A leitura desta obra é relevante para o relançamento do socialismo revolucionário no século XXI e para aqueles que desejam se introduzir na recepção da filosofia hegeliana e pós-hegeliana realizada pelo marxismo clássico. Neste texto, encontra-se o método dialético em funcionamento. Isso é demonstrado pelo fato de que o marxismo não apenas inverteu Hegel e criticou o materialismo filosófico herdeiro da tradição hegeliana, mas também se apropriou dessas concepções de mundo, transformando-as, por sua vez, em uma nova concepção da história, da natureza e da sociedade: o materialismo histórico.

Anotações sobre “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã”, de Engels

Por Yaveth Godoy

Sem a filosofia clássica alemã, tampouco teria existido o socialismo científico.

[1] Friedrich Engels

 

Todas as fases [da história] são necessárias e, portanto, legítimas para a época e para as condições que as engendram; mas todas caducam e perdem sua razão de ser quando surgem condições novas e superiores, que vão amadurecendo pouco a pouco em seu próprio seio; (…) às quais também chegará, um dia, a hora de caducar e perecer. 

(“Marx & Engels”, 1974, p. 618)

Sobre o autor

Em uma resenha anterior[2], destacamos a coerência teórico-prática de Engels e os estudos que empreendeu sobre as ciências naturais de sua época, estudos cuja finalidade era compreender cientificamente o mundo para transformá-lo. Nesta segunda parte, retomamos a relação de Engels com a filosofia. Essa relação é um aspecto fundamental da construção do edifício teórico-prático do socialismo científico.

Friedrich Engels Sr., pai de nosso Engels, proibiu o filho de se dedicar aos estudos e, em vez disso, obrigou-o a assumir a empresa familiar estabelecida na Inglaterra. No entanto, Engels jamais conseguiu aplacar sua sede de conhecimento e dedicou enormes esforços ao estudo de disciplinas que vão da economia política às ciências naturais. Foi assim que se dedicou ao estudo da filosofia e da história da filosofia, aspectos nos quais nos concentraremos nesta segunda parte.

Ao retomarmos o marxismo clássico, é de suma importância recuperar Engels e suas contribuições para a elaboração do materialismo histórico. Lenin (conforme citado em Marx & Engels, 1974, p. 11) afirmou: “Depois de seu amigo Karl Marx, Engels foi o mais notável cientista e mestre do proletariado contemporâneo de todo o mundo civilizado.”[3]

Veremos, em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, as críticas e superações realizadas pelo marxismo clássico em relação ao materialismo mecanicista e à metafísica, além da ruptura de Marx e Engels com os jovens hegelianos.

Edição e publicação do texto

Em uma nota de 1888 à segunda edição do texto, Engels relata a necessidade que sentia de expor detalhadamente qual era a atitude dele e de Marx em relação à filosofia hegeliana e como a superaram dialeticamente.[4]. Além disso, reconhece a dívida de ambos com Feuerbach, maior do que com qualquer outro pós-hegeliano, especialmente no que diz respeito à sua “Essência do cristianismo”, de 1841.

Além disso, Engels nos conta que revisou alguns manuscritos de 1845-46, quase certamente A ideologia alemã, nos quais encontrou um antigo caderno de Marx com suas “Teses sobre Feuerbach”, escritas na primavera de 1845. Essas Teses, posteriormente transformadas em um texto fundamental para o marxismo, não passavam de anotações destinadas a ser desenvolvidas mais adiante, sem terem sido concebidas de modo algum para publicação.

“Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã” foi escrito por Engels em 1886 e publicado naquele mesmo ano pela revista Die Neue Zeit, nos cadernos 4 e 5. Dois anos depois, em 1888, o texto foi publicado em Stuttgart como um folheto separado e revisado. A segunda publicação conta com uma nota preliminar escrita por Engels em 21 de fevereiro daquele mesmo ano, em Londres. Essa edição conta, além disso, com um apêndice que inclui as Teses sobre Feuerbach, de Marx, apresentadas ao público pela primeira vez.

Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã

As primeiras linhas do texto deixam transparecer a herança hegeliana no marxismo clássico. Engels expõe um aspecto fundamental dessa herança: a realidade é um processo que se desenvolve por meio de contradições. Nosso autor destaca: 

“E nisso residiam o verdadeiro significado e o caráter revolucionário da filosofia hegeliana (…) no fato de que ela acabava para sempre com o caráter definitivo de todos os resultados do pensamento e da ação do homem.”  (Engels, 1974, p. 618).

O aspecto de Hegel resgatado pelo marxismo clássico é o do movimento e da transitoriedade da realidade: nesse caso, a verdade não é um objeto a ser conquistado de uma vez por todas nem uma entidade fossilizada. Os estágios históricos são todos igualmente momentos; daí que o capitalismo seja, para o marxismo clássico, um modo de produção — embora não apenas isso — de caráter transitório (isto é, que não é eterno nem imutável).[5]

Por outro lado, Engels reconhece que o aspecto revolucionário da dialética hegeliana é sufocado pelo lado conservador desse mesmo sistema filosófico, porque os aspectos mais dogmáticos de seu pensamento [de Hegel] erigem-se como verdade absoluta. (Cf. Engels, 1974, p. 619, colchetes nossos).

Ao expor a concepção marxista da sociedade e da natureza, Engels comenta a cisão e a virada materialista entre aqueles que beberam das águas da filosofia hegeliana após a morte do mestre. A ascensão de Frederico Guilherme IV, o reacionarismo feudal e a ortodoxia pietista levaram os jovens hegelianos [6], ou hegelianos de esquerda, a empreender uma luta filosófica contra a religião herdada e contra o caráter do Estado prussiano da época. Aqui, os objetivos filosóficos em disputa já não são abstratos. O caráter de luta política concreta é visível, por exemplo, nas publicações desses filósofos, entre eles Marx, na Gazeta Renana.

Por sua vez, Engels destaca as diferenças entre o marxismo clássico e o materialismo da época. Com base nos avanços das ciências naturais do século XIX[7], consegue demonstrar a ideia de que o desenvolvimento da filosofia e o das ciências naturais se alimentam, ou deveriam se alimentar, de maneira recíproca. Desse modo, para Engels, as limitações da filosofia do século XVIII, especialmente as concepções materialistas e metafísicas, não devem ser apenas julgadas, mas compreendidas por meio da negação da negação. As ciências naturais ainda não haviam alcançado o desenvolvimento que atingiriam um século depois; portanto, são compreensíveis os limites e o alcance da filosofia do século XVIII. Desse modo, para Engels, o dever diante dessas concepções de mundo é superá-las dialeticamente[8], e não deixá-las de lado como se nunca tivessem existido.[9]

Seguindo o que foi dito anteriormente, encontramos a crítica marxista à filosofia da religião de Feuerbach. Diz Engels: 

“Quando Feuerbach se empenha em encontrar a verdadeira religião com base em uma interpretação substancialmente materialista da natureza, é como se se empenhasse em conceber a química moderna como a verdadeira alquimia.” (Engels, 1974, p. 633).

Engels sustenta que Feuerbach não conseguiu escapar das garras do idealismo: ele atribui as mudanças dos estágios da humanidade às mudanças religiosas. Para o marxismo clássico, essa posição significa inverter a equação. A mudança religiosa é apenas concomitante às mudanças políticas, isto é, às lutas de classes. Nesse sentido, Engels acusa Feuerbach de permanecer estagnado, em vez de romper criticamente com o sistema idealista que o havia formado. O materialismo para o qual Feuerbach tende é limitado pelo mecanicismo e por certo núcleo metafísico.[10]

Engels, depois de identificar as limitações do materialismo de Feuerbach, assinala:

“(…) o passo que Feuerbach não deu precisava ser dado; era preciso substituir o culto ao homem abstrato, essência da nova religião feuerbachiana, pela ciência do homem real e de seu desenvolvimento histórico. Esse desenvolvimento das posições feuerbachianas, superando Feuerbach, foi iniciado por Marx em 1845, com “A Sagrada Família”. (Engels, 1974, p. 638)

Nessa ruptura com o materialismo raso, Marx e Engels recuperam o aspecto mais revolucionário da filosofia hegeliana: o método dialético.

