Após seu retorno à Casa Branca, Donald Trump insistiu várias vezes em suas intenções de se apoderar da Groenlândia, mesmo que fosse necessário recorrer à força militar. Essas ameaças se intensificaram nas últimas semanas, após a publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca e o ataque contra a Venezuela. Publicamos uma versão atualizada deste artigo, originalmente publicado em maio de 2025, no qual se explica a “geopolítica” de Trump, as tentativas dos Estados Unidos de se apropriar da Groenlândia, a história de subjugação colonial da ilha nórdica, bem como as riquezas minerais e a localização estratégica que a tornam um espólio cobiçado por Trump.
Por Johan Madriz
Transitamos à uma etapa histórica marcada por eventos disruptivos, entre os quais se destaca a intensificação das rivalidades interimperialistas e, surpreendentemente, da recolonização. A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos é uma confirmação dessa nova dinâmica imperialista mais agressiva, territorializada e bonapartista.
Como afirma Roberto Sáenz em A geopolítica do trumpismo, Trump não é apenas um ator político, mas a cristalização de uma mudança de época:
“um mundo mais brutal, onde as relações de força entre os Estados – e as relações entre as classes – começam a se expressar de forma mais feroz, mais direta”.
Nesse contexto, a tentativa de Trump de anexar a Groenlândia não pode ser interpretada como um simples gesto provocador, senão que faz parte de um projeto de reconfiguração do mundo. Essas ameaças fazem parte de um conjunto mais amplo de agressões — como as ameaças contra o Panamá no início de seu mandato, a militarização do Caribe e a recente agressão imperialista contra a Venezuela — e refletem um programa que combina coerção econômica, intervenções militares e desprezo absoluto pela autodeterminação dos povos.
O Destino Manifesto trumpista
Trump não esconde suas intenções de anexar a Groenlândia sob o pretexto da “segurança nacional”. Em suas próprias palavras, ele disse que “conseguiremos a Groenlândia. Sim, 100%” e acrescentou que existem “boas chances de conseguirmos isso sem força militar”, mas “não descarto nada”. Há algumas semanas, ele retomou essa ideia ao declarar que os Estados Unidos controlariam a ilha nórdica “pela boa ou pela má maneira”.
Longe de ser uma novidade, essas ameaças fazem parte de uma ofensiva mais ampla que inclui, por exemplo, suas ameaças e exigências ao governo panamenho para retomar o controle do Canal do Panamá, tornar o Canadá o 51º estado ou converter Gaza na “riviera” do Oriente Médio. Trump intensifica sua investida territorial como parte das pretensões imperialistas que traçou para seu segundo mandato.
Essa investida não se restringe simplesmente a uma estratégia militar, senão que combina aspectos econômicos e diplomáticos. Por exemplo, ofereceu diretamente comprar a ilha em seu primeiro mandato e, agora, considera entregar cheques anuais de US$ 10 mil a cada um de seus habitantes para substituir os subsídios dinamarqueses, o que constitui uma tentativa de suborno envolta em uma retórica profundamente tirânica.
Além disso, ele não hesitou em recorrer a gestos de provocação direta, como a visita do vice-presidente JD Vance à ilha em março do ano passado, sem convite oficial, onde fez declarações abertamente intervencionistas:
“Nossa mensagem à Dinamarca é muito simples: vocês não fizeram um bom trabalho com o povo da Groenlândia”
Esse tipo de retórica evidencia uma mentalidade colonialista clássica, na qual se justifica a intervenção estrangeira sob o pretexto de “civilizar” ou “proteger” uma população supostamente abandonada.
Nesse contexto, o trumpismo encarna uma forma renovada de imperialismo territorial, em oposição ao imperialismo “desterritorializado” do neoliberalismo clássico. O que Trump expressa é
“uma espécie de bonapartismo internacional”
que busca “territorializar” novamente o domínio imperial, com uma lógica
“protecionista, bonapartista, colonial, reacionária e antimoderna”.
Trata-se, portanto, de uma espécie de restauração de formas arcaicas do imperialismo (acumulação primitiva), que evocam o Destino Manifesto do século XIX.
Esse princípio, que proclamava a missão divina e civilizadora do povo americano de expandir seu modelo político, econômico e cultural sobre outros territórios, encontra agora uma versão atualizada nas ameaças de anexação da Groenlândia. Ao contrário do passado, em vez de colonos deslocando povos originários, agora são corporações, bases militares e megamineração que representam o “progresso” capitalista.
