O artigo abaixo é uma introdução à uma série de outros quatro artigos denominados “Impacto, lições e perspectivas (provisórias) da terceira Guerra do Golfo”, publicados por Marcelo Yunes (dirigente do Nuevo MAS da Argentina e da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie) acerca da da guerra entre EUA (com apoio de Israel) e Irã como parte de uma crise mais ampla da ordem geopolítica global, marcada pelo declínio da hegemonia dos EUA e pela crescente instabilidade internacional.

Para uma compreensão maior do problema o autor parte da definição de que há  uma crise da ordem internacional pós-Guerra Fria, antes dominada pelos EUA em que a chamada “ordem liberal baseada em regras” perde credibilidade, levando o mundo a uma fase contínua de conflitos (Ucrânia, Gaza, Venezuela e agora Irã).

Desse modo, aqui ele realiza uma comparação entre os acontecimentos da ordem anterior com o papel de Trump no atual conflito em que atua sem planejamento estratégico consistente e com decisões impulsivas e baseadas em cálculo político imediato e de como esse estilo de liderança caótico, com mudança constante de objetivos e desprezo pela  inteligência e diplomacia cria um alto risco de a guerra no médio oriente tornar-se um outro conflito prolongado, como os do período anterior.

Por José Roberto Silva pela Redação

Introdução: um mundo sem regras claras após o colapso da ordem anterior

Impacto, lições e perspectivas (provisórias) da terceira Guerra do Golfo.

Por Marcelo Yunes

A guerra entre os EUA (com Israel como sócio menor) e o Irã apresenta, ao mesmo tempo, novos desdobramentos e a confirmação de outros anteriores. É consequência de perturbações anteriores na ordem geopolítica global e certamente será causa de outras, cuja profundidade é difícil de avaliar hoje, na medida em que se trata de um conflito em andamento (no momento da redação deste texto, completavam-se dois meses de guerra).

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, não houve um único momento no mundo em que uma potência importante não estivesse envolvida em um conflito bélico internacional. E não apenas pela continuidade da guerra na Ucrânia, mas pelo genocídio israelense em Gaza, pela campanha dos EUA contra a Venezuela com o subsequente sequestro de seu presidente Nicolás Maduro e agora pela entrada em guerra aberta com o Irã, enquanto Israel continua sua agressão expansionista em toda a região.

Já é uma concepção amplamente aceita entre analistas internacionais de todas as tendências (liberais, marxistas ou de direita), e que nossa corrente já abordou em análises anteriores, [1] de que o mundo entrou em uma nova etapa marcada pela ruptura e pela crise da ordem global herdada da Guerra Fria e que havia sobrevivido ao fim desta, primeiro como parte de um “momento unipolar” de hegemonia norte-americana sem rivais nem parceiros à sua altura, e depois com o surgimento do desafio da China.

Para não nos repetirmos, lembraremos apenas que, neste novo período, ou entram em colapso ou são seriamente questionados o sentido e o funcionamento das instituições pilares da ordem anterior (ONU, OTAN, OMC e outros organismos multilaterais). Junto com elas, começa a se romper o consenso da “ordem liberal baseada em regras” que, embora sem dúvida de forma hipócrita, funcionava como fundamento político e “moral” das ações do Ocidente capitalista e de seu líder, os EUA. O cinismo, o oportunismo e o desprezo por tudo o que não seja explicitamente uma vantagem política, econômica ou militar que Trump exibe – e quase toda a sua equipe de governo, nesse aspecto muito mais alinhada e homogênea do que a de seu primeiro mandato – são a expressão mais grosseira do fenômeno, mas não seu único ou fundamental fator explicativo.

