Por Johan Madriz
O que em fevereiro de 2022 supostamente seria uma rápida invasão transformou-se em um conflito prolongado que alterou a situação política internacional, acelerou os processos de rearmamento, aprofundou as tensões entre as grandes potências imperialistas e contribuiu para ampliar a crise da ordem mundial surgida após o fim da Guerra Fria.
O desenvolvimento dos acontecimentos desmentiu boa parte das expectativas existentes no início do conflito. A Rússia fracassou em seu objetivo de impor uma rápida derrota militar à Ucrânia; sua retirada dos arredores da capital durante a primavera de 2022 marcou o fracasso dessa perspectiva e obrigou o Kremlin a reorientar a guerra para uma campanha de desgaste, concentrada no leste e no sul do país.
Entretanto, tampouco se concretizaram as expectativas ucranianas e ocidentais de reverter a ocupação russa. Apesar de algumas contraofensivas bem-sucedidas e do amplo apoio financeiro e militar fornecido pelos Estados Unidos e pela Europa, a Ucrânia não conseguiu recuperar a maior parte dos territórios ocupados, e a guerra evoluiu para uma situação de relativo impasse.
A realidade atual reflete, portanto, um cenário contraditório. A Rússia conserva o controle de aproximadamente 20% do território da Ucrânia e mantém capacidade ofensiva em diferentes setores da frente de combate, embora sem alcançar avanços decisivos capazes de modificar substancialmente o equilíbrio militar. Ao mesmo tempo, a Ucrânia demonstrou capacidade para sustentar a resistência, desenvolver uma indústria militar adaptada às novas condições da guerra e ampliar o alcance de seus ataques contra objetivos militares e logísticos na retaguarda russa.
Essa combinação aponta para uma guerra de longa duração, cuja resolução dependerá não apenas de fatores militares, mas também da capacidade econômica e política de cada bloco para sustentar o esforço de guerra nos próximos anos.
Sobre o caráter da guerra
Com este artigo, propomo-nos a analisar o momento atual pelo qual passa a guerra. Em vista disso, nossa abordagem será mais geopolítica, ou seja, terá como foco a disputa militar entre Estados. Por esse motivo, antes de entrar em detalhes, queremos recapitular a análise do conflito que sustentamos desde a Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie.
Como assinalamos em uma declaração anterior, esse conflito se definiu por duas determinações. Por um lado, a invasão russa da Ucrânia constitui uma aberração contra os direitos de autodeterminação do povo ucraniano; por outro, os imperialismos ocidentais tradicionais instrumentalizaram a justa luta nacional ucraniana em função de seus próprios interesses geopolíticos.
No meio disso, o grande perdedor é o povo ucraniano, que trava uma justa luta nacional conduzida por uma direção reacionária e pró-imperialista como a de Zelensky, ao mesmo tempo em que é bombardeado pelo imperialismo em reconstrução que representa a Rússia.
Em vista do exposto, em nota anterior, nossa corrente sustentava que
“para sair desse labirinto, apenas o povo ucraniano é quem tem o direito de decidir sobre seu destino e mais ninguém. Defendemos seu direito à defesa. Condenamos a guerra inter-imperialista (…) A saída passa pela livre autodeterminação do povo ucraniano e pela luta pelas liberdades democráticas na Rússia, além de lutar contra a remilitarização europeia e por tirar Trump do governo dos Estados Unidos o quanto antes (uma tarefa difícil, mas não por isso menos urgente).”
A seguir, passamos a analisar o desenvolvimento militar do conflito nos últimos meses e semanas.
Intensificam-se os ataques
Após alguns meses de relativa rotina no conflito, as ações militares se intensificaram em maio, principalmente devido à ofensiva russa. O exército manteve a iniciativa em grande parte da frente oriental, desenvolvendo operações simultâneas nos setores de Pokrovsk, Kostyantynivka, Kupiansk, Sumy e em partes do norte de Kharkiv. No entanto, apesar da intensidade dos combates e dos avanços territoriais registrados em algumas áreas, não conseguiu alcançar nenhum dos objetivos operacionais que parecia perseguir no início da campanha de primavera.
