DIREÇÃO DA JUVENTUDE JÁ BASTA!
Companheiros e companheiras,
Nossa Plenária aberta realizada ontem na Casa Rosa Luxemburgo foi um importante passo para começar a passar a limpo a experiência da greve da USP. O balanço desse processo não se encerra em uma única discussão e compreendemos que ele começa, inegociavelmente, pela escuta: por absorver aquilo que transmitem as bases, tanto no campo sindical como organizativo e político.
A principal síntese que extraímos até aqui é a seguinte: a greve combinou importantes conquistas políticas construídas pela base dos estudantes, conquistas sindicais parciais, em que os eixos centrais da greve (o aumento do PAPFE e as cotas trans e acesso indígena) seguem irresolutos, e uma grave traição à democracia estudantil por parte da direção do DCE que não apostou na vitória do movimento ao sabotar as assembléias gerais, o principal espaço de totalização política e organizativa da base.
A maior expressão das conquistas políticas pela base foi a ocupação da Reitoria. Um processo que sobrepôs a disposição de luta dos estudantes à condução inerte e burocrática do processo pelo DCE. Em meio a uma conjuntura difícil, a ocupação recolocou a disposição de enfrentamento no centro da universidade, demonstrando que existe uma nova geração disposta a lutar pela permanência, pelo acesso e pela defesa da educação superior pública. Foi justamente neste processo que o movimento esclareceu o seu eixo de greve, mas que por uma política rotineira do DCE a ocupação terminou isolada, sem apoio efetivo da sociedade e da comunidade universitária.
O que vimos durante a greve foi um choque entre uma enorme energia e disposição das bases com uma condução política profundamente burocrática por parte do DCE que sabotou e, portanto, impediu que a experiência acumulada por diferentes cursos fosse sintetizada em uma orientação política coletiva. Ou seja, identificamos que o DCE fragmentou a greve desde o começo, abortando a possibilidade de uma unidade orgânica dos estudantes, elemento que era decisivo para uma vitória categórica do movimento.
O golpe à democracia de base se manifestou principalmente na recusa em realizar assembleias gerais regulares e outras instâncias de base para essa unificação do movimento.
Compreendemos que esses espaços numa greve não são um detalhe organizativo e que o papel das direções deve ser tomá-los com centralidade, pois são neles que aparecem os elementos mais dinâmicos e progressivos do movimento. Isto é, é a partir dos espaços de base que o movimento se impõe, faz valer suas vontades de maneira consciente e, portanto, toma pelas mãos o processo grevista. São os únicos instrumentos capazes de permitir que os estudantes avaliem coletivamente a situação concreta da luta, definam os próximos passos e construam avanços e recuos ordenados (uma companheira caloura dizia na Plenária que “não lhe foram apresentados os instrumentos necessários para se sentir pertencente à greve”).
Ao contrário disso, pelos espaços de cúpula, sempre predominam os elementos mais conservadores e atrasados, pois é impossível encontrar verdadeiros e orgânicos pontos de apoio em momentos de impasse ou dificuldade de uma greve longe das bases, da experiência acumulada. Portanto, não é nenhum exagero dizer que o DCE atuou como uma camisa de força ao movimento: a enorme disposição de luta existente nas bases não encontrou espaços capazes de transformá-la em uma orientação política comum para toda a USP.
Essa política teve consequências concretas e opostas àquilo que hoje diz o DCE ao afirmar que saímos de maneira unitária da greve. Não apenas foram impedidos os estudantes de se apropriar politicamente da construção da greve, como também contribuiu para uma saída fragmentada, desorganizada e vulnerável a retaliações acadêmicas e administrativas. Vejamos: entre os dias 26/05 até o dia 8/06, o calendário de atividade de greve não contou com NENHUMA assembleia (nem de campi, muito menos geral!).
Esse fato que contribuiu categoricamente para uma saída fragmentada da greve: à época eram 50 institutos em greve, já no dia 8/06, na assembleia que se encerrou a greve, eram 13 institutos. Nesses 20 dias de pura política burocrática e de inércia do DCE, as direções das faculdades se deram conta da falta de unidade do movimento e aproveitaram essa janela decisiva para impor ameaças e votações paralelas de fim de greve. Por isso, nossa avaliação é que houve uma contradição profunda ao longo de toda a greve: enquanto por baixo surgiam iniciativas criativas, disposição de luta e organização, por cima predominavam mecanismos que restringiam a participação democrática e enfraqueciam a capacidade coletiva do movimento.
