por Pedro Cintra, estudante de Letras e militante da Juventude Já Basta!
Em três dias de votação aberta, deu-se mais uma eleição do Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários Suely Yumiko Kanayama. A Letras é um dos cursos que mais abrigam estudantes trabalhadores, negres e mulheres — uma verdadeira trincheira de classe, cor e gênero no campus Butantã.
Com a ampliação do quórum, a polarização real deu-se entre as duas maiores chapas da eleição: a chapa “Movimento Lá” de continuidade do Rebeldia/PSTU, vencedora com 296 votos (47%), e a frente da esquerda independente “A Poesia Está nas Ruas”, construída por nós da Juventude Já Basta!/SoB e es compas da Faísca/MRT, que obteve um resultado de 232 votos (38%). Na terceira posição, a chapa do Correnteza/Unidade Popular que somou 105 votos (15%). Com a contabilização de dois votos nulos, o quórum total da eleição foi de 635 votos.
Alguns números e primeiras conclusões
Como fruto da disposição política e da reserva de mobilização que se expressaram, o quórum da eleição cresceu em comparação às eleições anteriores. Se expandiu cerca de 170 votos em relação à eleição do DCE deste ano, em que a chapa de Rebeldia + Correnteza ao diretório central obteve 269 votos e a frente de esquerda do Já Basta! + Faísca marcou 175 votos. Também cresceu mais de 100 votos em comparação ao pleito do CA de 2024, que totalizou exatos 530 votos. Naquele ano, as mesmas três chapas obtiveram, respectivamente, 280 votos (Rebeldia), 164 (SoB + MRT) e 63 (Correnteza).
Com a expansão do número total de votantes, essa onda foi politicamente capitalizada pela frente de esquerda em sua grande parte, e em menor medida pela chapa do estalinismo, um indício da disposição da base por uma renovação da direção. Apesar de comandar a frente composta pelo PSTU no DCE, a UP levou adiante uma campanha abertamente oposicionista à gestão.
Das estatísticas, podemos tirar poucas, mas importantes conclusões:
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- A gestão do PSTU, há cinco anos à frente do CAELL, encontra-se em uma decadente estagnação: sendo incapaz de animar as novas gerações estudantis, perdendo espaço na proporção eleitoral e obtendo um resultado praticamente igual ao da eleição anterior. Um resultado que podemos chamar de uma vitória “a frio” deste setor, que, pela primeira vez, torna-se a primeira minoria do curso.
Tal resultado é parte de uma gradual desacumulação que esta organização tem tido nos últimos anos, em especial, após a greve de 2023. Para que fique claro, es compas passaram de 480 votos (70% no pleito geral) obtidos na eleição do CA em 2022 para um resultado bem mais modesto neste ano. Um verdadeiro processo de derretimento. Uma tendência que a campanha deste ano, marcada pelo rotineirismo, sindicalismo e o mesmo discurso batido de sempre foi incapaz de reverter.
2. Com uma vitória política e uma campanha que envolveu a base nas ideias programáticas, o resultado da frente de esquerda catapultou o campo a crescer mais de 40% em relação ao ano passado e a se forjar como uma real alternativa de unidade para a direção política do curso. Mesmo enfrentando o aparato do centro acadêmico, a estrutura da força principal do movimento e seguidas manobras burocráticas, nossa alternativa fez uma campanha política e foi capaz de ganhar amplitude e capilaridade na base da Letras, consolidando-se como segunda força eleitoral.
3. Como terceira e última conclusão, há uma clara evidência de que a Letras é um gigantesco polo de independência política e de classe do trotskismo — um curso que endereçou mais de 80% dos votos às correntes da tradição marxista e revolucionária. Na quase marginalidade, a única expressão campista foi o populismo dirigido pela UP, que não está no campo da independência de classe por sua histórica posição em defesa da frente popular com a social democracia.
