A luta contra a escala 6×1 pode catalisar a mobilização necessária para derrotar a extrema direita e o imperialismo trumpista, além de enfrentar os ataques e vacilações da conciliação de classes
Por ANTONIO SOLER
A batalha pelo fim da escala 6×1 tornou-se uma das pautas mais populares do país. Não por acaso. Ela toca uma experiência cotidiana compartilhada por milhões de trabalhadores que vivem submetidos a jornadas exaustivas, baixos salários e à ausência quase completa de tempo livre. Enquanto empresários falam em produtividade e competitividade, a realidade é que uma parcela crescente da população trabalha cada vez mais para ganhar absoluta e relativamente cada vez menos e, quase sempre, viver cada vez pior.
A força que essa reivindicação expõe é uma contradição importante da conjuntura brasileira e latino-americana. De um lado, existe enorme insatisfação social e disposição para lutar por melhores condições de vida e pela própria existência… De outro, as principais direções políticas e sindicais – principalmente falando nas do campo lulista – seguem apostando quase exclusivamente na negociação institucional, deslocando para o Congresso e para os gabinetes aquilo que só pode ser conquistado pela mobilização auto-organizada do movimento de massas.
Mas, a saída institucional apenas recoloca o eterno retorno da manutenção da ordem capitalista e da direita ao poder. Mais recentemente, a América Latina passa por eleições em que a direita sai vitoriosa, exemplificada com a vitória do empresário de ultra direita Abelardo de la Espriella na Colômbia. Ele obteve 49,66% dos votos válidos no segundo turno, derrotando o senador da esquerda da ordem Iván Cepeda, que alcançou cerca de 48,7%. A diferença de votos foi de aproximadamente 250 mil, representando uma vantagem inferior a um ponto percentual. Isso demonstra ser parte de uma tendência recente em que, nos últimos três anos, eleições altamente polarizadas têm favorecido candidaturas conservadoras e de direita em vários países sul-americanos. Nesse cenário, candidaturas de centro perderam relevância, enquanto governos ou candidaturas da esquerda da ordem foram derrotados em países como Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia, Equador, El Salvador, Costa Rica, Honduras, República Dominicana e Panamá (no Peru, país que ainda aguarda a oficialização dos resultados eleitorais, a neta do ditador Fujimori é hoje a virtual presidente do país eleita com uma margem de menos 0,3%). Contudo, é importante destacar que essa direita não é homogênea: ela vai desde perfis mais populistas e autoritários até conservadores moderados e liberais radicais, incluindo figuras como Nayib Bukele e Daniel Noboa.
Um dos eixos centrais desse giro político-eleitoral é a centralidade da pauta de segurança pública. O aumento da criminalidade na região tornou o tema decisivo nas eleições, favorecendo discursos de “linha-dura” e políticas repressivas. Além e de forma ligada ao tema da violência, no plano econômico, o fim do ciclo de commodities que havia sustentado governos da esquerda da ordem no início do século XXI, seguido por crises crônicas. Apesar dessa tendência geral à direita, as disputas continuam extremamente acirradas, com vitórias decididas por margens estreitas em muitos casos, o que indica a forte polarização, instabilidade política e incertezas. No Brasil, mesmo após a derrota eleitoral de Bolsonaro, o bolsonarismo segue sendo uma força de massas com influência institucional, apoio empresarial e capacidade de mobilização.
Diante desse cenário, tornou-se comum a ideia de que vivemos uma “onda conservadora” continental. Mas essa interpretação ignora um elemento fundamental: as vitórias da extrema direita não resolveram nenhuma das contradições fundamentais que permitiram seu crescimento diante do fracasso de governos burgueses de conciliação de classes e nem estabeleceram novas e verdadeiras hegemonias políticas que possam aplastar a classe trabalhadora de maneira estrutural.
A Argentina continua mergulhada em uma crise econômica profunda. O crescimento de Bukele não eliminou os problemas estruturais de El Salvador. O avanço da direita em diferentes países tampouco estabilizou os regimes políticos da região. Com imensas desigualdades, por óbvio, o que existe é a continuidade de uma crise social, econômica e política que se arrasta há anos e que segue alimentando a polarização em todos estes países.
