O presente relatório visa construir um esboço para futuras elaborações e reflexões a respeito do funcionamento da Universidade de São Paulo. Neste texto, discutimos a estrutura organizativa e administrativa da USP. Buscamos compreender as pautas dos trabalhadores e, principalmente, como podemos, enquanto estudantes, dialogar com eles, levar nossas demandas e construir uma greve unificada e forte para arrancar desta reitoria ultra reacionária as demandas históricas dos trabalhadores e estudantes.

Por Thiago Emanuel e Maria Cordeiro

De onde vem a verba da USP

Nesta seção, trataremos das formas como o orçamento da universidade funciona, apresentando a projeção orçamentária de 2026, comparações em relação aos anos anteriores, e as fontes dessa arrecadação pertinentes ao debate, e, por fim, como o recurso é alocado anual e mensalmente para os diferentes setores da USP. Todos os dados são projeções ou estimativas, visto que a maior parte do orçamento universitário é sigilosa, diferentemente de outras instituições públicas que têm  seus livros de contas abertos.

Hoje, a Universidade de São Paulo é regida pela nova reitoria de Aluísio Augusto Cotrim Segurado, escolhido pelo atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o mais votado entre os docentes que votam na lista tríplice. A USP este ano conta com projeção orçamentária de R$ 9,4 bilhões anuais. Este recurso é oriundo de diversas fontes, sendo uma delas o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), imposto que será removido e substituído por outro, algo que pode colocar a USP — como tratam os redatores do jornal do campus — numa situação de incerteza a respeito da continuidade de seu orçamento, visto que 5,03% do imposto é convertido em investimento para a universidade.

Apenas no ano de 2025, o ICMS em São Paulo arrecadou algo em torno de R$275 bilhões, o que, ao ser convertido em investimento para a universidade, seria de R$13,9 bilhões anuais. Esses valores são projeções e são decididos a partir da PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual). De qualquer forma, Segundo os companheiros da Adusp tratam (Associação de Docentes da USP), o ICMS de 2025 bateu recorde de arrecadação, superando a série histórica dos anos anteriores. No entanto, este aumento na arrecadação – e consecutivamente no orçamento da universidade – foi motivo de debate no Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) a respeito das recomposições salariais dos trabalhadores. Esta recomposição, como trata o editorial da ADUSP[1], ficou muito aquém do necessário, apresentando uma inconsistência no uso dos recursos para a universidade.

Como funciona o orçamento Universitário

A maior parte do orçamento (84% da verba total) é destinada aos gastos obrigatórios, ou seja,  o pagamento da folha de salários. No grupo “pagamento de pessoal” a despesa prevista neste grupo (R$ 7,92 bilhões) é 5,63% maior do que o orçamento anterior e inclui os recursos necessários para dar continuidade aos concursos públicos para a contratação de servidores docentes e técnicos-administrativos e a recomposição do poder de compra dos salários, aposentadorias e benefícios. Já em “Outros Custeios e Investimentos” – O valor alocado neste grupo ficou 15,06% abaixo do previsto no orçamento do exercício corrente, totalizando R$1,33 bilhão, algo próximo a 16% do montante total.

Segue um trecho das diretrizes orçamentárias da USP tratando sobre os “outros custeios e investimentos”, que tratam especificamente de uma parte dos gastos discricionários:

Fonte: (diretrizes orçamentárias USP 2026)

“Para que as Unidades e Órgãos da USP possam manter o desenvolvimento de suas atividades, a COP propõe a alocação de R$ 1,33 bilhão do Orçamento Geral da USP, na alínea “Outros Custeios e Investimentos”, que corresponde a um comprometimento de 14,16% dos Recursos do Tesouro do Estado e representa uma redução de 15,06% em relação ao orçamento anterior. Os recursos para “Outros Custeios e Investimentos” serão alocados por meio de dotações específicas nos orçamentos de cada Unidade, Instituto, Órgão, Museu ou Prefeitura e dotações de caráter geral.

As alocações específicas incluem a Dotação Básica complementada pelos Adicionais de Treinamento de Recursos Humanos, Manutenção Predial, Manutenção de Áreas Externas, Manutenção de Sistema Viário, Equipamentos de Segurança, Equipamentos diversos e de 14 Informática, Serviços de Limpeza e de Vigilância, Despesas com Transporte e Frota, Aluguel de Imóveis e Reformas. Os recursos Adicionais têm por objetivo complementar parcialmente as necessidades de recursos das Unidades, indicando o montante mínimo de investimento em áreas consideradas estratégicas. Desta forma, não se deve esperar que as Dotações Adicionais substituam a Dotação Básica em suas atribuições orçamentárias.

