O presente ensaio, fruto de um trabalho de conclusão de curso de uma disciplina de mestrado, analisa a relação entre a tese do “choque de civilizações” de Samuel P. Huntington, conservador estadunidense que nos anos 1990 apresenta a ideia de que o conflito da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética foi substituído pelo conflito civilizacional e cultural entre o Ocidente e o restante do mundo.

Por Vinícius Bomfim

O chamado a integração cultural ocidental tendo como líder os Estados Unidos, coloca como inimigo principal os povos do Oriente, especificamente os de origem árabe e islâmica. As teses de Huntington ganharam força após o 11 de setembro de 2001, servindo de justificativa ideológica para a guerra ao terror realizada pelo governo Bush. Não havia nada de original em Huntington, como afirmou na época Edward Said: suas ideias partem dos históricos mitos da superioridade ocidental e branca em contrapelo ao modo de vida oriental, árabe e islâmico. O etnocentrismo do autor atua como uma defesa consciente da liderança do imperialismo estadunidense na hegemonia global.

Nesse sentido, relacionamos a ideia do choque de civilizações com o genocídio do povo palestino perpetrado por Israel, fundado como aliado central dos Estados Unidos e do Ocidente. A defesa da colonização israelense é também uma defesa do mundo ocidental contra o inimigo árabe-islâmico, o palestino.

Atualiza-se a guerra ao terror e seu espetáculo midiático com as novas tecnologias militares. Entra em ação na indústria da guerra as Big Techs e suas recentes inovações: inteligência artificial, dados, data centers. A hipótese que surge, nos inspirando na noção de “complexo militar-industrial-dataficado” de Sérgio Amadeu da Silveira, é que a tendência atual da guerra contemporânea passa pela dependência das infraestruturas digitais/materiais de Big Techs como Amazon, Google, Microsoft e Palantir, sendo Gaza um laboratório de testes dessas novas tecnologias. Rastreamento em tempo real, armazenamento de dados de populações, reconhecimento facial, automatização de decisões militares, selecionamento automático de alvos militares entre outras funções, podem serem realizadas com o uso de IA.

Diante do genocídio em curso, é mais do que necessário reafirmar a defesa incondicional do povo palestino e sua independência política por uma Palestina livre, laica, antirracista, democrática, única e socialista[1]. Um efetivo cessar fogo; o fim do governo de Netanyahu e do falso plano de paz de Trump; o fim das relações diplomáticas do governo brasileiro com Israel, assim como o fim das importações de armamento e de exportações de petróleo para as máquinas de guerra; e uma contínua mobilização internacional dos explorados e oprimidos pelo povo palestino estão na ordem do dia. Contra o mito da solução dos dois estados, a unificação da palestina laica e socialista construída pelos trabalhadores!

Introdução

7 de outubro de 2023 marcou a escalada do colonialismo de povoamento (Pappe, 2022) praticado por Israel em terras palestinas após um ataque do Hamas[2], utilizando o caso como pretexto para o avanço das políticas de anexação dos territórios de Gaza e Cisjordânia[3]. Dentre várias explicações de fundo, o ataque do Hamas é lido imediatamente como uma afronta às concepções de mundo ocidentais em que a razão, democracia e liberdade imperam diante da sua contraparte oriental-islâmica (Said, 2007).

Esse “choque de civilizações”, tese apresentada por um intelectual orgânico do conservadorismo estadunidense, Samuel P. Huntington (1997), que ganhou força diante do ataque às Torres Gêmeas em 2001 (Fernandes, 2010), parece ser atualizada diante da nova conjuntura da colonização israelense na Palestina. A lógica discursiva do “nós contra eles” (Said, 2007) impõe uma relação inconciliável entre o Ocidente liberal e seu aliado israelense-sionista e o povo palestino oriental, associado imediatamente com o “terrorismo” do Hamas, como apontado nos anos 1990 por Huntington.