Este novo Destino Manifesto busca o controle de recursos vitais, rotas comerciais emergentes e posições militares estratégicas, visualizando a Groenlândia como um “território vazio”, disponível para ser comprado, explorado ou militarizado.
Junto com isso, há alguns meses, a Casa Branca publicou sua nova Estratégia de Segurança, na qual o governo Trump explicitou suas intenções de reviver a Doutrina Monroe (agora chamada de “Donroe”) com um programa claro: o Hemisfério Ocidental do planeta “pertence” aos Estados Unidos.
Um século e meio sob o mira
Esta nova tentativa de se apoderar dessa enorme porção de terra faz parte de uma longa tradição de expansionismo do capital norte-americano. A história do apetite dos Estados Unidos pela Groenlândia começa pouco depois da compra do Alasca.
Em 1868, o então secretário de Estado, William Seward, encomendou um estudo sobre a viabilidade de adquiri-la, atraído por sua riqueza potencial em pesca, animais e minerais. O relatório indicava que sua aquisição poderia até mesmo levar o Canadá a se incorporar aos Estados Unidos ao ver seu território cercado pelo leste, oeste e sul.
Esse gesto ilustra a lógica de acumulação territorial do nascente imperialismo norte-americano, que ansiava por se colocar no mesmo nível de seus pares europeus por meio da expansão para as “margens do mundo” e, dessa forma, garantir novas fontes de matérias-primas e mercados.
Esse interesse foi reativado em 1910, quando o embaixador norte-americano Maurice Egan propôs trocar territórios das Filipinas pela Groenlândia e pelas Índias Ocidentais Dinamarquesas, enquanto a Dinamarca trocaria terras com a Alemanha. Embora essa tentativa tenha fracassado, a intenção persistiu. Durante a Segunda Guerra Mundial, a importância da mega ilha para os Estados Unidos adquiriu uma nova dimensão sob a Doutrina Monroe.
Aproveitando a ocupação nazista da Dinamarca, Washington assinou um acordo de defesa com o embaixador dinamarquês em 1941, que permitia a construção de bases militares na ilha. Na verdade, tratava-se de uma ocupação militar de fato, disfarçada de cooperação. Os depósitos de criolita nessa região (cruciais para a produção de aviões) e suas estações meteorológicas estratégicas eram cobiçados pelos Aliados.
Após a derrota nazista, a Dinamarca esperava que os americanos se retirassem. Mas, como observa um diplomata aposentado, “se considerava tão importante para a segurança dos Estados Unidos que nos entrincheirássemos um pouco”. De fato, foram recentemente descobertas as instalações abandonadas de Camp Century, uma instalação militar de mais de três quilômetros sob o gelo, que abrigava uma rede de mísseis nucleares e cuja existência era desconhecida pelo governo dinamarquês, pois “fingia ser um centro de pesquisa científica enquanto abrigava uma complexa estrutura militar subterrânea”.
Posteriormente, a Guerra Fria proporcionou o pretexto ideal para os Estados Unidos aprofundarem sua presença. Em 1946, o Departamento de Estado chegou a oferecer US$ 100 milhões em ouro à Dinamarca pela Groenlândia e considerou trocá-la por terras ricas em petróleo no Alasca. Embora essa transação não tenha se concretizado, em 1951 foi assinado um novo acordo que autorizava os Estados Unidos a continuar operando e expandindo bases militares na ilha sob a égide da OTAN.
Com esse tipo de política, a Groenlândia, como território colonizado e semiautônomo, foi tratada não como um sujeito soberano, mas como um espaço a ser ocupado ou coagido. Isso porque o imperialismo não é uma política externa contingente, mas uma necessidade orgânica do capitalismo em sua fase superior.
Lenin explicou isso claramente em O imperialismo, fase superior do capitalismo, ao apontar que o capital monopolista precisa se expandir territorialmente para garantir novas fontes de matérias-primas, mão de obra barata, mercados cativos e rotas estratégicas.
Autonomia sem soberania
A Groenlândia constitui uma colônia de fato, apenas mascarada sob os mecanismos institucionais da autonomia parcial.
Durante séculos, a Dinamarca exerceu um domínio colonial direto, tratando-a como um território remoto e subordinado, sem desenvolvimento econômico nem reconhecimento político. A população inuíte foi submetida a políticas de assimilação, marginalização e dependência.