O principal esforço voltou a concentrar-se na região de Donetsk. Segundo relatórios do Institute for the Study of War ISW, as forças russas continuaram pressionando em direção a Pokrovsk e Kostyantynivka, tentando explorar os avanços obtidos durante 2025 para se aproximar dos principais centros urbanos que ainda permanecem sob controle ucraniano no Donbass. Contudo, os avanços alcançados foram limitados e, em geral, medidos em centenas de metros.
Pokrovsk continuou sendo um dos setores mais ativos da frente de combate, por meio de táticas de pequenas unidades de assalto apoiadas por motocicletas, veículos leves e drones FPV, abandonando em grande medida os ataques mecanizados massivos característicos das etapas anteriores da guerra. Essas táticas buscam reduzir a vulnerabilidade diante da constante observação aérea, mas, ao mesmo tempo, limitam a capacidade de realizar ações rápidas.
Um dos elementos mais relevantes dessa ofensiva é a expansão das chamadas *kill zones* ou zonas de destruição. Diversas fontes indicam que, em alguns setores de Pokrovsk, a combinação de drones de reconhecimento, drones suicidas e artilharia guiada criou áreas com profundidade entre 30 e 35 quilômetros, nas quais qualquer movimentação se torna extremamente perigosa.
Paralelamente, a Rússia tentou manter a pressão no norte da frente, particularmente na região de Sumy. Essas operações parecem responder tanto a objetivos militares quanto políticos. Do ponto de vista militar, obrigam a Ucrânia a dispersar reservas e recursos defensivos. Do ponto de vista político, contribuem para sustentar a narrativa do Kremlin sobre a criação de uma “zona de segurança” na fronteira russo-ucraniana.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer sinais de esgotamento em algumas formações russas. Comandos ucranianos apontam uma perda de ímpeto em setores como Kupiansk, onde as forças russas continuam atacando, mas mostram dificuldades para sustentar seus avanços. Avaliações favoráveis à Ucrânia indicam que a Rússia mantém capacidade ofensiva, embora cada vez lhe seja mais difícil transformar essa capacidade em ganhos territoriais significativos.
Por outro lado, a ofensiva russa se desenvolve sob uma crescente pressão sobre sua retaguarda: durante maio, a Ucrânia intensificou os ataques com drones contra centros logísticos e postos de comando russos localizados entre 20 e 300 quilômetros atrás da frente. Diversos analistas militares� consideram que esses ataques fazem parte de uma estratégia destinada a dificultar a concentração de forças e a desacelerar a capacidade ofensiva russa.
A guerra se desloca para a retaguarda russa
Se a ofensiva russa é caracterizada por tentativas de avançar gradualmente sobre o front terrestre, a resposta ucraniana tem um caráter diferente. Kiev não lançou uma grande operação mecanizada destinada a recuperar territórios, mas utilizou uma estratégia baseada em ataques de longo alcance, desgaste da infraestrutura militar inimiga e operações limitadas de contra-ataque tático em determinados setores da frente.
O elemento mais importante da campanha é a intensificação dos ataques contra as linhas de abastecimento russas. Eles ampliaram significativamente suas operações contra instalações petrolíferas, depósitos de combustível e rotas logísticas utilizadas pelo exército russo. Começaram a realizar operações de reconhecimento e interdição contra as linhas terrestres de comunicação no entorno de Mariupol, a mais de 100 quilômetros da frente, mostrando uma capacidade crescente de atingir alvos situados muito atrás da linha de frente.
Essa campanha também se estendeu ao território da Rússia. Entre 16 e 17 de maio, a Ucrânia executou uma série de ataques contra infraestrutura energética e logística próxima a Moscou. Segundo o Ministério da Defesa ucraniano, foram atingidas instalações como a Refinaria de Moscou, estações de bombeamento de combustível e centros vinculados à indústria eletrônica utilizada pelo complexo militar russo. O objetivo declarado consistia em degradar a capacidade de abastecimento do exército russo e aumentar os custos econômicos da guerra para o Kremlin.
