O artigo de Johan Madriz, que apresentamos abaixo, analisa como o capitalismo contemporâneo, diante de crises de acumulação, queda da rentabilidade e intensificação das disputas geopolíticas, as potências imperialistas, especialmente Estados Unidos, China e países europeus, aumentam seus gastos militares e rearmam suas economias, transformando a geopolítica no eixo organizador da ordem mundial. A guerra passa a ser um negócio lucrativo, com indústrias armamentistas, tecnológicas e energéticas absorvendo grandes volumes de capital. 

O autor aponta que acordos bilionários recentes entre países para compra e venda de armamentos, tecnologia militar e cooperação industrial, evidenciando o papel central do “capital militar” nas principais economias imperialistas, estabelecendo um ciclo de acumulação que envolve Estados, empresas de defesa e bancos, e cada novo conflito gera lucros para o setor bélico e setores complementares, como energia e mineração, resultando em uma economia global marcada pela militarização, onde a guerra e a ameaça de conflito se tornam motores centrais da acumulação de capital. 

Portanto, o mundo entra decisivamente no que Roberto Sáenz denomina a era da combustão: uma etapa de deslocamento global em que a velha ordem, articulada em torno de hegemonias estáveis, mercados relativamente regulados e consenso internacional, entra em colapso, dando lugar a um regime de militarização e competição territorial, cuja única alternativa coerente, como escreve Madriz, “é um projeto que vincule a superação do capitalismo ao desarmamento, à demolição do complexo militar-industrial, à construção de uma sociedade sobre bases anticapitalistas e socialistas, na qual o valor de uso, a cooperação internacional e a emancipação humana substituam a lógica do valor de troca, da guerra e da dominação” 

Boa leitura! 

REDAÇÃO 

Por JOHAN MADRIZ

Em um contexto de crise de acumulação, intensificação das disputas geopolíticas e queda da rentabilidade, as potências imperialistas redirecionam grandes porções de capital para a indústria militar.

O resultado é uma economia em que o fogo da guerra alimenta as engrenagens do capital. A geopolítica tende a se impor sobre o curso da economia e os grandes blocos competem por territórios, recursos e supremacia tecnológica em um planeta saturado de conflitos.

O retorno do fogo imperial

O mundo atravessa uma fase de combustão global, na qual as tensões políticas, econômicas e militares se acumulam como gasolina em uma atmosfera saturada de crises. As grandes potências não competem apenas nos mercados, mas também no campo armado, disputando territórios, recursos e zonas de influência por meio da constante ameaça de guerra.

Os Estados Unidos destinam hoje mais de 900 bilhões de dólares anuais aos gastos militares, o valor mais alto de sua história, enquanto a China aumenta seu orçamento de defesa em mais de 7% a cada ano. A Europa rompe seus limites de austeridade para se rearmar; a Alemanha, por exemplo, impulsiona um fundo especial de 100 bilhões de euros para fortalecer seu exército. A OTAN, longe de se dissolver após a Guerra Fria, expande-se para o Leste e redefine sua doutrina para enfrentar não apenas a Rússia, mas também a China.

Esta nova (des)ordem mundial tem cada vez mais a geopolítica como eixo organizador, um fator da realidade que ganha peso e limita a lógica do livre comércio neoliberal. O capitalismo atravessa uma crise, ao encontrar um certo limite à sua capacidade de expansão produtiva (embora também existam novos setores de acumulação capitalista, como a IA), e em seu lugar reaparece a violência como motor da reorganização das peças em prol da geração de riqueza ou redistribuição dos recursos existentes.

A guerra é um negócio, um campo de acumulação onde as indústrias armamentistas, tecnológicas e energéticas absorvem capitais. O complexo militar-industrial norte-americano aumenta seus lucros com cada conflito aberto, enquanto as empresas europeias (como Rheinmetall ou BAE Systems) lutam pela sua parte… e não são as únicas.

O imperialismo volta a tomar forma territorial. O mapa mundial está sendo redesenhado em torno de corredores energéticos, rotas marítimas e enclaves estratégicos. África, Ártico, Oriente Médio e Pacífico se transformam em cenários de uma nova disputa colonizadora.

As potências agem cada vez mais com uma lógica de apropriação direta, não mais apenas financeira ou comercial, mas física, em que o controle do solo e dos recursos é vital para sustentar sua economia. Neste contexto, os consensos que sustentavam as democracias liberais se erodem, abrindo as portas para uma maior incerteza sobre o futuro.

A oficina do capital bélico

A indústria de armamento cresce e concentra-se em torno de algumas potências e grandes empresas que orientam a economia militar global. De acordo com o SIPRI (Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo), os Estados Unidos controlam cerca de 43% das exportações mundiais de armamento no período 2020-2024, enquanto a França ocupa a segunda posição com cerca de 9,6% e a Rússia fica atrás com aproximadamente 7,8%.

