Os encontros entre Xi Jinping e Trump e daquele com Putin (convocado um dia após o término da cúpula China – Estados Unidos), evidenciam as dimensões geopolítica, militar, tecnológica e econômica das relações entre os Estados. Vivemos uma conturbada nova (des)ordem mundial, ainda sem definição, na qual os três países são protagonistas, na construção de três blocos: continente americano, eurásia e Àsia/pacífico que se combina com um novo processo beligerante de alcance mundial pela imposição da hegemonia de um dêles. 

No artigo abaixo, de Johan Madriz, concentramos a análise de nossa corrente na primeira cúpula, Trump e Xi, onde assomaram duas estratégias distintas: enquanto Trump atua de forma imediatista e voltada a ganhos econômicos e eleitorais de curto prazo, Xi conduz um projeto de longo prazo baseado em planejamento estatal, investimentos em tecnologia, infraestrutura e transição energética. A China busca se apresentar como polo de estabilidade global diante de uma imagem dos EUA associada a guerras, tarifas e instabilidade.

Para além do caráter espetaculoso do encontro o que marcou a cúpula foram os anúncios que consistiram, principalmente, em declarações gerais, mecanismos de diálogo e compromissos abertos a futuras negociações, mais do que em pactos definitivos

Porém os pontos de tensão e de rivalidade entre as duas potências ficaram evidentes, principalmente, acerca deTaiwan, pois para Pequim, a reunificação é uma questão histórica e nacional ligada à legitimidade do regime chinês. Para Washington, a ilha é peça-chave de sua estratégia militar no Pacífico, envolvendo riscos de confronto militar direto, especialmente porque a China ampliou rapidamente suas capacidades navais e de mísseis, enquanto os EUA mantêm bases e alianças militares na região.

Do ponto de vista da supremacia econômica a chamada “guerra dos chips” se apresenta como núcleo da disputa pela hegemonia do século XXI. Os EUA ainda dominam setores-chave do design de semicondutores e inteligência artificial, por meio de empresas como NVIDIA, Intel e Qualcomm, mas tentam limitar o avanço chinês por meio de sanções, bloqueios tecnológicos e restrições comerciais. Entretanto, tais medidas aceleraram a busca chinesa por autonomia tecnológica, impulsionando empresas como Huawei, SMIC e YMTC. A China também avança rapidamente em inteligência artificial, produção científica e desenvolvimento de tecnologias estratégicas, remarcando as contradições do capitalismo global: apesar da rivalidade geopolítica, as cadeias produtivas permanecem profundamente integradas: empresas norte-americanas dependem da fabricação chinesa e taiwanesa, enquanto a China ainda necessita de tecnologias e softwares ocidentais.

Ainda do ponto de vista militar, o texto aborda a guerra com o Irã e a crise no estreito de Ormuz. O conflito aumenta a instabilidade energética global, já que o estreito concentra parte significativa do fluxo mundial de petróleo e gás. A China é especialmente vulnerável por sua dependência do petróleo do Golfo Pérsico, mas ao mesmo tempo fortalece sua posição diplomática e econômica na região, tornando-se principal compradora do petróleo iraniano e, pontualmente, se propondo como mediadora de conflitos como no caso entre Irã e Arábia Saudita. Quanto aos Estados Unidos, sofre com o aumento global do preço do petróleo, que o atinge diretamente no plano interno proporcionando um aumento da inflação geral, o aumento do endividamento e dos custos energéticos decorrentes do conflito. A dívida pública supera 36 trilhões de dólares e o gasto militar anual se aproxima de 900 bilhões, o que afeta os planos eleitorais de Trump para novembro.

Por último, o texto argumenta que a guerra do Irã expõe um problema estrutural dos Estados Unidos: a sobre-extensão militar. Embora mantenham superioridade militar global e gastos gigantescos em defesa, os EUA enfrentam dificuldades para sustentar simultaneamente sua presença no Oriente Médio e a disputa estratégica com a China na Ásia-Pacífico. Enquanto Washington dispersa forças em múltiplos cenários, Pequim concentra seus esforços na consolidação de sua influência regional e tecnológica.

