A seguir, publicamos uma versão revista, ampliada e retrabalhada da intervenção de nosso companheiro no Historical Materialism Rio Conference 2026 – “Além da mercantilização da vida: lutas sociais e futuros possíveis”.

Redação

Por RENATO ASSAD

Boa tarde a todos e a todas. Quero agradecer à mediação e cumprimentar os colegas – colegas não, porque eu não sou da academia (risos) -, os companheiros, camaradas, amigos, enfim.

Esta será uma exposição um pouco diferente, porque ela não parte propriamente de um trabalho acadêmico. Não há aqui uma negação da academia, muito pelo contrário. Obviamente, dialogo com a academia, mas esta é uma exposição que vem muito mais da rua, da experiência vivida e dessa tentativa permanente de plasmar a teoria na experiência e, ao mesmo tempo, reelaborar a teoria a partir da experiência.

Talvez eu comece com algumas definições mais teóricas e políticas para tentar compreender o tema da nova morfologia do trabalho, da plataformização, de seu caráter estrutural, das mediações digitais e das tecnologias como ferramentas colocadas a serviço da acumulação de capital no século XXI.

Eu também escrevi um livrinho, um ensaio curto chamado Entregadores de aplicativos: a luta de um novo proletariado. É um trabalho que, na minha avaliação, já carece de alguns elementos que a realidade impôs depois de sua elaboração. Mas, para quem quiser, existe um PDF disponível on-line. Podemos utilizá-lo para fazer um debate, pensar e agir do ponto de vista da transformação social ou da necessidade da transformação radical da sociedade.

Parto um pouco daquilo que Marx dizia na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843-44): a crítica não pode ser apenas um bisturi a serviço de uma simples dissecação anatômica. A academia e a ciência não podem realizar apenas a dissecação de um corpo, porque a sociedade é viva – é um corpo vivo e em movimento. Não podem se limitar a um relato ou a uma análise descritiva da realidade. A crítica deve ser, como dizia Marx nesse mesmo texto brilhante, a cabeça da paixão. A paixão já existe nas necessidades, nos sofrimentos, nas revoltas e nas lutas produzidas pelas próprias contradições da sociedade capitalista. A função da crítica deve ser, inegociavelmente, dar consciência, direção e conteúdo a essa energia social, revelando as relações materiais e os interesses de classe que se escondem por trás das instituições, das leis e das formas políticas:

Há que tornar a opressão real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão; há que tornar a infâmia ainda mais infamante, ao proclamá-la. Há que pintar a todas e a cada uma das esferas da sociedade (…) como a partie honteuse [partes vergonhosas] da sociedade alemã; há que obrigar estas relações escravizadas a dançar, cantando-lhes sua própria melodia” (MARX, 2025, p. 154)[1].

Trabalhei durante quase quatro anos como entregador de aplicativo, de domingo a domingo. Tive a moto roubada, sofri acidentes, passei por cirurgia, quase atropelei um pedestre tentando bater as irrealizáveis metas dos aplicativos e vivi uma série de outras situações. Acho que devo ter feito mais de 12 mil entregas. Hoje, sou o que meus colegas chamam de “extrinha”: alguém que roda apenas nos finais de semana para complementar a renda.

Também participo do movimento desde 2020, desde o primeiro Breque dos Apps, realizado em 1º de julho de 2020, que recentemente completou seis anos. Sou membro fundador da ONTDR (Organização Nacional de Trabalhadores sobre Duas Rodas) que integra uma articulação internacional, o International Gig Workers Congress, cujo segundo congresso, realizado em maio deste ano, foi uma experiência vitoriosa.

Essa trajetória dialoga diretamente com o tema desta exposição. Se estamos diante de uma nova morfologia do trabalho, estamos também diante de uma nova morfologia da luta de classes, marcada pelo surgimento de novos sujeitos sociais, novas formas de organização e novas modalidades de resistência. É precisamente sobre esse processo que procurarei refletir.

O capitalismo do século XXI

Começo com algumas definições mais gerais. Costumo dizer que estamos diante de uma nova etapa do capitalismo. Na minha interpretação, passamos da irrealidade à realidade. Passamos de uma época kautskiana para uma época leninista. O que quero dizer com isso? Que passamos de uma época de relativa atenuação das contradições do capitalismo para uma época de acentuação dramática dessas contradições.

O capitalismo contemporâneo, o capitalismo do século XXI, acumula crises e empilha problemas sobrepostos e entrelaçados entre si. São problemas e processos inéditos quando contrastamos o capitalismo do século XXI com o capitalismo do século XX. Muitas vezes, parecem problemas impossíveis de serem resolvidos.