Nesse sentido, é esclarecedor comparar a forma de agir do imperialismo norte-americano nas duas guerras do Golfo anteriores e na atual. A primeira Guerra do Golfo, em 1991, foi talvez o início do maior “momento unipolar” da história recente, com a liderança e a hegemonia indiscutíveis dos EUA como garantes da ordem internacional contra os “Estados párias” e os regimes que questionavam essa posição dos EUA. A coalizão militar que atuou contra Saddam Hussein incluiu 41 países e contou com um consenso imperialista impressionante e a bênção da ONU. O resultado foi colocar rapidamente Saddam na linha, que havia invadido o Kuwait e teve de se retirar.

A Segunda Guerra do Golfo, em 2003, já apresentava outras características: não havia tanto consenso nem seus resultados foram tão bem-sucedidos. De fato, embora em termos militares tenha sido aparentemente mais avassaladora, com a destituição do poder dos talibãs no Afeganistão e de Saddam Hussein no Iraque, o resultado real para os EUA foi um atoleiro de décadas em ambos os países.

O resultado em termos de “poder brando” foi ainda pior: a justificativa formal para a entrada na guerra foi uma mentira escandalosa: que o líder iraquiano possuía armas de destruição em massa e abrigava Bin Laden. A origem falsa da intervenção foi impossível de esconder do resto da opinião pública mundial – nos EUA foi outra história – e resultou em um forte movimento contra a guerra em aliados-chave dos EUA, como o Reino Unido. O descrédito dos EUA foi imperceptível nos EUA, mais grave em seus aliados europeus e devastador no Oriente Médio.

O saldo político foi uma longa, penosa e sangrenta transição no Iraque – com forte presença de milícias xiitas aliadas ao Irã, que continuam lá até hoje – e um governo fantoche no Afeganistão tão fraco que acabaria com o retorno dos talibãs a Cabul em 2021. O fantasma desse balanço nada animador da intervenção militar americana no Oriente Médio está na base de uma bandeira muito cara ao Partido Republicano, ao movimento MAGA (Make America Great Again, lema fundador do trumpismo) e às campanhas eleitorais de Trump, especialmente a de 2024: basta de “guerras eternas” na região.

Mas é exatamente nesse atoleiro que Trump parece ter se metido, mais uma vez. E o preço a pagar pode ser ainda mais alto em vários aspectos, desde o dano político eleitoral para o Partido Republicano até o aprofundamento das divisões na OTAN e o aumento da desconfiança dos aliados dos EUA, a ponto de buscarem caminhos alternativos em sua política de segurança.

De fato, Trump se meteu sozinho — veremos mais adiante o papel de Netanyahu e de Israel nessa equação, mas a decisão final foi do presidente americano — em um problema do qual não sabe bem como sair sem parecer fraco, indeciso e até mesmo derrotado, mas, ao mesmo tempo, correndo os riscos de uma intervenção possivelmente longa, desgastante em muitos sentidos e, ao contrário das guerras do Golfo anteriores, extremamente impopular desde o início, e cada vez mais.

É também um lugar-comum entre os analistas internacionais que os EUA foram o único ator do conflito a entrar na guerra sem ter definido objetivos claros. Trump revelou-se um tático muito duvidoso e um estrategista inexistente. O que configura um grave problema para uma superpotência, cuja condução da hegemonia global não pode ser realizada com a lógica de um especulador imobiliário ou de um mega influenciador ávido por lucro e ego.

Como pôde ter ocorrido uma decisão tão evidentemente equivocada e perigosa para os próprios interesses imediatos e a longo prazo dos EUA e do próprio Trump como o ataque ao Irã? Embora seja difícil saber como o presidente americano raciocina – em primeiro lugar, sem dúvida, para si mesmo –, há padrões que parecem se repetir: “Trump está agindo, assim como na Venezuela, não porque seu adversário é forte (…), mas porque é fraco (tome nota, Cuba). (…) Os ataques dos EUA e de Israel no ano passado degradaram as defesas antiaéreas do Irã. Nesse contexto, Trump viu a oportunidade de um nocaute fulminante. Ele também está agindo porque aprendeu com seu primeiro mandato. Naquela época, ele hesitou. (…) Desta vez, para melhor ou, provavelmente, para pior, ele está seguro de seu julgamento, e seus assessores não o contradizem” (“The audacity of Donald Trump”, The Economist – doravante TE – 9489, 7-3-26).