Paralelamente, maio foi marcado por algumas das maiores incursões de drones ucranianos registradas contra o território russo desde o início da guerra. Em 17 de maio, autoridades russas denunciaram uma das maiores ondas de drones direcionadas contra Moscou e outras regiões do país, mostrando que a Ucrânia continua ampliando o alcance geográfico de suas capacidades ofensivas. Embora o impacto militar direto desses ataques seja objeto de debate, sua importância política e psicológica é evidente, já que obrigam a Rússia a destinar recursos crescentes à defesa de áreas distantes da frente.
Essas ações começaram a produzir efeitos operacionais concretos, dificultando o movimento de tropas russas em direção à frente e complicando a sustentação logística de várias unidades de combate. O ISW menciona que a crescente atividade de drones ucranianos está obrigando a Rússia a reforçar seus sistemas de defesa aérea ao redor de Moscou e de outras cidades importantes, desviando recursos que poderiam ter sido empregados no front de combate.
Alguns relatórios registraram preocupação entre observadores militares russos com a capacidade ucraniana de operar drones perto de Mariupol e de outras áreas ocupadas, atacando rotas de suprimento e dificultando a circulação de veículos militares. Essas operações buscam erosionar progressivamente a capacidade russa de sustentar operações ofensivas prolongadas.
Diante da impossibilidade de competir com a Rússia em termos de volume de tropas, artilharia ou reservas, a Ucrânia busca transformar a logística russa no principal campo de batalha. O objetivo não parece ser uma recuperação territorial rápida, mas debilitar progressivamente a capacidade ofensiva do exército russo por meio de ataques constantes contra depósitos, combustível, centros de comando, redes ferroviárias e sistemas de transporte.
A transformação do campo de batalha
Um dos fenômenos desenvolvidos nesta guerra é a transformação das formas de combate. Se durante as primeiras fases do conflito a atenção se concentrou nos movimentos de blindados, na artilharia pesada e nas manobras terrestres convencionais, com o passar do tempo os drones se tornaram um dos elementos centrais da guerra. A combinação de veículos aéreos não tripulados e sistemas de ataque de precisão modificou a maneira como as operações militares se desenvolvem.
A generalização dos drones FPV (First Person View) constitui provavelmente a inovação mais visível. Inicialmente utilizados de maneira experimental, esses dispositivos de baixo custo evoluíram rapidamente até se tornarem uma arma de uso massivo, capaz de destruir blindados, veículos logísticos, posições defensivas e até tropas. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia produzem atualmente centenas de milhares de drones FPV por ano e os empregam diariamente ao longo de toda a frente.
Segundo o Royal United Services Institute (RUSI), a proliferação de drones reduziu a capacidade de ocultação das forças militares e aumentou a vulnerabilidade de qualquer concentração de tropas ou veículos. Sua disponibilidade permanente transformou praticamente todo o campo de batalha em um espaço sob observação constante. Movimentos de tropas, comboios logísticos, posições de artilharia e até centros de comando podem ser detectados em tempo real e atacados poucos minutos depois.
Como consequência, as forças militares são obrigadas a se dispersar, reduzir o tamanho de suas formações e limitar seus movimentos diurnos. Relatórios do ISW apontam que tanto a Rússia quanto a Ucrânia enfrentam crescentes dificuldades para concentrar forças suficientes para realizar operações ofensivas de grande escala sem serem detectadas previamente.
Essa capacidade de observação contribuiu para um fenômeno ainda mais importante: o desaparecimento prático da retaguarda segura. Durante grande parte da história militar moderna, existia uma diferença relativamente clara entre a linha de frente e as zonas afastadas dos combates. Nesta guerra, essa distinção se tornou cada vez mais difusa. Os drones de longo alcance permitem atacar alvos situados a centenas e até milhares de quilômetros da frente. Como resultado, bases aéreas ou centros logísticos se tornaram alvos habituais das operações militares.
As forças ucranianas realizam ataques repetidamente contra aeródromos militares, instalações de defesa aérea e depósitos de munições localizados na Crimeia, nas regiões fronteiriças russas e até nas proximidades de Moscou. Além disso, desenvolvem operações contra linhas logísticas russas em torno de Mariupol e outras áreas essenciais para o abastecimento das forças posicionadas no sul da Ucrânia.
