Ainda sobre a polêmica e os limites da “Bancada da Esquerda Radical”, vejamos um exemplo concreto, capaz de colocar à prova suas medidas programáticas e jogar luz sobre sua atuação parlamentar.
Por ONTDR
De dezembro de 2025 a abril deste ano, nós, da Organização Nacional dos Trabalhadores sobre Duas Rodas (ONTDR), travamos incansavelmente uma batalha para derrotar o PLP 152. Um projeto que representava uma nova contrarreforma trabalhista e a legalização da escravidão moderna. Seus autores e apoiadores? Extrema direita, Centrão, governo federal, Boulos e sua base (Aliança Nacional dos Entregadores e Movimento Trabalhadores Sem Direitos): estavam todos juntos.
Quando a votação do projeto se aproximava, começamos a buscar, de todas as maneiras, apoio, ajuda, qualquer contribuição que nos permitisse organizar uma caravana nacional para Brasília. De um lado, Boulos cooptava “lideranças” para embelezar e legitimar o ataque. De outro, a ala “esquerda do PSOL” posicionava-se pontualmente contra o projeto, mas não compreendia a centralidade daquela luta para toda a classe trabalhadora.
Demos nosso jeito e fomos para Brasília. Chegamos no dia 14 de abril e colocamos contra a parede o relator da matéria, o deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE). Pressionado, ele nos disse que o projeto havia sido construído com o governo, mas que não seria votado por causa da mobilização e da falta de acordos cosméticos com o próprio governo.
Derrotamos aquele ataque histórico, sobretudo por meio das mobilizações nas ruas e da “tomada da Câmara”. Mas e depois?
Fomos convidados pela bancada do PSOL – com exceção da turma de Boulos e Erika Hilton -, por intermédio de sua liderança na Câmara, exercida por Tarcísio Motta, para uma reunião. Todos os presentes, em acordo com a liderança partidária, comprometeram-se a apoiar publicamente nossa nova ofensiva tática: exigir do governo federal uma Medida Provisória que garantisse um piso mínimo nacional para entregadores e entregadoras, além de seguro contra acidentes e seguro de vida. Nada além disso.
E por que essa tática? Ora, se conseguíssemos construir uma correlação de forças capaz de obrigar o governo a assinar tal medida – como fizeram os caminhoneiros -, nossa categoria teria, por pelo menos 60 dias, a experiência concreta de receber um piso remuneratório superior ao atual. Em pleno ano eleitoral, qualquer tentativa do Congresso de derrubar a medida incendiaria os ânimos da categoria e tornaria politicamente custoso revertê-la, sem que deputados e senadores se desmascarassem como verdadeiros inimigos dos trabalhadores. Seria, portanto, uma conquista dupla: melhorias salariais imediatas e educação política da categoria.
Iniciamos uma forte campanha de abaixo-assinado e elaboramos juridicamente o texto da proposta, com professores da área do Direito do Trabalho, para que os parlamentares da “ala esquerda” do PSOL o entregassem ao governo federal junto com nossos companheiros da ONTDR de Brasília.
E qual foi o fim da história?
O pessoal da “Bancada da Esquerda Radical” não assinou sequer o manifesto. Nunca exigiu publicamente nem se pronunciou a favor da nossa MP da taxa mínima. Passou a ignorar os chamados da ONTDR para levar adiante aquilo que havia sido prometido.
No imaginário dos nossos companheiros, terminaram no mesmo saco de farinha do lulismo e do boulismo. E isso ocorreu por suas próprias decisões políticas: recusaram-se a enfrentar o governo Lula até mesmo em uma questão concreta, partindo de uma vitória conquistada por nós com a derrota do PLP 152 e de uma reivindicação sustentada há mais de seis anos por uma das categorias que mais têm realizado greves no país.
Esse relato é pedagógico porque revela os limites e as contradições de uma bancada que combina a grandiosidade retórica de se apresentar como radical com uma atuação adaptada e rotineira. Na primeira oportunidade de enfrentar o governo a partir de uma reivindicação concreta, vinda de baixo e formulada diretamente pelos trabalhadores, nada fez além de se silenciar e repetir o bom e velho “mais do mesmo”.
O exemplo do PLP 152 também foi ilustrativo de como poderia ter sido exercida uma ação parlamentar revolucionária. Uma bancada comprometida com a independência de classe deveria ter colocado seus mandatos a serviço da mobilização, utilizado a tribuna parlamentar para denunciar o acordo entre o governo, as empresas-plataformas e o Congresso, convocado sua militância para as ruas e transformado a exigência da MP da taxa mínima em uma campanha política nacional. Em vez de substituir a ação direta dos trabalhadores, sua atuação parlamentar deveria contribuir para fortalecê-la, ampliá-la e levá-la até as últimas consequências.
Por isso, caso queiram de fato constituir uma bancada radical e representar os interesses dos trabalhadores nas eleições e nas lutas diretas, precisam deixar de ser a ala esquerda do lulismo. Isso significa romper com o PSOL e com sua política de adaptação ao governo Lula, assumir um programa anticapitalista e defender abertamente a independência política da classe trabalhadora diante dos patrões, dos governos e da burocracia.
Significa, ainda, colocar seus mandatos ao lado dos trabalhadores nas greves, nas ocupações, nos bloqueios, nas paralisações e em todas as formas de luta direta. Não basta apresentar projetos, fazer discursos ou formular críticas parciais dentro do Parlamento. Uma bancada que se pretenda revolucionária deve utilizar cada mandato como instrumento das lutas sociais, subordinando sua atuação institucional à organização e à mobilização independente dos trabalhadores.
Por fim, é necessário que essas correntes sejam parte da construção de uma Frente Única Anticapitalista e Independente, capaz de elaborar coletivamente um programa, constituir uma frente política e apresentar uma candidatura independente da burguesia e de seus governos. Uma alternativa que se proponha a derrotar a extrema direita, mas também a enfrentar os ataques do governo Lula e dos demais governos contra a classe trabalhadora.
Sem ruptura com o lulismo, sem independência de classe e sem compromisso concreto com as lutas diretas, a expressão “Bancada da Esquerda Radical” continuará sendo apenas um nome grandioso para uma prática parlamentar perfeitamente integrada ao “mais do mesmo”.