O que fica evidente é que toda essa movimentação geopolítica, diplomática e econômica não interessa aos de baixo, pois visam estabelecer mais e melhores condições para a exploração e opressão. A estratégia passa pelo apoio e aprofundamento das lutas em curso em nível local e internacional dos oprimidos, trabalhadores e juventude de todo o mundo para levantar novas rebeliões e revoluções para que possam, não apenas constituir alternativas locais aos governos burgueses, mas passar das rebeliões a revoluções nacionais e internacionais contra um capitalismo e imperialismo cada vez mais agressivo, seja esse dirigido por Trump, Xi ou Putin

Por José Roberto Silva pela Redação

Cúpula Xi-Trump: a armadilha de Tucídides e as tensões geopolíticas

Diplomacia, economia e geopolítica

Por Johan Madriz 

A posição da China é compreensível do ponto de vista de um Estado-nação, mas quando esse plano entra em conflito com nossos interesses nacionais, precisamos fazer o que é certo para os Estados Unidos

Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos

O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim ocorreu em um momento particularmente tenso da situação internacional, marcado pela guerra com o Irã, pela disputa tecnológica em torno dos semicondutores e pelo aumento das tensões militares em torno de Taiwan. Além disso, insere-se em um processo mais profundo, a saber, a deterioração da hegemonia dos Estados Unidos e a emergência da China como concorrente global.

A seguir, nos dedicaremos a analisar os elementos geopolíticos da questão, da qual a cúpula constitui um episódio.

Muito espetáculo, poucos acordos

Um dos aspectos mais marcantes da cúpula foi a ausência de acordos concretos, além de simples declarações ou renovações comerciais. Embora ambas as delegações tenham apontado publicamente o encontro como um sucesso, na prática não foram concluídas resoluções substanciais. Os anúncios consistiram, principalmente, em declarações gerais, mecanismos de diálogo e compromissos abertos a futuras negociações, mais do que em pactos definitivos.

Washington apresentou a reunião como um avanço importante nas áreas comercial e tecnológica. Trump afirmou que ambas as partes concordaram em “melhorar a cooperação econômica”, reduzir certas tensões tarifárias e manter canais de negociação sobre inteligência artificial, semicondutores (da Nvidia) e comércio bilateral. Além disso, mencionou entendimentos relacionados a exportações agrícolas e investimentos industriais. No entanto, a maioria desses anúncios foi formulada de maneira ambígua e sem cronogramas concretos de implementação.

Até o momento, não foi divulgado nenhum documento oficial que contenha os pontos acordados. O que se sabe sobre o encontro é apenas por meio de declarações ou publicações nas redes sociais de alguns dos líderes. Trump afirma ter acordado a venda de 200 aeronaves Boeing e produtos agrícolas no valor de 10 bilhões de dólares.

A China agiu de maneira muito diferente, mantendo uma linguagem muito mais prudente, evitando declarações grandiloquentes sobre os resultados da reunião. Os comunicados oficiais chineses enfatizaram principalmente a necessidade de “gerenciar adequadamente as diferenças”, “manter relações estáveis” e “evitar confrontos”. Por exemplo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores não confirmou nenhum dos anúncios de Trump. A liderança chinesa pareceu mais interessada em transmitir estabilidade e paciência do que entusiasmo imediato.

Por outro lado, algo que chamou a atenção foi o fato de Xi Jinping ter recorrido à ideia da “armadilha de Tucídides” para alertar sobre o risco de guerra entre uma potência dominante e outra emergente. A formulação diplomática remete à análise histórica segundo a qual a ascensão de Atenas e o temor de Esparta tornaram inevitável a Guerra do Peloponeso.

