“Agora sim guerra civil”

Por Martin Camacho 

Novamente a Bolívia atravessa uma nova etapa de instabilidade política e social, marcada pelo rápido desgaste do governo de Rodrigo Paz¹. Já advertíamos que se tratava de um governo atravessado por profundas contradições e que, justamente por isso, precisaria ter extremo cuidado na relação com os setores populares. No entanto, apenas seis ou sete meses após assumir, o governo tenta impor medidas de ajuste e restrições em meio a uma grave crise econômica combinando incapacidade de responder às demandas sociais com uma crescente inoperância política diante dos movimentos populares. As mobilizações já articulam reivindicações territoriais, demandas salariais e questionamentos mais amplos ao Executivo, recolocando a Bolívia no centro de um verdadeiro laboratório político e social, cuja intensidade e capacidade de mobilização dificilmente encontram comparação em outras partes do mundo.

Nas últimas três décadas, a Bolívia acumulou uma sequência de crises e processos de mobilização que transformaram o país em uma das expressões mais intensas da luta social e política da América Latina. A Guerra da Água, em Cochabamba, em 2000; os enfrentamentos entre policiais e militares em pleno centro de La Paz, em fevereiro de 2003; a Guerra do Gás e a queda de Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro do mesmo ano; a tentativa de secessão da chamada “Meia Lua” oriental e o risco de guerra civil em 2008; a primeira greve geral indefinida contra o governo de Evo Morales em 2010; a marcha indígena contra a estrada no TIPNIS² no 2011; e, posteriormente, o golpe de Estado de 2019, são apenas alguns dos momentos mais agudos dessa trajetória convulsiva.

Tudo isso foi acompanhado, inúmeras vezes, por marchas, bloqueios, greves, cercos de cidades e paralisações nacionais que colocaram o país à beira do colapso político e institucional. Na Bolívia, os métodos de mobilização permanecem praticamente os mesmos: bloqueios de estradas, ocupações, marchas de centenas de quilômetros e a capacidade de interromper a circulação econômica do país seguem sendo instrumentos centrais de pressão política e social. Os bloqueios fazem parte da própria tradição histórica de luta do país. Desde a Revolução de 1952, passando pelas guerras da água e do gás, até as recentes crises políticas, os bloqueios constituem um instrumento central de pressão social e territorial das organizações populares, indígenas, mineiras e camponesas. Em um país profundamente dependente da circulação rodoviária para abastecimento, combustível e integração regional, interromper estradas significa atingir diretamente as formas de funcionamento econômico e político do Estado.

Mais do que formas ocasionais de protesto: mobilizar-se, bloquear e ocupar o espaço público fazem parte da própria vida cotidiana e da cultura política boliviana. Para amplos setores populares, tornaram-se formas concretas de existir politicamente, disputar poder e arrancar respostas do Estado.

E é justamente aí que aparece a enorme dificuldade de compreender a complexidade boliviana. Trata-se de um país onde convivem, de maneira desigual e combinada, elementos pré-capitalistas, formas comunais de propriedade da terra, economias camponesas e indígenas, estruturas modernas de exploração mineral, além de uma poderosa tradição sindical e popular. A luta de classes na Bolívia frequentemente parece escapar aos esquemas tradicionais de análise e não se encaixa facilmente no panorama mundial marcado hoje pelo avanço de governos reacionários, pela fragmentação social e pela desmobilização política em muitos países. Enquanto em grande parte do mundo prevalecem a apatia social e o retrocesso organizativo, a Bolívia continua demonstrando uma impressionante capacidade de mobilização coletiva, radicalização popular e crise permanente da ordem política.

Diante da ampliação da crise, o governo passou a endurecer seu discurso e suas ações repressivas, recorrendo a operações conjuntas entre polícia e Forças Armadas, ameaças de estado de sítio e acusações de desestabilização política. Ao mesmo tempo, parte importante do discurso oficial tenta reduzir a complexidade do conflito a uma suposta articulação do “evismo” ou do narcotráfico. Embora setores ligados a Evo Morales procurem evidentemente capitalizar o desgaste do governo e intervir na situação, atribuir toda a crise apenas a Evo ou ao narcotráfico simplifica um problema muito mais profundo: o rompimento entre o governo Paz e setores populares que inicialmente o apoiaram, a deterioração econômica, os conflitos agrários, a inflação, a crise de abastecimento e a incapacidade do governo de construir legitimidade política e canais estáveis de negociação social.