A mesma hipótese é defendida pelo ex-embaixador dos EUA em Israel durante a Segunda Guerra do Golfo, Daniel Kurtzer: Trump buscava uma repetição da vitória rápida e fácil de junho passado, após o ataque conjunto com Israel às instalações nucleares do Irã: “Acho que ele simplesmente queria fazer parte do desfile da vitória”, afirma (“The blame-Israel lobby”, TE 9490, 14-3-26). Ou seja, essencialmente, uma repetição da exibição de um troféu fácil, ao estilo Venezuela. Falar em erro de cálculo é, francamente, ficar muito aquém da realidade.

Uma explicação que ganhou muito terreno é que Marco Rubio não estava mentindo quando deixou escapar, em uma coletiva de imprensa, que os EUA deveriam ter iniciado as operações militares “porque, caso contrário, Israel teria feito isso por conta própria”, o que deixou a suspeita indelével de que os EUA foram arrastados para a guerra por Israel e não o contrário.

Não se trata de uma teoria da conspiração, mas de uma possibilidade que, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, assume com toda a clareza:

 “O maior erro de cálculo do governo dos EUA, sem dúvida, foi, para começar, permitir-se ser arrastado para esta guerra. Esta não é a guerra dos EUA [referência óbvia a Israel. MY], e não há cenário plausível em que tanto os EUA quanto Israel consigam com ela o que pretendem. Esperemos que o compromisso dos EUA com a mudança de regime seja apenas retórica, enquanto Israel busca explicitamente a derrubada da República Islâmica e provavelmente pouco se importa com a forma como o país será governado, ou por quem, uma vez que isso tenha sido alcançado. (…) Os líderes israelenses parecem ter convencido os EUA de que o Irã estava tão enfraquecido pelas sanções, pelas divisões internas e pelos bombardeios dos EUA e de Israel às suas instalações nucleares em junho passado que o ataque inicial e o assassinato de seu líder supremo seriam seguidos pela rendição incondicional. Mas deve ficar claro agora que, para que Israel alcance esse objetivo, será necessária uma longa campanha militar para a qual os EUA deverão comprometer tropas no terreno. (…) Isso não é o que o governo dos EUA quer. Nem seu povo, que, aliás, não vê essa guerra como sua. (…) A pergunta para os amigos dos EUA é simples. O que podemos fazer para tirar a superpotência desse atoleiro indesejado? Em primeiro lugar (…) é preciso dizer a verdade. Há duas partes nesta guerra que não têm nada a ganhar com ela, e os interesses nacionais tanto do Irã quanto dos EUA residem no fim o mais rápido possível das hostilidades. É uma verdade incômoda de se dizer, porque implica indicar até que ponto os EUA perderam o controle de sua própria política externa. Mas deve ser dita.(By invitation, TE 9491, 21-3-26)

Em nossa opinião, a última afirmação é completamente exagerada; como veremos, Israel ficou de fora das decisões relativas ao rumo da guerra e às negociações (talvez, em parte, como uma compensação exagerada pelo elemento de verdade que existe sobre o papel de Israel no início da guerra). Mas, como vemos, parte da hipótese de Albusaidi, chanceler de um país do Golfo declaradamente “amigo dos EUA”, é que, pelo menos no início, Trump efetivamente decidiu seguir Israel – seguindo seus próprios (maus) cálculos, é claro – em vez de, como sempre foi a norma, agir primeiro e obrigar Israel a segui-lo.

