As provocações e ameaças de destruição terminaram com o adiamento do ultimato de Trump ao Irã por duas semanas. O governo dos Estados Unidos se desespera para sair da situação sem a humilhação de confirmar a derrota.
11 de abril de 2026
O ultimato de Trump ao Irã terminou em um adiamento do prazo. É um ultimato muito estranho aquele que nunca se cumpre. As coisas são cada vez mais evidentes: Trump não consegue cumprir suas ameaças porque se abre uma crise política interna que ele não é capaz de controlar. Quando ficou claro que não conseguiria com Teerã o que obteve com relativa facilidade em Caracas, ficou sem estratégia. Entrou em uma guerra que acreditava ter vencido antes mesmo de começar. E quando ela realmente começou, encontrou-se sem as condições políticas para sustentá-la.
Nem sequer é possível saber o que os Estados Unidos querem com esse conflito. Toda guerra tem uma “estratégia”, um objetivo. Falou-se em mudança de regime, depois Trump pediu para participar da eleição do novo “Líder Supremo”, depois da entrega do urânio enriquecido…
O nível de humilhação é diretamente proporcional aos anúncios triunfalistas. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, foi a responsável por tentar apresentar a derrota como vitória na rede X: “Esta é uma vitória para os Estados Unidos que o presidente Trump e nosso incrível exército tornaram possível”. Por quê? “Graças às incríveis capacidades de nossos guerreiros, alcançamos e superamos nossos principais objetivos militares em 38 dias”. Quais?
Em todo o anúncio, conseguiu mostrar um único “triunfo”: “Além disso, o presidente Trump conseguiu reabrir o Estreito de Ormuz.”Antes da operação “Fúria Épica”, o Estreito de Ormuz estava aberto. Ou seja, a única conquista que Washington pode apresentar é que conseguiu voltar, em parte, ao momento anterior à sua agressão de fevereiro. Na realidade, o estreito não está aberto; no máximo, alguns cargueiros passam por uma pequena ilha. O trumpismo não consegue demonstrar nem que a situação esteja igual à de antes da agressão.
Resumindo: os Estados Unidos lançaram uma agressão militar que durou semanas e “conquistaram” que a situação ficasse pior para eles, deixando, de quebra, destruição sobre o Irã e seu povo.
Ultimato ao Irã e crise política para Trump
O desespero é evidente. Com a agressão de fevereiro, o trumpismo esperava forçar rapidamente Teerã a adotar uma posição de submissão, como havia conseguido com Caracas após o sequestro de Maduro. Trump queria resolver décadas de tensão em uma das regiões mais conflituosas do planeta de forma rápida e barata, tanto para reforçar seu projeto de imperialismo territorial quanto para exibir uma vitória fácil na política interna. Deu tudo errado.
Em vez de uma vitória fácil, acabou atolado em um conflito longo e custoso. O regime de Teerã não apenas respondeu militarmente, como também impôs um duro golpe econômico com o fechamento do Estreito de Ormuz. E Trump passou semanas entre ameaças, pedidos de ajuda a aliados, desprezo pelos aliados, declarações sobre negociações avançadas, novas ameaças — e assim por diante.
Trump simplesmente não tem condições políticas para iniciar uma nova guerra formal no Oriente Médio, com intervenção de tropas em solo. Como já afirmávamos em uma declaração da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie:
“o consenso total, tanto popular quanto entre as classes dominantes norte-americanas, que existia nas guerras de Bush não existe de forma alguma nas guerras de Trump. Pelo contrário, cada passo de agressão externa do trumpismo rasga cada vez mais o tecido político interno dos Estados Unidos, com todos os seus consensos”.
De fato, Trump não quer iniciar a guerra real que vem ameaçando, porque isso pode significar a derrota definitiva de suas aspirações políticas. Mas, ao mesmo tempo, quer mostrar que sua ofensiva não foi completamente derrotada. Não consegue.
Não se trata de força militar, mas de força política. É evidente que o poder militar dos Estados Unidos é esmagadoramente superior. Mas não possui condições para impor uma guerra total — muito menos um genocídio — com tropas em campo, e o regime iraniano sabe disso.