Uma das principais marcas desta nova etapa do capitalismo é que todos os elementos que condicionam o desenvolvimento histórico se acentuam na forma de contradições dramáticas. Temos crises políticas, sociais, econômicas, geopolíticas e ecológicas.

A crise ecológica é uma crise inédita do século XXI. Nem a esquerda, muito menos a direita, compreendiam no século passado o metabolismo entre o ser humano e a natureza. Concebiam a natureza como algo distinto e separado da humanidade – uma fonte eterna de riqueza que poderia ser explorada sem qualquer mediação. Isso também se manifestou na experiência stalinista, cujo exemplo clássico é a devastação do Mar de Aral, progressivamente drenado para sustentar a expansão da produção de algodão na antiga União Soviética, segundo uma lógica de acumulação burocrática que subordinava a natureza e as necessidades sociais às metas produtivas do Estado burocratizado. Também temos o Super El Niño chegando este ano, enfim.

O que estou dizendo pode parecer óbvio, mas, na minha interpretação, essas contradições caracterizam uma totalidade diferente do capitalismo neste século: um capitalismo muito mais agressivo e voraz, que mostra sua face e evidencia sua própria essência.

É por isso que digo que passamos da irrealidade à realidade. Este é o capitalismo. Este é o mundo real do capitalismo, tanto em termos ecológicos quanto políticos, geopolíticos, econômicos, sociais e etc. É o que acontece na Palestina, na Ucrânia, no continente africano e em várias outras regiões. Mas é também o que acontece no mundo do trabalho.

Esta é uma contradição central do capitalismo contemporâneo: o desenvolvimento das forças produtivas e das tecnologias digitais cria condições materiais (objetivas) para reduzir o tempo de trabalho necessário, distribuir socialmente as tarefas e ampliar o controle coletivo sobre a produção. Contudo, como essas tecnologias permanecem subordinadas à propriedade privada e à lógica da valorização do capital, seu potencial emancipatório é invertido. A contradição, portanto, não reside na tecnologia em si, mas nas relações sociais sob as quais ela é desenvolvida e empregada. Todos aqui pesquisam o tema e provavelmente conhecem essas determinações com mais profundidade do que eu.

A plataformização e a suposta atomização dos trabalhadores

Quando começou o debate sobre a plataformização e sobre a necessidade de compreender esse fenômeno do ponto de vista da classe trabalhadora, surgiram várias interpretações. Entretanto, parece-me que a academia tende, muitas vezes, a realizar uma leitura um pouco unilateral da realidade.

Uma dessas leituras afirma que esse novo proletariado (uma nova parcela da classe trabalhadora do setor de serviços da era digital), passaria por um processo de atomização. Seria praticamente impossível organizá-lo, fazê-lo se levantar, resistir e resgatar aquilo que existe de melhor na tradição do movimento operário. Seria impossível resgatar aquilo que constitui propriamente o axioma do marxismo revolucionário, para ser mais claro.

Esse novo modelo de negócios é violento e voraz. Ele coloca em contraste dois mundos: o mundo da precarização, da decomposição social e da destruição dos direitos trabalhistas, mas também o mundo de outras possibilidades. As tecnologias oferecem objetivamente ferramentas que podem ser utilizadas para a emancipação dos explorados e oprimidos. É aí que aparece também a dialética da luta de classes.

Esse modelo de negócios não atomizou a classe trabalhadora. Não atomizou os entregadores e as entregadoras de aplicativos. Não atomizou nossa categoria. Pelo contrário. Se observarmos os últimos seis anos, veremos que a categoria que mais se levantou, mais lutou e mais fez greves no país foi a dos entregadores de aplicativo.

Na minha interpretação, isso aconteceu uma razão muito simples.

O primeiro é que as condições de trabalho são tão violentas que ninguém precisa explicar aos trabalhadores que eles são explorados. A própria experiência cotidiana produz uma consciência imediata dessa exploração. Eles dizem: “Somos explorados”, “não conseguimos chegar ao final do mês”, “nossos colegas morrem todos os dias”, “não aguentamos mais fazer vaquinha para pagar funeral”, “não queremos mais arrecadar dinheiro para comprar coroas de flores ou próteses para colegas mutilados”. Num período curto de tempo o sofrimento deixa de ser percebido apenas como uma desgraça individual e passa a ser reconhecido como uma condição coletiva. Os trabalhadores compreendem que aquilo que ocorre com cada um deles é o resultado de uma forma de organização do trabalho. Esse reconhecimento ainda não constitui, por si só, uma consciência sindical, muito menos política, plenamente desenvolvida, mas é seu ponto de partida. Ou seja, a percepção de que existe um problema comum, produzido socialmente, que só pode ser enfrentado por meio da ação coletiva.