O avanço das ciências nutriu o materialismo histórico com uma concepção científica do mundo. Para Engels, o mundo já não pode nem deve ser concebido como um conjunto de objetos isolados, determinados e preestabelecidos. A realidade é: 

“(…) um conjunto de processos no qual as coisas que parecem estáveis (…) passam por uma série ininterrupta, por um processo de gênese e caducidade (…)”. (Engels, 1974, p. 641)

Crítica à obra

O texto contém pilares fundamentais da concepção marxista da natureza, da história e da sociedade. Aqui não encontramos apenas os aspectos da filosofia hegeliana e pós-hegeliana que Marx e Engels criticam, mas também como os defendem daqueles que os distorcem. Por outro lado, também está presente a crítica à filosofia da religião e à filosofia moral de Feuerbach. Isso não exclui alguns reconhecimentos àquele que consideram um companheiro materialista que, embora “tenha ficado no meio do caminho” na crítica filosófica, deu uma grande contribuição à filosofia com sua “Essência do cristianismo”.

Além disso, evidencia-se aqui como a ciência da época e seus avanços influenciaram profundamente o marxismo clássico. A concepção da realidade como um processo abria caminho com força entre as cabeças metafísicas e aqueles que proclamavam o mundo como uma coleção de objetos. Podemos ver neste artigo a cristalização dos estudos das ciências naturais realizados por Engels para sua “Dialética da Natureza” (1773-1883).

Todo debate teórico está historicamente situado, e toda elaboração teórica é construída no calor das discussões do momento. A isso acrescentamos, quando falamos de uma elaboração teórica como o materialismo histórico, o elemento adicional de que ela também é forjada sob o fogo sempre vivo da luta prática, isto é, da luta de tendências. Marx e Engels abriram caminho por meio de diferentes tipos de frentes teóricas e práticas ao mesmo tempo, com o objetivo de construir sua concepção de mundo sobre as bases objetivas da realidade: o socialismo científico.[11] 

Para construir uma nova teoria dessa magnitude, Marx e Engels tiveram de enfatizar o fator econômico como um elemento objetivo do desenvolvimento da sociedade; aspecto que, por outro lado, não era reconhecido pelas correntes do socialismo utópico. Inclusive, no interior dessa luta de tendências teóricas e políticas, havia aqueles que não reconheciam a contradição de interesses entre a burguesia e o proletariado.

Por último, em relação àqueles que extraem passagens fora de contexto para “criticar” o marxismo clássico por economicismo, basta o seguinte: 

“(…) Segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instância, determina a história é a produção e a reprodução da vida real. Nem Marx nem eu jamais afirmamos mais do que isso. Se alguém deturpa essa afirmação, dizendo que o fator econômico é o único determinante, transformará aquela tese em uma frase vazia, abstrata, absurda.” (Engels, F., Carta a Joseph Bloch, 21-22 de setembro de 1890, Ibidem, 1974, p. 717). 

Diante daqueles que sequer reconheciam a classe trabalhadora como um movimento independente, como uma força histórica, a urgência de Marx e Engels residia, entre outras coisas, em mostrar o desenvolvimento da realidade de maneira objetiva. Uma dessas leis objetivas do desenvolvimento social é a economia.

A leitura desta obra é relevante para o relançamento do socialismo revolucionário no século XXI e para aqueles que desejam se introduzir na recepção da filosofia hegeliana e pós-hegeliana realizada pelo marxismo clássico. Neste texto, encontra-se o método dialético em funcionamento. Isso é demonstrado pelo fato de que o marxismo não apenas inverteu Hegel e criticou o materialismo filosófico herdeiro da tradição hegeliana, mas também se apropriou dessas concepções de mundo, transformando-as, por sua vez, em uma nova concepção da história, da natureza e da sociedade: o materialismo histórico.

Bibliografia

Engels, F. (2017). Dialética da natureza. Editorial Akal.

Marx, K. (2024). Manifesto do Partido Comunista. Em H. Tarcus (Seleção e Introdução), Antologia (pp. 111-145). Siglo XXI Editores.

MARX, K., & ENGELS, F. (1974). Obras escolhidas (3 vols.). Editorial Progresso.

Sáenz, R. (2024). O marxismo e a transição socialista. Tomo I: Estado, poder e burocracia. Ediciones Izquierda Web.

Feuerbach, L. (2009). A essência do cristianismo. (J. L. Iglesias, Trad.). Trotta.