A ousadia de tocar as terras comunais 

O conflito atual teve como um de seus principais detonantes a chamada Lei 1720, vinculada à “reconversão de terras”, interpretada por organizações indígenas e camponesas como uma tentativa de ampliar a concentração fundiária e fortalecer os interesses do agronegócio e dos setores agroindustriais. 

A lei foi promovida por Branko Goran Marinković, atual presidente do Senado e representante do agronegócio do oriente boliviano. Marinković já foi ministro da ex-presidenta golpista Jeanine Áñez e um dos principais articuladores da tentativa de rebelião separatista de 2009, quando acabou se exilando no Brasil após o fracasso da intentona. Hoje, essa mesma figura apresenta uma lei que nada tem a ver com o desenvolvimento dos camponeses ou com uma suposta modernização produtiva, como foi propagandeado pelo governo. O que estava por trás da medida eram os interesses do agronegócio oligárquico, que busca avançar sobre as terras comunais e os territórios indígenas.

Vejamos o que significa tocar nas terras comunais, porque é justamente aí que está o enorme custo político que o governo assumiu ao mexer em algo tão sensível como a questão da terra na Bolívia. Após a Revolução de 1952, as tentativas do governo de apaziguar o processo revolucionário fracassaram e, em 1953, o Estado foi obrigado a conceder terras aos camponeses por meio da Reforma Agrária. Em resumo, ocorreu o reparto de terras, a proibição do trabalho gratuito e a abolição do latifúndio.

Posteriormente, em 1996, a Lei INRA fortaleceu a titulação coletiva das terras indígenas, diferenciando juridicamente a propriedade comunitária da propriedade privada. Mais tarde, em 2006, a Lei nº 3545 — também conhecida como Lei de Recondução Comunitária da Reforma Agrária — aprofundou esse processo ao priorizar a propriedade coletiva em várias regiões do país.

Ou seja, o que está em disputa hoje é a própria propriedade comunal da terra: uma forma de propriedade que não pode ser expropriada nem transferida individualmente, escapando parcialmente da lógica da mercantilização capitalista. Trata-se de formas comunais e coletivas de posse da terra que sobrevivem dentro de uma sociedade capitalista dependente e desigual, conservando elementos pré-capitalistas profundamente enraizados na história social e indígena boliviana.

O valor simbólico e histórico da luta pela terra torna o contexto político boliviano ainda mais interessante e rico em lições sobre a luta de classes. Em sua carta à revolucionária russa Vera Zasulich, escrita em março de 1881, Karl Marx defende a importância das terras comunais russas ao afirmar: “A comuna rural russa, forma ainda dominante na imensa extensão do império, pode gradualmente desprender-se de suas características primitivas e desenvolver-se diretamente como elemento da produção coletiva em escala nacional. É precisamente graças à contemporaneidade da produção capitalista que ela pode apropriar-se de todas as suas conquistas positivas sem passar por suas terríveis vicissitudes.”

No caso da Bolívia, a terra foi, de certo modo, reconquistada. Durante a colonização, os povos indígenas foram submetidos à servidão e obrigados a trabalhar terras das quais haviam sido expulsos. Porém, após a Revolução de 1952 e a Reforma Agrária de 1953, parte dessas terras voltou ao controle coletivo e comunitário. Seguindo o raciocínio de Marx sobre a importância da propriedade comunal, ele afirma ainda:

“Se a revolução acontecer em tempo oportuno, se concentrar todas as suas forças para assegurar o livre desenvolvimento da comuna rural, esta tornar-se-á rapidamente um elemento regenerador da sociedade russa e um elemento de superioridade sobre os países submetidos ao regime capitalista.”