O volume total de transferências de armas mantém-se em níveis elevados, impulsionado pela demanda europeia e pelos conflitos abertos. O faturamento das maiores empresas militares confirma essa tendência. As vendas combinadas das 100 maiores empresas do SIPRI atingem cerca de US$ 632 bilhões em 2023, um aumento de 4,2% em relação ao ano anterior e de 19% desde 2015.

Metade dessas receitas provém de empresas americanas, e os principais fornecedores privados — Lockheed Martin, Boeing/RTX, Northrop Grumman e outros — definem a agenda tecnológica e comercial do mercado de armas. Os tipos de sistemas produzidos e vendidos refletem a nova forma de guerra: mísseis de precisão, drones armados e sensores, veículos blindados modernos, navios e sistemas antiaéreos dominam os contratos, enquanto a corrida por capacidades cibermilitares e espaciais acelera a demanda por tecnologia dual.

A Europa aumentou suas importações em cerca de 155% nos últimos cinco anos, e a guerra na Ucrânia tornou esse país o maior importador recente, multiplicando por dezenas suas compras de armas, o que gera um enorme mercado para fabricantes e empreiteiros. Mas o velho continente quer reverter essa tendência dependente e fortalecer sua própria indústria.

O comércio não favorece apenas os produtores tradicionais, surgem novos concorrentes estatais e industriais, como a Coreia do Sul e a Turquia, que conseguem contratos para aviação, artilharia e veículos. Ao mesmo tempo, a assistência militar maciça dos Estados Unidos aos teatros de conflito beneficia diretamente seu complexo militar-industrial; por exemplo, parte significativa da assistência à Ucrânia circula por meio de compras ou uso de equipamentos produzidos por empresas americanas, injetando dezenas de bilhões em pedidos e reposição de estoque.

Em conjunto, a tecnologia, a produção e o comércio de armamento constituem um circuito de acumulação próprio. O capital público e privado é direcionado para sistemas militares, os Estados compram e garantem contratos, e as empresas reinvestem em P&D (pesquisa e desenvolvimento) militar para garantir contratos futuros. Esse vínculo entre poder político, gastos estatais e benefícios privados transforma a guerra e a ameaça de guerra em um instrumento central da reprodução capitalista.

O capital e seu combustível bélico

A guerra, e ainda mais a ameaça constante de guerra, estão se tornando um dos principais motores da economia internacional neste momento. As potências canalizam enormes volumes de capital para a indústria militar, que já não depende apenas da produção bélica em tempos de conflito, mas se sustenta numa “economia de guerra quase permanente”, em que a preparação, a manutenção e a reposição de armamento constituem um ciclo contínuo de acumulação.

Os gastos militares globais (segundo o SIPRI) ultrapassaram em 2024 os 2,4 trilhões de dólares, o nível mais alto desde que existem registros. Esse fluxo maciço de dinheiro alimenta um circuito fechado entre o Estado, as empresas de defesa e o sistema financeiro. Os governos compram ou subsidiam armamentos com dinheiro público, as corporações os produzem e os bancos os financiam.

Cada novo conflito ou ameaça, seja na Ucrânia ou no Mar do Sul da China, acelera a demanda e gera picos nas cotações das principais empresas de armamento na bolsa de valores. Em 2023, as ações da Lockheed Martin subiram mais de 30%, as da Rheinmetall quase dobraram e a BAE Systems registrou seu melhor resultado em duas décadas. Isso mostra que a escalada vem sendo preparada há anos.

A guerra também dinamiza setores complementares, como a indústria energética, que se beneficia do aumento do preço do petróleo e do gás; a mineração, que abastece a demanda por lítio, níquel e urânio para tecnologia militar; e a reconstrução, que transforma a destruição em um mercado abundante.

As empresas operam com contratos apoiados pelos mesmos governos que promovem as guerras. É um círculo perverso em que a devastação abre espaço para novos investimentos e para a expansão dos capitais imperialistas. A guerra, longe de ser uma interrupção na dinâmica do capitalismo, é um estado particular dele; destrói-se para criar demanda, militariza-se para manter a rentabilidade, transforma-se a ameaça em uma condição constante. As potências se constroem em torno do fogo.

O mercado global da guerra

Analisemos alguns dos acordos mais relevantes anunciados nos últimos meses sobre compra e venda de armamento, veículos e tecnologia. Em todos os casos, o desperdício de dinheiro é gigantesco e reflete a acumulação de “capital militar” nos principais centros imperialistas.

1- O Reino Unido e os Estados Unidos concretizaram um gigantesco acordo de investimento tecnológico e nuclear avaliado em 205 bilhões de dólares, que reafirma a histórica aliança militar entre os dois países. O pacto compromete 150 bilhões de libras esterlinas em investimentos por parte de gigantes tecnológicos e fundos financeiros americanos no Reino Unido, dentro do quadro do chamado “Acordo de Prosperidade Tecnológica”.