O apoio do guardião ocidental estadunidense (Huntington, 1997, p. 19) não é meramente discursivo. As chamadas big techs, conglomerados monopolistas do setor de tecnologia dos Estados Unidos, possuem contratos com o exército israelense para fornecerem suas infraestruturas de nuvem e de inteligência artificial (IA) para a identificação de possíveis alvos militares (Silveira, 2025, p. 17). A partir de um complexo militar-industrial-dataficado (Ibidem), essas grandes empresas de tecnologia se tornaram personagens indispensáveis para a guerra moderna pela capacidade de armazenamento e processamento de dados de populações do mundo todo, em que suas infraestruturas digitais servem como armas de guerra (Ibidem, p. 26). Vigiar, estabelecer previamente alvos militares, automatizar decisões e executar ataques nunca foi tão preciso quanto ao uso das tecnologias da informação e comunicação na arte da guerra (Ibidem).

Nesse sentido, o objetivo desse texto é analisar a relação entre esse novo maquinário de guerra inaugurado com o complexo militar-industrial-dataficado, especificamente com o avanço da IA, com a tese do “choque de civilizações” de Huntington, demonstrando como as big techs atuam como intermediários da defesa do mundo ocidental e do aliado israelense na colonização da Palestina. Dividiremos o texto em mais três partes. Na primeira apresentaremos a ideia de Huntington sobre o “choque de civilizações” e sua atualização diante o genocídio palestino. Posteriormente, analisaremos o uso da IA pelo exército israelense em suas operações militares, principalmente após 7 de outubro de 2023. Por fim, caminharemos para nossas conclusões finais.

O choque de civilizações 2.0

Após o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, Huntington (1997) apresenta uma interpretação para esse novo período. O conflito ideológico da Guerra Fria seria substituído pela oposição cultural e civilizacional entre os países (Ibidem). A identidade cultural de cada civilização seria um marcador que garantiria simultaneamente uma coesão interna e uma diferenciação externa (Ibidem, p. 18), numa relação marcada pelo caráter inconciliável de cada civilização e cultura (Fernandes, 2010, p. 422).

Segundo Huntington, a decadência da hegemonia ocidental, o avanço do desenvolvimento econômico, militar e político chinês e o crescimento do islamismo no mundo alterariam o quadro geopolítico global, sendo que “pela primeira vez na história” viveríamos em um mundo multipolar e multicivilizacional (Ibidem, p. 19). As pretensões universalistas do Ocidente levam ao choque entre as civilizações emergentes. Para que o Ocidente sobreviva, o autor deposita a confiança na reafirmação cultural ocidental pelos Estados Unidos, considerando que sua cultura é singular e não universal (Ibidem).

Nesse mundo multipolar pós-guerra fria a distinção fundamental entre as civilizações seria a cultural, predominando sobre a política, a ideologia e a economia (Ibidem, p. 20). Ou em suas próprias palavras, “nesse novo mundo, a política local é a política da etnia e a política mundial é a política das civilizações” (Ibidem, p. 21), superando a rivalidade das superpotências pelo choque entre civilizações (Ibidem). Ao dividir as civilizações em nove, a Ocidental, Africana, Islâmica, Sínica, Hindu, Ortodoxa, Latino-Americana, Budista e Japonesa, as novas alianças e os novos inimigos geopolíticos seriam medidos a partir da afinidade cultural dos países (Ibidem, p. 36). A singularidade de cada civilização e cultura parte de um paradigma etnocentrista que não considera a inter-relação cultural e histórica entre os povos, tomando pela negativa as características não-ocidentais da civilização do “outro” (Fernandes, 2010, p. 427).

Diante do “repúdio” à civilização ocidental (Huntington, 1997, p. 390) propagado pelo multiculturalismo, que supostamente é contrário aos valores democráticos, igualitários, da propriedade privada e ao homem branco, pilares do ocidente, os Estados Unidos são colocados como o ator principal da manutenção do modo de vida ocidental (Ibidem). Os desafios para se evitar a “decadência” da civilização ocidental passaria com sua união econômica e política na liderança dos Estados Unidos, em que esse último reafirme sua identidade cultural e civilizatória ocidental (Ibidem, p. 392). Essa reafirmação passaria por vias políticas, econômicas, culturais, tecnológicas e militares (Ibidem, p. 396).