Nesse período, Marx discutia justamente que a transição para uma sociedade sem classes não precisaria seguir uma única via linear, evolucionista e unidirecional. Ou seja, determinadas formas comunais poderiam servir como ponto de partida para formas superiores de organização social sem necessariamente repetir todo o tortuoso caminho histórico do capitalismo ocidental.

Obviamente, esse tipo de economia e forma de vida não está alinhado aos interesses dos governos de turno, tanto na Bolívia quanto no Brasil. Basta recordar, no caso brasileiro, as recentes lutas dos povos do Tapajós contra as tentativas de privatização e controle dos rios e territórios amazônicos. Como afirmava o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), “a mobilização buscou denunciar e resistir ao avanço de um modelo de desenvolvimento predatório que ameaça a vida do Tapajós e a existência de comunidades tradicionais. Os projetos do governo atravessam territórios vivos; os rios não são canais de exportação, são fonte de vida, sustento, memória e identidade”. Da mesma forma, a liderança Munduruku Alessandra Korap afirmava:

“Não iremos tolerar a entrega dos nossos rios às multinacionais do agronegócio. Os rios Tapajós, Madeira e Tocantins pertencem ao povo brasileiro e não serão transformados em estrada para a soja.”

São expressões distintas de uma mesma contradição histórica vivida hoje no país do altiplano: de um lado, formas coletivas de relação com a terra, os rios e o território; de outro, a expansão permanente do agronegócio.

O conflito em torno das terras comunais revela justamente o choque entre formas coletivas de reprodução da vida e os interesses do capital agrário, minerador e financeiro. Como o próprio Marx observava: “A comuna rural encontrou-se durante séculos sustentada por um certo conjunto de condições históricas; mas atualmente encontra-se cercada por forças hostis de toda espécie. O Estado a oprime, o capital a explora, o comerciante a saqueia.”

É justamente essa tensão histórica entre propriedade comunal e expansão capitalista que ajuda a explicar parte da intensidade dos conflitos agrários e políticos que continuam atravessando a Bolívia contemporânea. Voltando a lei 1720 o governo vendeu a promessa como empoderar ao pequeno produtor rural facilitar fácil acesso ao crédito. Foi nesse contexto que Branko Marinković lançou a frase que amplificou ainda mais o debate: “Se um camponês me disser que quer vender meia parcela e gastar o dinheiro com putas e bebida, que o faça, a terra é dele.” Essa seria a chamada “liberdade agrária” de que a oligarquia tanto gosta de falar. Obviamente, o resultado final desse processo já é conhecido: a apropriação das terras pelos grandes grupos econômicos e pelo agronegócio.

Para isso, seria necessário alterar a própria definição jurídica da terra, transformando a pequena propriedade em mediana propriedade, abrindo caminho para a mercantilização e concentração fundiária. Sob o discurso de “modernizar o setor rural”, o governo comprometeu-se em impulsionar a lei. No entanto, a medida, durou apenas 33 dias. Em 13 de maio, o presidente foi obrigado a dar um passo atrás para tentar conter o crescente mal-estar social. Mas a crise já estava consumada.

Assim que os camponeses e comunidades indígenas compreenderam o alcance do projeto, organizaram uma grande mobilização desde a Amazônia boliviana até a sede do governo, percorrendo mais de mil quilômetros. Entre 500 e 600 comunários marcharam para pressionar o governo por respostas. As organizações indígenas e camponesas advertiam que a lei abriria espaço para uma maior concentração de terras e enfraqueceria as garantias dos territórios comunais. A crise já deixava de ser apenas um tema econômico: transformava-se abertamente em uma crise política.

No entanto, o discurso do governo continuou marcado por evasivas. Com os indígenas em vigília às portas da Assembleia Legislativa, pressionando para que o presidente aparecesse e enfrentasse diretamente o problema, o conflito ganhou dimensão nacional e o custo político de tocar nos territórios indígenas passou a alimentar ainda mais o mal-estar social. Nesse processo de desgaste, setores que inicialmente apoiavam a norma começaram a se afastar. A pressão aumentava e o governo ficava cada vez mais sem saída.