À falta de jeito dessa decisão, há que acrescentar, como parte inseparável do “estilo Trump”, o caráter desleixado de sua liderança (incluindo os principais membros de sua equipe de governo), algo que salta aos olhos assim que se faz, mais uma vez, a comparação mais básica com a condução das guerras anteriores na região. A construção de consensos, a definição precisa de objetivos, o uso cuidadoso das informações de inteligência, o momento de declarar a vitória e até mesmo a sobriedade da linguagem utilizada por George Bush em 1991 não poderiam oferecer um contraste mais contundente com Trump: decisões caprichosas em todas as áreas; relação instável com os aliados, que ele primeiro ignora, depois implora e, por fim, repreende; objetivos que mudam a cada semana, a cada dia e até a cada minuto; desprezo deliberado e irresponsável pelos relatórios de inteligência que o alertaram de que a questão do Irã não seria nada fácil; declarações exageradas de vitória que depois eram relativizadas ou negadas para serem repetidas dias depois e, embora a esta altura seja apenas uma curiosidade, uma total falta de profissionalismo e seriedade mínimas na comunicação política, seja em coletivas de imprensa ou (mais comumente) nas redes sociais.[2]

O grau de improvisação da decisão de Trump fica evidente quando se constata que, há apenas cinco meses, um documento da Estratégia de Segurança Nacional sintetizava a agenda para o Oriente Médio com a ideia de promover a paz para poder transferir recursos para áreas mais prioritárias (“shift burdens, build peace”). Em poucas palavras, manter o rumo estratégico que vem, pelo menos, desde a presidência de Obama, de retirar-se de uma região que traz mais problemas do que soluções e concentrar-se no eixo Ásia-Pacífico, que é onde se decidirá a geopolítica global nas próximas décadas. Essa agenda é um dos poucos pontos que tinham e têm consenso bipartidário na política americana. Trump optou por colocá-la em risco, fazendo exatamente o que havia denunciado e prometido nunca mais fazer.

Esse contraste na capacidade de gestão estratégica do imperialismo norte-americano é uma expressão muito simbólica da distância entre o “momento unipolar” da década de 90 a que nos referíamos — com os EUA como líder indiscutível em todos os âmbitos (econômico, militar, tecnológico e geopolítico) e portador dos “valores do Ocidente” em sua condição de vencedor da Guerra Fria, por um lado — e o evidente declínio político dos EUA nesta época de crise hegemônica. Bush era o representante razoável do policial do mundo que vigiava a ordem global com critérios aceitos por todos; em contrapartida, Trump não inspira o menor respeito entre seus pares das potências aliadas ou inimigas, para não falar do establishment político norte-americano. [3] Tudo o que resta é a inércia de seu poderio econômico, militar e tecnológico… cuja primazia é cada vez mais questionada, em primeiro lugar pela ascensão não apenas econômica, mas também tecnológica da China.

Não faremos aqui uma cronologia do conflito nem uma análise detalhada dos acontecimentos militares; eles são, em geral, bastante conhecidos e, como em qualquer guerra, faz pouco sentido especular sobre o que ocorre no campo de batalha; o equilíbrio de forças pode sofrer reviravoltas inesperadas em questão de dias ou até mesmo horas. Portanto, vamos nos concentrar aqui nos vetores político-estratégicos que atuam no conflito e nas conclusões (provisórias) a que o desenrolar dos acontecimentos nos leva, a partir de uma perspectiva de médio prazo.

Nesse sentido, é possível que, para além dos cessar-fogos temporários, estejamos chegando a uma encruzilhada em que os caminhos são a negociação e a solução do conflito, ainda que precária, ou uma escalada que conduza a uma longa guerra de desgaste (com ofensiva terrestre?). Tudo está em aberto, porque, como sempre aconteceu e como se confirmou novamente na Ucrânia e agora no Irã, as guerras são imprevisíveis: sabe-se como e por que começam, mas não como continuam e muito menos como terminam.