Da mesma forma, durante a cúpula, Xi estabeleceu “uma linha vermelha” em relação a Taiwan, pois sustentou que isso pode derivar em um conflito aberto se Washington minar o princípio de “uma única China” por meio de apoio político e militar a Taipé.

A ilha concentra a rivalidade militar no Pacífico e o controle da indústria mundial de semicondutores, enquanto a competição por inteligência artificial e chips avançados define cada vez mais as capacidades econômicas e militares futuras.

A competição entre as duas principais potências capitalistas do planeta pode, potencialmente, abrir uma caixa de Pandora com alcance global em meio a um cenário internacional mais fragmentado, perigoso e imprevisível.

Atinadamente, um ex-negociador comercial norte-americano, Stephen Olson, observou que

não se esperavam grandes avanços e nenhum foi alcançado, mas ambos os países obtiveram o que precisavam desta cúpula: um pouco mais de estabilidade”.

 Nesse sentido, prevê-se a criação de um “Conselho de Comércio” conjunto para eliminar as tarifas sobre US$ 30 bilhões em produtos. Além disso, Pequim renovaria as licenças de exportação de abatedouros de carne bovina [NT: nesta semana a China liberou a compra de três frigoríficos brasileiros] e os acordos sobre terras raras seriam prorrogados.

No entanto, tanto Washington quanto Pequim tentaram se apresentar como vencedores políticos do encontro. Trump procurou apresentar a reunião como prova de sua capacidade de negociação e como sinal de que ainda pode obter concessões da China por meio de pressão econômica e diplomática. Xi, por sua vez, utilizou a própria realização da cúpula e o tratamento protocolar recebido por Trump para reforçar a imagem da China como potência equivalente aos Estados Unidos.

Um equilíbrio em disputa

A visita de Donald Trump a Pequim teve uma importância geopolítica significativa. O encontro ocorreu em um contexto marcado pela deterioração da ordem estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e pela ascensão da China como uma potência imperialista em formação.

A imagem da superpotência norte-americana capaz de impor unilateralmente suas decisões mostra limites cada vez mais visíveis, enquanto Pequim se apresenta como um ator com capacidade real de expandir sua influência globalmente. A cúpula, de forma alguma, foi um ato de conciliação. Pelo contrário, foi uma tentativa de administrar uma rivalidade estratégica que tenderá a se aprofundar nos próximos anos.

Durante décadas, os Estados Unidos foram a potência hegemônica indiscutível, já que controlavam as principais instituições financeiras internacionais, mantinham uma superioridade militar absoluta e concentravam enormes porcentagens do PIB mundial. No entanto, essa posição começou a se desgastar. Nesse meio tempo, a China fortaleceu sua capacidade industrial, expandiu sua infraestrutura, desenvolveu empresas de tecnologia e aumentou sua presença comercial global. Segundo dados do Banco Mundial, ela passou de representar cerca de 4% do PIB mundial em 1990 para mais de 18% atualmente, enquanto os Estados Unidos reduziram sua participação relativa na economia global.

Por outro lado, a visita ocorre em meio ao cenário de guerra com o Irã e à crise no Golfo Pérsico. Esse conflito tem um custo enorme (além das vidas perdidas) em termos energéticos, de cadeias de abastecimento e militares. Relatórios citados pelo The Washington Post afirmam que setores da inteligência norte-americana consideram que a China obtém vantagens indiretas do desgaste militar e econômico dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, a relação entre as duas potências mantém um alto grau de interdependência comercial. Os Estados Unidos tentam conter o desenvolvimento tecnológico chinês por meio de sanções e restrições comerciais; por isso, aquele país foi alvo de pomposos anúncios de tarifas, mas que, mais cedo ou mais tarde, foram revertidos devido à insustentabilidade de tais medidas para os grandes capitalistas de ambos os lados. As grandes corporações americanas continuam dependendo do mercado chinês e das cadeias produtivas asiáticas.