A sociedade é um corpo vivo. Os trabalhadores também são sujeitos vivos. Pode parecer outra obviedade, mas o modelo é tão violento e suas condições objetivas são tão duras que isso leva inevitavelmente a processos de questionamento.

Lembro que, durante a pandemia, ficávamos reunidos nos bolsões, os locais onde estacionávamos as motos enquanto aguardávamos novos pedidos. Era ali, nesses espaços de espera, que as queixas apareciam o tempo inteiro: a tarifa estava baixa, os pedidos não tocavam, havia conflitos com clientes, jornadas extenuantes, restaurantes que demoravam a liberar as entregas, dívidas impostas pelas empresas-plataforma, gorjetas não repassadas, bloqueios injustificados, entre tantos outros problemas. Os bolsões acabavam se transformando, assim, em espaços espontâneos de troca de experiências, nos quais sofrimentos inicialmente vividos de forma individual começavam a ser reconhecidos como parte de uma condição coletiva de exploração.

Eram tanto reclamações operacionais quanto reclamações econômicas. O tema econômico sempre atravessou e continua atravessando a luta da categoria.

A luta dos entregadores, também em âmbito internacional, revela algo importante. Ela nos permite elaborar uma definição fundamental.

Depois da queda do Muro de Berlim, das derrotas e do fracasso categórico das experiências que foram apresentadas como socialistas – e aqui rejeito a categoria de “socialismo real” e toda e qualquer justificativa dos processos contrarrevolucionários do stalinismo -, difundiu-se a ideia de que a história havia terminado.

Fukuyama anunciou o “fim da história”, isto é, a suposta vitória definitiva do capitalismo liberal e o esgotamento das grandes alternativas históricas. Entretanto, a experiência dos entregadores aponta na direção contrária. Eles expressam, em novas condições, o recomeço de experiências fundamentais do proletariado: a passagem do sofrimento individual à consciência coletiva, a organização diante da exploração e a retomada da luta por direitos e por transformação social.

Não se trata simplesmente do aparecimento de um sujeito inteiramente novo, mas da emergência de uma nova fração da classe trabalhadora, formada pelas transformações contemporâneas do capitalismo e capaz de recuperar, atualizar e recolocar em movimento as tradições históricas de luta do proletariado. A luta de classes, portanto, não desapareceu. Ao contrário, reaparece sob novas formas e se impõe diante daqueles que acreditavam que ela havia sido superada. A história, entendida aqui como terreno aberto de conflitos, rupturas e disputas entre classes sociais, está mais aberta do que nunca.

Os dois olhos e a dialética da reversibilidade

Isso tem um impacto significativo, importante e profundo, porque nos leva a uma definição metodológica: é necessário olhar para o mundo com os dois olhos. Precisamos evitar leituras unilaterais e impressionistas. É necessário evitar as duas faces do impressionismo. Uma das faces é o derrotismo: “O capitalismo vai acabar com o mundo antes que a gente consiga acabar com o capitalismo.”

A outra face consiste em afirmar que o capitalismo é tão violento que produzirá inevitavelmente revoluções. Nesse caso, romantiza-se a classe trabalhadora e conclui-se que teremos inevitavelmente uma revolução. Isso também não acontecerá dessa maneira.

Vivemos um momento de indefinição. O mundo está em plena disputa e a luta de classes se faz cada vez mais presente por seus próprios caminhos. Isso lhe confere enorme atualidade, mas não significa que seus resultados estejam previamente definidos.

Por isso, a luta dos entregadores também traz à tona outra definição que, do meu ponto de vista, parece fundamental: a dialética da reversibilidade.

Esse modelo de negócios impõe, momentaneamente e atualmente, condições extremamente violentas. Porém, a luta dos entregadores e de outras categorias e novos sujeitos coloca a possibilidade da reversão dialética desses processos. Coloca a possibilidade de enfrentar esse modelo de negócios a partir de uma perspectiva estratégica de emancipação. Retoma-se, assim, a perspectiva da luta contra a exploração capitalista.

A solidariedade cotidiana e a formação da identidade de classe

Existe aqui um elemento muito interessante. A solidariedade cotidiana em nossa categoria expressa um elemento central ao acúmulo de organização e de mobilização. Na minha interpretação, esse processo começa justamente com a solidariedade.

