Por Frank García Hernández (*)
Quando, para alguns, o marxismo está esgotado e outros se limitam a cultivar a nostalgia de histórias passadas, Roberto Sáenz nos traz a reapropriação não apenas de Marx, mas também de valiosos comunistas silenciados, como Christian Rakovski; ou ainda dialoga com o Jacek Kuroń de 1970, que então dirigia a ala esquerda do controverso sindicato polonês Solidariedade. E, se Sáenz convoca esses hereges, é para deixar algo claro: o marxismo não é um dogma. Inclusive, as heresias de Sáenz vão além do clássico antistalinismo: neste livro, seus diálogos com Trotsky estão longe de ser complacentes.
Mas o livro de Sáenz não é apenas um tabuleiro de xadrez de teorias marxistas; é, sobretudo, uma ferramenta para interpretar criticamente a realidade. É por isso que Cuba aparece reiteradamente ao longo da obra. Sáenz, ao explicar como Cuba chegou à atual crise ideológica, sustenta que, na Revolução Cubana, “a classe operária não conseguiu tomar o poder, e isso bloqueou de forma duradoura a transição socialista”, acrescentando que, em consequência, Fidel Castro não construiu o socialismo. Por isso, Sáenz vê na Iugoslávia, no Vietnã e em Cuba “enormes revoluções anticapitalistas” que não chegaram a ser socialistas. Eis aqui o nó górdio deste livro: a transição socialista concebida a partir de uma perspectiva marxista na qual, além do capitalismo e do socialismo, pode existir o anticapitalismo como uma etapa intermediária entre ambos os sistemas que, se não for superada, entra em colapso.
Como este livro é um texto antidogmático, não é necessário concordar com cada uma de suas formulações para chegar ao ponto para onde Sáenz nos conduz: o stalinismo foi a morte de todo processo socialista e somente a partir do marxismo a classe trabalhadora pode se libertar; porém, esse processo emancipatório — a transição ao socialismo — segue sendo o grande obstáculo até agora, insuperável para as revoluções. Será que, se essas “enormes revoluções” entraram em colapso, foi porque, como afirma Sáenz, não eram socialistas? A resposta pode constituir um trauma revolucionário.