Por isso, es camaradas defendem uma orientação de disputar o governo Lula pela esquerda ao invés de fazer uma oposição à conciliação e enfrentar com mais força seus ataques e sua política. A frente do DCE, agora ao lado do PSTU e do PCBR, fazem uma gestão muito aquém das necessidades, abandonando os espaços assembleares e ditando a mobilização conforme o tempo e os ditames da burocracia universitária.
A capitulação como prenúncio da desorientação: um debate com o PSTU
Nessa parte do texto, fazemos um debate com o PSTU e sua Juventude Rebeldia que impulsiona a gestão Movimento Lá, setor que compartilha conosco o campo da independência de classe e com quem já encampamos unidades políticas no movimento estudantil e sindical. Uma relação que se tensionou com os debates políticos de unidade no CAELL e com a entrada deste setor na frente de composição do DCE — uma chapa semi-independente de aparato protagonizada pelo Correnteza, o governismo complementar do MES, que segue no PSOL, e o PCBR.
Tal tensão se escalou neste último processo, com a ofensiva burocrática do PSTU, que se utilizou da instrumentalização do processo eleitoral para esconder mais uma vez seu sectarismo e sua desorientação política ao negar o chamado por uma frente da esquerda socialista. Ao invés disso, apostaram no isolamento hegemonista e fizeram uma campanha de pequena política que não conseguiu apresentar uma alternativa de mobilização ao rotineirismo das direções.
Apesar de algumas boas intenções, a verdade é que o Rebeldia tem feito uma gestão aquém das necessidades da Letras e tem tido pouca efetividade em dar conta do recado após a greve de 2023. O CA não faz reuniões abertas de gestão, tardou em pautar a reforma curricular e do prédio e acumula vários cargos de representação institucional entre alguns poucos militantes. Por isso, abrimos com es compas um fundamental debate no campo da política estudantil.
Na trilha da diluição
Em suas movimentações recentes, a política do Rebeldia/PSTU concretizou uma importante mudança de rumo: a entrada na frente “Pra dizer nosso nome” de continuidade do DCE. Uma movimentação à direita e ao oportunismo burocrático, um brusco giro de adaptação política no ME após anos de crise e isolamento sectário a nível nacional — vide a dissolução do Polo Socialista Revolucionário após as eleições de 2022 e a contrariedade à criação do PSOL nos anos 2000. Tal giro representa uma importante mudança de postura após anos se afirmando como oposição de esquerda a este setor na USP.
A questionável opção des camaradas ganhou novo caráter com o ingresso de Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência do governo Lula-Alckmin, inquestionável prova da dissolução do PSOL no governismo liberal-burguês. Como sustentar posições consequentes dividindo uma gestão com um setor diretamente governista como o MES do PSOL? Uma organização que, embora se coloque como oposição à majoritária de Boulos e Arcary, já se diluiu no possibilismo eleitoreiro e se prepara para embarcar, de mala e cuia, em uma campanha governista no próximo ano.
A entrada des compas no DCE é parte de uma aliança, não política e programática, mas sim baseada em interesses de aparato. Por isso, nas disputas locais, constroem chapas opostas e se digladiam para disputar suas posições nos centro acadêmicos — como na Letras (entre Rebeldia e Correnteza), nas Ciências Sociais (PCBR e Juntos) e na Poli (PCBR contra Correnteza + PT). O lema “Unidade é para lutar”, na prática, representa nada além de palavras ao vento para confundir es estudantes.
Em uma síntese inquieta, como pode o PSTU e a UP estarem em posições opostas na disputa pelo CAELL, e para o DCE vestirem a “camiseta da amizade”? O que explica o PCBR dividir uma direção política com o Correnteza que faz chapa com o PT na Poli? Quais os fundamentos políticos desta tragédia confusa?
Respondemos que a construção de unidades no campo político precisam de um conteúdo em comum – uma mesma base político programática para mobilizar e lutar. Não apenas um cheque em branco para ganhar ingresso para dirigir a maior entidade estudantil universitária do país.