A tese de Huntington ganhou mais força com o 11 de setembro de 2001, uma validação do choque entre as civilizações ocidentais e orientais: a racionalidade, democracia e laicidade seriam o exato oposto do fundamentalismo islâmico (Fernandes, 2010, p. 429). A relação entre o Ocidente e o resto do mundo, típico da Guerra Fria, se manteve na tese do choque entre civilizações (Said, 2001), colocando mais ênfase na “distinção ontológica e epistemológica” (Idem, 2007, p. 29) entre o mundo ocidental e o mundo oriental islâmico, uma expressão clássica do orientalismo.

A hegemonia política e cultural possibilitou ao Ocidente uma legitimidade discursiva para tratar do chamado Oriente, e menos como uma verdade absoluta da pluralidade de povos do “resto” do mundo (Ibidem, p. 33). A divisão arbitrária e essencialista, que visa naturalizar a invenção da separação geográfica entre ocidente e oriente (Ibidem), é vista como algo dado da realidade e não uma construção sócio-histórica da modernidade capitalista e colonial. Assim sendo, permite a Huntington a homogeneizar e naturalizar tanto o Ocidente como o Oriente, não apresentando quaisquer tipos de conflito ou alternativas dentro desses blocos (Fernandes, 2010, p. 428). Os marcadores étnicos e religiosos do Oriente são postos em contraste com a naturalidade da posição ocidental, que longe de apresentar distinções, é a norma comparativa (Ibidem, p. 429).

Nos parece que a tese do choque de civilizações de Huntington ganha uma nova atualização em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas realiza um ataque a Israel. O principal aliado do Ocidente no Oriente Médio e partícipe do mundo livre e democrático, o sionismo e o colonialismo de povoamento israelense é uma extensão do antigo conflito Ocidente e Oriente (Said, 2012, p. 33). O mundo judaico-cristão do Ocidente tem em Israel um dos principais braços da sua hegemonia cultural e racial por ser uma autoridade discursiva e política para se falar dos povos islâmicos, especificamente os palestinos (Ibidem, p. 34). Apenas o sionismo pode falar sobre o seu inimigo, e qualquer questionamento é moralmente condenável e indecente (Ibidem, p. 35).

O compartilhamento do progresso, da modernidade e de uma ideia de missão civilizatória no Oriente unem a ideologia ocidental com o sionismo, valorizando assim “a superioridade do homem branco e seu direito sobre territórios considerados consoantes com esses ideais” (Ibidem, p. 34). Dessa maneira, naturaliza-se uma história de um processo colonial – iniciado pela colonização inglesa, é verdade – de expropriação, apartheid e limpeza étnica, em que a negação da cidadania e de um Estado Palestino oculta que os sionistas não são originários daquela terra, mas sim majoritariamente da Europa (Ibidem, p. 42-3; Pappe, 2022).

Numa situação absoluta de privação de direitos humanos básicos, o “direito de ter direitos” (Arendt, 2012, p. 403) da população palestina é inexistente na “única democracia do Oriente Médio” (Pappe, 2022, p. 155). Prisões arbitrárias, expulsão de territórios, negação do direito de retorno à pátria, formação de grupos armados de colonos para expropriação de terras, negação ao direito ao trabalho e habitação e uma sistemática política de limpeza étnica são algumas das violações básicas praticadas (Ibidem; idem, 2017). Coincidentemente, relembra as ações realizadas pelo nazismo e na culminação do holocausto judeu: “antes de acionarem as câmeras de gás” (Arendt, 2012, p. 402), privou-se todo um povo de mínimas condições legais e de subsistência (Ibidem). No holocausto palestino, a negação de direitos veio antes, ou concomitantemente, com a negação do direito à vida (Ibidem).

O complexo militar-industrial-dataficado: a IA como arma de extermínio

Constrói-se assim o novo-velho inimigo do choque de civilizações de Huntington. Como tudo isso se relaciona com o uso da IA por forças militares israelenses nos acontecimentos posteriores a 7 de outubro de 2023?