Assim, permaneceu isolada e esquecida até meados do século XX. Em 1953, foi oficialmente incorporada ao Reino da Dinamarca e seus habitantes tornaram-se cidadãos dinamarqueses, mas isso não significou o fim da dominação. Foi, antes, uma mudança de forma para conservar o fundo: a subordinação colonial.
Esse processo se inscreve dentro de um colonialismo europeu tardio, no qual as metrópoles abandonaram o modelo explícito de domínio, mas conservaram os mecanismos de controle econômico, institucional e militar por meio de subsídios e limitações à soberania plena, perpetuando assim a relação de dependência.
Em 1979, a Groenlândia obteve o status de território autônomo e, em 2009, um novo referendo permitiu ampliar as competências do governo local, mas deixando ainda sob controle dinamarquês aspectos-chave como a defesa e a política externa. Essa estrutura de “autonomia sem soberania” permite ao reino dinamarquês aparentar liberalismo democrático enquanto continua seu domínio.
Dessa forma, a Dinamarca continua controlando os aspectos-chave do aparato estatal e mantém a Groenlândia em uma situação de dependência econômica, por meio de subsídios que equivalem a um quinto do PIB local e que atuam como mecanismos de controle que impedem seu desenvolvimento econômico soberano e perpetuam a submissão a Copenhague.
No entanto, essas mesmas condições afetam a população local e, atualmente, mais de 80% deseja a independência, o que reflete uma vontade de romper com a ordem colonial. Nas eleições parlamentares de março passado, o partido Naleraq, que defende a independência a curto prazo, duplicou seus assentos, enquanto o partido majoritário propõe uma separação mais gradual. Embora, por enquanto, pareça que a luta pela independência se desenvolva mais por meios legais e institucionais, sem grandes mobilizações, a verdade é que isso não diminui a legitimidade dessa reivindicação.
Por sua vez, o imperialismo estadunidense tenta manipular essa relação colonial, acusando a Dinamarca de não cuidar suficientemente da Groenlândia para justificar uma eventual intervenção. Essa é uma forma cínica de legitimar uma nova opressão sob a retórica do “salvador externo”, uma narrativa que historicamente tem sido utilizada pelas potências para intervir nos assuntos dos povos oprimidos.
A situação da Groenlândia revela a luta entre duas formas de dominação: por um lado, os resquícios do antigo colonialismo europeu representado pela Dinamarca e, por outro, o novo imperialismo das esferas de influência pelo qual Trump luta. Mas, no fim das contas, ambos enterram a vontade groenlandesa. Lenin argumentou, em relação aos povos sujeitos ao jugo colonial, que não se pode falar em emancipação sem reconhecer o direito das nações oprimidas de se libertarem de toda dominação imperialista, seja ela direta ou indireta.
Acumulação por desapropriação
A cobiça pela Groenlândia não se explica apenas pela sua geografia. A ilha tornou-se um alvo fundamental para as grandes potências, especialmente os Estados Unidos, devido a três elementos fundamentais: o seu valor estratégico militar, o seu potencial no comércio global (incluindo as rotas do Ártico) e a sua enorme riqueza em minerais críticos, especialmente terras raras.
A Groenlândia é uma peça geopolítica no tabuleiro do Ártico. Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estabeleceram bases militares na ilha e mantêm hoje a sua presença na Base Aérea de Thule, rebatizada como base espacial Pituffik. Esta instalação alberga sistemas de alerta precoce contra possíveis ataques com mísseis intercontinentais, em particular da Rússia, e funciona como estação de abastecimento para aviões da OTAN e dos Estados Unidos.
Trump, usando sua influência como principal potência mundial, está tentando usar a OTAN como uma espécie de guarda-chuva com “legitimidade” para avançar em seus planos. Recentemente, ele disse ao secretário-geral da organização, Mark Rutte, que
“precisamos disso para a segurança internacional, não apenas a segurança internacional — temos muitos de nossos jogadores favoritos navegando pela costa e precisamos ter cuidado”.
Ao que ele respondeu, posteriormente, que está “certíssimo” em posicionar a segurança no Ártico como prioridade.
Este tipo de declarações mostra que a Gronelândia está sendo vista não só como um ponto de defesa, mas também como uma base de operações para a projeção do poder militar dos EUA no Ártico e no Atlântico Norte. A militarização da região faz parte de uma tendência mais ampla do novo imperialismo territorial que regressa aos métodos clássicos de presença física e controle direto.