O governo apostou no capital político acumulado nas eleições, mas o que os tecnocratas de turno não compreenderam foi que as terras bolivianas possuem um profundo conteúdo histórico, identitário e de poder para os setores oprimidos que hoje têm voz e capacidade de mobilização. Como já havíamos apontado anteriormente, o apoio eleitoral recebido pelo governo jamais significou um cheque em branco. O discurso de “modernização”, tão defendido pelos setores de direita, não conseguiu se sustentar: perdeu legitimidade e acabou produzindo novos conflitos.

O governo perdeu legitimidade de maneira muito rápida. Incapaz de resolver a crise econômica, acabou mergulhando também em uma crise política. Ao sair fragilizado, outros setores produtivos e populares da sociedade começaram igualmente a entrar em mobilização, como os trabalhadores mineiros, os operários fabris e os camponeses do altiplano. As reivindicações passaram então a atravessar praticamente todos os aspectos da vida social, política e econômica do país, criando um cenário de difícil resolução.

Obviamente, a propriedade comunal da terra também representa uma contradição permanente para o Estado e para os interesses do capitalismo. Ela entra em choque com a lógica da mercantilização total da terra e dos recursos naturais. Como aponta Marx nos Grundrisse, o desenvolvimento do capital tende historicamente a destruir essas formas comunais de apropriação da terra. A defesa do território indígena realizada pelos povos do rio Tapajós expressam justamente essa mesma resistência: a luta contra um sistema que destrói a natureza em benefício dos interesses de poucos.

O capitalismo, através do agronegócio, da mineração e da expansão das fronteiras produtivas, transforma florestas, rios e territórios coletivos em mercadorias privadas submetidas à lógica da ganância, da exportação de soja e da exploração mineral. O que está em disputa não é apenas a posse da terra, mas diferentes formas de relação com a natureza, com o território e com a própria reprodução da vida social.

Trazendo novamente Marx para o debate, ele aponta na discussão sobre a acumulação primitiva a importância central da separação entre os produtores e a terra para o nascimento do capitalismo: “A separação entre o trabalhador e a terra constitui a base do desenvolvimento da propriedade privada e do capital.” (Grundrisse)

Ou seja, a permanência da terra comunal representa, ainda que de maneira contraditória e limitada, uma barreira parcial à completa mercantilização capitalista da vida social dos territórios indígenas e camponeses.

O país bloqueado e a memória das insurreições

     O pesadelo do cerco indígena continua incomodando o sono do criollaje boliviano.³

Neste momento em que escrevemos, já são mais de 22 dias de bloqueios. O governo chama ao diálogo, mas, diante dos desacertos e da escalada dos conflitos nas últimas semanas, é difícil afirmar que haverá uma saída negociada no curto prazo. O desabastecimento de alimentos e de insumos básicos já é sentido não apenas na cidade de La Paz, mas em grande parte do país. O número de bloqueios de estradas supera os 50 pontos espalhados pelas principais vias bolivianas.

É justamente nessas situações que o país se divide de forma mais aberta. O que em outros lugares poderia ser visto como uma situação excepcional, na Bolívia pode emergir a qualquer momento. A fragilidade da unidade nacional é produto de sua própria formação histórica passada e presente. O problema encontra-se nas raízes internas de um país profundamente marcado por divisões sociais, regionais, étnicas e políticas, atravessado historicamente pela tensão entre os movimentos indígenas e populares e as elites tradicionais do país, hoje representadas pelo presidente e por seu gabinete ministerial.

Por isso, a ruptura do governo com o movimento popular parece não ter mais retorno. Às mobilizações dos indígenas amazônicos somaram-se também as reivindicações dos trabalhadores convocados pela Central Obrera Boliviana (COB). “Estamos nas ruas por convicção e não por interesses econômicos. Este presidente e seus ministros incapazes não deram solução aos problemas do país”, afirmou o secretário-executivo da COB, Mario Argollo.

Com a convocação de uma greve geral por tempo indeterminado, a central operária passa a se colocar não apenas como direção dos trabalhadores, mas também como referência política mais ampla do descontentamento social, chamando à mobilização setores camponeses, movimentos indígenas e a população em geral. Ou seja, setores historicamente estratégicos e dinâmicos da economia boliviana, como os mineiros, solidarizam-se com os indígenas da Amazônia e passam a questionar abertamente a legitimidade do governo, chegando, inclusive, a exigir sua renúncia.