As dotações de caráter geral envolvem a Política de Apoio à Permanência e Formação Estudantil, o Programa de Gestão Ambiental, os Projetos Especiais, as Reservas Específicas e as Atividades Integradas. Os recursos destinados à Política de Apoio à Permanência e Formação Estudantil financiam as bolsas de estudo e os auxílios pagos diretamente aos alunos de graduação e pós-graduação e são alocados no orçamento das respectivas Pró-Reitorias e da AUCANI. Os recursos do Programa de Gestão Ambiental são alocados na SGA. Os recursos dos Projetos Especiais são alocados nos orçamentos das Pró-Reitorias e da Reitoria e utilizados no desenvolvimento de atividades das suas respectivas áreas de atuação. Na alínea de Reservas Específicas são alocados os recursos para Cobertura de Sinistros e Cobertura de Serviços de Natureza Jurídica, cujas demandas devem ser encaminhadas pelas Unidades à COP e ao GR, respectivamente. Por fim, os recursos para as Atividades Integradas desdobram-se nas alíneas de Avaliação Institucional, Assistência Médica e Odontológica, Material Bibliográfico, Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional, Obras, Biotérios, Programa Integrado de Segurança, Informática, Restaurantes Universitários, Creches, Serviços de Utilidade Pública, Sistema de Frota de Veículos, Renovação da Frota de Veículos Especiais, Taxas Municipais, Escola Técnica e de Gestão da USP, Reservas Ecológicas e Taxas para a Proteção à Propriedade Intelectual.”

Este trecho não apenas apresenta uma queda do investimento no setor que trata da permanência estudantil, como também dos setores de investimento e pesquisa da própria universidade.

Permanência, bonificação e descaso

Diante deste cenário, a quantidade de bolsas de auxílio permanência, assim como o valor integral de bolsas são muito aquém do necessário para o corpo discente da universidade de São Paulo. Dos aproximadamente 50 mil estudantes cotistas egressos de escola pública e PPI (50% do total de estudantes atualmente), apenas quinze mil estudantes recebem algum tipo de auxílio, menos de um terço do contingente necessário. Além disso, as bolsas representam um valor mínimo de 850 reais, valor irrisório quando se trata da manutenção dos custos de vida em uma metrópole como São Paulo. Como agravante, em 2025 foi anunciado um corte de mais da metade de bolsas acrescidas no ano (de 6115 para 2218), número que segue até hoje, extremamente baixo diante dos 8.147 ingressantes de 2026 (4087 vindos de escolas públicas e PPI).

Fonte: (diretrizes orçamentárias USP 2026)

Bolsas de um salário mínimo para toda a demanda cabem no orçamento. Na universidade de São Paulo, onde os professores entram ganhando salários de R$16.353,01, chegando até R$95.000,00 em alguns casos. Enquanto funcionários e TAES ganham inicialmente de R$3.318,05 á R$23.563,53 ( no final da carreira). O problema não é uma boa remuneração, a qual os docentes necessitam, a questão é a disparidade profunda entre aqueles que fazem a universidade funcionar nos mínimos detalhes e as verbas destinadas a infraestrutura e ações para os estudantes.

Em uma ação do GACE (Gratificação por Ações Complementares Estratégicas) visando “A PRIMEIRA RAZÃO DE SER DA GRATIFICAÇÃO proposta reside, pois, no incentivo à excelência acadêmica, entendida como elemento de conexão entre a pesquisa científica e a inovação tecnológica, entre a formação de profissionais qualificados e a produtividade econômica, bem como entre o pensamento crítico e a construção de uma sociedade mais democrática e menos desigual.”[2] Porém, como o próprio SINTUSP trata “ora, que hipocrisia”.

A “maior” universidade da América Latina investe apenas R$215.190 milhões em permanência, estrutura e bolsas de divulgação científica e extensão, diz que não pode investir mais – muito em função do parâmetros de sustentabilidade (nome bonito para teto de gastos), mas pode flexibilizar este arcabouço fiscal universitário para pagar quase R$238.44 milhões (anuais) de bonificação para docentes. Novamente, a questão não se trata de pagar bem os docentes da universidade, mas fazer isso em detrimento do investimento no que de fato faz uma universidade. Todo o seu corpo, desde estudantes até funcionários.

Caso este investimento se convertesse para ações de permanência e infraestrutura, teríamos um montante de R$453.630 milhões por ano, o que sairia dos R$17.917 milhões mensais para toda universidade e seus campi, para R$37.802  milhões por mês. Esse investimento se refletiria em melhores estruturas para a universidade, maior atendimento e quiçá, valores de bolsas para os estudantes, maior investimento em moradia, pesquisa, extensão e nas demais áreas da universidade.