Proporcionalidade de base ou de aparato?
Tal movimento aparatista mostra uma definitiva oposição des companheires do PSTU à construção da unidade da esquerda independente e uma burocrática articulação no movimento. Uma orientação reforçada pela frontal oposição do PSTU à gestão proporcional no centro acadêmico. Ao longo da história, defendemos ao lado des compas do PSTU essa metodologia contra a CUT em sindicatos como a APEOESP e praticamos na mesa executiva da CSP-Conlutas, central sindical independente que construímos com es camaradas.
Ao invés impulsionar a democratização das entidades a partir da proporcionalidade, a proporção que tem defendido es camaradas é a repartição de aparato — feita a portas fechadas, sem conteúdo e sem debates abertos entre as forças. Com pouco programa e maior preocupação em distribuir cargos e diretorias, assim se dá a lamentável dissolução do PSTU como alternativa independente no movimento estudantil.
A mais ampla representação nos espaços de debate político — como nas direções sindicais e congressos partidários — é traço fundamental da tradição operária, trotskista e leninista. Assim se organizaram as entidades e organizações da classe trabalhadora nas últimas décadas, inclusive o PSTU e a LIT, que, diante da irresolução das tensões internas, vivem um profundo processo de crise e dispersão internacional. Produto de uma leitura rotineira, dogmática e objetivista do morenismo que, em nossa avaliação, pouco consegue fazer política na realidade sem esbarrar em sua falta de balanço sobre a burocracia, o estalinismo e as experiências pós-capitalistas do proletariado. Uma organização que tem mais passado do que futuro.
Dois pesos e duas medidas: qual o papel da Comissão Eleitoral da Letras?
Para justificar seu isolamento, es compas também levam adiante uma burocrática prática: o aparelhamento da comissão eleitoral, espaço fundamental para organizar o processo e garantir a plena democracia de condições às posições em disputa. [1] No caso das cinco cadeiras da comissão: uma ocupada pelo PSTU, uma pela UP, e duas por ex-membres da gestão Balalaika do Rebeldia, antecessora do Movimento Lá — uma maioria ampla. Tal instrumentalização prejudicou a isonomia do processo e transformou a CE em um bunker de contra-campanha à principal chapa de oposição.
Por exemplo, acreditamos que um debate em ambos os turnos deveria ter sido realizado, no entanto, a posição da CE foi decisiva para que isso não acontecesse: como é que se pode conceber uma eleição democrática ao maior curso da América Latina sem ao menos garantir aquilo que deveria ser elementar para es estudantes da manhã, sua integração e intervenção? Inclusive, a live do único debate da noite sequer foi postada pela gestão, cuja justificativa para tal foram os já recorrentes problemas técnicos com as redes socias.
Com uma atuação punitivista contra a divergência e silenciosa às violações da chapa oficialista, como a quebra do revezamento de passagens em sala, a CE buscou interditar o debate político e atuar parcialmente. Uma posição desproporcional feita à toque de caixa sobre o excedente de um giro de nossa chapa se transformou mais uma vez em uma instrumentalização que buscou instaurar a despolitização e a desconfiança no interior do debate.
Como parte da decadência ético-política que aproxima cada vez mais o PSTU das práticas estalinistas (antidemocráticas) no movimento estudantil, essas manobras sistemáticas utilizando a CE contra adversários nada faz além de sabotar o debate político, ao invés de fomentar as discussões programáticas e campanhas concretas. Abrimos uma discussão na base estudantil sobre o papel das eleições, os métodos e a lisura das comissões eleitorais.
Uma campanha vitoriosa feita a plenos pulmões
Como marxistas revolucionários, inspiramo-nos na democracia operária e encaramos as eleições das entidades de base como um fundamental processo de debate e síntese — de contraste entre os mais diversos acúmulos político-programáticos processados pelos estudantes. Acúmulos que se confrontam sobre o papel tático e estratégico do movimento estudantil na atual conjuntura universitária e geral.