O documento formaliza a cooperação em inteligência artificial, computação quântica e energia nuclear, setores-chave não apenas para a “inovação civil”, mas também para a capacidade militar e de vigilância. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou que se trata do maior pacote de investimentos da história britânica.

Entre os aspectos mais concretos do acordo está a versatilização do setor nuclear como base para tecnologias duplas (militares e civis). Por exemplo, a empresa norte-americana X-Energy, em conjunto com a britânica Centrica, colaborará na construção de até 12 reatores modulares avançados (SMR) em Hartlepool, no nordeste da Inglaterra. Da mesma forma, outro consórcio liderado pela Holtec, EDF Energy e Tritax planeja desenvolver centros de dados alimentados por SMR (reatores modulares pequenos) em Nottinghamshire.

2- O Reino Unido consolida seu papel de fornecedor global de armas. Por exemplo, com as negociações com a Dinamarca e a Suécia para a construção de fragatas do tipo Type 31 Frigate (modelo Arrowhead-140). A Dinamarca confirmou um pedido de três unidades, enquanto a Suécia considera a compra de até quatro fragatas antes do final do ano. Este acordo implica não só a venda de navios de guerra, mas também transferências tecnológicas, licenças de fabrico e potenciais extensões industriais locais na Dinamarca.

Por outro lado, a Turquia assinou um acordo com o Reino Unido para a aquisição de 20 caças Eurofighter Typhoon por um valor próximo a 8 bilhões de libras (aproximadamente 10,7 bilhões de dólares), no que constitui o maior contrato de exportação de caças britânicos em décadas.

3- Durante a visita de Donald Trump à Arábia Saudita em maio do ano passado, foram anunciados acordos entre os dois países no valor total aproximado de US$ 600 bilhões, dos quais cerca de US$ 142 bilhões correspondem à área de defesa e armamento. Este pacote inclui vendas de equipamentos militares avançados, sistemas de defesa aérea, espacial e marítima, além de investimentos em tecnologia, semicondutores e minerais estratégicos.

Os Estados Unidos consolidam seu mercado de exportação de armas para um aliado fundamental no Oriente Médio, garantindo à sua indústria militar contratos multimilionários. Por sua vez, a Arábia Saudita não só adquire armas, mas também se compromete com tecnologia de ponta (como semicondutores) e cadeias globais de produção.

4- A Ucrânia concretizou durante este ano uma rede de acordos que transforma sua economia de guerra em um sistema multinacional de produção, fornecimento e financiamento de armamento. Com a Suécia, foi assinado um acordo preliminar para a venda de pelo menos cem caças Gripen e até 150, de acordo com o acordo negociado, com entregas escalonadas que poderiam começar dentro de três anos e ser concluídas em um prazo de dez a quinze anos; o pacto inclui cooperação industrial e reforça a capacidade aérea ucraniana diante da ofensiva russa.

Paralelamente, Kiev assinou acordos com a Dinamarca e com empresas americanas para transferir a produção para fora do seu território, a fim de aumentar a fabricação de sistemas críticos. Este acordo estabelece a criação de empresas conjuntas em solo dinamarquês para produzir armas de longo alcance e componentes estratégicos, o que abre caminho para deslocalizar parte da indústria militar ucraniana e garantir linhas de abastecimento alternativas.

Ao mesmo tempo, a empresa americana Swift Beat acordou com o governo ucraniano a produção, antes do final do ano, de “centenas de milhares” de drones, incluindo UAVs (veículos aéreos não tripulados) interceptadores destinados a repelir os crescentes ataques aéreos russos, uma indústria de grande volume que modifica radicalmente a capacidade logística e produtiva de Kiev.

A Alemanha assinou com a Ucrânia um acordo para financiar a produção local de armas de longo alcance e pactou cooperação com sua própria indústria militar, enquanto vários países ocidentais suspenderam as restrições sobre o alcance dos sistemas que fornecem a Kiev; essa decisão torna a Ucrânia receptora e coprodutora de tecnologias de mísseis e artilharia de maior alcance, o que acelera a militarização regional e estende a cadeia de valor do armamento ao território ucraniano.

5- O acordo entre o Japão e a Austrália para a exportação das fragatas da classe Mogami representa um exemplo claro de como a militarização se articula como mecanismo de acumulação capitalista e dominação geopolítica. Em agosto, a Austrália anunciou oficialmente a escolha dessas fragatas projetadas pela Mitsubishi Heavy Industries (MHI) em um contrato avaliado em aproximadamente US$ 6,5 bilhões, como parte de seu programa de renovação naval Sea 3000.