O governo fez de tudo para conter a revolta popular. Obviamente, a única coisa que não fez foi escutar os movimentos sociais e apresentar uma saída concreta para a crise. Permaneceu preso à dinâmica neoliberal que busca construir uma Bolívia voltada aos interesses das elites: privatizar empresas, modificar a Constituição, impor ajuste fiscal, retirar subsídios da gasolina e aprofundar medidas de mercado. A lista continua…

Neste caso, o governo procura responsabilizar Evo Morales pelos bloqueios, sustentando que eles seriam financiados pelo narcotráfico e executados por manifestantes pagos para interditar estradas. A tentativa do governo é construir uma narrativa capaz de obter respaldo em parte da sociedade. No entanto, os dias passam e a solução não aparece de maneira simples.

Mais uma vez, o governo opta pelo endurecimento: manda prender dirigentes sindicais, chama os manifestantes de vândalos, selvagens e multiplicam os ataques verbais para tentar ocultar o verdadeiro problema de fundo, que é a incapacidade de construir um país voltado à maioria da população e não apenas a um setor privilegiado. Até o momento, o governo mantém a repressão policial sob certo controle, buscando evitar que a situação provoque uma explosão ainda maior da revolta social. Ao mesmo tempo, intensifica as ameaças contra as direções sindicais.

Nesse contexto, a direção da COB, atuando parcialmente na clandestinidade, divulgou declarações dirigidas a todo o país. “Queremos deixar claro para toda a população que o espírito de parte da direção, especialmente da minha pessoa, estará junto de todos vocês”, afirmou Mario Argollo em vídeo divulgado nas redes sociais. Em seguida acrescentou:

“Muito independentemente de sermos perseguidos, estaremos onde tivermos que estar. E, se também nos prenderem, estaremos junto com vocês, meus companheiros e companheiras. Irmãos e toda a população, força aos meus irmãos, a todo o povo mobilizado, porque aquilo pelo que estamos lutando é justo e é pelo nosso país”.

Isso, porém, não é uma novidade na história boliviana. Mesmo durante o governo de Evo Morales, em 2010, o país viveu uma greve geral acompanhada de cercos e bloqueios de estradas. É importante destacar que esses métodos de luta não se dirigem apenas contra governos de direita, mas contra qualquer governo que toque os interesses dos explorados e oprimidos. Naquele momento, o então vice-presidente Álvaro García Linera afirmava: “Nós, que viemos da luta sindical, sabemos que uma greve geral por tempo indeterminado possui conteúdo político; uma greve geral por tempo indeterminado é declarada para derrubar governos”. Já Pedro Montes, dirigente da COB à época, respondia às acusações dizendo que “este não é um problema político, é um problema econômico, ligado às necessidades dos trabalhadores”. 

O que queremos explicar é o sentido histórico e político desses métodos de luta na Bolívia. Os bloqueios, cercos e greves gerais não aparecem apenas como instrumentos conjunturais de pressão econômica, mas como formas profundamente enraizadas de intervenção direta das massas na vida política nacional. Trata-se de mecanismos através dos quais trabalhadores, indígenas e camponeses procuram impor limites ao Estado, disputar os rumos do país e fazer valer suas demandas diante de governos que, independentemente de sua coloração política, entram em choque com os interesses populares. É justamente essa continuidade histórica da mobilização que transforma cada crise boliviana em algo muito maior do que um simples conflito social episódico.

O que queremos compreender aqui é justamente o porquê dos bloqueios e como se chega a esse tipo de situação de maneira quase espontânea, além da enorme facilidade com que diferentes setores conseguem unificar suas lutas. Em muitos outros países isso é muito mais difícil de ocorrer e frequentemente incompreensível para observadores externos. Na Bolívia, porém, existe uma impressionante capacidade de mobilização de um povo que historicamente resiste e luta contra-ataques vindos de diferentes governos e setores de poder.