As vitórias eleitorais da extrema direita devem ser entendidas menos como uma demonstração de força histórica (além de ser necessário estudar caso a caso) e mais como expressão da incapacidade das alternativas existentes – tanto à esquerda quanto à direita – de oferecer respostas aos problemas enfrentados pela maioria da população.
A vitória de Lula em 2022 foi recebida por amplos setores da esquerda da ordem (PT, PCdoB e PSOL) como uma derrota estratégica do bolsonarismo. Passados alguns anos, a realidade demonstra que essa avaliação era excessivamente otimista e que a estratégia de conciliação de classes fracassa em todas as linhas de tensão, pois não leva em consideração que as forças que fizeram eclodir o bolsonarismo e os interesses de classe que estão por trás dessa formação política só podem recuar a partir de lutas diretas e medidas anticapitalistas que imponham derrotas profundas à extrema direita.
Como já é história passada, Bolsonaro perdeu a eleição, mas o bolsonarismo permaneceu vivo. Continua controlando governos municipais e estaduais, mantém forte representação parlamentar, influência em setores das Forças Armadas, das polícias e das igrejas fundamentalistas, além de preservar uma base social significativa no conjunto da sociedade, cerca de 30% da população. Mas a persistência e a força da extrema direita – mesmo diante de uma série de adversidades – não pode ser explicada apenas por sua própria força. Ela também é resultado dos limites e traições da estratégia adotada pelo lulismo fora e dentro do governo.
Lula voltou ao poder em 2023 através de uma ampla frente com setores empresariais, banqueiros, partidos de direita e figuras historicamente associadas aos ataques contra os trabalhadores. A política de conciliação de classes dos governos lulistas garante certa governabilidade, mas também impõe desde sempre limites rígidos à capacidade do governo de responder às demandas populares, o que explica parcialmente a instabilidade destes governos diante de crises econômicas e fortalecimento da oposição – vide o caso de Dilma que no final do seu primeiro mandato respondeu com políticas burguesas anticíclicas à crise econômica, ganhou as eleições prometendo manter direitos, praticou estelionato eleitoral com medidas neoliberais, perdeu totalmente base social e acabou sendo vítima de uma manobra reacionária com o impeachment de 2016.
O resultado desse impasse crônico já é conhecido no Brasil e em diversos países da América Latina. Enquanto os governos de conciliação de classes procuram administrar a crise sem romper com os interesses do grande capital, a extrema direita se apresenta falsamente como alternativa ao sistema. Assim, consolida-se uma dinâmica de alternância entre governos abertamente ultraliberais, reacionários e ultrarreacionários e governos da esquerda da ordem, que, em nome do diálogo e da governabilidade, seguem aplicando ajustes, contrarreformas e políticas favoráveis aos de cima, compensadas por medidas sociais cosméticas. Dessa forma, a insatisfação popular permanece sem uma saída real, alimentando continuamente o fortalecimento de projetos reacionários.
O caso Master e o lulismo como parte de uma nova classe política estatal burguesa
Embora setores da extrema direita apareçam entre os principais envolvidos no escândalo Master, o caso rapidamente revelou conexões com figuras do centrão, da direita tradicional e também com personagens próximos ao governo. Como acontece em praticamente todos os grandes escândalos nacionais, as fronteiras partidárias desaparecem quando entram em cena os interesses econômicos fundamentais da classe dominante.
Não estamos diante de um caso de corrupção individual e pontual. O problema é mais profundo. O Estado capitalista é um balcão de negócios da burguesia que funciona como um espaço de articulação permanente entre os interesses das grandes empresas, do sistema financeiro e dos partidos que administram a ordem. Bancos financiam campanhas, empresários influenciam decisões governamentais e parlamentares transformam seus cargos em instrumentos de negociação política e econômica que encontra em uma ampla burocracia estatal os operadores de toda essa máquina. Por essa razão, casos de corrupção como o do Banco Master não representam desvios ocasionais e morais. São manifestações “normais” de um sistema político estruturado para servir aos interesses das classes dominantes através do Estado.