Esse renovado interesse militar coincide com o fortalecimento da OTAN na região e com a decisão da Dinamarca de investir mais de US$ 2 bilhões em vigilância, satélites, navios e drones para manter a soberania no Ártico. Na verdade, trata-se de um movimento coordenado que busca impedir que a China ou a Rússia ampliem sua influência sobre esse espaço.
“Devemos encarar o fato de que existem sérios desafios em matéria de segurança e defesa no Ártico e no Atlântico Norte”
declarou o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen.
As mudanças climáticas (como veremos mais adiante) estão derretendo as camadas de gelo do Ártico a uma velocidade alarmante. Como consequência, novas rotas marítimas estão se abrindo entre o Atlântico e o Pacífico, como a Passagem do Nordeste (que já está sendo usada como rota comercial de matérias-primas, como gás, entre a Rússia e a China) e, no futuro, a Rota Marítima Transpolar.
A Groenlândia surge como um ponto-chave para essas rotas comerciais emergentes, com um enorme potencial para se tornar um centro logístico, porto de transbordo e base científica ou militar. A Islândia também entra no jogo, posicionando-se como um porto de transbordo nessas rotas e cujo governo “está estendendo a mão para a UE, mas também para a Rússia e a China”.
A China integrou o Ártico à sua “Rota da Seda Polar” e tentou construir aeroportos na Groenlândia, ainda que enfrentando a oposição dos Estados Unidos e da Dinamarca. Esse interesse crescente pelo comércio ártico não é inocente; encurtar distâncias significa reduzir custos logísticos, melhorar os tempos de exportação e controlar vias-chave do comércio mundial, o que confere uma vantagem geopolítica.
Do ponto de vista econômico, a Groenlândia representa um tesouro cobiçado por seus recursos minerais, especialmente os elementos de terras raras. Um relatório recente estimou que 25% dos recursos mundiais de terras raras poderiam estar na ilha (cerca de 1,5 milhão de toneladas), incluindo neodímio e praseodímio, minerais essenciais para a fabricação de turbinas eólicas, motores elétricos e tecnologia militar. Essas terras raras são indispensáveis para a transição energética.
“Para 2024, utilizaremos cerca de 4.500% mais terras raras em todo o mundo do que em 1960”.
Essa demanda explosiva gera uma nova corrida global pelo controle desses recursos, e a ilha é uma das áreas mais promissoras e disputadas.
O domínio atual do mercado global de terras raras está nas mãos da China, que controla cerca de 60% da extração e 85% do processamento.
“Mas o domínio chinês sobre esse mercado já atingiu 95% em 2010, o que deu a Pequim um poder político e econômico significativo sobre as cadeias de produção centrais na Europa e nos EUA”.
Isso gera grande preocupação para os Estados Unidos e seus aliados, que veem na Groenlândia uma possível maneira de reduzir essa dependência estratégica. Por isso, durante o primeiro mandato de Trump, foram assinados acordos de cooperação científica e as terras raras foram incluídas na lista de “materiais críticos para a segurança nacional” dos Estados Unidos.
A dimensão econômica dessa disputa está diretamente ligada aos interesses do capital privado. Empresas como a Tesla — cujo CEO, Elon Musk, faz parte “não oficial” do governo Trump — dependem desses recursos:
“é razoável pensar em um conflito de interesses se o CEO de uma empresa que depende da disponibilidade de importantes elementos minerais está em uma posição política de autoridade para tomar decisões que poderiam afetar a disponibilidade global desses minerais”.
A Groenlândia está sendo transformada em um espaço de acumulação por desapropriação, no qual as potências capitalistas buscam se apropriar de suas riquezas naturais sem respeitar a opinião de seus habitantes nem os limites ecológicos. A ilha é tratada como uma reserva colonial de recursos estratégicos, sem considerar as consequências sociais e ambientais de sua exploração.
Acumulação por degelo
O crescente interesse estratégico pela Groenlândia – já analisado no ponto anterior – não pode ser dissociado de um dos fatores que o tornou viável: as mudanças climáticas. Nessa região, essa crise não só ameaça o meio ambiente e a vida de sua população, mas também abriu novas oportunidades de negócios para o capital.