Após o 11 de setembro de 2001, a “guerra ao terror” se tornou um elemento central na política interna e externa dos Estados Unidos (Silveira, 2025, p. 111). Com ela, a vigilância e violação de privacidade em nome da “segurança global” do principal representante do “mundo livre” se tornou imperativo nas ações militares estadunidenses, contando com as transformações das tecnologias da informação para o aprimoramento das tecnologias de guerra (Ibidem). A guerra moral e virtuosa contra o inimigo externo oriental, árabe e islâmico transmitido ao vivo na televisão, com cenários que relembravam filmes ou videogames, demostravam a eficiência dessas novas tecnologias militares em selecionarem alvos e os eliminarem, mas sem as imagens de destruição típicas da Guerra do Vietnã: a tecnologia de certa forma “purificava” e banalizava a guerra (Ibidem, p. 108-9).

Com o avanço da tecnologia da IA, o governo dos Estados Unidos deu início ao Projeto Maven, que tinha por objetivo utilizar o aprendizado de máquina da IA para armazenar um grande volume de imagens e vídeos para drones militares (Ibidem, p. 22). Dessa maneira, identificar objetos, pessoas, selecionar alvos de forma automatizada traria uma economia de gastos e de tempo, além de aumentarem a eficiência de ações militares (Ibidem). O principal parceiro desse projeto era a Google, colaborando com suas infraestruturas de código aberto e armazenagem de dados (Ibidem, p. 23).

Com claros princípios éticos sendo rompidos, até mesmo o próprio lema do “não seja mal” da empresa sendo rompido, desenvolvedores, cientistas e engenheiros da Google protestaram contra o uso dessas tecnologias para fins militares (Ibidem). Cerca de 3100 trabalhadores da Google assinaram um manifesto contra o Projeto Maven[4], pedindo que a empresa rompesse o contrato com o governo estadunidense. Os protestos levaram a Google a abandonar o projeto[5]. No momento, a conjuntura política global não favorecia essa relação entre big techs e forças militares (Silveira, 2025, p. 23); em 2015, dois anos antes do início do projeto, até mesmo Elon Musk era contra o uso da IA para o desenvolvimento de armas automatizadas[6].

Contudo, o Projeto Maven continuou, com o objetivo de consolidar a relação entre o Departamento de Defesa estadunidense e as big techs, buscando desenvolver o aprendizado de máquina para criar sistemas de vigilância para o Pentágono (Silveira, 2025, p. 26). A dataficação, “um processo de tradução da vida em dados digitais rastreáveis, quantificáveis, analisáveis, performativos” (Lemos, 2021, p. 194), cria um padrão estatístico baseado no conjunto de dados inseridos no sistema de inteligência algorítmica, formando um determinado perfil do usuário detentor dos dados (Ibidem). Com isso, há uma tentativa de previsão das ações de um perfil baseado no conjunto de dados fornecidos, sejam eles dados sobre consumo, opiniões políticas ou locais visitados (Ibidem).

Por realizarem um processo de dataficação da vida social, em que se rastreia dados de maneira generalizada, possibilitando uma vigilância, monitoramento e controle, as big techs conseguem ter posse de dados de populações inteiras, algo que a maioria dos Estados-Nacionais não possuem (Silveira, 2025, p. 27). É perceptível o quão atraente é para qualquer força militar ter posse desses dados. O chamado complexo militar-industrial-dataficado, termo que recuperamos de Sérgio Amadeu da Silveira (Ibidem), é definido como a centralidade dos dados das big techs nas ações militares contemporâneas (Ibidem, p. 115):

Como as Forças Armadas dependem de volumes gigantescos de dados e da IA, as big techs estão no centro da gestão da guerra. Dito de modo diferente, a dataficação e o grande poder computacional adotado para o treinamento de modelos de IA e para a realização de interferências em tempo real levaram as Forças Armadas dos Estados Unidos a depender das infraestruturas de dados, do provimento de nuvem e dos frameworks das big techs. Aqui está o ponto de mudança. As empresas do vale do Silício se tornaram indispensáveis para a gestão da guerra (Ibidem, p. 117).