A extrema direita, o Centrão e o lulismo participam desse mecanismo. Os governos de conciliação de classes também acabam operando dentro dele. No caso do lulismo é interessante resgatar criticamente a elaboração de Francisco de Oliveira no Ornitorrinco, quando o autor formulou que havia surgido uma “nova classe” social no interior do Estado capitalista a partir dos administradores dos fundos de pensão, em sua maioria ex dirigentes sindicais, burocratas partidários que passam a administrar fundos bilionários, uma camada que não era da burguesia tradicional e muitos menos representantes diretos da classe trabalhadora. Se não podemos concordar que estes sujeitos tenham formado exatamente uma nova classe econômica e uma nova classe política independente, não deixa de ser sugestiva a ideia de que surge aí um novo setor da burocracia estatal, essa “classe política” que serve a burguesia mas que não deixa de ter interesses próprios.
Essa “classe política” que ascende a administradora de fundos e empresas estatais que compõe o núcleo duro do lulismo – no sentido mais estrito do termo, aquele composto pelos dirigentes, pela sua militância, e não os setores do subproletariado que se alinham com Lula em 2026, segundo a análise de André Singer em Os sentidos do lulismo -, é consciente do projeto de poder e orientada de forma incontornável pela pequena política que os governos do PT e seus aliados vem levando a partir dos anos 80 em âmbito local e estadual e a partir de 2003 em âmbito nacional.
Não queremos aqui fazer uma análise profunda desse processo, mas a conciliação de classes tem – como todo fenômeno superestrutural – a defesa dos interesses da burguesia como condição para a defesa dos próprios interesses desses dirigentes. É nesse contexto que se pode entender a investigação da Polícia Federal de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e o Senador Jaques Wagner (PT) e ex-líder do governo no Senado, incluindo o empresário Augusto Lima. Segundo a apuração, foram identificados pagamentos de cerca de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Lima ao chamado “núcleo familiar” de Wagner, além de supostos benefícios como a entrega de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões, viagens em jatinhos vinculados ao grupo e ingressos para eventos no exterior. A investigação também menciona a apreensão de valores em espécie em endereços ligados ao senador, incluindo dólares e euros.
Quando a investigação que atingiu Wagner parecia ser um bote salva vidas para Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo pelas redes sociais que caiu como uma bomba para a campanha do 01. No vídeo, a ex-primeira dama relata um desentendimento em relação à possível aliança do PL com o ex-ministro Ciro Gomes no estado do Ceará; diz que tentou falar com Flávio por telefone e foi tratada de forma “ríspida, desrespeitosa e maltratada”. Segundo ela, Flávio teria dito que ela “devia ficar fora das decisões do partido” e que ela “não entendia nada de política”. Também afirmou que “entendeu que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante”, e que por isso optou por se “recolher” e se afastar. Além disso, em outras partes do vídeo criticou apoiadores de Flávio nas redes, dizendo que a tratavam “como se fosse idiota” e reiterou sua postura contrária à aliança com Ciro Gomes.
Em meio a crises da campanha de Flávio Bolsonaro pelo seu envolvimento com Daniel Vorcaro, esse vídeo reflete uma profunda divisão interna e disputa pelo espólio bolsonarista que poderiam significar uma pá de cal na candidatura de bolsonarista se não fossem as traições políticas de Lula e sua campanha.
Como parte deste quadro, na voltando ao caso de Jaques Wagner, após idas e vindas, o senador se afasta da liderança do governo, negando irregularidades… Mas surge um novo episódio que evidência as relações de classe entre o lulismo e as frações do grande capital. Nesse contexto, durante uma inauguração de hospital na Bahia, Lula, ao lado de Wagner e outros dirigentes do PT, afirmou que têm “companheiros” históricos no estado, citando Jaques Wagner e outros, e disse que “todo amigo é um irmão”. Não parece plausível tratar essas exposições desprovidas de cálculo político, especialmente em um ambiente de crescente desgaste e disputa de narrativa em torno do escândalo do Banco Master.