Ricardo Antunes, nosso amigo e uma referência fundamental para muitos, destaca essa contradição constitutiva do trabalho sob o capitalismo. De um lado, o trabalho submete homens e mulheres aos imperativos mais violentos do capital, à exploração, ao controle e à perda de autonomia sobre a própria atividade. De outro, é justamente no interior dessa experiência comum de subordinação que surgem e se desenvolvem laços de solidariedade, formas de apoio mútuo, identidades coletivas e processos de reconhecimento de classe. O trabalho, portanto, não é apenas o lugar da dominação capitalista; é também o terreno em que os trabalhadores podem reconhecer seus interesses comuns, organizar-se, mobilizar-se e construir formas coletivas de resistência, como greves, piquetes, paralisações e os próprios breques.

Tudo isso se manifesta claramente em nossa categoria, embora não exista um chão de fábrica convencional. A solidariedade é construída nas ruas e nos bolsões e, muitas vezes, ganha visibilidade em vídeos que circulam nas redes sociais.

Ninguém fica sem fumar um cigarro no bolsão. Ninguém fica sem tomar um copo de água. Ninguém fica sem comer uma marmita. Ninguém fica sem esticar uma relação da moto, sem um suporte ou orientação em relação a problemas com a sua conta nesta ou naquela plataforma. Ou seja, existe algo cotidiano nos bolsões que produz processos de organização.

A indignação e o ódio em relação às condições de trabalho foram se cristalizando durante a pandemia. Naquele momento, as ruas eram consideradas mais ou menos nossas, porque éramos praticamente os únicos que circulavam pelas avenidas e ruas.

Os bolsões constituíram laços de solidariedade fundamentais. Esses laços se transformaram em elementos organizativos que contribuíram para a mobilização de nossa categoria já em julho de 2020. A luta dos entregadores revela, portanto, um importante acúmulo de experiências de organização e mobilização que desafia não apenas o modelo de negócios do iFood, da Uber, da Rappi e companhia, mas também as próprias mediações tradicionais da representação sindical e política no país.

Aliás, o atual modelo sindical brasileiro – uma extensão do Estado burguês sob a forma sindical -, baseado na unicidade sindical e historicamente sustentado pela contribuição compulsória, constitui um desafio de natureza estratégica a ser enfrentado não apenas pelos próprios trabalhadores, mas por todos os setores sindicais e políticos que realmente assumem um compromisso histórico com a luta contra a exploração capitalista. Isto é, o modelo sindical brasileiro é hoje uma gigantesca barreira à autoatividade dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Assim sendo, esse acúmulo de experiências de organização e mobilização se desdobra em um processo complexo, ultra progressivo e contraditório da subjetividade desse novo setor da classe trabalhadora brasileira e internacional.

O paradoxo do trabalhador “autônomo” que faz greve

Como podemos explicar a luta de uma categoria que muitos setores da esquerda da ordem (o lulismo e seus satélites) classificam como composta por trabalhadores “burros”, “pobres de direita” ou “bolsonaristas”?

Como se pode explicar que uma categoria em que muitos trabalhadores que se consideram autônomos seja justamente aquela que mais faz greves no país? Como um trabalhador autônomo faz greve? Como explicamos isso do ponto de vista do marxismo e da luta de classes?

Como se constituiu, entre os próprios trabalhadores, o imaginário de que seriam autônomos mesmo submetidos a um modelo de negócios tão violento?

Na minha avaliação, isso ocorre por duas razões.

A primeira é a negação das condições concretas do trabalho regulamentado. Meus colegas, trabalhadores e companheiros possuem, em sua maioria, baixa escolaridade. Muitos vieram de empregos regidos pela CLT nos quais recebiam apenas um salário mínimo, valor insuficiente até mesmo para garantir sua subsistência e a de suas famílias. Nessas condições, a experiência do trabalho formal passou a ser associada a baixos salários, jornadas rígidas e poucas perspectivas de melhoria. Assim, não é propriamente a CLT que aparece como algo ruim, mas a experiência concreta de um trabalho regulamentado que, apesar dos direitos formais, não assegurava condições mínimas para uma vida digna.

Para a ampla maioria da força de trabalho no país, essa experiência é justamente a seguinte: o trabalhador fica preso em um escritório ou em outro local de trabalho, submetido, seis dias por semana, a um patrão de carne e osso – e não ao algoritmo -, que fica buzinando em sua orelha. Ao final do mês, seu salário mal permite tomar uma cerveja, ir ao samba, comprar fraldas para o filho, comprar leite e atender às necessidades mais básicas.

A CLT virou, nesse imaginário, sinônimo de escravidão. Contraditoriamente, é sobre esse ódio coletivo de classe – dirigido contra o salário mínimo, as jornadas rígidas e o patrão de carne e osso – que se constrói, num primeiro momento, a ideia de autonomia entre os entregadores. Agora, se existisse uma CLT com um salário mínimo de R$ 5 mil, quem negaria os direitos trabalhistas? Evidentemente, ninguém.