Os aeródromos militares se tornaram um dos objetivos prioritários de ambos os contendores. A destruição de aeronaves em solo, radares, hangares e depósitos de combustível permite reduzir a capacidade operacional do adversário sem necessidade de enfrentamentos aéreos diretos. Durante os últimos anos, ambos os lados executaram ataques de longo alcance contra instalações aéreas, demonstrando que até mesmo as bases situadas longe da frente já não podem ser consideradas completamente seguras.
Da mesma forma, a destruição de depósitos logísticos adquiriu uma importância significativa, já que pode afetar a capacidade de combate de unidades inteiras durante semanas. Por essa razão, a logística inimiga tornou-se um dos principais objetivos. Relatórios militares sustentam que uma parte significativa dos esforços ucranianos, principalmente desde 2025, foi orientada justamente a dificultar o abastecimento das forças russas por meio de ataques contra nós logísticos e redes de transporte.
O mesmo ocorre com a infraestrutura energética. Refinarias, depósitos de petróleo, estações de bombeamento, usinas elétricas e redes de distribuição são atacados repetidamente por ambos os lados, com o objetivo de limitar a capacidade industrial do adversário, afetar a mobilidade militar, aumentar os custos econômicos e gerar pressão política interna.
À medida que aumentou a dependência de drones e sistemas GPS, a capacidade de interferir, bloquear ou enganar esses sistemas tornou-se um fator decisivo. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia desenvolveram redes de guerra eletrônica destinadas a neutralizar drones inimigos, interromper suas comunicações e dificultar a navegação de sistemas guiados. Em numerosos setores da frente, a eficácia de uma operação depende tanto da capacidade de empregar drones quanto da capacidade de protegê-los frente às contramedidas do adversário.
Europa e a sobrevivência ucraniana
Se durante os primeiros anos do conflito os Estados Unidos desempenharam o papel predominante no fornecimento de armamento avançado e assistência financeira, desde 2025 a União Europeia e seus Estados-membros assumiram uma proporção cada vez maior do esforço de apoio a Kiev. Essa mudança reflete as incertezas geradas pela política estadunidense e o questionamento direto de Trump sobre o papel do bloco.
Segundo dados da Comissão Europeia, foram mobilizados aproximadamente 69,7 bilhões de euros em apoio militar desde o início da invasão, incluindo o fornecimento de armamentos, munições, sistemas de defesa aérea, veículos blindados, treinamento militar e assistência logística. O Conselho da União Europeia eleva essa cifra a 75,2 bilhões, enquanto a assistência total — incluindo ajuda financeira, humanitária e atendimento a refugiados — supera 200,6 bilhões, tornando-se um dos maiores programas de assistência externa da história recente do continente.
No plano estritamente militar, um dos mecanismos mais importantes é o Fundo Europeu para a Paz (EPF), criado originalmente para financiar operações de segurança e defesa da União Europeia. Desde o início da guerra, esse instrumento destinou cerca de 6,4 bilhões de euros para financiar entregas de armamento e equipamento militar às forças armadas ucranianas. Paralelamente, o tamanho total do fundo foi ampliado até alcançar 17 bilhões, refletindo o aumento dos gastos militares e seu papel na política externa do bloco.
A Missão de Assistência Militar para a Ucrânia (EUMAM Ukraine) havia treinado aproximadamente 86.800 soldados ucranianos até o início de 2026, fornecendo formação em combate, logística, desminagem, manutenção de equipamentos e operações especializadas.
Por outro lado, o funcionamento do Estado ucraniano depende em grande medida do financiamento externo. A guerra reduziu drasticamente a atividade econômica do país, enquanto o gasto militar absorve uma proporção crescente dos recursos públicos. A União Europeia implementou diversos mecanismos de assistência. Desde 2022, foram desembolsados 43,3 bilhões de euros destinados a sustentar o funcionamento do governo, financiar serviços públicos e cobrir parte do déficit orçamentário.
A isso se soma o chamado Ukraine Facility, um programa plurianual dotado de até 50 bilhões de euros para o período de 2024-2027, destinado a financiar a reconstrução, a modernização institucional e a estabilização econômica do país. Até o final de 2025, haviam sido desembolsados aproximadamente 26,8 bilhões por meio desse mecanismo.