A China, por sua vez, precisa de acesso a tecnologias, mercados de exportação e estabilidade financeira global. Os Estados Unidos mantêm superioridade militar e uma enorme capacidade financeira, enquanto a China ganha peso econômico, industrial e diplomático.

Diplomacia entre rivais

O próprio evento, mesmo com toda a sua encenação, foi, por si só, muito significativo. A China organizou uma recepção cuidadosamente planejada para projetar a imagem de uma potência equivalente aos Estados Unidos, capaz de negociar de igual para igual com Washington e de disputar a liderança global. A cerimônia incluiu desfiles militares, atos protocolares em espaços simbólicos do poder estatal chinês e uma cobertura midiática massiva voltada tanto para o público interno quanto para a audiência internacional.

Pequim buscou transmitir uma ideia clara: o período em que os Estados Unidos definiam unilateralmente as regras da ordem mundial chegou ao fim. O simbolismo político ganhou ainda mais importância devido ao atual momento de tensão global. O governo chinês organizou a visita com um nível cerimonial reservado para eventos de altíssimo nível.

Mas não se trata apenas de imagem, há uma base material. A China já concentra cerca de 31% da produção manufatureira mundial, mais do que os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha juntos. Além disso, lidera setores industriais-chave como painéis solares, baterias elétricas, terras raras e construção naval. Em 2025, produziu mais de 30 milhões de veículos, enquanto os Estados Unidos fabricaram cerca de 10 milhões. Possui também a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, com mais de 45.000 quilômetros em operação, e mantém reservas internacionais superiores a 3 trilhões de dólares.

A cúpula também buscou apresentar Pequim como o novo centro de estabilidade global diante de uma imagem cada vez mais associada de Washington a guerras e tarifas. Enquanto os Estados Unidos deslocam porta-aviões e ampliam sua presença militar no Oriente Médio, a China se apresenta como defensora do comércio global e da estabilidade mundial.

Nesse sentido, a reunião refletiu as diferenças entre ambas as partes quanto à forma de compreender a política internacional. Trump opera a partir de uma lógica transacional e de curto prazo, com um pé na Casa Branca e outro em Wall Street. Sua prioridade consiste em obter resultados imediatos que possam se traduzir em vantagens políticas internas (eleições) e benefícios econômicos rápidos.

Trump chegou à cúpula pressionado por importantes problemas internos. Embora a economia norte-americana continue crescendo e o desemprego esteja em torno de 4%, persistem tensões ligadas à inflação, ao endividamento e aos custos energéticos decorrentes do conflito com o Irã. A dívida pública supera 36 trilhões de dólares e o gasto militar anual se aproxima de 900 bilhões, números que demonstram tanto seu enorme poder quanto os custos crescentes de suas incursões guerreiristas.

Por sua vez, Xi Jinping atua a partir de uma posição distinta: pensa a competição com os Estados Unidos como um processo de longo prazo, e não como uma sucessão de acordos conjunturais. Trabalha com planos projetados para décadas, com iniciativas como “Made in China 2025” e a Nova Rota da Seda. A China investe anualmente centenas de bilhões de dólares em infraestrutura, inteligência artificial, semicondutores e transição energética. Somente em energias renováveis, o país destinou mais de 890 bilhões de dólares em 2025, quase metade de todo o investimento mundial no setor.

A estabilidade política do regime chinês também lhe concede vantagens em termos de continuidade de seu projeto. Enquanto a política norte-americana é atravessada por ciclos eleitorais regulares, Xi não precisa produzir vitórias midiáticas imediatas que lhe garantam apoio popular. No entanto, a ascensão chinesa também enfrenta limites importantes. A crise imobiliária, o endividamento dos governos locais, o envelhecimento demográfico e a desaceleração do crescimento mostram que Pequim também não atravessa uma expansão ilimitada nem isenta de contradições.

Taiwan: linha vermelha.