No terreno das reivindicações concretas, também é preciso fazer um balanço objetivo. Houve conquistas parciais arrancadas pela mobilização estudantil. Nada do que foi conquistado caiu do céu. Cada avanço foi resultado da pressão construída durante semanas de luta. No entanto, os eixos centrais da greve seguem sem solução. A luta pelo aumento real do PAPFE continua em aberto. O reajuste de R$ 27,00 está muito distante das necessidades reais dos estudantes e não pode ser apresentado como uma vitória capaz de resolver o problema da permanência estudantil.
Da mesma forma, as reivindicações relacionadas ao acesso e à permanência de estudantes trans, indígenas e PCDs permanecem sem resposta adequada por parte da universidade. Por isso, o saldo sindical da greve deve ser compreendido como um conjunto de conquistas parciais, mas insuficientes diante das reivindicações centrais que motivaram a mobilização.
Mais do que nunca, os temas da permanência e da democratização do acesso assumem centralidade política na USP. Será necessário construir novas campanhas, ampliar a mobilização e preparar futuras lutas para arrancar conquistas históricas da Reitoria. Mas talvez uma das principais conclusões da greve seja outra.
Apesar de todos os limites impostos pela direção majoritária do movimento estudantil, toda uma nova geração de estudantes deram seus primeiros passos na militância, participaram de assembleias, ocuparam espaços de luta, construíram atividades e passaram a enxergar a política como algo que deve ser decidido coletivamente. Uma nova geração de lutadores e lutadoras começou a ser forjada!
E foi justamente nesse processo que a Juventude Anticapitalista Já Basta! conquistou um lugar importante como oposição à burocracia do DCE, defendendo em todos os espaços, e de maneira inegociável, a democracia de base para que o movimento se impusesse sob uma orientação comum. Fomos nós também, em grande parte, que impulsionamos a ocupação da Reitoria junto às bases. Sabíamos que naquele momento, diante de um impasse era necessário radicalizar nossos métodos se houvesse condições concretas para tal. Não hesitamos em momento algum!
Nesse sentido, muitos estudantes acompanharam nossa atuação durante a greve. Viram e se posicionaram sobre as diferentes posições políticas nos momentos mais decisivos. Certamente podem apontar quem insistiu na necessidade de assembleias gerais, plenárias e espaços coletivos de decisão pela base.
Por tudo isso, nossa plenária de ontem foi tão importante. Ela demonstrou que existe interesse crescente em nossas ideias, em nossa política e em nossa forma de construir essa política. Saímos da atividade mais fortes, mais confiantes e com mais responsabilidade diante das tarefas que temos pela frente. Agora precisamos transformar esse avanço político em organização! Aprofundar nossas elaborações, fortalecer nossa presença nas redes sociais, ampliar a militância cotidiana, retomar nossas mesinhas, dialogar com mais estudantes e consolidar núcleos de intervenção em cada curso possível.
A greve demonstrou que há um rechaço político à direção burocrática e antidemocrática do DCE e que, portanto, nossas ideias encontram eco entre amplos setores do movimento estudantil. Também demonstrou que, se fôssemos mais numerosos, nossa política teria tido ainda mais capacidade de influência sobre os rumos do processo. Poderia ter tido outra força material para enfrentar as manobras burocráticas, para defender a democracia de base, para impulsionar a massificação da greve e para impedir os ataques dirigidos contra o movimento.
Por isso, a principal tarefa do próximo período é combinar a construção da Juventude Anticapitalista Já Basta!, fortalecer nossa corrente política e construir organismos de base nos espaços em que atuamos. Precisamos transformar nossos acertos políticos, nosso relativo prestígio com as bases, em organização para ampliar o nosso contingente militante e fazer de nossa juventude uma potência na universidade! Seguir disputando os rumos do movimento estudantil com um programa baseado na democracia de base, na independência política e na construção de uma alternativa anticapitalista para a juventude e para o conjunto da sociedade.
A greve acabou, mas as batalhas que ela abriu estão apenas começando. Seguimos em frente!
Viva a Juventude Anticapitalista Já Basta!