A camada de gelo da Groenlândia – a segunda maior do mundo – está chegando a um ponto sem retorno. Desde os anos 80, a ilha perdeu mais de um trilhão de toneladas de gelo, com taxas de derretimento que se multiplicaram por seis na última década. De acordo com estudos recentes, se a temperatura global ultrapassar 3,4 °C em relação aos níveis pré-industriais, o derretimento será irreversível e elevará o nível do mar em até sete metros, causando efeitos devastadores para as comunidades costeiras em todo o mundo.
Esse processo não é natural, é principalmente a consequência histórica de mais de dois séculos de desenvolvimento capitalista baseado na exploração intensiva de combustíveis fósseis, na expansão ilimitada da produção industrial e na lógica do lucro privado acima de qualquer consideração ecológica ou humana. Como Marx já havia alertado, o capital destrói tanto os trabalhadores quanto a terra, suas duas fontes fundamentais de riqueza.
O mais grave é que, longe de frear esse processo, o capitalismo assume a crise climática como uma nova oportunidade de acumulação, uma “acumulação por degelo”. A Groenlândia se tornou mais acessível à exploração mineradora e energética justamente porque seu gelo está derretendo.
O aquecimento global revelou enormes reservas de terras raras com urânio, nióbio, ferro, grafite, cobre, titânio, ródio e outros minerais cobiçados pelas indústrias de alta tecnologia e pela transição energética, particularmente importantes na fabricação de motores elétricos e turbinas eólicas por suas propriedades magnéticas. Além disso, o Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que 30% das reservas de gás e 13% das reservas de petróleo ainda não descobertas estão localizadas no Ártico.
Este dado é fundamental para compreender a ofensiva dos Estados Unidos, da China e de outras potências sobre a Groenlândia. Não se trata de salvar o planeta, mas de controlar os insumos fundamentais para uma nova fase de desenvolvimento do “capitalismo verde”, que reproduz as mesmas lógicas extrativistas e coloniais do passado, só que (às vezes) envoltas na linguagem da sustentabilidade.
A contradição é evidente. O capitalismo, que provocou a maior parte das mudanças climáticas, agora tenta se apresentar como sua solução, mas o faz por meio de mecanismos que agravam a exploração da natureza e dos povos.
A corrida pelos minerais, por exemplo, já gerou conflitos ambientais e sociais na África, Ásia e América Latina. A Groenlândia não será exceção: a exploração maciça de seus recursos implicará danos ecológicos, deslocamento de comunidades e submissão de sua economia a interesses estrangeiros.
Essa dinâmica faz parte do “capitalismo verde”, no qual as grandes corporações e potências tentam reestruturar a economia global em torno das energias renováveis e da tecnologia limpa, sem modificar as relações de propriedade nem a lógica da acumulação. É uma farsa “verde” que não só não resolverá a crise ecológica, como a aprofundará por meio de novos ciclos de saque e dependência.
Novos métodos, velhos objetivos
Este conflito não pode ser compreendido sem ser enquadrado na rivalidade global entre as principais potências: Estados Unidos e China. Nesta confrontação pela hegemonia mundial, a Groenlândia não é um simples ponto geográfico periférico, tornou-se um território-chave na disputa pelo controle do Ártico.
A China, que nas últimas décadas deixou de ser “a fábrica do mundo” para se tornar uma potência geopolítica e econômica de primeira ordem, voltou sua atenção para essa região, apesar da distância geográfica.
Pequim agora se autodefine como uma potência “quase ártica” e tem desenvolvido projetos, investimentos e propostas diplomáticas para aumentar sua presença na Groenlândia e em outros pontos-chave do extremo norte. Busca participar de grandes obras de infraestrutura e investiu em empresas de mineração com acesso a terras raras, essenciais para a transição energética; por exemplo, com a Shenghe Resources, uma empresa estatal chinesa de mineração.
Por outro lado, garantiu respeitar a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia, em um gesto calculado que busca se apresentar como um ator “respeitoso” diante do intervencionismo grosseiro dos Estados Unidos, cujas formas rudes geram muitos anticorpos.
Por exemplo, os cinco partidos representados no Inatsisartut (parlamento regional) emitiram um comunicado rejeitando as ameaças dos Estados Unidos:
“não podemos aceitar as repetidas declarações sobre a anexação e o controle da Groenlândia. […] Consideramos inaceitável esse comportamento em relação a um amigo e aliado”.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Múte Bourup Egede, expressou-se no mesmo sentido:
“Até recentemente, podíamos confiar nos americanos, que eram nossos aliados e amigos, e com quem gostávamos de trabalhar em estreita colaboração. […] Mas essa época já passou”.