Taiwan constitui hoje talvez o ponto de maior tensão entre os Estados Unidos e a China, pois concentra simultaneamente aspectos militares, competição tecnológica, legitimidade nacional, disputas territoriais e riscos de guerra entre potências nucleares. A advertência feita por Xi durante a cúpula reflete isso. Ele sustentou que a questão taiwanesa pode derivar em um conflito aberto caso Washington erosione o princípio de “uma só China” por meio de apoio político e militar a Taipé.

A declaração expressa uma definição-chave do Estado chinês: Pequim considera a reunificação um objetivo histórico irrenunciável e diretamente vinculado à legitimidade do regime. Embora sua importância ultrapasse amplamente a questão territorial. Do ponto de vista militar, a ilha ocupa uma posição estratégica dentro da chamada “primeira cadeia de ilhas”, uma linha geográfica que vai do Japão até as Filipinas e que constitui um dos principais dispositivos de contenção marítima frente à China.

Se Pequim conseguisse controlar Taiwan, ampliaria enormemente sua capacidade de projeção naval no Pacífico ocidental e reduziria a capacidade norte-americana de vigilância e bloqueio na região. Por isso Washington considera a ilha uma peça-chave de sua arquitetura militar na área. Isso explica por que os Estados Unidos mantêm cerca de 55 mil soldados no Japão, aproximadamente 28 mil na Coreia do Sul e múltiplas bases militares distribuídas entre Guam, Filipinas e outros pontos do Pacífico.

O problema para Washington é que a correlação militar regional muda progressivamente. Embora ainda conserve superioridade como principal potência, a China desenvolve capacidades especificamente desenhadas para limitar a intervenção norte-americana ao redor do estreito de Taiwan. Segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o Exército Popular de Libertação já dispõe de mais de 370 navios de guerra e submarinos, frente a cerca de 290 da marinha norte-americana, embora Washington mantenha vantagem tecnológica e operacional global. A China também expandiu rapidamente seu arsenal de mísseis: o Pentágono estima que o país possua mais de 2.300 mísseis balísticos e de cruzeiro capazes de atingir bases norte-americanas e alvos navais na região Ásia-Pacífico.

A tensão militar aumenta ainda mais devido ao crescimento constante de exercícios navais e manobras ao redor de Taiwan. Em abril de 2025, a China mobilizou dezenas de navios de guerra e mais de 120 aeronaves em exercícios de simulação de bloqueio sobre a ilha. Taiwan respondeu elevando os alertas militares e reforçando a cooperação com os Estados Unidos e o Japão. Segundo o Ministério da Defesa taiwanês, as incursões aéreas chinesas dentro da zona de identificação aérea de defesa [NT: Air Defense Identification Zone ou ZIDA)  da ilha superaram 3 mil durante 2024, um aumento enorme em relação aos anos anteriores.

A dimensão tecnológica torna a disputa ainda mais explosiva. Taiwan produz cerca de 60% dos semicondutores do planeta e aproximadamente 90% dos chips avançados abaixo de 7 nanômetros, essenciais para inteligência artificial, supercomputação, indústria militar e telecomunicações. A empresa taiwanesa TSMC controla praticamente o mercado mundial de fabricação avançada de chips. Isso significa que qualquer conflito militar na ilha teria consequências econômicas globais imediatas.

A questão taiwanesa também possui enorme importância ideológica e nacionalista para o governo chinês. Da perspectiva de Pequim, a separação de Taiwan constitui uma herança da guerra civil e do período de intervenção imperialista ocidental e japonesa. Xi apresenta a reunificação como parte do fim do chamado “século da humilhação”. Isso explica por que considera qualquer declaração formal de independência como uma linha vermelha absoluta. A Lei Antissecessão aprovada em 2005 autoriza explicitamente o uso da força caso Taiwan avance rumo à independência formal.