NOTAS

[1] “Adendo ao prefácio à edição de 1870 para a terceira edição de 1875” de “A guerra camponesa na Alemanha”, em Marx & Engels, 1974, p. 251.

[2] Referimo-nos a “Anotações sobre ‘O papel do trabalho na transição do macaco ao homem’, de Engels”. Disponível no Izquierda Web.

[3] Fragmento das páginas que Lenin escreveu no outono de 1895, aos 25 anos, por ocasião da morte de Engels. Essas páginas foram publicadas pela primeira vez em 1896, nos números 1 e 2 da coletânea Rabótik.

[4] Marx e Engels pensaram em fazê-lo quase 40 anos antes. As vicissitudes das circunstâncias históricas, o estudo e a luta política haviam adiado a concretização desse desejo.

[5] Devemos assinalar: a) Existem posições que sustentam a teoria de que o capitalismo representa “a culminação da história”. As mesmas intenções de justificar como “natural”, eterno e necessário o modo de produção capitalista encontram-se em algumas posições teóricas sobre o Estado moderno. O marxismo clássico reconhece a transitoriedade de tudo o que se produz na e pela história. Desse modo, distancia-se de todo revisionismo ou objetivismo; b) Não se deve confundir o caráter historicamente transitório do sistema capitalista que aqui sustentamos com as posições objetivistas. Essas posições não são compartilhadas por nós por diferentes razões, como, por exemplo, a eliminação do papel desempenhado pelo sujeito político em sua intervenção na realidade e, consequentemente a essa posição, a “queda mágica” que sustentam em relação ao sistema capitalista, como se fosse uma fruta madura que, de repente, cai no chão.

[6] Referimo-nos a Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, Friedrich Strauss, Arnold Ruge, Max Stinner e Karl Marx. Engels e Marx, pouco mais adiante, romperão filosófica e politicamente com os hegelianos de esquerda para fundar a corrente materialista histórica e o socialismo científico.

[7] A descoberta da célula orgânica pelos cientistas Matthias Schleiden e Theodor Schwann; a conservação e a transformação da energia graças a diferentes contribuições científicas da época, como as de Julius Robert von Mayer e Hermann von Helmholtz; e a contribuição de Charles Darwin para a teoria da evolução.

[8] O estudo engelsiano da história da filosofia e da própria filosofia não se deve a um capricho intelectual. Deve-se ao fato de Engels ter conseguido perceber como as concepções filosóficas influenciam diretamente as ciências naturais e o campo da história ou, ainda, como os cientistas, por não terem estudado a história da filosofia, repetiam graves erros que ela já havia conseguido superar. (Cf. Engels, 2017. “As leis da dialética”, em Dialética da natureza)

[9] Esta é a posição adotada por Feuerbach em relação à filosofia hegeliana.

[10] Embora Feuerbach ainda estivesse vivo quando ocorreram algumas grandes descobertas científicas, ele havia escolhido uma vida de solidão e isolamento, o que implicou não poder acompanhar de perto os avanços científicos da época nem aproveitá-los para o desenvolvimento de sua própria concepção materialista do mundo. Engels, além disso, reconhece a estatura filosófica de Feuerbach mais do que a de qualquer outro filósofo catedrático da época.

[11] Encontramos aqui: pós-hegelianos tanto de direita quanto de esquerda, materialistas rasos, socialistas utópicos etc. Cf., a esse respeito, as páginas que Lenin escreveu em 1895 por ocasião da morte de Engels: “Em nossos dias, todo o proletariado em luta por sua emancipação fez seus esses conceitos de Marx e Engels. Mas, quando os dois amigos colaboravam, na década de 1840, nas publicações socialistas e participavam dos movimentos sociais de seu tempo, esses pontos de vista eram completamente novos. Naquela época, havia muitos homens talentosos e outros sem talento, muitos honestos e outros desonestos, que, no calor da luta pela liberdade política, na luta contra a autocracia dos czares, da polícia e do clero, não percebiam o antagonismo existente entre os interesses da burguesia e os do proletariado.” (Lenin, “Friedrich Engels”, Ibidem, p. 12)

[12] Carta escrita por Engels, de Londres, a Joseph Bloch, entre os dias 21 e 22 de setembro de 1890.