De acordo com o Ukraine Support Tracker do Instituto Kiel para a Economia Mundial, a ajuda militar europeia entre 2025 e 2026 aumentou 67% em relação à média dos anos 2022-2024, enquanto a assistência financeira e humanitária cresceu 59%. O mesmo relatório conclui que a Europa compensa a redução do apoio estadunidense e se tornou o principal sustentáculo externo da Ucrânia.
No final de 2025, os governos europeus aprovaram um pacote adicional de 90 bilhões de euros para o período 2026-2027. Aproximadamente a metade será desembolsada durante 2026 e será destinada tanto ao financiamento do orçamento estatal ucraniano quanto à sustentação de suas necessidades militares. Dos fundos previstos para este ano, cerca de 28,3 bilhões estão diretamente vinculados a gastos de defesa e segurança.
A economia russa em tempos de guerra
Contra muitas das previsões, a economia russa não colapsou após as múltiplas sanções internacionais e a prolongação do conflito. Pelo contrário, conseguiu se adaptar às novas condições por meio de uma combinação de centralização de recursos estatais, expansão dos gastos militares, redirecionamento do comércio exterior e aproveitamento das receitas provenientes das exportações energéticas. No entanto, essa capacidade de resistência não implica ausência de problemas; por trás da aparente estabilidade acumulam-se tensões.
A principal força da Rússia é sua capacidade de transformar boa parte de sua economia em uma economia de guerra. Desde o início da invasão, o governo aumentou massivamente os gastos com defesa, estimulando a produção industrial vinculada ao complexo militar. O gasto militar alcançou aproximadamente 6,3% do PIB em 2025 e cerca de 32% do orçamento federal, níveis sem precedentes desde a década de 1980.
Essa expansão permitiu um notável aumento da produção de armamentos. A Rússia atualmente produz mais munições de artilharia do que o conjunto dos países europeus membros da OTAN e aumentou significativamente a fabricação de drones, veículos blindados, mísseis e sistemas de defesa aérea. O RUSI estima que a indústria militar russa conseguiu se adaptar às sanções por meio da substituição de fornecedores, do uso de importações indiretas e da cooperação tecnológica com países como China, Irã e Coreia do Norte.
A segunda força reside na estrutura exportadora do país. Apesar dos pacotes de sanções aprovados pelos Estados Unidos e pela União Europeia, a Rússia conseguiu manter receitas importantes graças às exportações de petróleo, gás e outras matérias-primas. Embora tenha perdido parte do mercado europeu, conseguiu redirecionar uma parcela significativa de suas vendas de energia para a China, a Índia e outros países asiáticos. Segundo a Agência Internacional de Energia, a Rússia continua figurando entre os maiores exportadores mundiais de petróleo, obtendo dezenas de bilhões de dólares em receitas.
Outra vantagem importante é a relativa autonomia financeira. Durante os anos anteriores à guerra, o Kremlin acumulou importantes reservas internacionais e manteve níveis relativamente baixos de dívida pública. Embora parte dessas reservas tenha sido congelada pelo Ocidente, a Rússia conservou instrumentos suficientes para estabilizar o sistema financeiro durante os momentos mais críticos. O Fundo Monetário Internacional inclusive revisou para cima suas previsões de crescimento em várias ocasiões durante 2023, 2024 e 2025, refletindo uma capacidade de adaptação maior do que a inicialmente prevista.
No entanto, essas forças convivem com problemas cada vez mais visíveis. O primeiro é a dependência da economia em relação aos gastos militares. Uma parte importante do crescimento registrado nos últimos anos provém diretamente da expansão da produção vinculada à guerra. Isso gera uma dinâmica que alguns economistas descrevem como «crescimento militarizado»: a atividade econômica aumenta, mas o faz concentrando-se em setores que não incidem no bem-estar geral da população nem aumentam a produtividade de longo prazo.
A segunda dificuldade é a escassez de mão de obra. A mobilização militar, as baixas sofridas no front e a emigração de centenas de milhares de trabalhadores após o início da guerra geram tensões no mercado de trabalho. O Banco Central da Rússia aponta reiteradamente que a falta de pessoal constitui um dos principais obstáculos ao crescimento econômico. Em vários setores industriais, a demanda por mão de obra supera amplamente a oferta disponível.
