Por toda parte ouvem-se depoimentos sobre o caráter desumano desse sistema capitalista, que não tem piedade de ninguém, nem mesmo em momentos de catástrofe…..

É necessária uma alternativa de esquerda anticapitalista que explique por que Chávez nunca foi socialista. Que ele apenas pronunciava essa palavra, quando a utilizava, para enganar enquanto criava uma nova burguesia, que saqueou as riquezas do país durante 29 anos. “Socialismo ou Barbárie” continua sendo uma frase perfeitamente atual para a Venezuela. E as eleições democráticas são impossíveis se estivermos oprimidos pela bota do imperialismo.

“Somente o povo salva o povo” é a frase que se repete. Apesar dos ataques do madurismo contra os trabalhadores e o povo, da fome, da repressão e do fato de o chavismo ter impedido toda auto-organização democrática, a situação criou as condições para que a iniciativa coletiva ressurgisse.

A ruptura da normalidade tem sido desigual, dependendo do número de vítimas e da destruição em cada local. Mas a repulsa, a desconfiança e o ódio em relação ao governo são generalizados. Vizinhos e familiares das vítimas têm se manifestado abertamente, sem medo da repressão, sobretudo nas redes sociais, denunciando a inércia do governo, do exército, da polícia… A catástrofe teve uma consequência positiva: perdeu-se o medo.

Venezuela: a mobilização diante do terremoto amedronta o regime fantoche e o imperialismo

Por Marta Beltrán

“Não há Estado, mas sobra gente”, dizia-se nos primeiros dias após o terremoto na Venezuela. O povo trabalhador havia se organizado para salvar vidas e também para recuperar os corpos. Depois, procurou organizar a vida daqueles que ficaram sem moradia. A resposta ao desastre foi a auto-organização, enquanto o governo e seu Exército permaneceram inertes durante 72 horas. A solidariedade foi imensa diante da incapacidade e da indiferença do Estado. Os bombeiros, por exemplo, não tinham máquinas, nem equipamentos, nem transporte para cumprir suas funções.

O Estado desmantelado revelou sua fraqueza e sua incapacidade durante a catástrofe. E o povo demonstrou sua capacidade de se organizar em meio à tragédia, apesar de anos de fome, de empregos precários com salários baixíssimos e de um desemprego generalizado que a Venezuela nunca havia conhecido. A classe trabalhadora tem sido constantemente atacada e enfraquecida pelo chavismo. Suas organizações, sejam sindicatos ou partidos, foram quase completamente destruídas.

Já se tornaram virais os depoimentos sobre a negligência, a perversidade, o burocratismo e até mesmo o ódio contra o povo por parte das forças armadas, da polícia e das demais instituições do poder.

Os trabalhadores, ainda mais atacados pelos patrões

Por toda parte ouvem-se depoimentos sobre o caráter desumano desse sistema capitalista, que não tem piedade de ninguém, nem mesmo em momentos de catástrofe. Muitos trabalhadores que se organizaram para ajudar as vítimas já tiveram que voltar aos seus empregos precários, a ganhar o pão “dia a dia”, trabalhando como entregadores, por meio de aplicativos de entrega de moto, com venda ambulante ou consertando carros em qualquer espaço na rua.

Os funcionários de um supermercado pediram demissão em massa porque o patrão os obrigava a trabalhar em um prédio danificado pelo terremoto. Outros tiveram que ir trabalhar com muito medo de que os prédios desabassem. Os patrões se recusaram a pagar os dias seguintes à catástrofe, quando não havia transporte público e ainda não era possível determinar quais prédios eram seguros.

Os comerciantes vendem cada vez mais caro os produtos de primeira necessidade, tanto em bolívares quanto em dólares. O bolívar está se desvalorizando mais rapidamente em relação ao dólar. Ninguém mais espera nada da tutela de Trump, seis meses após o sequestro de Maduro. A vida está muito mais cara hoje do que no ano passado, muito pior para a grande maioria que vive de um salário miserável, e isso já acontecia antes do terremoto.