Como apontamos no início deste texto, a Bolívia parece viver constantemente à beira de uma insurreição. E é justamente por isso que, como revolucionários, devemos extrair lições desse verdadeiro laboratório político e social. Para compreender isso, é necessário recorrer à memória histórica e retornar ao ponto mais agudo da Revolução de 1952, um processo revolucionário que acabou truncado e incapaz de resolver plenamente a questão indígena e nacional.

É nesse ponto que Silvia Rivera Cusicanqui recupera a centralidade da questão indígena e dos problemas históricos que permanecem abertos até os dias atuais. Como afirma a autora: “A continuidade da situação colonial, que justifica a legitimidade de reivindicar as lutas anticoloniais do passado, é matizada então pela descontinuidade e pela ruptura que significa a situação revolucionária de 1952. A continuidade da identidade índia é matizada pela passagem de índio a camponês encarnada em 1952 e frustrada pela reconstituição da lógica oligárquico-senhorial na pós-revolução.”

Ou seja, a Revolução de 1952 incorporou parcialmente os indígenas e camponeses ao Estado nacional, mas sem destruir completamente as estruturas coloniais, raciais e oligárquicas da sociedade boliviana. A memória dessas contradições permanece viva e reaparece em cada grande crise nacional, ajudando a explicar por que os bloqueios, cercos e mobilizações continuam sendo vistos por amplos setores populares não apenas como formas de protesto, mas como instrumentos legítimos de autodeterminação política e social.

Para isso, é possível compreender melhor por que, mesmo após mais de 80 anos daqueles acontecimentos da Semana Santa de 1952, essas experiências continuam presentes no imaginário coletivo boliviano. O sociólogo René Zavaleta Mercado afirmava:

“A Revolução de 1952 significou o momento mais alto de incorporação das massas à vida política nacional, mas essa incorporação foi contraditória, incompleta e marcada por permanências coloniais que nunca foram plenamente destruídas.”
(ZAVALETA MERCADO, Lo nacional-popular en Bolivia)

No mesmo sentido, Silvia Rivera Cusicanqui afirma em Oprimidos pero no vencidos: “Por todas essas razões, a memória coletiva da Revolução de 1952 significa apenas uma ruptura parcial com o passado, diante da evidente continuidade das práticas de discriminação e de ‘pongueaje político’ e diante do persistente exercício da alteridade cultural e organizativa dos comunários aymaras.”

Em parte, isso ajuda a explicar os anos em que Evo Morales conseguiu permanecer no poder e, ao mesmo tempo, ampliar a visibilidade política e social dos diferentes setores indígenas do país. Também ajuda a compreender o profundo rechaço existente contra tudo aquilo que aparece como “modernidade” imposta por uma elite branca tradicional, frequentemente identificada pelas massas indígenas e populares como continuidade histórica das estruturas coloniais e oligárquicas que velam por seus próprios interesses.

Continuemos explicando a relação da memória longa, que remonta ao período colonial, à resistência indígena frente à ocupação e ao avassalamento imposto pelo colonizador. A figura de Túpac Katari expressa justamente esse processo histórico. Como liderança do grande cerco à cidade de La Paz, em 1781, Katari dirigiu aquele que foi um dos maiores levantes anticoloniais da América, quando milhares de rebeldes bloquearam os acessos da cidade para enfrentar a exploração colonial e o regime de trabalho forçado imposto pelos espanhóis. Desde então, a cidade de La Paz passou a conviver historicamente com o “cercamento” como forma de pressão política e social das massas indígenas e populares.

Continuando essa reflexão, Silvia Rivera Cusicanqui afirma “A percepção da continuidade colonial revela o predomínio da memória longa sobre a memória curta e é fonte de identidade política autônoma, que não admite substituição.”

Ou seja, os bloqueios contemporâneos não surgem apenas de reivindicações imediatas ou conjunturais. Eles carregam uma memória histórica acumulada de resistência, autodeterminação e enfrentamento ao poder colonial, oligárquico e estatal. Sem compreender essa dinâmica profunda, o governo atual parece ter os dias contados. Pode reprimir e sobreviver por algum tempo, mas sua legitimidade já começa a apresentar sinais de esgotamento. O governo não compreendeu o verdadeiro significado do apoio recebido nas últimas eleições, tratando-o como um cheque em branco para aplicar medidas contrárias aos interesses populares.

