Após a ameaça lançada por Trump contra o povo iraniano na terça-feira, 6 de abril, os companheiros do Coletivo Roja, formado por membros da diáspora iraniana, afegã e curda em Paris, publicaram uma série de mensagens vindas do Irã, nas quais se relata a angústia vivida pela população em meio aos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel, e à opressão do regime dos aiatolás. São poucos relatos, mas que conseguem romper o silêncio imposto pelo corte de internet que pesa sobre a população iraniana.
Por Coletivo Roja
“Acreditem: prefiro morrer com um tiro da República Islâmica, na rua, protestando, do que morrer em casa, sem ter feito nada, atingido por um míssil — que, no fundo, tanto faz de onde venha. Pelo menos na minha própria morte, quero ter alguma participação.”
“Teerã está sendo destruída. Muitas cidades estão desaparecendo. As ruínas caem sobre nós e já não temos forças para encarar uma devastação dessa dimensão. As pessoas estão angustiadas e com medo. Não só por causa dos mísseis e dos aviões de guerra. Há também a preocupação com o desemprego, a miséria, a falta de condições básicas e o deslocamento forçado. Todos se perguntam como seguir em meio a tantas ruínas e desespero. O pesadelo da guerra.”
“Há afirmações que não são negociáveis; não admitem ressalvas, nem ‘mas’, nem ‘se’. ‘Não à guerra’ é uma frase completa, não precisa de explicação. Isso quer dizer que um agressor é apenas isso: um agressor. Não existe ‘bom’ agressor, nem justificativa possível. ‘Não à pena de morte’ é a mesma coisa. Não à pena de morte — sem condição, sem exceção, sem recuo. Não à pena de morte, para qualquer pessoa, por qualquer motivo.”
“Boa noite, Kaveh. Tenha uma boa noite. O que há de novo? Como você está lidando com o estresse nesses dias? Estamos todos exaustos, no limite. Brincamos dizendo que não temos nem eletricidade, nem água, nem pão.
O medo está nos olhos de todo mundo. Mas não podemos fazer nada. Nem sequer temos internet para entender o que está acontecendo no mundo. O que é verdade, o que é mentira? Como fazer nossa voz chegar ao mundo e dizer que não queremos a guerra, que não queremos que Trump venha dizer que fomos nós que pedimos que jogassem bombas sobre nossas cabeças, que nos matem?
Depois de 37 ou 38 dias, já gastei muito dinheiro com VPN e vi o quanto tudo isso é caótico: não há sequer uma pessoa que diga que, neste momento, o povo no Irã não tem voz, que está no fundo de um poço. Por que todo mundo fala em nome do povo, expressando, no lugar dele, suas próprias reivindicações?”
“Há mais de um mês dormimos ao som de aviões de combate e explosões, acordamos com esses mesmos ruídos e, no meio de todo esse medo, ainda tentamos seguir com algo que se pareça com uma ‘vida’.
Enquanto isso, em outras partes do mundo, no coração do conforto e da segurança, há quem esteja sentado falando de bomba atômica como se fosse algo banal; como se cada explosão aqui já não pudesse tirar várias vidas, sem nem precisar falar de uma bomba nuclear.
Estamos, literalmente, presos. A cada dia perdemos vidas civis que nos são próximas; temos medo, choramos e, às vezes, forçamos um sorriso, simplesmente para continuar. Da manhã à noite, lutamos com configurações e todo tipo de VPN, vivendo a cada instante com a mesma pergunta: no minuto seguinte, a casa ainda vai estar de pé ou não?”
“Para nós, a guerra não é apenas uma notícia ou uma análise política; é a vida desmoronando, respiro após respiro. A guerra deles é o nosso pesadelo de todas as noites.
Não à guerra, não às bombas, não às decisões tomadas de perto ou de longe sobre as nossas vidas.”