Por isso, nosso critério de unidade no campo político é programático e baseado em um dos não muitos, mas imprescindíveis princípios: a independência de classe. Compreendendo isso, fazemos seguidos chamados aos setores da esquerda socialista, em especial o PSTU e o MRT, para espaços conjuntos e frentes políticas.
Nossa frente de unidade com es camaradas da Faísca é parte disso. Para isso, travamos debates em conjunto, em especial, sobre a tática de enfrentamento a extrema direita, contrapondo a posição sectária e inconsequente des camaradas e apresentando um programa concreto para enfrentar a anistia, a contraofensiva da extrema direita e os ataques de Lula tomando como caldo político as massivas mobilizações como a do dia 21 de setembro.
Além da unidade com os trabalhadores, defendemos uma alternativa de mobilização para dar conta da base, propondo reuniões abertas, proporcionalidade na gestão e espaços de auto-organização, como o Fórum da Letras e o Comitê Antifascista que construímos durante o ano.
Elegemos a unidade com os trabalhadores como prioridade e pautamos não só a luta contra a escala 6×1, mas também contra a precarização do trabalho ao lado de importantes lideranças da insurgente nova classe operária de aplicativos. Na ponta da língua, defendemos aes estudantes uma universidade ativa na sociedade, a partir de cursos de extensão como o de letramento para as trabalhadoras terceirizadas e es moradores da comunidade São Remo. Impulsionamos uma oposição à conciliação de classes que nos oferece a miséria do possível e, por isso, enfrentamos os ataques de Lula à educação e aos trabalhadores. Uma campanha vitoriosa feita a plenos pulmões.
Virar a Letras do avesso!
Diante da reabertura de novas rebeliões populares, o sindicalismo economicista e a disputa somente por bandeiras imediatas não dão conta. Não dão conta de armar a discussão para enfrentar o ataque do imperialismo de Trump e da extrema-direita à soberania e aos direitos democráticos, nem o combate à política de repressão do estado capitalista.
Para nós da Juventude Já Basta!, a saída é clara e pela base: organizar na luta e construir nos centros acadêmicos, polos políticos de democracia, auto-organização e independência de classe. Frente ao fracasso da conciliação de classes, nossa tarefa na Letras é organizar es estudantes pela base para enfrentar a precarização do curso articulando a luta na USP para enfrentar Tarcísio, a contraofensiva da extrema direita pela política de extermínio nas comunidades. É preciso seguir mobilizades em defesa das cotas trans, da volta do gatilho automático e da contratação suficiente de professores para derrotar o ranqueamento e a política meritocrática e elitista da reitoria.
Chamamos a todes que construiram essa campanha ao nosso lado a seguir batalhando conosco nos espaços de base e construindo uma nova alternativa para a Letras. Te convidamos a ingressar na Juventude Já Basta! para aprofundar essa experiência política e militar pelo relançamento do marxismo revolucionário para as enormes batalhas que enfrentamos e enfrentaremos. É preciso ser realista e organizar no cotidiano uma resposta dos debaixo, é preciso como ressoou o maio francês de 68 “sermos realistas e exigirmos o impossível”.
Notas:
- Eleições para serem proveitosas precisam ser construídas com qualidade e em diálogo com a base. Nesta ocasião, aprovamos o calendário eleitoral em uma assembleia de base atropelada que incluiu em sua pauta variados temas como a construção da paralisação da FFLCH do dia 23 de outubro, impedindo que a base deliberasse com qualidade e tempo hábil como gostaria de construir o processo em seu curso. O próprio prazo estabelecido pela gestão do PSTU para a realização das eleições violou antigas normas e regimentos que estabeleciam um prazo MÍNIMO de 30 dias entre a assembleia eleitoral e a abertura das urnas. Não satisfeita em realizar a primeira manobra, a gestão fragmentou o debate regimental e o levou adiante a toque de caixa em uma assembleia com nenhuma construção política na base











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