No dia 23 de maio, durante a tradicional Festa de Aniversário de Marx, a Editora Boitempo lançou o livro O marxismo e a transição socialista, escrito pelo militante argentino Roberto Sáenz, dirigente da corrente internacional Socialismo ou Barbárie e do partido Nuevo MAS. Sáenz retoma as obras de Marx, Engels e importantes figuras revolucionárias do século XX para apresentar um balanço das revoluções do passado e reinterpretar as perspectivas do futuro.
Por Maria Cordeiro

Entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição cujo Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado.
Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha. 1875.
No sábado do dia 23 de maio ocorreu a tradicional Festa de Aniversário de Marx, promovida pela editora independente brasileira Boitempo no Espaço Cultural Elza Soares.
O dia celebrou os 208 anos do nascimento do grande teórico militante com mesas de debates, sessão de autógrafos, venda de livros e finalizou cantando parabéns ao Marx. O evento reuniu intelectuais da esquerda brasileira, inclusive o teórico militante Argentino Roberto Sáenz, dirigente da corrente internacional Socialismo ou Barbárie e do partido NuevoMas na Argentina. Roberto lançou pela Boitempo seu primeiro livro traduzido ao português: Marxismo e a Transição Socialista – Estado, poder e burocracia.
Roberto Sáenz destacou-se na festa, marcada pela presença de diversos acadêmicos formais do marxismo. No entanto, longe de se tratar de uma obra academicista ortodoxa, seu livro reúne décadas de acúmulo militante e resgata as obras de Marx, Engels, Trotsky, Rakovsky e tantos outros autores revolucionários para realizar um balanço necessário das revoluções do século XX. O livro é absolutamente original, com o intuito de munir as novas gerações com política revolucionária para transformarem o mundo.
O livro realiza um balanço das revoluções anticapitalistas do século XX, contrapondo conceitos clássicos do marxismo às experiências de expropriação do capitalismo ocorridas naquele período. A obra, inédita e original, reúne uma ampla bibliografia e demonstra que a expropriação do capitalismo não é sinônimo de socialismo. Sáenz mobiliza o conjunto das ferramentas do materialismo dialético para explicar o caráter contrarrevolucionário da burocratização stalinista da URSS e seus desdobramentos em outras revoluções, um verdadeiro hieróglifo político e social de difícil compreensão para grande parte das correntes trotskistas do pós-guerra.
O autor resgata a obra de Christian Rakovski (esquecida pela maioria das correntes trotskistas), e particularmente a sua definição da burocracia soviética como uma classe política. Segundo o bolchevique de origem búlgara,a burocracia stalinista não era uma burocracia oriunda de uma classe social orgânica, isto é, derivada diretamente de bases econômicas e sociais, tampouco uma mera burocracia residual de uma classe operária no poder. Tratava-se, precisamente, de um fenômeno absolutamente original: uma nova categoria social forjada a partir do próprio exercício do poder em um Estado no qual os meios de produção haviam sido estatizados, os quais a burocracia controlava sem forma nenhuma de controle democrático por parte da classe operária.
Outro elemento central da obra de Roberto é a discussão a respeito da definição de ‘Estado operário’, categoria imprecisa, pois Sáenz argumenta que o caráter real do Estado em transição reside no exercício efetivo do poder pela classe operária; assim, a noção de ‘Estado operário’ torna-se abstrata. O sentido oposto é a caracterização de ‘ditadura revolucionária do proletariado’, pois é uma categoria que fala do exercício real e impreterível da classe operária no poder (de fato, foi a categoria utilizada pelo Marx)
Por fim, a partir das reflexões presentes no texto e do diálogo com diversas fontes primárias e secundárias, inclusive dialogando com Darwin, a máxima de Marx se faz presente: “democracia é forma e conteúdo ao mesmo tempo”. Sáenz afirma que a experiência da URSS não se tratou de um ‘Estado operário degenerado’, como ainda defendem muitas organizações trotskistas objetivistas, mas sim um Estado burocrático com resquícios de revolução. Ou seja, é antitético que a classe operária esteja no poder e ao mesmo tempo uma classe política tenha controle da produção, da economia, da jurisdição, do exército e da política externa e interna do Estado. Nenhum nível de “degeneração” pode comportar a negação dos trabalhadores efetivamente no poder, apresentando alguns resquícios das conquistas da revolução.
O debate presente tem grande relevância, pois na obra se apresenta em um momento singular do capitalismo: uma nova época de crises, guerras e, a possibilidade do retorno das revoluções. Observa-se uma crise das democracias burguesas e da conciliação de classes, com dificuldade em apresentar soluções consistentes e duradouras dentro do regime. A contemporaneidade está caracterizada por intensa instabilidade e polarização, fato que favorece tanto o avanço da extrema direita quanto o desenvolvimento de movimentos de resistência e pólos de organização anticapitalista.
Por isso, mais que nunca, coloca-se na ordem do dia a formação de novas gerações marxistas revolucionárias capazes de olhar criticamente para o passado para enfrentar os problemas e também da transição ao socialismo, que o estalinismo no século XX distorceu tanto política quanto teoricamente. Nesse sentido, a obra tem o objetivo de relançar o marxismo revolucionário para a formação de novas gerações militantes
Esse é o esforço da nova obra de Roberto Sáenz: oferecer uma contribuição original para ampliar os horizontes do marxismo revolucionário para contribuir às lutas que estão por vir, e, por fim, suscitar debates e novas elaborações.
Por isso, para enriquecer o debate, acontecerá, neste mês de junho, o seminário “Marxismo e a Transição Socialista para o Século XXI” para debater elementos presentes na obra e perspectivas para os marxistas revolucionários nos dias de hoje.






[…] Grande lançamento da obra “O Marxismo e a Transição Socialista” pela Boitempo por Maria Cordeiro […]