E o principal laboratório dessa nova gestão da guerra é Gaza (Ibidem; Loewenstein, 2024). Em 2021, Google e Amazon venceram uma licitação do Ministério das Finanças de Israel do Projeto Nimbus, no valor de US$1,2 bilhões para fornecerem infraestruturas de nuvem para o governo israelense, concentrando assim o tratamento de dados em data centers locais (Silveira, 2025, p. 43). Além de ser destinado para a indústria de tecnologia, o serviço também se estendia para os assuntos de defesa[7]. Ficaria a sua disposição o armazenamento de dados, o aprendizado de máquina da IA, aplicativos e ferramentas de identificação biométrica facial, categorização automática de imagens, rastreamento de objetos e até um recurso que analisa sentimentos, no qual avalia o conteúdo emocional de imagens, falas e textos com a plataforma Google Cloud[8].

Os laços da Google e Amazon com o Projeto Nimbus se dirigem muito mais para o fornecimento de tecnologias de mapeamento e vigilância dos palestinos na Faixa de Gaza do que para assuntos de administração pública[9]. Quando se iniciou a escalada dos ataques israelenses em outubro de 2023, os sistemas militares ficaram sobrecarregados devido ao aumento do número de soldados e militares adicionados nas plataformas digitais do exército. O problema foi solucionado pelos servidores da Amazon Web Services (AWS), que por terem um grande armazenamento de dados, possibilitam o armazenamento de dados de praticamente todos os cidadãos de Gaza para a Diretoria de Inteligência Militar de Israel. Essas informações contribuíram, por exemplo, na execução de ataques aéreos pela Força de Defesa de Israel (IDF)[10].

Com o aprendizado de máquina da IA, expandiu-se a capacidade de geração de possíveis alvos, sendo gerados cerca de 37.000 dados de palestinos suspeitos de integrarem o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina (JIP)[11]. O chamado Projeto Lavender é um sistema de IA usado pelas forças israelenses para identificar esses possíveis alvos militares em Gaza (Silveira, 2025, p. 85). É possível com o Lavender interceptar comunicações, dados de redes sociais e informações de inteligência e processar imagens de satélite (Ibidem).

Esse sistema possibilitou a automatização da seleção de alvos, o que levou ao exército israelense a não exigir uma verificação das decisões do Lavender, algo que normalmente era feito por um militar de alta patente. Pela mudança na política de designação do que era um “alvo humano”, que se referia a um oficial militar de alta patente inimigo, passando agora a ser considerado qualquer pessoa supostamente ligada ao Hamas ou a JIP, ampliou-se o número de alvos, que necessitou de uma maior automação. O Lavender se baseia nas características de agentes notórios do Hamas e da JIP que são inseridas em seu aprendizado de máquina para se criar um “perfil” do alvo[12].

A precisão de 90% na escolha dos alvos não impediu a classificação errônea e indiscriminada do sistema, que classificava potencialmente todas as pessoas de Gaza como alvos militares. Pessoas com nomes iguais a supostos membros do Hamas ou da JIP, policiais e funcionários da defesa civil palestina, parentes de militantes, pessoas que utilizavam celulares de supostos militantes e ex-militantes eram enquadrados. A única verificação realizada era se o alvo fosse do gênero masculino[13].

A eficiência do Lavender se deve a sua união com outros dois sistemas de IA. O Where´s Daddy seleciona residências dos alvos militares para a realização do ataque, rastreando-os até o momento em que estes se encontravam no local[14]. O The Gospel seleciona possíveis edifícios e estruturas que seriam operadas por militantes[15]. Ao se extinguir a política de nenhum dano colateral – mortes de civis, sem ligações com Hamas e JIP – militares das forças armadas israelenses afirmam que muitas de suas ações mataram mulheres e crianças[16]. Isso é confirmado pelos próprios dados do exército: 83% dos mortos em Gaza após outubro de 2023 eram civis[17].

Todo esse processo de fornecimento de tecnologias para Israel não passou despercebido pelos trabalhadores das big techs. Em 2021, trabalhadores da Google e da Amazon lançaram um manifesto contra o Projeto Nimbus, apontando os riscos de violação de Direitos Humanos que as infraestruturas da empresa poderiam trazer[18]. Em abril de 2024, protestos do grupo No Tech for Apartheid[19], que reúne trabalhadores das empresas citadas, resultou na demissão de 50 pessoas da Google, numa retaliação pela participação direta ou indireta dos trabalhadores no protesto[20].

