Enquanto a agenda reacionária avança no terreno midiático e o governo Macron retoma parte do programa da extrema direita, as mobilizações da nossa classe podem abrir caminho para uma nova sequência da luta de classes.
16 de setembro de 2026
A vitória da extrema direita na Alemanha acendeu todos os alarmes no continente europeu, em uma situação de extrema polarização política. Na França, o Rassemblement National lançou a candidatura de Marine Le Pen com uma campanha de ódio racista contra a população muçulmana. Por sua vez, o governo Macron retoma parte do programa da extrema direita com o aumento das taxas de matrícula nas universidades para estudantes estrangeiros e também com a lei do “direito de matar XXL”. Enquanto toda a agenda reacionária avança no terreno midiático, preparam-se mobilizações sociais por parte dos trabalhadores, das trabalhadoras e da juventude, em um início de ano letivo da luta de classes marcado pela polarização.
A extrema direita europeia polariza o início do ano letivo com seus ataques racistas
A vitória histórica da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais da Saxônia-Anhalt, ocorridas no domingo, 6 de setembro de 2026, provocou uma onda de choque ainda maior por toda a Europa. Com cerca de 44% dos votos (43,8%), o partido de extrema direita, dirigido localmente por Ulrich Siegmund, alcançou o resultado mais alto para uma formação desse tipo na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
Essa vitória eleitoral da AfD acentua a tendência à polarização política e o surgimento dos extremos. De fato, em um mundo em combustão, marcado pela crise climática, pela crise econômica e pelo retorno da guerra imperialista, a tendência à polarização se explica pela profunda instabilidade de uma situação internacional em plena transformação. Essa tendência vem acompanhada pela disseminação de discursos nacionalistas, úteis para reimpulsionar a máquina de guerra nacional, no contexto da remilitarização da Europa e da concorrência entre as potências imperialistas internacionais.
Nesse contexto, as formações de extrema direita tendem a canalizar a raiva da população provocada pela crise para o ódio racista contra os imigrantes, apontadas como bodes expiatórios de todos os males. É o caso dos recentes acontecimentos em Ceuta. A crise migratória evidencia as condições de vida insuportáveis impostas pelo sistema capitalista e imperialista internacional às populações dos países pobres. Em Ceuta, o ódio de grupúsculos da extrema direita espanhola contra a população marroquina é utilizado para semear a divisão entre os trabalhadores e as trabalhadoras e fazer avançar medidas antissociais, racistas e securitárias, a serviço dos grandes patrões. Nesse contexto, a “preferência nacional” é evocada por formações racistas como o Vox, que propõe restringir o acesso à saúde para imigrantes, entre outras medidas xenófobas.
No entanto, os ataques reacionários também provocam novos impulsos de protesto social. Neste sábado, 12 de setembro, milhares de pessoas se mobilizaram na Alemanha para protestar contra a AfD. Algumas fontes estimam que mais de 150 mil pessoas participaram das mobilizações contra essa formação de extrema direita, o que evidencia um clima de polarização política.
Macron retoma parte do programa racista de Le Pen
A França não escapa à onda reacionária no continente. Neste início de ano letivo, em uma situação política marcada pela aproximação das eleições presidenciais de 2027, o Rassemblement National escolheu lançar a campanha de Marine Le Pen tendo como eixo o ódio racista contra a população muçulmana. Le Pen e companhia propuseram a proibição do véu em espaços públicos como carro-chefe do “campo nacional”. Trata-se de uma medida repugnante que só poderia ser aplicada por meio da força repressiva de um governo totalitário. É um absurdo ridículo, mas que é proposto de maneira muito séria pela principal candidata ao Palácio do Eliseu, segundo as pesquisas. Mesmo usando tornozeleira eletrônica, Le Pen conduz sua campanha racista, polarizando todo o debate midiático em torno de propostas reacionárias. Neste momento, o RN acumula escândalos, ignorados sob o silêncio cúmplice dos meios de comunicação da burguesia.