Por isso, Teerã se sentiu suficientemente forte para apresentar suas próprias condições máximas para um acordo:
- Garantia de não agressão
- Controle iraniano do Estreito de Ormuz
- Fim da guerra regional e da intervenção no Líbano
- Retirada das forças de combate dos EUA
- Reparações econômicas ao Irã
- Reconhecimento do direito do Irã de enriquecer urânio
- Suspensão das sanções primárias
- Fim das sanções secundárias
- Cancelamento das resoluções da Agência Internacional de Energia Atômica
- Revogação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU
Passou-se, em um único dia, da ameaça de destruir “toda uma civilização” à discussão de negociações diretas de paz entre Estados Unidos e Irã — sem qualquer participação de Israel. Não é um detalhe menor que o sionismo tenha sido excluído das negociações. A provocação evidente de Netanyahu, ao matar centenas de pessoas no sul do Líbano poucas horas após o anúncio da trégua, colocou os Estados Unidos em uma situação desconfortável.
Os porta-vozes da Casa Branca classificaram essas condições como “falsas”, até como “fake news”. É difícil entender como uma proposta de negociação tornada pública pode ser “fake”, se nem sequer é uma notícia. Provavelmente são posições iniciais para negociar depois concessões menores, mas continuam sendo as condições colocadas pelo regime dos aiatolás. O simples fato de Teerã tê-las tornado públicas mostra a posição incômoda de Trump.
É mais do que evidente que o ultimato de Trump ao Irã era uma bravata perigosíssima que ele mesmo não sabia se poderia cumprir.
O Estreito de Ormuz voltou a ser fechado. O regime iraniano segue no poder. Não há acordo sobre a entrega de urânio enriquecido, apesar das bravatas de Washington. E, ainda assim, falam em vitória.
O regime iraniano e a mobilização popular
Roberto Sáenz, dirigente da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie, afirmou sobre o cessar-fogo após o ultimato de Trump ao Irã:
“O cessar-fogo no Irã é uma primeira vitória do povo iraniano. Embora não apoiemos o regime reacionário dos aiatolás e nos oponhamos firmemente às suas penas de morte contra quem o desafia desde baixo, defendemos incondicionalmente a nação iraniana contra o ataque bárbaro de Trump e Netanyahu. Sobretudo, Trump sai mal dessa bravata.”
Os simpatizantes da posição dos Estados Unidos continuam apostando na ideia de que a agressão externa impulsionaria a mobilização popular. Os fatos mostram o contrário: a agressão da potência estrangeira serviu para frear a participação política independente que vinha crescendo no Irã em dezembro e janeiro.
A operação de 25 de fevereiro, que eliminou as principais lideranças do regime de Teerã, parecia tê-lo colocado contra as cordas. Mas o regime demonstrou uma capacidade de resistência muito maior do que o esperado. O atual chefe da CIA já havia advertido Trump de que as previsões de uma queda fácil dos aiatolás eram pouco sérias. Teerã não é Caracas.
Mesmo assim, o governo iraniano quer, a qualquer custo, entrar em negociações reais. Frear a morte de seus líderes é uma necessidade urgente, assim como aliviar a crise econômica profunda que atinge o país. Não há unanimidade popular sobre a legitimidade do governo, como mostraram as mobilizações, e é praticamente certo que, ao menos nas grandes cidades, o regime seja profundamente impopular. [NT: ver “Leiam as mensagens e as vozes que chegam do Irã!”]
Mas Trump demonstrou ser incapaz de sustentar a aparência de aliado das massas populares iranianas (ou de qualquer outro lugar do mundo). Seu ultimato veio acompanhado de ameaças de destruir uma civilização e levá-la “de volta à Idade da Pedra”. Essas não são ameaças contra déspotas, mas contra todo um povo. O imperialismo não pode emancipar ninguém por sua própria natureza de sistema de opressão — e, sob Trump, nem sequer consegue fingir que quer fazê-lo.
Mais uma vez, a mobilização popular se mostra como a única força potencialmente emancipadora. O povo iraniano só poderá se libertar com suas próprias mãos.









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