A ausência de supervisão humana nas decisões automatizadas, além de aumentarem drasticamente o número de mortes, revela também uma crença absoluta nos sistemas de IA na resolução de assuntos militares, delegando ao sistema o sucesso ou o fracasso de determinada operação[21]. Parece que aqui temos uma amostra do tecnossolucionismo, como demonstra Evgeny Morozov (2018, p. 62): a tecnologia sendo capaz de solucionar contradições sociais, econômicas, políticas, e no caso aqui analisado, militares. Ao criar uma relação de dependência com os sistemas de IA, as big techs se tornam indispensáveis para a gerência da guerra contemporânea, transformando o complexo militar-industrial em complexo militar-industrial-dataficado (Silveira, 2025).

Utilizando Gaza como laboratório e vitrine de suas tecnologias de vigilância e de guerra (Loewenstein, 2024), o colonialismo de ocupação israelense testa em combate suas novas inovações[22]. É reconhecido as ligações do exército israelense com as polícias brasileiras, com contratos de fornecimento de armas e tecnologias de vigilância[23]. A interrupção do futuro do complexo industrial-militar-dataficado dependeria de um boicote generalizado das nações a ideia da defesa do “mundo livre ocidental” e do choque de civilizações (Huntington, 1997) constantemente atualizado, algo não visto no nosso horizonte atual.

Considerações finais

A tese de Samuel P. Huntington (1997) do “choque de civilizações” se vê atualizada nos eventos de 07 de outubro de 2023, no ataque do Hamas a Israel. Reforçando uma lógica de conflito entre “nós contra eles”, existente desde a Guerra Fria (Said, 2001), o autor defende o caráter inconciliável da cultura e civilização ocidental perante o resto do mundo (Fernandes, 2010). Para se manter a hegemonia cultural e política do ocidente (Said, 2007), os estereótipos do orientalismo são atualizados por Huntington para sua defesa do mundo ocidental. Integrando o hall do mundo livre, o colonialismo israelense é considerado o grande defensor da democracia e dos interesses ocidentais no chamado oriente (Pappe, 2017, 2022), mesmo que sua existência implique em políticas de limpeza étnica e genocídio claramente vistos (Ibidem; Said, 2012), em que o “direito em ter direitos” (Arendt, 2012) do povo palestino se vê constantemente negado.

As big techs entram na indústria militar ao oferecerem suas infraestruturas para o aprimoramento de tecnologias de vigilância e de dados. A importância da dataficação (Lemos, 2021) na guerra contemporânea transforma o complexo militar-industrial em complexo militar-industrial-dataficado (Silveira, 2025), em que se destaca a dependência e a participação de empresas de tecnologia em assuntos militares, principalmente as estadunidenses como Google e Amazon. Atualmente, Gaza demostra ser o laboratório dessa nova forma de gestão da guerra (Loewenstein, 2024), em que a perpetuação do genocídio de um povo passa a ser mediado por tecnologias digitais.


Notas

[1] https://esquerdaweb.com/palestina-um-debate-com-a-esquerda-no-brasil/.

[2] Folha de São Paulo. “Combatentes do Hamas fazem massacres e mantêm reféns no Sul de Israel”. 07/10/2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/combatentes-do-hamas-realizam-massacres-e-fazem-refens-no-sul-de-israel.shtml. Acesso em: 09/01/2026.

[3] Batista, Vitor Hugo. “Israel critica países que condenam novos assentamentos na Cisjordânia”. Folha de São Paulo, 25/12/2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/12/israel-critica-paises-que-condenaram-novos-assentamentos-na-cisjordania.shtml. Acesso em: 09/01/2026.

[4] ICRAC. Open letter in suport of Google employees and tech Workers. 25/06/2018. Disponível em: https://www.icrac.net/open-letter-in-support-of-google-employees-and-tech-workers/. Acesso em: 09/01/2026.