As plataformas e esse modelo de negócios se apoiam justamente na degradação das condições do trabalho regulamentado. Em contraste com empregos formais marcados por baixos salários, rigidez e controle direto do patrão, o trabalho por aplicativo aparece inicialmente como uma oportunidade mais atrativa, associada à possibilidade de maiores rendimentos, liberdade de horário e autonomia. Essa é uma contradição fundamental que precisa ser pensada e enfrentada. São, portanto, as condições do trabalho regulamentado para a ampla maioria dos trabalhadores que permitem que empresas-plataforma como iFood, Rappi e Uber se apresentem por meio de um discurso e de uma semântica segundo os quais seu modelo de negócios seria moderno e capaz de oferecer uma melhor perspectiva de vida.

Como isso se materializa na prática? Marco Gonsales, em sua intervenção em nossa mesa de debate, responde pedagogicamente a essa questão:

“Ao entrarem em um mercado, as plataformas, além de automatizarem e facilitarem os processos de seleção, pagam salários acima do piso e cobram preços abaixo do mercado para atrair rapidamente trabalhadores e consumidores. Porém, ao atingirem o equilíbrio entre oferta e demanda [mão de obra e consumidores], reduzem arbitrariamente os valores pagos aos entregadores e motoristas. Esse duplo dumping (…) é uma das maiores fontes de descontentamento da categoria em todo o mundo e o estopim de diversos protestos e greves.”

Ou seja, aquilo que, em um primeiro momento, aparece como uma alternativa atrativa às condições degradadas do trabalho regulamentado transforma-se, posteriormente, em fonte brutal de exploração, descontentamento e luta. Isso, porém, não conduz mecanicamente os trabalhadores à reivindicação do vínculo formal. As mobilizações da categoria se concentram, sobretudo, na luta pelo aumento da remuneração, por melhores condições de trabalho e contra os bloqueios e arbitrariedades das plataformas. Ao mesmo tempo, setores cada vez mais amplos da categoria – entre eles a nossa organização, a ONTDR – passam a reivindicar direitos plenos e proteção trabalhista.

A segunda razão para a constituição desse imaginário de autonomia entre os entregadores reside no salário por peça. Essa forma de remuneração é central para compreender o modelo de negócios das empresas-plataforma e foi cirurgicamente analisada por Marx em O capital.

O salário por peça transmite ao trabalhador a sensação de que possui determinada autonomia: quanto mais trabalha, mais recebe. Sua remuneração parece depender exclusivamente de seu esforço, de sua capacidade individual e da quantidade de entregas que consegue realizar. O trabalhador acredita, assim, que controla o próprio rendimento, o próprio ritmo e a duração de sua jornada.

Marx observa que o salário por peça tende a desenvolver “o sentimento de liberdade, a independência e o autocontrole dos trabalhadores”, mas, ao mesmo tempo, acentua a concorrência entre eles. Essa aparente liberdade encobre uma forma particularmente eficaz de exploração. Como a remuneração depende da quantidade produzida, torna-se do interesse pessoal do trabalhador “empregar sua força de trabalho o mais intensamente possível”, facilitando ao capital a elevação da intensidade do trabalho. Também se torna de seu interesse prolongar a própria jornada, pois, desse modo, pode aumentar seu salário diário ou semanal.

É exatamente isso que ocorre com os entregadores. A plataforma não precisa determinar diretamente quando cada trabalhador deve começar ou encerrar sua jornada. Por meio das tarifas, das metas, das bonificações e da distribuição dos pedidos, ela cria as condições para que o próprio trabalhador intensifique e prolongue seu trabalho. A subordinação aparece, então, sob a forma de uma decisão individual: o entregador acredita que está trabalhando mais porque escolheu ganhar mais, quando, na realidade, precisa trabalhar cada vez mais para alcançar uma remuneração mínima.

Por isso, o salário por peça é um mecanismo central desse modelo de negócios. Ele produz a aparência de autonomia ao mesmo tempo em que transfere aos trabalhadores a responsabilidade pela intensidade da exploração, pelos custos e pelos riscos da atividade. No entanto, essa aparência é cada vez mais desmentida pela essência real dessa relação: a subordinação às plataformas, as condições predatórias de trabalho e uma exploração brutal e insuportável que empurra – ou, para usar a ironia – “convida” os trabalhadores à luta.

A ausência de mecanismos sindicais de contenção

Para além do anterior exposto, nossa categoria é uma das poucas no Brasil que não possui uma ferramenta sindical consolidada de contenção, isto é, passamos por fora do metabolismo tradicional da burocracia sindical e suas direções pelegas. Existem experiências contraditórias e acúmulo organizativo, expresso no surgimento de inúmeras associações e produzido ao longo de muitas lutas, mas ainda não temos sindicatos nem uma central sindical que possamos chamar de nossos, o que é contraditório, porém progressivo.