Dito isso, parece correto o que vários especialistas apontam: não há muito mais que os EUA possam conseguir a partir do ar; nesse sentido, não é totalmente errado afirmar, como Trump e seu ministro da Guerra, Hegseth, têm feito esporadicamente, que “os principais objetivos militares foram alcançados”. A questão é que, sem ter abalado o regime e sofrendo as consequências do bloqueio — primeiro imposto por terceiros e depois pelo próprio país — do estreito de Ormuz, as jogadas possíveis no atual estado do tabuleiro estão se esgotando.

O desfecho, naturalmente, está tão em aberto que pode ir desde uma retirada “vitoriosa” de Trump até algo que parecia impensável, mas que, nesta nova etapa, definitivamente não pode ser descartado: o uso de armas nucleares. De fato, quando, a poucas horas do vencimento do “ultimato” de Trump ao Irã, o presidente americano falou em “aniquilar (obliterate) uma civilização inteira”, o mundo inteiro não pôde deixar de se perguntar se ele não estaria se referindo à opção nuclear.

Felizmente, voltou a ocorrer o fenômeno TACO (Trump Always Chickens Out, ou seja, Trump sempre acaba recuando) e o presidente americano acabou anunciando um cessar-fogo que, como vimos, apresentou, no auge do ridículo, como “o início de uma Era de Ouro” para a região. Mas do fato de Trump costumar voltar atrás em suas ameaças mais extremas não se pode inferir nenhuma garantia de conduta futura.

O que se pode esperar do período de espera que representa o cessar-fogo “de dez dias”, que vem sendo prorrogado por enquanto indefinidamente? Os cessar-fogos têm um histórico bastante misto desde o fim da Segunda Guerra Mundial como prelúdios de acordos de paz; em uma proporção significativa dos casos, não passaram de uma pausa no conflito, embora às vezes com menos virulência. Mas, parafraseando Clausewitz, e dependendo das circunstâncias, costumam ser “uma continuação da guerra por outros meios”, ou pelo menos uma variante de “negociação estratégica”, como a chama Valerie Sticher, do think tank suíço Centre for Security Studies.

Uma prova disso é que, cinco dias após o anúncio do cessar-fogo, os EUA iniciaram seu próprio bloqueio, que se mantém até o momento da redação deste texto, assim como a interrupção das hostilidades abertas. Esse precário estado de coisas pode mudar rapidamente em um sentido ou outro, enquanto as negociações na capital paquistanesa, Islamabad, se transformaram em uma espécie de comédia de enredos acompanhada com ansiedade e ceticismo pelo resto do mundo. Não mais por seu resultado, mas, inclusive, se elas vão ocorrer e em que termos.

A grande questão que todos se fazem em relação ao bloqueio cruzado (dos EUA aos portos iranianos, do Irã ao estreito) é quem conseguirá suportar por mais tempo os danos que ele causa. O Irã provavelmente estava preparado para essa contingência – já vimos que o governo dos EUA, de forma incomum, não estava –, e embora sem dúvida venha a sofrer pressões de abastecimento, inflacionárias e políticas, do outro lado as consequências podem ser mais graves. O bloqueio americano não pode ser seletivo – a menos que os EUA decidam, não pela primeira vez, ignorar qualquer norma do direito marítimo internacional –, e a lista de países prejudicados é tão grande que custa acreditar que as maiores pressões para o levantamento do bloqueio não venham antes dos “aliados” do que do Irã.

Esse caráter assimétrico desse verdadeiro “jogo do galo”[4]  explica o tom categórico da previsão da revista The Economist:

“Nem todas as guerras têm um vencedor. Mas toda guerra tem pelo menos um perdedor, e se – um ‘se’ muito grande – o cessar-fogo marcar o fim da guerra no Irã, o grande perdedor será Donald Trump” (“Trump’s foolish war”, TE 9494, 11-4-26).