“Os preços dos produtos dispararam. Não falta mercadoria, o que falta é dinheiro no bolso das pessoas. Diante dos preços, na hora de comprar, a reação é só de revolta. A atividade econômica está paralisada e as economias estão se esgotando. Nossa desgraça já não se resume à guerra e ao corte de internet; também são a pobreza e o desemprego.’
“A guerra deixou de ser apenas militar e passou a invadir o cotidiano da sociedade. Os alvos já não são só os quartéis: agora são a eletricidade nas casas, o combustível nas engrenagens da economia, o pão na mesa da população. Quando as usinas de energia são atacadas, o silêncio que se instala é o da vida interrompida. Um hospital sem eletricidade se transforma em um lugar de morte. Quando refinarias e depósitos de combustível são destruídos, não é apenas a energia que desaparece: é toda a cadeia da vida que se rompe. Um caminhão que deixa de circular já não leva pão nem alimentos às cidades.”
“Nesta região do mundo, em um país já castigado pelo custo do pão, pela eletricidade e pela própria sobrevivência, nenhuma nova decisão é suportável. É justamente neste momento que as pessoas comuns estão morrendo, e a sobrevivência passa a ocupar o lugar da vida.”
“Nada justifica o chamado à guerra, e nada jamais o justificará. Nenhum crime pode servir para legitimar outro, e nenhum ato criminoso se torna aceitável sob o pretexto de atingir outro criminoso. Àqueles que, diante de um crime, o justificam, o multiplicam em nome de um suposto interesse superior, ou escolhem o silêncio por medo, refugiando-se nele, cabe apenas uma palavra: vergonha.
Aqui, no Irã, somos esmagados por ambos os lados e exigimos que cada um responda por seus crimes. Mas, se os seus direitos humanos são de geometria variável, se a sua compaixão só vale quando convém a um dos lados e, diante dos corpos mutilados de crianças, de inocentes e de outras vítimas do monstro da guerra e de seu banho de sangue, vocês escolhem o silêncio, então isso basta para desacreditar todas as suas posições e pretensões em matéria de direitos humanos.
Eu, uma voz que surge sob as bombas em Teerã, com a garganta apertada pela raiva e pela fúria, tenho apenas uma mensagem para vocês: vergonha.”
“Os defensores desses ataques chegaram a um ponto em que precisam responder a uma pergunta simples: quando fábricas siderúrgicas, centros farmacêuticos e também infraestruturas de energia e transporte são atingidos, onde está exatamente a ‘guerra’? Esses não são alvos militares. São os pilares de uma sociedade.
Quando um setor industrial responsável pela maior parte da produção de aço do país é atacado, é toda a cadeia da construção, do emprego e da produção que se desorganiza.
Quando centros farmacêuticos são atacados, a redução no acesso a medicamentos e a pressão sobre os doentes são apenas uma parte das consequências reais.
“Para sustentar esse discurso, os defensores desses ataques acabam ignorando várias realidades ao mesmo tempo: que a destruição das infraestruturas atinge diretamente a vida das pessoas; que sua reconstrução leva décadas; e que uma sociedade reduzida à simples sobrevivência já não tem capacidade de se transformar.
Aqui, a população deixa de ser sujeito político e passa a ser tratada como instrumento. Quando convém, entra na conta como custo; quando incomoda, é apagada do discurso.
Nenhuma corrente pode dizer que defende o povo enquanto apoia ações que atacam diretamente suas condições de existência.”
“Boicote!
Boicote internacional ao Irã e aos seus jornalistas mercenários. Já não compro em comércios iranianos que apoiaram o ataque contra o Irã.
Enquanto um tribunal competente não julgar os crimes dos partidários dos Pahlavi na disseminação da morte, da violência e dos crimes de guerra, essas pessoas devem, no mínimo, ser boicotadas dentro da sociedade iraniana.
Não ao despotismo da República Islâmica. Não ao despotismo pahlavi. Não ao imperialismo dos Estados Unidos e de Israel. Não à guerra.
Mulher, Vida, Liberdade!”










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