistido que o verdadeiro horror de Carcoma não provém dos espectros, mas das estruturas materiais que sustentam a violência e a opressão, permitindo que seus efeitos se reproduzam de geração em geração. Os fantasmas, nesse sentido, são a forma que a literatura encontra para tornar visível aquilo que a história oficial tentou ocultar. O franquismo não apenas impôs uma ditadura; também deixou uma sociedade marcada pelo medo, pelo silêncio e por uma política de apagamento da memória, que buscou apagar a experiência revolucionária de 1936 e que a burguesia continua sustentando até os nossos dias.

Lições que nos deixa a história

Nove décadas depois, a Guerra Civil Espanhola continua ocupando um lugar singular na história da luta dos explorados e oprimidos, não apenas pelo complexo e extenso processo que protagonizaram desde a II República até o enfrentamento com o franquismo, mas também porque condensou uma das experiências revolucionárias mais profundas da história da luta de classes contemporânea. Essa complexidade explica por que suas marcas permanecem vivas na literatura como uma forma de preservar as questões que a história deixou em aberto.

As obras que abordamos permitem percorrer esse processo a partir de diferentes perspectivas e com interpretações variadas do conflito. Nelas aparece a irrupção da classe trabalhadora como sujeito capaz de reorganizar a sociedade, a solidariedade internacional que transformou a Espanha em uma causa compartilhada por milhares de militantes e o enorme custo humano que representou a vitória da contrarrevolução franquista. No entanto, também demonstram que a derrota não pode ser compreendida apenas a partir da superioridade militar do fascismo, já que a revolução espanhola foi freada e traída pelas direções stalinistas, socialistas reformistas e anarquistas da CNT, que subordinaram a independência política das trabalhadoras e dos trabalhadores à preservação da ordem republicana burguesa, enfraquecendo a força da insurreição operária e camponesa, que havia demonstrado ser capaz de enfrentar o golpe militar e de querer radicalizar a luta em um sentido anticapitalista.

A experiência da Guerra Civil Espanhola continua sendo uma experiência de enorme riqueza, da qual é possível extrair lições estratégicas. A literatura, quando nasce no calor das grandes comoções sociais, não serve apenas como registro da memória histórica: também impede que suas lições sejam sepultadas junto com os vencidos. Retornar a essas páginas significa recuperar uma experiência que continua interpelando o presente, ainda mais diante das ameaças da extrema direita internacional que enfrentamos na atualidade; porque, como demonstra a Revolução Espanhola, a luta contra o fascismo não pode, nem deve, ser separada da luta pela emancipação dos explorados e dos oprimidos.