Pode se tratar de um simples erro tático de Lula ou de um processo de gestão política da crise em um ambiente que o lulismo considera relativamente controlado, no qual relações estreitas e abertamente corruptas com o sistema financeiro não teriam tanto impacto. Não podemos afirmar categoricamente qual dessas hipóteses explica melhor o caso. No entanto, independentemente das motivações específicas, o fato é que não há, por parte do lulismo, disposição para uma ofensiva política mais dura contra o caso do Banco Master e contra o capital financeiro.
Evidentemente, uma ofensiva desse tipo, mesmo nos marcos da institucionalidade burguesa, por exemplo através da defesa da abertura de uma CPI, significaria enfrentar diretamente interlocutores centrais da classe dominante, como o centrão e o STF, colocá-los no mesmo barco que a extrema direita e, consequentemente, confrontar os interesses da própria classe dominante. Trata-se de algo que a conciliação de classes, enquanto uma das formas de governar do capital, não pode fazer por sua própria natureza.
Por isso, o que prevalece é a tendência à acomodação, à contenção da crise e do conflito e, em última instância, à sua naturalização.
Trump, Bolsonaro e a falsa defesa da soberania nacional
Como parte da contraofensiva da extrema direita após a condenação de Bolsonaro e de outros envolvidos na tentativa de golpe – vale notar que parte significativa do campo golpista, especialmente no âmbito do Congresso, ainda não foi processada pelos eventos de 8 de janeiro de 2023 -, Eduardo Bolsonaro e outras lideranças da extrema direita passaram a buscar apoio sistemático junto ao imperialismo estadunidense. Essa articulação se expressa em diferentes frentes, como a defesa de elevação de tarifas de importação, pressões diplomáticas, disputas no campo jurídico e outras formas de interferência na política brasileira.
Mais recentemente, e com maior impacto no processo eleitoral devido à proximidade do pleito, a classificação de organizações criminosas brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas” passou a ser defendida por setores do bolsonarismo, incluindo figuras como Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma forma de ampliação da ingerência dos Estados Unidos sobre a soberania jurídica e política do Brasil e de outros países latino-americanos. Ao deslocar essas facções do campo do crime organizado para o do “terrorismo”, essa abordagem não apenas redefine categorias jurídicas, mas também abre margem para justificativas de ações mais amplas de vigilância, sanções financeiras e até cooperação policial assimétrica, com potencial impacto na dinâmica político-eleitoral.
No caso brasileiro, essa reclassificação tem implicações diretas tanto no período eleitoral quanto no pós-eleição. Ao enquadrar o PCC e o Comando Vermelho sob a lógica do terrorismo internacional, os EUA passam a reivindicar maior protagonismo no combate a essas organizações, o que pode pressionar instituições brasileiras a adotar marcos legais mais próximos das doutrinas de segurança estadunidenses. Em meio à persistência dos problemas estruturais não resolvidos, associados à política de conciliação de classes do governo, o tema da segurança pública tende a se consolidar como uma das principais preocupações do eleitorado – aparecendo com frequência como o principal problema do país para cerca de 30% a 45% dos entrevistados, a depender do recorte regional, de renda e do contexto de violência.
Nesse cenário, ganham força saídas punitivistas que tendem a desvincular a expansão das facções criminosas das condições sociais, econômicas e prisionais que as produzem e reproduzem. Do ponto de vista mais amplo, essa movimentação se insere em uma tradição de política externa intervencionista dos Estados Unidos na América Latina, agora atualizada pelo discurso da “guerra ao narco-terrorismo”. Nesse sentido, a reclassificação do crime organizado brasileiro pode operar como instrumento de influência geopolítica, legitimando maior presença de agências internacionais, cooperação condicionada e pressão diplomática sobre o Estado brasileiro, ao mesmo tempo em que desloca o debate das causas estruturais da violência para uma lógica de enfrentamento militarizado e externo – o que, em última instância, tende a reforçar determinadas agendas políticas internas.
Esse entreguismo da extrema direita ao imperialismo ianque, chega às raias do absurdo. Em comunicado recente, Marco Rubio agradece a oferta feita por Flávio Bolsonaro de colocar uma “equipe de transição” à disposição do governo dos Estados Unidos caso ele seja eleito presidente do Brasil. O secretário de Estado afirma que os EUA “registram o otimismo” do senador em relação às eleições e a disposição de cooperação institucional nesse cenário.