Não temos uma representação sindical reconhecida pelo conjunto da categoria. Não temos uma CUT ou uma CTB. Também não temos o PSOL ou o PT como partidos que os entregadores reconheçam como seus. Essa indefinição abre possibilidades progressivas para a auto-organização dos trabalhadores, mas também alguns riscos que podem aparecer pela anti-política ou por novas burocracias que numa outra roupagem busquem instrumentalizar a luta da categoria.

Essas organizações – o velho sindicalismo de resultados e a esquerda da ordem, ambos operando por meio de uma relação clientelista e oportunista com os trabalhadores – não conseguem, portanto, conter de maneira consolidada a organização dos entregadores nem impor a lógica segundo a qual: “Vocês trabalham e nós resolvemos”. Essa mediação ainda não existe de forma consolidada na categoria.

Por isso, existe, na experiência da categoria, a possibilidade estratégica de construção de um novo tipo de sindicalismo: um sindicalismo de base, democrático e organizado diretamente pelos e para os trabalhadores. Entretanto, ainda é necessário disputar essa batalha e consolidar uma crítica dirigida à estrutura burocrática e às direções do sindicalismo tradicional, e não ao sindicalismo como um todo. Essa generalização seria perigosa, pois poderia transformar a rejeição ao peleguismo e à burocratização em rejeição à própria organização coletiva dos trabalhadores.

A relação dos entregadores com a política

Qual é a relação dos entregadores com a política?

Em primeiro lugar, existe uma aversão generalizada à política, semelhante à generalização feita em relação ao sindicalismo. Trata-se de uma aversão das ruas ao palácio, constituída pela própria dinâmica da política institucional como um fazer apartado da vida dos trabalhadores, baixo, vil e marcado pelo jogo sujo, pela corrupção, pela troca de favores, pelos interesses pessoais e pelos acordos realizados por cima.

A política aparece, assim, como a política dos engravatados, dos gabinetes e dos profissionais que vivem dela, algo pertencente exclusivamente à classe dominante e sem relação direta com a vida cotidiana dos trabalhadores. Essa percepção ocorre, muitas vezes, de maneira intuitiva. Os trabalhadores reconhecem que a política institucional não responde às suas necessidades e que seus representantes aparecem apenas nos períodos eleitorais, em busca de votos e oferecendo promessas.

O problema é que essa crítica, embora parta de uma experiência real, pode se transformar em rejeição à política como um todo, apagando a possibilidade de uma política própria, construída pelos trabalhadores e voltada para seus interesses de classe.

Apresento dois exemplos concretos que podem expressar a relação da categoria com a política institucional.

Depois de sucessivos breques e importantes demonstrações de força, surgiu a expectativa de que a esquerda, cooptando lideranças e aparecendo de maneira oportunista nos espaços de mobilização da categoria poderia cumprir um papel importante para as demandas reivindicadas pelos breques.

Refiro-me à esquerda da ordem. A esquerda independente ainda constitui um setor extremamente marginal. Mas apareceu a possibilidade de o governo Lula apresentar um projeto em benefício da categoria.

Já em 2023 o governo Lula teve então a brilhante ideia de apresentar um projeto chamado PLP 12. Esse projeto constituía uma nova categoria jurídica para o mundo do trabalho.

Tratava-se de um projeto socialmente regressivo e patronal, que poderia significar o fim dos direitos trabalhistas no país, não apenas para os entregadores, mas para todas as categorias que fossem plataformizadas ou que já estivessem passando por processos de plataformização.

O PLP 12 criava a figura jurídica dos “autônomos com direitos”. No entanto, não havia autonomia real e muito menos direitos efetivos. Além disso, o projeto institucionalizava a ideia de “tempo efetivamente trabalhado”: só seria considerado tempo de trabalho o período em que o entregador estivesse com um pedido na bag. Todo o restante seria desconsiderado, como o tempo de espera por uma entrega, o deslocamento até o restaurante, a espera pela liberação do pedido e o retorno após a entrega na casa do cliente.

Era exatamente o que as empresas-plataforma queriam: reconhecer como trabalho apenas a fração diretamente vinculada à entrega, negar a existência de uma relação de subordinação e afastar legalmente qualquer responsabilidade patronal para com os trabalhadores. Mas a pressão das ruas falou mais alto, e conseguimos derrotar esse projeto.