No mesmo sentido, Silvia reafirma: “Mobilizações, bloqueios e cercos expressam não apenas reivindicações econômicas imediatas, mas a permanência histórica de formas de autodeterminação coletiva que sobrevivem à tentativa permanente de integração subordinada ao Estado e ao capital.” É justamente essa permanência histórica da memória longa que ajuda a explicar por que, na Bolívia, as lutas podem rapidamente assumir caráter nacional, articulando indígenas, camponeses, mineiros, trabalhadores urbanos e setores populares em torno de métodos de luta que atravessam séculos de história.

A autodeterminação das massas e os limites do Estado

As massas superam o próprio Estado. No marxismo revolucionário, isso normalmente é utilizado para analisar experiências revolucionárias de décadas ou até séculos passados a Revolução Russa, a Revolução Chinesa ou os processos revolucionários do pós-guerra. Em geral, trata-se de momentos excepcionais, e não de algo que emerge toda vez que um conflito afeta um país. Porém, na Bolívia, a excepcionalidade parece transformar-se em permanência histórica.

Como já mencionamos, nas últimas décadas a Bolívia viveu mais de dez grandes momentos de mobilização nacional que colocaram à prova todos os limites do Estado. E é justamente nessa situação que se encontra hoje o governo de Rodrigo Paz. A própria direita oligárquica começa agora a pressionar pelo desbloqueio do país. O presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Stello Cochamanidis, exigiu que o governo desbloqueie as estradas até este domingo e advertiu que, caso isso não aconteça, sairão para desbloquear Santa Cruz: “Vocês têm até este domingo para desbloquear.” Ao mesmo tempo, a população paceña também começa a demonstrar impaciência diante da pouca margem de manobra do governo para resolver os problemas do país. Isso aprofunda elementos de polarização social e abre tendências perigosas de enfrentamento civil.

É justamente nessa crise permanente do Estado boliviano que o pensamento de René Zavaleta Mercado adquire enorme atualidade: “Bolívia é uma formação social abigarrada, onde não apenas se sobrepuseram diferentes épocas econômicas sem se combinarem completamente, mas onde também coexistem estruturas sociais e culturais correspondentes a distintos momentos históricos. É um país onde convivem simultaneamente formas comunais, relações servis, economia mercantil simples e capitalismo moderno.” E continua: “A crise é o momento em que a sociedade olha para si mesma. É o instante privilegiado do conhecimento porque as classes sociais, as regiões, as memórias e as contradições ocultas emergem de maneira aberta e condensada.” Dificilmente seria encontrar uma definição mais precisa para os acontecimentos atuais.

As massas irrompem repentinamente, convertendo-se em atores sociais e sujeitos políticos que já não aceitam ser silenciados ou subordinados por um Estado incapaz de responder às contradições do país. Trabalhadores, mineiros, camponeses e indígenas passam a se colocar como sujeitos ativos da vida nacional, disputando os rumos do país e impondo limites aos interesses do capital. As próprias massas constroem e, ao mesmo tempo, destroem, através de sua irrupção política, as diferentes formas de governo, em um movimento constante entre os zocavones das minas, as fábricas, as parcelas de terra, as estradas bloqueadas e os palácios de governo.

Como advertia René Zavaleta Mercado, “a crise é o momento privilegiado do conhecimento”. Na Bolívia, cada crise recoloca em cena não apenas disputas econômicas imediatas, mas também memórias históricas profundas, formas comunais de organização e a permanente irrupção das massas populares na vida política nacional. O governo Rodrigo Paz acreditou que poderia administrar tecnocraticamente um país cuja estabilidade sempre dependeu de delicados equilíbrios entre Estado, movimentos sociais e questão territorial. O resultado foi que, em poucos meses, o conflito agrário transformou-se novamente em uma crise política nacional.