Poucos confiam nesse regime tutelado. Todo o povo trabalhador sabe da imensa corrupção desse governo. Muitos consideram que se trata de ganância, imoralidade ou a consequência da Venezuela que vivia do petróleo, onde o mais esperto fica com a melhor fatia.

É uma idéia comum acreditar que possa existir um governo capitalista honesto. Embora o caso venezuelano do chavismo-madurismo pareça um caso extremo de esbanjamento e pilhagem dos recursos naturais, ele não é uma exceção. O capitalismo carrega em si a corrupção desde suas origens, e ela continua sendo necessária para seu desenvolvimento e manutenção. Embora, ao longo da história, a burguesia tenha se visto obrigada a estabelecer leis para limitá-la quando ela pode ameaçar sua estabilidade.

O imperialismo joga com as expectativas eleitorais

É possível que o governo recupere um pouco do controle com a ajuda do imperialismo. Rumores sobre uma “junta governamental”, um “governo tecnocrático” etc. surgiram após o terremoto. Marco Rubio impôs uma reunião entre a oposição de direita e o “rodrigato”, os chefes de governo, Delcy e seu irmão Jorge Rodríguez.

A presidente interina Delcy Rodríguez, segundo a Constituição, deveria ter convocado eleições presidenciais há um mês. Trump já havia se recusado a permitir a realização das eleições. A consciência e a organização coletiva renascidas assustam o governo e o imperialismo trumpista. Eles tem tratado de retomar o controle e a repressão, após dias de paralisia. Todo o povo viu como age um Estado que odeia o povo, sobretudo se for composto por trabalhadores e pobres. O governo fantoche perdeu ainda mais credibilidade e parece enfraquecido. Por isso, Marco Rubio promoveu a reunião em Madri com os representantes da direita burguesa.

Essa “abertura” gera certa expectativa, pois poderia resultar na convocação de eleições que a população considera necessárias. No entanto, infelizmente, apenas a direita burguesa surge como alternativa eleitoral neste momento. Ela está dividida em dois setores: a favor ou contra María Corina Machado, a burguesia pró-imperialista servil e violentamente classista.

Um setor do chavismo se manifesta contra o imperialismo e a “colaboração” que o sionismo pretende oferecer, colocando-se em clara oposição ao governo. Chegaram até a convocar mobilizações nas praças do país. Em Caracas, algumas centenas de pessoas queimaram uma bandeira dos EUA e de Israel, além de fotos de Trump e Netanyahu. Em Barquisimeto, a polícia impediu que essas bandeiras fossem queimadas. Esse setor pede o retorno de Maduro, que representa para eles uma certa resistência ao imperialismo. Mas esse “bonaparte” já havia cedido a Trump, sobretudo no que diz respeito à exploração do petróleo, apesar de não ter aceitado a expropriação das minas de ouro e de outros minerais, que eram privilégio dos generais do exército. Esse setor radical chavista ainda fala de socialismo e comunismo, como um legado de Chávez!

É necessária uma alternativa de esquerda anticapitalista que explique por que Chávez nunca foi socialista. Que ele apenas pronunciava essa palavra, quando a utilizava, para enganar enquanto criava uma nova burguesia, que saqueou as riquezas do país durante 29 anos. “Socialismo ou Barbárie” continua sendo uma frase perfeitamente atual para a Venezuela. E as eleições democráticas são impossíveis se estivermos oprimidos pela bota do imperialismo.

“Somente o povo salva o povo” 

é a frase que se repete. Apesar dos ataques do madurismo contra os trabalhadores e o povo, da fome, da repressão e do fato de o chavismo ter impedido toda auto-organização democrática, a situação criou as condições para que a iniciativa coletiva ressurgisse.

A ruptura da normalidade tem sido desigual, dependendo do número de vítimas e da destruição em cada local. Mas a repulsa, a desconfiança e o ódio em relação ao governo são generalizados. Vizinhos e familiares das vítimas têm se manifestado abertamente, sem medo da repressão, sobretudo nas redes sociais, denunciando a inércia do governo, do exército, da polícia… A catástrofe teve uma consequência positiva: perdeu-se o medo.