Diante disso, os Estados Unidos mantêm uma política de “ambiguidade estratégica” em relação à defesa de Taiwan. Desde 1979, Washington reconhece oficialmente Pequim como governo da China, mas ao mesmo tempo conserva relações militares e econômicas estreitas com Taipé por meio do Taiwan Relations Act. O problema é que esse equilíbrio se torna cada vez mais instável à medida que aumenta a capacidade militar chinesa e se aprofunda a rivalidade entre ambas as potências.

Os próprios dirigentes norte-americanos reconhecem limites crescentes em sua capacidade de dissuasão. Relatórios do Center for Strategic and International Studies concluem que uma guerra por Taiwan produziria perdas enormes para todos os atores envolvidos. Simulações militares realizadas em 2023 mostraram que, mesmo em um cenário favorável a Washington, os Estados Unidos perderiam dezenas de navios e centenas de aeronaves em poucas semanas de combate, enquanto Taiwan sofreria devastação massiva e a China enfrentaria enormes custos militares e econômicos.

Isso explica a extrema cautela de Trump durante a cúpula, chegando inclusive a dizer à ilha que evitasse declarar sua independência formal. Washington mantém oficialmente seu apoio militar a Taiwan, embora, por exemplo, tenha recentemente colocado em dúvida um acordo armamentista de 11,1 bilhões de dólares já aprovado pelo Congresso.

A guerra dos chips

A rivalidade entre ambos os países também gira em torno do controle de tecnologias capazes de definir a estrutura econômica, militar e política do século XXI. Inteligência artificial, semicondutores, computação quântica, telecomunicações e processamento de dados ocupam um lugar privilegiado na competição pela hegemonia imperialista na atualidade. A visita de Donald Trump reflete precisamente essa transformação: junto com ele viajaram executivos de grandes corporações tecnológicas e financeiras, porque a competição entre Washington e Pequim se desenvolve cada vez mais em torno do controle das cadeias globais de alta tecnologia.

A viagem foi percebida como uma peregrinação de CEOs para pedir que lhes abrissem as portas do mercado chinês. Algumas manchetes sintetizaram isso afirmando que 13,6 trilhões de dólares acompanharam Trump na viagem, em referência às fortunas pessoais e ao valor de mercado das empresas. Trata-se dos principais representantes de corporações como Nvidia, Tesla, SpaceX, Apple, BlackRock, Blackstone, Boeing, Cargill, Citigroup, GE Aerospace, Goldman Sachs, Micron Technology e Qualcomm. Todas essas companhias querem sua fatia do bolo e esperavam fechar contratos bilionários, os quais, publicamente, não foram detalhados.

A inteligência artificial ocupa um lugar particularmente significativo dentro da disputa pela hegemonia mundial. Segundo a PwC, a IA poderia acrescentar cerca de 15,7 trilhões de dólares à economia mundial até 2030, dos quais aproximadamente 7 trilhões corresponderiam à China e 3,7 trilhões à América do Norte. O desenvolvimento de IA avançada depende diretamente da capacidade de produzir e controlar semicondutores de alto desempenho, especialmente unidades gráficas avançadas utilizadas para treinamento de modelos de linguagem, reconhecimento de padrões e sistemas militares automatizados. Por isso, a luta pelos chips se torna uma questão geopolítica.

Os Estados Unidos ainda mantêm vantagens decisivas em setores-chave dessa indústria. Empresas como NVIDIA, AMD, Intel e Qualcomm dominam áreas do design de semicondutores avançados e de software industrial. A NVIDIA é um dos atores mais importantes do capitalismo global devido à sua posição dominante em processadores utilizados para inteligência artificial. Em 2025, a empresa superou uma capitalização bursátil de 3 trilhões de dólares, situando-se entre as corporações mais valiosas do planeta. Seus chips H100 e B200 são essenciais para o treinamento de modelos avançados de IA utilizados tanto por empresas privadas quanto por complexos militares e agências estatais.