Para além do balanço final da guerra no imediato, convém recordar uma lição que o imperialismo ianque parece não ter assimilado totalmente, e muito menos hoje, quando é comandado por um dos líderes de visão mais curta e menos estratégica de toda a sua história. Essa lição é que as consequências de uma intervenção militar no Oriente Médio não só não se esgotam após a retirada das tropas, como tendem a se aprofundar até explodir vários anos ou uma década depois.

Vejamos: mesmo a campanha aparentemente mais bem-sucedida de todas, a da Primeira Guerra do Golfo de 1991, deixou um rastro de ressentimento pela presença militar americana na região, cujo resultado indireto foi a ascensão da Al-Qaeda, de Osama Bin Laden e do ataque às Torres Gêmeas dez anos depois, em 2001. Após a Segunda Guerra do Golfo, em 2003, a continuidade da ocupação norte-americana deu origem, também uma década depois, ao surgimento e desenvolvimento do Estado Islâmico, uma milícia fundamentalista que chegou a ocupar um território de mais de 250.000 km², 40% da superfície do Iraque e da Síria juntos, e que não desapareceu até hoje, com filiais na região e na África.

Assim, embora a guerra dos EUA contra o Irã ainda não tenha desfecho, já é plausível supor que, seja qual for o resultado, as sementes do ódio aos ianques e seus aliados irão germinar, não necessariamente no imediato, e quase certamente com brotos inesperados.

NOTAS

[1] Ver, a esse respeito, de Roberto Sáenz, “A era da combustão”, e de Marcelo Yunes, “Trump 2.0: y los cambios en el imperialismo yanqui (y global)”, ambos de 2025.

[2] Uma revisão de algumas dessas declarações configura um verdadeiro catálogo do ridículo e da vergonha alheia: “Ganhamos, tudo acabou em uma hora” (11 de março); “Abram a porra do Estreito, malucos de merda, ou vão viver no Inferno! OLHEM! Louvado seja Alá” (5 de abril); “vamos apagar uma civilização inteira” (7 de abril); um dia depois: “Isso pode ser a Era de Ouro do Oriente Médio! Vai dar muito dinheiro!” É uma das características desta época que os líderes mundiais, acostumados a uma diplomacia com regras versalhesas, se vejam jogados na lama da indescritível grosseria, vulgaridade e ignorância do “líder do Ocidente”. É claro que não faltam imitadores e seguidores em outras latitudes menos civilizadas. Quanto à falta de profissionalismo, citemos um exemplo recente: em 20 de abril, Trump anunciou que o vice-presidente J. D. Vance estava a caminho de Islamabad… quando, horas depois, ele entrava tranquilamente na Casa Branca.

[3] É sabido que as declarações descabidas de Trump provocam risadas de compaixão, pelo menos em particular, entre os líderes europeus, embora depois tenham de disfarçar em público. Mas nos próprios EUA, tanto entre os legisladores democratas quanto, cada vez mais, entre os republicanos, está se consolidando uma caracterização de Trump que poucos ousavam aventurar em voz alta: ele é um homem que não está em condições psicológicas, cognitivas e morais para governar um país, muito menos se for dos EUA. A palavra “descontrolado” (unhinged) já é repetida em público; o senador Tim Kaine (democrata da Virgínia) falou com real preocupação de que o presidente “demonstra uma crescente instabilidade mental e moral”. O famoso tuíte “Open the Fucking Strait, you crazy bastards! (…) Praise be to Allah”, bem como a imagem insólita que ele postou, na qual se representava como Jesus Cristo, deram origem às primeiras discussões sérias sobre a possibilidade de invocar a 25ª Emenda da Constituição americana, que enumera os motivos para a destituição de um presidente por incapacidade.

[4] A expressão alude à prática insana, conhecida nos EUA, em que dois motoristas dirigem seus carros a toda velocidade um contra o outro até que um deles decida desviar para evitar a colisão. É usada como metáfora de uma situação potencialmente letal para ambas as partes que pode ser resolvida se um dos dois decidir evitar o choque, ao preço de ficar com a fama de covarde (chicken).

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