Em contraposição a esta posição, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, afirmou que
“a China respeita plenamente a soberania e a integridade territorial da Dinamarca na questão da Gronelândia e espera que a Dinamarca continue a apoiar a posição legítima da China em questões relacionadas com a sua soberania e integridade territorial”
reforçando assim uma imagem de multilateralismo que contrasta com a agressividade do trumpismo, representando o papel de um imperialismo deferente à ordem mundial estabelecida.
Além disso, a China incluiu a Groenlândia em seu projeto da “Rota da Seda Polar”, que faz parte de seu plano geral de expansão das redes logísticas e comerciais globais. Isso inclui testes de navegação por rotas do Ártico, quebra-gelos nucleares e estações científicas, em cooperação com a Rússia. “O Ártico está se tornando chinês”, titulou há alguns meses a RIA Novosti, uma agência de notícias estatal russa. Isso após o teste de três quebra-gelos chineses (Xuelong 2, Ji Di e Zhong Shan Da Xue Ji Di) abrindo caminho pelo mar Ártico.
A isso se somam incursões militares cada vez mais ousadas:
“Já em 2015, cinco navios de guerra chineses cruzaram águas americanas na zona de doze milhas defronte ao Alasca, algo que se repetiu com frequência desde 2021. Em 2022, os Estados Unidos registraram uma frota de navios russos e chineses a quase 160 quilômetros da ilha de Kiska, no Alasca, incluindo um contratorpedeiro de mísseis guiados Nanchang Tipo 055, armado com até 112 mísseis de cruzeiro ou mísseis antinavio hipersônicos”.
Tudo isso intensifica a tensão com Washington, que vê nesses avanços uma ameaça direta à sua hegemonia militar e econômica na região. Diante dessa ofensiva chinesa, os Estados Unidos respondem deixando claro que querem se apoderar da Groenlândia, mesmo que seja com o uso da força militar.
Nenhuma dessas potências está realmente interessada no bem-estar da população ou em respeitar seu direito à autodeterminação. É mais uma peça na disputa por mercados, rotas e minerais. Como acontece com outros territórios ricos em recursos, o futuro da Groenlândia está sendo discutido nos bastidores, em negociações secretas entre grandes potências.
Esta não é uma disputa entre “bons” e “maus”, como a imprensa ocidental ou a propaganda chinesa tentam apresentar. Ambos os blocos representam formas diferentes de capitalismo. O imperialismo norte-americano, liderado por Trump, age com brutalidade e arrogância, apelando ao “Destino Manifesto” e ao domínio militar aberto. O capitalismo chinês, por outro lado, opera por meio de investimentos, diplomacia econômica e controle tecnológico, mas não por isso é menos predatório ou expansionista.
O essencial é que ambos compartilham a lógica da acumulação capitalista, baseada na exploração da natureza e na competição pelos recursos. A Groenlândia está presa entre dois blocos que rivalizam para consolidar suas respectivas esferas de influência. A luta não é entre a China e os Estados Unidos, mas entre os povos do mundo e o sistema capitalista-imperialista que os subjuga, independentemente da bandeira que o represente.
O povo da Groenlândia tem o direito de decidir livremente seu futuro, sem chantagens, sem intervenções e sem ser moeda de troca em acordos geopolíticos das grandes potências.
Por isso, a tarefa da esquerda revolucionária não é apenas denunciar Trump, mas também desmascarar o imperialismo chinês, que, sob formas diferentes, busca o mesmo objetivo: acesso a recursos que garantam sua expansão.
Em resumo, essa rivalidade é uma expressão contemporânea da barbárie imperialista, de um sistema em crise que, incapaz de resolver as contradições que criou (mudanças climáticas, esgotamento de recursos, desigualdade), caminha para uma fase de recolonização do planeta, com novos métodos e velhos objetivos.
Nesse contexto, a Groenlândia não deve ser território de ninguém, exceto de seu próprio povo. E a única saída verdadeiramente emancipadora não virá de um acordo entre potências, mas da mobilização internacionalista e anticapitalista por um mundo sem impérios, sem exploração e sem pilhagem.









[…] Imperialismo no Ártico: Trump, Groenlândia e a ofensiva colonialista por Johan Madriz […]