Como se isso não bastasse, nosso “grande companheiro” e então deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), após o maior breque da história da categoria, realizado em 31 de março e 1º de abril, comprometeu-se a apresentar um projeto de lei voltado às necessidades dos entregadores: “Eu entrego uma caneta para vocês, entregadores, e vocês fazem um projeto.”

Em seguida, corrigiu: “Não, não, não. Melhor: eu apresento um texto para vocês, e vocês avaliam se é necessário fazer alguma alteração.”

O projeto foi então entregue a nós, que, à época, estávamos organizados no Comando Nacional do Breque, uma espécie de frente única nacional de luta. Essa experiência, porém, acabou se dissolvendo em razão da tentativa do próprio Boulos de aparelhar essa ferramenta, por meio da cooptação de algumas lideranças que passaram a defender os interesses do governo em detrimento dos interesses da categoria.

Com o texto em mãos, procuramos uma série de professores e especialistas, entre eles um professor de Direito do Trabalho. Após avaliar o projeto enviado pelo gabinete do então deputado, ele afirmou: “Isso aqui é um desastre. É um projeto de natureza patronal e mal-intencionado, porque não se pode conceber que um deputado que se preocupa com a legislação sobre o tema tenha cometido erros tão básicos.”

Reformulamos integralmente o texto e o apresentamos a Boulos, que o protocolou e rapidamente tratou de produzir uma série de fotografias para difundir a imagem do então deputado como defensor dos entregadores e da luta por melhores condições de trabalho.

Mesmo com todas as desconfianças, muitos não imaginavam que o nosso projeto – o chamado PL do Breque, Projeto de Lei nº 2.479/2025 – seria tão rapidamente abandonado por Boulos. Afinal, ele já havia garantido as fotinhos, amarrado algumas lideranças à sua organização e podia, então, seguir para o ministério do governo, apresentando-se como intermediário entre as lutas dos trabalhadores e o próprio governo.

Até agora, porém, esse operativo foi muito mal-sucedido. Sua principal realização se resume à criação de uma linha de crédito para o financiamento de motos – como se o fornecimento e a garantia dos instrumentos de trabalho não fossem responsabilidade das empresas! – destinada a uma categoria majoritariamente endividada. Não por acaso, o projeto tem sido divulgado pelas próprias empresas de entrega, como o iFood. É claro: entregador com mais um boleto no final do mês é trabalhador ainda mais preso às plataformas, sem outra escolha a não ser trabalhar sob as condições impostas pelas empresas-plataforma.

O que fez então o ministro Boulos e o governo?

Abraçaram, então, outro projeto, apresentado coincidentemente apenas um mês depois do nosso: o PLP 152. Tratava-se de um projeto patronal, de autoria de parlamentares do PSD de Kassab, do PL de Bolsonaro e do Republicanos de Tarcísio de Freitas. Formava-se, assim, uma frente única entre a extrema direita, o centrão e o governo para, mais uma vez, realizar uma operação político-jurídica destinada a institucionalizar o modelo de negócios das empresas-plataforma.

Depois da figura dos “autônomos com direitos”, apresentava-se agora a do “trabalhador plataformizado”: uma nova denominação jurídica para ocultar a mesma relação de subordinação, exploração e ausência de direitos.

O governo federal, Guilherme Boulos e o PSOL cumpriram um papel nefasto nesse processo. Não posso medir as palavras. O governo e Boulos diziam que o projeto era progressivo, que bastava acrescentar uma ou outra medida, que ele beneficiaria a categoria e que o outro projeto – o nosso projeto – jamais seria votado. Segundo eles, deveríamos abandoná-lo por causa do “Congresso inimigo do povo”.

Mas eram justamente com esses mesmos inimigos que Boulos, o PSOL e o governo cerravam fileiras para encaminhar uma verdadeira nova contrarreforma trabalhista. Utilizavam o caráter reacionário do Congresso como justificativa para abandonar o projeto construído pelos entregadores, ao mesmo tempo que negociavam com esse mesmo Congresso a institucionalização dos interesses das empresas-plataforma.

Começamos, então, uma operação de seis meses de luta contra o projeto. Foram seis meses de mobilização cotidiana, que culminaram em uma caravana nacional a Brasília, organizada pela ONTDR. E nós derrotamos esse projeto.

Após a nossa vitória, entendíamos que poderíamos passar à ofensiva. A tática era simples e parecia acertada: exigir do governo uma Medida Provisória que garantisse a taxa mínima de R$ 10,00 para entregas de até 4 quilômetros e R$ 2,50 por quilômetro adicional – valores reivindicados pela categoria desde 2020.