Por sua vez, o governo Macron retoma parte do programa da extrema direita com o aumento das taxas de matrícula nas universidades para estudantes estrangeiros e também com a lei do “direito de matar XXL”. Na universidade, a política do governo Macron consiste em fazer com que os jovens migrantes não europeus paguem o preço dos cortes orçamentários no ensino superior. Enquanto a Macronie aumenta os gastos militares no orçamento para financiar a remilitarização da França, o governo propõe jogar o peso do esforço de guerra sobre as costas dos jovens estudantes estrangeiros. Trata-se de uma medida racista que poderia ser estendida ao conjunto do corpo estudantil, segundo a proposta do relatório Roussel-Fournel. É um verdadeiro plano de guerra do governo para esvaziar as universidades dos filhos da classe trabalhadora e torná-las acessíveis apenas aos ricos.
Não é a primeira vez que o governo Macron adota medidas racistas do programa da extrema direita. Lembremos que, em dezembro de 2023, Marine Le Pen comemorava uma “grande vitória ideológica” para o RN, no momento da aprovação da “lei de asilo e imigração” Darmanin-Le Pen. Hoje, com a lei “permissão para matar XXL” – uma proposta histórica desde a campanha de 2007 da Frente Nacional -, o governo continua avançando nessa linha reacionária, dando sinal verde à repressão racista nos bairros populares. Nesse contexto, ainda que Attal ou Philippe tentem se apresentar como a continuidade do campo presidencial na corrida eleitoral, defendendo uma voz supostamente “centrista” “diante dos extremos”, a Macronie já está pavimentando o caminho para a extrema direita ao defender um programa racista e securitário de acordo com os interesses dos grandes patrões capitalistas.
O reformismo quer curar o câncer com Dipirona
Enquanto este verão nos mostrou toda a urgência da crise climática, enquanto a militarização avança no contexto da guerra internacional e a extrema direita exibe com orgulho seu ódio racista, a política da esquerda institucional se mostra cada vez menos combativa. Neste ano eleitoral, a La France Insoumise propõe a candidatura de Jean-Luc Mélenchon como a única saída possível diante de uma vitória da extrema direita. Após os sucessivos fracassos da NUPES e da Nouveau Front Populaire, os adeptos do reformismo eleitoral nos prometem que este ano será o início de uma “Nova França”.
No entanto, os melenchonistas parecem querer “curar o câncer com Dipirona”, com um programa de conciliação de classes, sem mobilização nas ruas nem confronto social. Essa tática eleitoral é perigosa porque o fenômeno da ascensão da extrema direita em nível internacional é ao mesmo tempo eleitoral e extraparlamentar. As experiências de luta contra Milei na Argentina e Bolsonaro no Brasil são exemplos da necessidade de enfrentar os reacionários por meio dos métodos da mobilização da classe trabalhadora, para além das perspectivas puramente parlamentares.
A falta de combatividade da La France Insoumise é um beco sem saída para a mobilização social. A intervenção de Mélenchon diante dos patrões do MEDEF abre uma verdadeira discussão sobre a estratégia a ser adotada para enfrentar os ataques da burguesia. Os capitalistas literalmente riram na cara do líder da LFI quando ele sugeriu um tímido aumento do salário mínimo caso conseguisse se eleger presidente. Na Fête de l’Humanité, Mélenchon enfatizou a distinção entre os “bons pequenos patrões” e as “grandes corporações”, tentando justificar um programa eleitoral compatível com o capitalismo. Pior ainda é a perspectiva de uma “Nova França” que não questiona a política nacionalista e imperialista de rearmamento militar.
Por sua vez, o restante da direção da “esquerda institucional” lança suas respectivas campanhas. Tondelier, Roussel, Glucksmann, Faure e até mesmo Hollande se somam à lista de aspirantes ao Palácio do Eliseu, com candidaturas que não conseguem conquistar o eleitorado de esquerda. Entre eles e elas, alguns foram recentemente vaiados durante manifestações nas ruas. Por exemplo, na segunda-feira passada, Glucksmann foi confrontado por manifestantes durante uma mobilização feminista, que o lembraram de seu oportunismo e de suas posições à direita.