A inflação constitui outro desafio. O aumento dos gastos públicos, a escassez de trabalhadores e as restrições decorrentes das sanções contribuem para manter pressões inflacionárias persistentes. Para contê-las, o Banco Central elevou as taxas de juros a níveis historicamente elevados, superando 20% em diferentes momentos desde 2025. Embora essa política ajude a estabilizar os preços, também encarece o crédito e limita o investimento produtivo fora do setor militar.
Uma guerra prolongada e um desfecho em aberto
A guerra durou muito mais do que antecipavam todos os atores envolvidos. A invasão russa pretendia submeter rapidamente, por meio da força militar, a Ucrânia. O fracasso da ofensiva sobre Kiev mostrou os limites desse projeto. Por sua vez, as expectativas que surgiram posteriormente em torno de uma possível derrota militar russa também não se concretizaram. Mais de quatro anos depois, a guerra continua sem uma resolução clara e sem que nenhum dos contendores tenha conseguido impor seus objetivos. A consequência é a transformação do conflito em uma guerra de desgaste que consome enormes recursos humanos, econômicos e políticos sem produzir definições estáveis.
Nesse contexto, os avanços russos observados nas últimas semanas devem ser analisados com cuidado. Embora a Rússia tenha a iniciativa em vários setores da frente, esses avanços não constituem necessariamente uma expressão de força. Pelo contrário, refletem as pressões que o Kremlin enfrenta após mais de quatro anos de conflito. A prolongação da guerra aumentou os custos econômicos e humanos da invasão, obrigando Moscou a buscar resultados que justifiquem os enormes sacrifícios realizados. Isso ajuda a explicar a persistência das ofensivas russas, mesmo quando os avanços obtidos são limitados.
No entanto, os resultados alcançados até agora parecem insuficientes para atingir esse objetivo. Os avanços territoriais russos são lentos, custosos e limitados em relação à magnitude dos recursos empregados. Embora a Ucrânia enfrente evidentes dificuldades derivadas do desgaste acumulado, ela ainda conserva capacidade de resistência militar. Isso significa que a guerra continua presa em uma contradição: a Rússia não consegue converter sua superioridade militar em uma vitória decisiva, enquanto a Ucrânia tampouco dispõe dos meios necessários para reverter completamente a situação no terreno.
A consequência é um impasse que pode se prolongar por um período considerável. Nenhuma das contradições que deram origem ao conflito foi resolvida. A questão dos territórios ocupados, a orientação geopolítica da Ucrânia, a relação entre a Rússia e a OTAN e a própria arquitetura de segurança europeia seguem em aberto. Ao mesmo tempo, a guerra acelerou o rearmamento europeu e impulsionou as dinâmicas de desestabilização que vinham se acentuando no mundo. É um galão de gasolina em um mundo em combustão.
A complexidade desta guerra exige rejeitar as simplificações campistas que reduzem o conflito a um confronto entre um bloco «progressivo» e outro «reacionário». A guerra combina simultaneamente uma dimensão nacional — a legítima resistência do povo ucraniano diante de uma invasão por parte de uma potência — e uma dimensão geopolítica vinculada à disputa entre a Rússia, como um imperialismo em reconstrução, e o bloco do imperialismo ocidental. Por isso, a defesa do direito de autodeterminação do povo ucraniano não implica conceder apoio político à OTAN, do mesmo modo que a oposição à ingerência ocidental não pode se traduzir em apoio ao projeto expansionista impulsionado pelo Kremlin.
O prolongamento da guerra e seu estado atual demonstram que nenhum dos atores oferece uma saída favorável aos povos da região. Enquanto as grandes potências perseguem seus próprios interesses, milhões de pessoas continuam pagando o custo humano, social e econômico do conflito. Por isso, a defesa de uma posição independente, internacionalista e socialista continua sendo a única perspectiva capaz de colocar no centro os interesses dos setores trabalhadores e dos povos acima das ambições das potências que hoje disputam o futuro da região.