[5] Fang, Lee. “Google won´t renew its drone AI contract, but it may still sing future military AI contracts. Intercept, 01/06/2018. Disponível em: https://theintercept.com/2018/06/01/google-drone-ai-project-maven-contract-renew/. Acesso em: 09/01/2026.

[6] Gibbs, Samuel. “Musk, Wozniak and Hawking urge ban on warfare AI and autonomous weapons. The Guardian, 27/07/2015. Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2015/jul/27/musk-wozniak-hawking-ban-ai-autonomous-weapons. Acesso em: 09/01/2026.

[7] Ziv, Amitai. “Israel picks Google, Amazon for massive oficial cloud; ‘data will remain here’”. Haaretz, 21/04/2021. Disponível em: https://www.haaretz.com/israel-news/tech-news/2021-04-21/ty-article/israel-picks-google-amazon-for-official-state-cloud/0000017f-e896-dc91-a17f-fc9fd1ce0000. Acesso em: 09/01/2026.

[8] Biddle, Sam. “Documents reveal advanced AI tools Google is selling to Israel. Intercept, 24/07/2022. Disponível em: https://theintercept.com/2022/07/24/google-israel-artificial-intelligence-project-nimbus/. Acesso em: 09/01/2026.

[9] Haskins, Caroline. “The Hidden ties between Google and Amazon Project Nimbus and Israel´s military. Wired, 15/07/2024. Disponível em: https://www.wired.com/story/amazon-google-project-nimbus-israel-idf/. Acesso em: 09/01/2026.

[10] Abraham, Yuval. “’Order from Amazon’: how tech Giants are storing mass data for Israel´s war. +972 Magazine, 04/08/2024. Disponível em: https://www.972mag.com/cloud-israeli-army-gaza-amazon-google-microsoft/. Acesso em: 09/01/2026.

[11] Idem. “’Lavender’: the AI machine directing Israel ‘s bombing spree in Gaza”. +972 Magazine, 03/04/2024. Disponível em: https://www.972mag.com/lavender-ai-israeli-army-gaza/. Acesso em: 09/01/2026.

[12] Ibidem.

[13] Ibidem.

[14] Ibidem.

[15] Idem.”’A mass assassination factory’: inside Israel´s calculated bombing of Gaza”. +972 Magazine, 30/11/2023. Disponível em:  https://www.972mag.com/mass-assassination-factory-israel-calculated-bombing-gaza/. Acesso em: 09/01/2026.

[16] Idem. “’Lavender’: the AI machine directing Israel´s bombing spree in Gaza”, op cit.

[17] Idem. “Israeli army database suggests at least 83% of Gaza dead were civilians”. +972 Magazine, 21/08/2025. Disponível em: https://www.972mag.com/israeli-intelligence-database-83-percent-civilians-militants/. Acesso em: 09/01/2026.

[18] Anonymous Google and Amazon Workers. “We are Google and Amazon Workers. We condemn Project Nimbus. The Guardian, 12/10/2021. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/oct/12/google-amazon-workers-condemn-project-nimbus-israeli-military-contract.  Acesso em: 09/01/2026.

[19] No Tech for Apartheid. Disponível em: https://www.notechforapartheid.com/.

[20] Sainato, Michel. “Workers acuse Google of ‘tantrum’ after 50 fired over Israel contractr protest”. The Guardian, 27/04/2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2024/apr/27/google-project-nimbus-israel. Acesso em: 09/01/2026.

[21] Early-Robins, Nick. “How Israel uses facial-recognition systems in Gaza and beyond”. The Guardian, 19/04/2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2024/apr/19/idf-facial-recognition-surveillance-palestinians. Acesso em: 09/01/2026.

[22] Grim, Ryan. “Israel usa massacre em Gaza como propaganda de suas armas”. Intercept, 23/12/2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/12/23/israel-massacre-gaza-propaganda-armas/. Acesso em: 09/01/2026.

[23] Bouchard, Joseph. “Como armas e equipamentos de Israel turbinam a repressão na América Latina”. Intercept, 30/10/2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/10/30/como-armas-e-equipamentos-de-israel-turbinam-a-repressao-na-america-latina/. Acesso em: 09/01/2026.


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