Ainda quando estávamos em Brasília, alguns parlamentares do PSOL nos procuraram para uma reunião pública. Na ocasião, a liderança do partido assumiu o compromisso de, junto à categoria, exigir do governo a edição dessa MP.

Mais uma vez, elaboramos o texto da MP com o auxílio de professores e especialistas e, para nossa nenhuma surpresa, fomos abandonados novamente. Todas as promessas e todos os compromissos firmados foram jogados no lixo, sem qualquer explicação. Mas nós, da ONTDR, temos uma: diante das eleições, optaram por não se enfrentar com o governo. Ou seja, por cálculos exclusivamente eleitorais, abriram mão de uma tática que poderia ter colocado os trabalhadores na ofensiva.

A aprovação da MP garantiria um respiro à categoria por meio do aumento das taxas, reduzindo a necessidade de jornadas extenuantes e poupando vidas no trânsito. Além disso, colocaria o Congresso na defensiva: caso decidisse derrubá-la, poderia incendiar as ruas e revelar aos trabalhadores sua verdadeira função como representação reacionária a serviço do capital e do empresariado.

O conteúdo imediato da MP era econômico, mas seu desfecho poderia ter representado uma enorme conquista política: fortalecer a consciência de classe da categoria, ampliar sua organização e colocá-la em uma posição ofensiva diante do pleito eleitoral deste ano. É exatamente a mesma incompreensão que a esquerda da ordem demonstra diante da luta pelo fim da escala 6×1. Sem qualquer densidade política e afastada da experiência concreta dos trabalhadores, ela não compreende a centralidade que a votação dessa medida antes do período eleitoral poderia adquirir ao elevar a confiança da classe trabalhadora em suas próprias forças, colocar o Congresso e o governo sob pressão e transformar uma reivindicação econômica em um fator de mobilização, organização e consciência política.

A história em aberto

Para concluir, quero retomar uma definição central desta exposição. Se estamos diante de uma nova morfologia do trabalho, estamos também diante de uma nova morfologia da luta de classes. Os entregadores não constituem um sujeito exterior à história do proletariado, mas uma nova fração da classe trabalhadora que, em condições distintas, recupera e atualiza experiências fundamentais de solidariedade, organização, mobilização e luta.

Desde o primeiro Breque dos Apps até o último, houve um importante acúmulo na identidade de classe da categoria. Os sofrimentos vividos individualmente passaram a ser reconhecidos como parte de uma condição coletiva de exploração. As ruas e os bolsões se transformaram em espaços de solidariedade, formação de consciência e organização. Entretanto, ainda não conseguimos superar plenamente o hiato entre o fazer sindical e o fazer político.

Para lançar um novo tipo de sindicalismo, precisamos dar esse salto. Precisamos construir um sindicalismo de base, democrático e organizado diretamente pelos trabalhadores, mas também capaz de formular um programa e intervir politicamente. E não estou me referindo ao fazer político exclusivamente no âmbito institucional. Fazer política significa compreender a política como instrumento de defesa dos interesses de uma determinada classe social. Significa transformar as reivindicações imediatas em parte de uma perspectiva mais ampla de enfrentamento à exploração capitalista.

Por isso, a luta pelo aumento das taxas, contra os bloqueios, pela redução das jornadas e por direitos plenos não pode permanecer separada da luta pela independência política da categoria. A experiência demonstrou que o governo, o Congresso, o velho sindicalismo e a esquerda da ordem procuram substituir a ação direta dos trabalhadores por negociações de gabinete e relações clientelistas. A tarefa estratégica é construir instrumentos próprios, capazes de organizar a luta sem subordiná-la aos interesses eleitorais e institucionais dessas direções.

Termino defendendo que não apenas os entregadores, mas também os povos indígenas, a juventude e outros setores explorados e oprimidos começam a gestar um novo metabolismo da luta de classes. Esse processo se desenvolve, em grande medida, por fora das velhas e tradicionais direções sindicais e partidárias, que, diante das contradições do capitalismo do século XXI, demonstram sua insuficiência e fracassam como perspectiva histórica.

Isso não significa que o resultado esteja previamente definido. Não podemos fazer futurologia nem afirmar que essas experiências caminharão inevitavelmente para uma saída progressiva ou revolucionária. É necessário olhar a realidade com os dois olhos: reconhecer as possibilidades abertas pelas lutas, mas também seus limites, contradições e perigos.

A luta de classes está em aberto, choques maiores virão. Cabe a nós pensar, elaborar e intervir no terreno concreto das crescentes tensões entre as classes. A crítica como cabeça da paixão deve contribuir para transformar a experiência em consciência de classe, a solidariedade em organização, a revolta em programa e a ação coletiva em uma perspectiva de emancipação.

[1] MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2025.