O problema para Washington é que a China representa um dos mercados mais importantes para essas corporações. Antes das restrições comerciais, cerca de 20% a 25% das receitas da NVIDIA provinham do mercado chinês. Essa dependência econômica expõe uma contradição: tenta-se conter tecnologicamente a China, enquanto as grandes corporações precisam manter acesso a esse mercado para sustentar seus níveis de rentabilidade e crescimento. Há uma contraposição entre a lógica geopolítica e a lógica da acumulação privada, derivada da maior ingerência da política na economia.

O governo norte-americano também pressiona aliados como o Japão e os Países Baixos para bloquear exportações de tecnologias. A empresa neerlandesa ASML, única produtora mundial de máquinas EUV (litografia ultravioleta extrema) avançadas necessárias para fabricar chips de última geração, restringe suas vendas à China sob pressão dos Estados Unidos. Cada máquina EUV custa mais de 150 milhões de dólares e representa um dos pontos mais sensíveis de toda a cadeia tecnológica global.

Washington justifica essas restrições por meio de argumentos de “segurança nacional”, mas o objetivo real consiste em desacelerar o desenvolvimento tecnológico chinês e preservar a superioridade norte-americana. O próprio assessor de segurança nacional Jake Sullivan afirmou em 2022 que os Estados Unidos já não buscam simplesmente manter uma vantagem relativa sobre a China, mas conservar “a maior distância possível” em tecnologias avançadas.

No entanto, as sanções tiveram o efeito contrário: aceleraram a estratégia chinesa de autonomia tecnológica. Pequim respondeu aumentando o investimento estatal em semicondutores e inteligência artificial. Segundo a Bloomberg, a China destinou mais de 140 bilhões de dólares em subsídios e programas de apoio para fortalecer sua produção doméstica de chips. Empresas como SMIC, Huawei e YMTC recebem apoio estatal para reduzir a dependência de fornecedores ocidentais.

A Huawei é um caso particularmente ilustrativo. Após as sanções norte-americanas do primeiro governo Trump e o bloqueio ao acesso às tecnologias do Google e a chips avançados, previa-se o colapso da companhia. No entanto, ela conseguiu se sustentar por meio do desenvolvimento próprio de processadores e da cooperação com empresas nacionais. Em 2024, a empresa apresentou novos telefones equipados com chips fabricados na China, algo que Washington tentava impedir.

A China também avança rapidamente em inteligência artificial. Segundo a Universidade de Stanford, o país já produz mais publicações científicas sobre IA do que os Estados Unidos e concentra uma enorme quantidade de patentes relacionadas a tecnologias emergentes. Empresas como Baidu, Alibaba e Tencent desenvolvem modelos de linguagem próprios e aplicações industriais de inteligência artificial. A dimensão militar dessa disputa também é decisiva: a inteligência artificial e os semicondutores possuem aplicações diretas em sistemas de vigilância, drones e reconhecimento por satélite.

O Pentágono considera que a superioridade tecnológica definirá futuras correlações militares globais. Por isso, os Estados Unidos buscam impedir que a China alcance a liderança em computação avançada e supercomputação. A competição tecnológica é uma extensão da rivalidade geopolítica e militar. A disputa pelos semicondutores também revela o papel geopolítico das corporações tecnológicas.

Os Estados Unidos tentam desacoplar as atuais cadeias tecnológicas, seja procurando transferi-las para seu território, seja para países aliados, mas a própria estrutura da produção mundial continua profundamente integrada. A Apple fabrica grande parte de seus produtos na China; a NVIDIA depende da TSMC em Taiwan; os Estados Unidos necessitam de minerais estratégicos processados na Ásia; e a China continua dependente de software, maquinaria e design ocidentais. A competição tecnológica ocorre dentro de um sistema econômico mundial altamente interdependente.