Por outro lado, as direções sindicais parecem mais voltadas para o calendário eleitoral do que para a construção da mobilização nas ruas contra o governo. Entre o diálogo social e jornadas isoladas de mobilização, sem continuidade, a Intersindical acompanha passivamente a corrida eleitoral. No entanto, essa situação pode mudar rapidamente caso os trabalhadores, as trabalhadoras e a juventude consigam irromper na conjuntura política.
Os trabalhadores e a juventude devem irromper na luta de classes
Apesar da força do dispositivo de canalização da revolta popular para as instituições e as urnas, existem fortes potencialidades para fazer deste início de período político um momento da luta de classes. Como expressão desse fenômeno, destacamos que circulam convocatórias massivas nas redes sociais para construir o retorno da mobilização dos Coletes Amarelos a partir do próximo 17 de outubro. De fato, vários analistas já falam na abertura de uma nova sequência de mobilização social. “Todos os ingredientes de uma nova crise dos Coletes Amarelos estão reunidos”, estima, por exemplo, o cientista político Romain Poirot-Lellig.
Em 2018, a revolta popular dos Coletes Amarelos conseguiu fazer tremer o governo Macron. Naquele momento, a mobilização havia começado com palavras de ordem econômicas, como a rejeição ao aumento do preço dos combustíveis. No entanto, a magnitude da crise social rapidamente deu lugar a um protesto generalizado contra o governo Macron e seu regime apodrecido da Quinta República.
Neste início de período, existem potencialidades reais e pontos de apoio em todas as mobilizações da nossa classe. Essas mobilizações podem fazer a conjuntura reacionária imposta de cima mudar de rumo e abrir caminho para uma nova sequência de lutas e de mobilização social. A exemplo dos trabalhadores dos transportes, em greve por condições de trabalho, ou dos bombeiros, também em greve, setores do mundo do trabalho estão atualmente na linha de frente da mobilização.
Desse ponto de vista, numerosas manifestações ocuparão as ruas nas próximas semanas. No domingo, 20 de setembro, prepara-se uma ampla mobilização convocada pela Marcha das Solidariedades contra a lei “permissão para matar XXL”, para pôr fim à impunidade da violência policial. No sábado, 26 de setembro, haverá uma manifestação pelo clima para enfrentar a urgência climática. No domingo, 27 de setembro, após a convocação da Roja e de outros coletivos iranianos em Paris, será realizada uma mobilização internacionalista contra a guerra imperialista e a repressão da República Islâmica. A juventude estudantil estará nas ruas nos dias 15 e 29 de setembro, datas de mobilização no ensino superior e no funcionalismo público contra as medidas de austeridade e os ataques racistas do governo. Além disso, no sábado, 3 de outubro, será realizada a Parada do Orgulho de Paris em defesa dos direitos das pessoas LGBTI.
Convocações como essas, e outras que estão por vir, são sintomáticas da possibilidade de abertura de uma nova sequência de mobilização social, para que a classe trabalhadora e a juventude irrompam na luta de classes. Trata-se de uma janela que pode se abrir para romper com a passividade midiática da corrida eleitoral e recolocar a luta de classes no centro de uma situação política polarizada.
Socialismo ou Barbárie: construir uma alternativa anticapitalista para por tudo abaixo!
Neste início de período, o Socialisme ou Barbarie estará presente em todas as mobilizações da nossa classe, com a perspectiva de lutar nas ruas contra a extrema direita e o governo Macron, ao lado dos trabalhadores e da juventude. É fundamental se mobilizar para construir uma alternativa anticapitalista e internacionalista, para reconstruir uma esquerda revolucionária de combate, capaz de levar todas as mobilizações a vitórias sociais.
Neste início de período, junte-se ao Socialismo ou Barbárie (SoB) para transformar a revolta da nossa classe em rebeliões, e nossas rebeliões em revoluções.