Para se ter uma noção da dimensão dos gastos, a FFLCH, que abarca os cursos mais procurados e com maior número de matrículas, possui neste ano, um investimento de R$15.778 milhões, que em comparação ao ano de 2022 (investimento de R$29.949 milhões) sofreu uma drástica redução, mesmo o orçamento da universidade crescendo abundantemente. Somente as verbas para bolsas de iniciação cientifíca (55 bolsas para o departamento inteiro), bolsas PLEA e bolsas de estágio custam R$1.3 milhões.

Por fim, retomando a questão da bonificação, esse custeio iria afetar diretamente 5.300 docentes, contra os 12.600 TAES e cerca de 90.000 alunos, dos quais não se beneficiam em absolutamente nada desta bonificação, muito pelo contrário, só escancara a desigualdade na distribuição orçamentária da USP. Caso o montante destinado aos professores seja incorporado ao salário dos trabalhadores, cada um receberia um aumento de aproximadamente R$1600,00 quantia que não quebraria a isonomia entre docentes e trabalhadores e garantiria um aumento na qualidade de vida daqueles que fazem a universidade funcionar cotidianamente sendo o funcionamento do bandejão central, o apoio administrativo das secretarias, o hospital universitário, a própria reitoria ou também os trabalhadores da manutenção.

Por fim, diante deste quadro, fica claro os valores invertidos de prioridade da reitoria: docentes acima de funcionários e “inovação” e “sustentabilidade fiscal” acima da permanência, dos trabalhadores e da evasão forçada de centenas de estudantes.

Diante desse quadro, torna-se urgente exigir da reitoria da Universidade de São Paulo duas coisas: a ampliação imediata das políticas de permanência estudantil, tanto em número quanto em valor. Não se trata apenas de recompor o que foi cortado, mas de garantir condições reais para que os estudantes consigam permanecer na universidade com dignidade, sem a evasão forçada de estudantes filhos da classe trabalhadora. Isso implica a defesa de bolsas de permanência equivalentes a, no mínimo, um salário mínimo paulista (R$1804,00), compatíveis com o custo de vida em São Paulo e com as necessidades básicas dos estudantes. Sem essa medida, o acesso ampliado por meio das políticas de cotas, conquistadas pelo movimento negro, estudantil e de trabalhadores em 2016, segue esvaziado na prática, perpetuando a exclusão dentro da própria universidade. É fundamental, portanto, que a mobilização estudantil, em conjunto com trabalhadores e demais setores, pressione por uma redistribuição do orçamento que priorize os salários e a permanência, para enfrentar as desigualdades estruturais presentes na USP. Como também, é necessário que a reitoria revogue a minuta que ameaça a autonomia estudantil dos espaços.

Como também  torna-se fundamental a unidade operária estudantil na defesa da isonomia entre trabalhadores técnico-administrativos e docentes, que enfrente a profunda desigualdade salarial que estrutura o funcionamento da universidade. Não se trata de rebaixar salários, mas de garantir valorização para todos aqueles que sustentam cotidianamente a USP, reconhecendo o papel central dos funcionários na manutenção das atividades acadêmicas, administrativas e também da permanência estudantil. Nesse sentido, é urgente a implementação de um aumento fixo de R$1.600 para todos os salários dos funcionários, como medida concreta de recomposição e valorização imediata. Tal política contribuiria para reduzir disparidades históricas, fortalecer as condições de trabalho e afirmar um princípio básico de justiça interna. Assim como na pauta da permanência estudantil, a luta por isonomia exige organização coletiva e pressão sobre a reitoria para que o orçamento da universidade seja redistribuído de forma mais equitativa e comprometida com aqueles que, de fato, garantem seu funcionamento diário.

 

Por tudo isso, lutamos por:

 

Nenhum estudante a menos! Por auxílio permanência de 1 salário mínimo paulista (R$ 1.804,00) e moradia no CRUSP para toda a demanda!

 

Isonomia já e Fim dos Parâmetros de Sustentabilidade! Incorporação de R$ 1.600 nos salários de todas as trabalhadoras e trabalhadores da universidade!

 

Fim das terceirizações nos bandejões! Efetivação des funcionáries sem necessidade de concurso público!

 

Pela revogação imediata da minuta contra a autonomia dos espaços estudantis! Por cotas trans, PCDs e vestibular indígena já!

Referências

[1] https://adusp.org.br/servico-publico/181bi-icms/

[2] https://www.sintusp.org.br/2026/04/02/e-preciso-construir-uma-forte-luta-por-nossas-demandas/