Ormuz e o equilíbrio global

A guerra com o Irã e a crise em torno do estreito de Ormuz colocam novamente o Golfo Pérsico no centro da política mundial. Os Estados Unidos possuem uma enorme capacidade militar no Oriente Médio, mas esse atoleiro se complicou muito mais do que o trumpismo calculou (se é que realmente calculou).

O estreito é um dos pontos geoestratégicos mais sensíveis do planeta. Segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo atravessam diariamente esse corredor marítimo, algo em torno de 20% do consumo mundial de líquidos petrolíferos. Além do petróleo, grandes volumes de gás natural liquefeito exportados pelo Catar circulam por essa rota. Qualquer interrupção significativa impacta imediatamente os preços da energia, a inflação, o transporte marítimo e as cadeias globais de produção.

A guerra com o Irã provocou precisamente esse efeito. Os ataques contra embarcações comerciais e o fechamento do estreito elevaram a volatilidade nos mercados energéticos internacionais. Em questão de semanas, o preço do barril Brent voltou a superar os 100 dólares e aumentou a pressão inflacionária global. A Ásia é particularmente vulnerável porque concentra a maior dependência energética em relação ao Golfo Pérsico. A China importa aproximadamente 70% do petróleo que consome, e cerca de metade vem do Oriente Médio.

A relação entre Pequim e Teerã possui enorme importância. A China se tornou, nos últimos anos, a principal compradora de petróleo iraniano. Diversas análises estimam que entre 80% e 90% das exportações petrolíferas do Irã terminam no mercado chinês. Segundo dados da Kpler e da Vortexa, a China chegou a importar mais de 1,5 milhão de barris diários de petróleo bruto iraniano, convertendo-se em um sustentáculo econômico fundamental para Teerã.

Washington reconhece que a China possui capacidade real de influência sobre o Irã devido aos seus vínculos energéticos e comerciais. Marco Rubio admitiu publicamente que os Estados Unidos esperam cooperação chinesa para moderar as tensões no Golfo e evitar uma escalada que desestabilize ainda mais os mercados e as posições geopolíticas. A declaração é muito significativa, já que deixa evidente que Washington necessita de assistência, embora Trump publicamente diga o contrário.

A mediação chinesa entre Irã e Arábia Saudita em 2023 é um exemplo importante dessa expansão diplomática. Pequim facilitou o restabelecimento das relações diplomáticas entre ambas as subpotências depois de anos de confrontação. O acordo surpreendeu muitos observadores porque mostrou que a China não atua apenas como ator econômico, mas também como intermediária política capaz de intervir em conflitos regionais.

No entanto, a posição chinesa também possui limites importantes. Pequim depende profundamente da estabilidade energética global e não lhe convém uma guerra regional descontrolada. Aproximadamente 50% das importações petrolíferas chinesas provêm do Golfo Pérsico. Um fechamento prolongado do estreito de Ormuz afetaria, em alguma medida, seu crescimento industrial.

O golpe, por um lado, é compensado por outro. A China domina atualmente grande parte das cadeias globais vinculadas às energias renováveis. Produz mais de 80% dos painéis solares do planeta e controla setores estratégicos relacionados a baterias e ao processamento de minerais críticos. Assim, se houver uma resposta de substituição do petróleo como fonte energética, poderá obter ganhos significativos.

Mas o que parece estrategicamente mais relevante é que a guerra com o Irã aprofunda um problema norte-americano: a sobre-extensão militar. Os Estados Unidos mantêm cerca de 40 mil soldados destacados no Oriente Médio e dezenas de bases distribuídas pela região. O custo financeiro e logístico de sustentar essa presença é enorme. O gasto militar estadunidense é de cerca de 900 bilhões de dólares anuais, mais do que os dez países seguintes combinados, segundo dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). No entanto, essa superioridade militar não está garantindo estabilidade política nem controle da região. Enquanto Washington dispersa suas capacidades militares globalmente, Pequim concentra seus esforços em torno da Ásia-Pacífico.