Mas sabemos, pelos motivos que apontamos acima, que o governo Lula e o lulismo em geral não estão à altura do enfrentamento à extrema direita aliada do imperialismo trumpista. Essa força ultrarreacionária só se pode enfrentar com uma política que atenda às necessidades das massas (medidas anticapitalistas) e com um processo de mobilização nas ruas. Por essa razão, é criminosa a perda de oportunidade do governo em utilizar o escândalo do Banco Master para atacar a extrema direita que faz Lula e seu governo em nome das relações de colaboração de classes com “velhos companheiros” e com o empresariado.
A luta contra a ingerência imperialista exige independência política. A mesma independência necessária para enfrentar a extrema direita e o imperialismo também é necessária para combater os limites da conciliação de classes. Nesse sentido, nossa tática deve combinar a mais dura denúncia à CUT, PT e governo em relação à apatia em relação à ofensiva trumpista-bolsonarista com a mais ampla exigência de que as direções do movimento de massas unifiquem as lutas. Obviamente que essas são táticas de denúncia/exigência que devem estar a serviço da mobilização independente das massas e que a partir da sua luta direta o movimento de massas exija de Lula e cia que convoque todos os setores a enfrentar a ofensiva bolso-trumpista contra a soberania nacional.
A luta de classes segue produzindo respostas por baixo
Como já apontamos em outros textos, apesar da centralidade das disputas eleitorais “por cima” entre lulismo e bolsonarismo, a luta de classes “por baixo” dá sinais importantes de retomada, protagonismo e efetividade, com novos e velhos atores entrando em cena.
Após a histórica luta contra a Cargill no sul do Pará, os povos indígenas seguem resistindo à destruição de seus territórios. Após fazer recuar o PLP 152, os entregadores por aplicativo protagonizaram mobilizações nacionais contra a precarização do trabalho. Trabalhadores da educação, servidores públicos e diferentes categorias continuam entrando em luta para defender seus direitos.
A greve das universidades estaduais paulistas foi uma demonstração importante dessa disposição de combate. Mesmo limitada pela política das direções majoritárias do movimento estudantil e sindical, a greve arrancou conquistas concretas e demonstrou que a mobilização coletiva segue sendo um dos instrumentos mais poderosos dos trabalhadores e da juventude.
Mais recentemente, a greve dos rodoviários do Rio de Janeiro, iniciada por tempo indeterminado após ampla assembleia da categoria, paralisou o sistema de ônibus da capital fluminense em torno de reivindicações como reajuste salarial, condições de trabalho e redução da jornada. A Justiça do Trabalho atuou em defesa das empresas, elevando de 50% para 80% o percentual mínimo da frota que deveria circular durante a greve. Diante disso, a direção do sindicato orientou o retorno ao trabalho, mediante promessa de não desconto dos dias parados e do vale-refeição, além da abertura de nova rodada de negociações sobre reajuste superior aos 4,39% inicialmente oferecidos. Ainda assim, apesar da pressão patronal combinada à atuação da Justiça e das vacilações da direção sindical, a categoria demonstrou forte disposição de luta e mantém aberto o cenário de retomada da greve caso não haja avanço nas negociações.
Esse conjunto de processos, somado a outras lutas em curso no país, indica que não existe apenas uma polarização política “por cima”, mas também um crescimento de mobilizações de setores de vanguarda da classe trabalhadora e dos oprimidos, com impactos reais na conjuntura política.
O problema central, portanto, não é a ausência de disposição na base, mas a falta de uma direção política capaz de transformar essas lutas parciais em um movimento nacional de enfrentamento ao capitalismo e ao imperialismo. Também não falta uma pauta capaz de unificar a classe. Além da luta necessária contra o escândalo do Banco Master do ponto de vista dos trabalhadores, da denúncia da ingerência imperialista bolso-trumpista e da oposição à anistia dos golpistas de 8 de janeiro, a luta contra a escala 6×1 pode cumprir esse papel de unificação dos explorados e oprimidos.