O desafio da organização revolucionária

O que fica como questão central é qual saída pode ser dada a uma situação como a que se vive hoje na Bolívia. Em parte, isso passa pela formação de um partido revolucionário capaz de sintetizar todos esses elementos que vimos detalhando ao longo do texto. Sem compreender os diferentes aspectos históricos, nacionais, indígenas, comunais e de classe que atravessam a sociedade boliviana, torna-se impossível construir inserção popular duradoura entre amplos setores da população.

Existiram alguns exemplos históricos de organizações que tentaram cumprir esse papel, mas, muitas vezes, devido ao sectarismo e à incapacidade de compreender a complexidade da formação social boliviana, não passaram de algumas dezenas ou, no máximo, centenas de militantes, com pouca inserção real no movimento de massas e entre os trabalhadores. O desafio colocado aos revolucionários é justamente compreender essa realidade e lançar os cimentos de um partido político capaz de apontar uma perspectiva para uma Bolívia socialista, originária e popular.

As massas demonstram repetidamente disposição para superar os limites do Estado, como revela o atual conflito. Porém, o desafio estratégico está em avançar para um estágio superior de organização e poder popular. Isso significaria impulsionar formas de auto-organização capazes de discutir os destinos do país a partir dos próprios trabalhadores, indígenas, camponeses e setores populares mobilizados. A necessidade de uma assembleia popular que centralize essas demandas e construa um órgão político próprio das massas reaparece como uma possibilidade histórica diante da crise permanente do Estado boliviano.

Novas crises surgirão mais cedo ou mais tarde. Retomando novamente René Zavaleta Mercado: “As crises bolivianas são momentos de condensação histórica nos quais reaparecem simultaneamente a memória colonial, a revolução inconclusa de 1952 e as contradições contemporâneas do capitalismo dependente.” É justamente nessa condensação histórica que a Bolívia continua revelando, de forma dramática e explosiva, os limites de seu Estado, as permanências coloniais de sua formação social e a permanente irrupção das massas como sujeito político da história. A Bolívia continua sendo um dos poucos lugares do continente onde as massas populares seguem demonstrando que a história ainda pode ser aberta pela irrupção direta dos explorados e oprimidos.

Notas:

  1. Apesar de se apresentar como ‘renovação’, Rodrigo Paz carrega em sua trajetória marcas de continuidade com a velha política boliviana… advertíamos temperadamente que o governo se enfrentaria com as massas… A vitória de Paz expressa uma virada política à centro-direita, mas terá necessariamente que passar pela prova do real em um país marcado por fortes tradições de mobilização popular. Ver CAMACHO, Martín. “A vitória de Paz: uma virada para a centro-direita que terá que passar pela prova do real” de 22 de outubro de 2025. https://esquerdaweb.com/a-vitoria-de-paz-uma-virada-para-a-centro-direita-que-tera-que-passar-pela-prova-do-real/
  2. A histórica marcha indígena contra a construção de uma rodovia no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na Bolívia, tornou-se um símbolo da luta socioambiental na América Latina. O projeto rodoviário, inicialmente financiado com apoio de capital brasileiro.
  3. RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Oprimidos pero no vencidos: luchas del campesinado aymara y qhechwa, 1900-1980.

Bibliografia

Karl Marx. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

Karl Marx. “Carta a Vera Zasulich” (1881). Disponível em: Marxists Internet Archive. Acesso em: 22 maio 2026.

Silvia Rivera Cusicanqui. Oprimidos pero no vencidos: luchas del campesinado aymara y qhechwa, 1900-1980. La Paz: HISBOL-CSUTCB, 1984.

René Zavaleta Mercado. Lo nacional-popular en Bolivia. México: Siglo XXI, 1986.

MARTÍN CAMACHO. “Bolívia: fim do ciclo do MAS e a recomposição da direita”. Esquerda Web. Acesso em: 22 maio 2026.

MARTÍN CAMACHO. “A vitória de Paz: uma virada para a centro-direita que terá que passar pela prova do real”. Esquerda Web. Acesso em: 22 maio 2026.

MARTÍN CAMACHO. “Bolívia: fortes mobilizações desafiam o governo de Rodrigo Paz”. Esquerda Web. Acesso em: 22 maio 2026.