É justamente por isso que a batalha contra a escala 6×1 possui uma importância que vai muito além da reivindicação imediata. Poucas pautas econômicas conseguem dialogar simultaneamente com trabalhadores do comércio, indústria, logística, supermercados, call centers, plataformas digitais e serviços em geral. No entanto, mesmo após a aprovação da PEC 8/2025 na Câmara dos Deputados por 461 votos a 19 – resultado da forte pressão da opinião pública, com cerca de 80% da população favorável ao fim da escala 6×1 -, a estratégia conservadora lulista centrada exclusivamente na via parlamentar revela seus limites, pois não foi sequer capaz de manter o regime de urgência do projeto de fim da escala 6×1, o que abriu espaço para reações da burguesia via Centrão e extrema direita.
Como essa conquista não foi fruto da luta direta e organizada dos trabalhadores, mas da pressão social difusa, e diante do papel desempenhado pelas direções majoritárias do movimento social (CUT, PT, PSOL, Lula e Boulos), a burguesia responde com iniciativas reacionárias, como a PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho, que em linhas gerais representa uma ofensiva contra direitos históricos da CLT.
Essa contraofensiva deve ser compreendida dentro de uma estratégia mais ampla de contenção e recuo das lutas. Mesmo quando ocorrem mobilizações convocadas por essas direções – como as do último dia 30 de junho -, elas reúnem setores de vanguarda, mas ainda ficam longe de garantir a intensidade necessária para avançar na correlação de forças no Senado. Apesar de sua importância, essas iniciativas seguem sendo insuficientes por não se traduzirem em paralisações nacionais e um calendário de mobilização enraizado na base que nos permita garantir condições para uma greve geral. Portanto e nesse sentido, as exigências feitas pelo PSTU e MRT por uma greve geral à burocracia sindical nos parece carente de qualquer mediação com a realidade concreta, e, assim, tornam-se um propagandismo estéril.
A CSP-Conlutas, central da qual fazemos parte, realizou no dia 25 de junho uma plenária estadual em São Paulo para organizar os atos do dia 30. Nela, foi aprovado um conjunto de ações com eixo na convocação de ato contra a escala 6×1, realizado na Avenida Paulista. Ainda que a CSP desempenhe um papel progressivo em relação às centrais governistas, sua direção majoritária (PSTU), em seu economicismo arraigado, carece de uma estratégia de mobilização permanente junto aos setores mais dinâmicos da vanguarda, capaz de romper o bloqueio imposto pela burocracia sindical.
Assim, apesar da enorme popularidade da pauta, as principais centrais sindicais e partidos da esquerda institucional continuam tratando o tema principalmente como uma disputa parlamentar – a concepção politicista se impõe sem sinal de recuo. Sem mobilização de base, assembleias, paralisações e construção de um calendário nacional de luta que aponte para uma greve geral, qualquer avanço permanece vulnerável à pressão patronal.
A importância da mobilização contra a escala 6×1 não se limita à conquista dessa reivindicação específica – não se trata exclusivamente de uma vitória sindical/econômica, mas de uma conquista política. Uma vitória construída pela ação direta dos trabalhadores e dos oprimidos poderia representar um salto qualitativo na reorganização da classe, fortalecendo sua capacidade de enfrentar a extrema direita e o imperialismo em um cenário pré-eleitoral marcado por riscos crescentes. No entanto, para o lulismo, o fortalecimento autônomo da classe trabalhadora entra em tensão com sua estratégia histórica de conciliação de classes, o que explica sua resistência à mobilização independente.
Por outro lado, a perspectiva da esquerda independente deve ser distinta: trata-se de se apoiar no novo e no velho protagonismo das vanguardas de lutadores que, desde o final do ano passado, vêm alterando a conjuntura ao introduzir elementos de radicalização vindos de baixo. É nesse movimento que se deve apoiar a construção de uma luta real contra a escala 6×1 e, simultaneamente, de uma frente política e eleitoral independente dos governos, dos patrões e da burocracia sindical.








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