O contrato, que envolve a construção de 11 unidades para substituir a antiga classe Anzac, prevê que as três primeiras fragatas sejam construídas no Japão e as oito restantes na Austrália, gerando transferência de tecnologia, investimentos em infraestrutura naval australiana e maior integração industrial entre os dois países. Em particular, a versão “Austrália” da Mogami apresenta especificações elevadas: deslocamento de 4.800 toneladas (contra 3.900 do modelo japonês), comprimento de 142 metros, 32 células VLS (sistema de lançamento vertical), alcance de 10.000 milhas náuticas e tripulação reduzida (90 pessoas) graças à alta automação.

O acordo insere o Japão como exportador de armas de alto nível, após décadas de restrições constitucionais e políticas sobre a venda de armamento, o que implica uma reconversão industrial para o setor militar (o Japão elevou seu orçamento de defesa para cerca de US$ 55,1 bilhões para 2025, +9,4% em relação ao ano anterior).

O limite interno do capital

Michael Roberts defende que o capitalismo atravessa uma fase de estagnação prolongada — que ele denomina de “Longa Depressão” — caracterizada por um baixo crescimento, investimento produtivo limitado e uma taxa de lucro que tende a cair. Sua análise retoma a lei marxista da queda da taxa de lucro, que indica que, à medida que os capitalistas aumentam a composição orgânica do capital (mais maquinário, tecnologia, insumos mortos) em relação ao trabalho vivo, o valor adicional gerado por esse trabalho vivo diminui proporcionalmente, o que corrói a rentabilidade.

Essa tendência não se reverte facilmente e, quando a margem de lucro diminui, a acumulação desacelera, o capital encontra menos motivação para investir produtivamente e aumenta a precariedade do trabalho, a baixa produtividade e a dívida. Nesse contexto de acumulação enfraquecida, a militarização surge como uma das saídas que o sistema capitalista adota para se sustentar.

Quando os circuitos normais de investimento produtivo se esgotam ou geram rentabilidades decrescentes, o complexo militar-industrial oferece contratos estatais, investimento público em armamento, vigilância, infraestrutura militar e redes internacionais de fornecimento de armas. Esse caminho permite que os capitais se alojem em áreas menos dependentes da concorrência produtiva tradicional e migrem para outras mais ligadas ao Estado comprador, ao gasto público e ao poder geopolítico.

Nessa perspectiva, a militarização funciona como um mecanismo de desvio do capital excedente, ou seja, o “capital morto” na produção civil que perde rentabilidade é redirecionado para tecnologias de guerra, importação de armas, construções militares, manutenção de exércitos, bases, etc.

A militarização, portanto, não é um simples efeito acessório do sistema, mas um sintoma da crise de acumulação. O capital que não encontra saída rentável na economia civil é direcionado para o aparato militar do Estado e os circuitos de relações internacionais de dominação. Roberts relaciona isso com a expansão do capital fictício (financeirização, dívida, especulação), mais do que com a produção de mercadorias para o consumo de massa.

Além disso, o britânico aponta que, na fase atual, as potências buscam estabilizar sua acumulação por meio da militarização, porque a concorrência intercapitalista e a rivalidade interestatal se intensificam quando as vias convencionais de expansão do capital produtivo estão bloqueadas.

Por exemplo, ele destaca que o aumento dos gastos militares e a militarização de regiões inteiras funcionam como formas de absorver capital, gerar demanda estatal e prolongar a acumulação por meio do Estado militarizado, do complexo armamentista e da infraestrutura bélica. Esse caminho permite sustentar empregos em áreas específicas, lucros em empresas de defesa, exportações de armas, contratos internacionais de segurança, etc.

Mas tudo isso não resolve a causa profunda, que é uma taxa de lucro que continua caindo, o investimento produtivo real paralisado e, portanto, o sistema permanece em uma dinâmica de crise permanente, com surtos de guerra ou militarização como paliativos: “O neoliberalismo produziu alta dívida, alta financeirização e certa recuperação temporária, mas não resolveu a queda da rentabilidade estrutural” (Roberts).

Essa interpretação vincula diretamente a militarização global à lógica interna do capitalismo. Não é que as regiões se armem apenas por “medo”, mas que a acumulação capitalista encontra na guerra e na ameaça de guerra uma válvula de escape. A reprodução do capital depende cada vez mais dos gastos militares, da exportação de armas, da manutenção de tensões geopolíticas que justificam o investimento, da militarização das fronteiras e da vigilância.

Nessa medida, a crise de acumulação impulsiona a militarização, e a militarização alimenta parcialmente a acumulação, mas em um circuito que não rompe a contradição fundamental, ou seja, a insuficiência estrutural da rentabilidade e a impossibilidade de expandir ad infinitum sem destruição, dependência e conflito.

Em conclusão, a queda da rentabilidade, a saturação das vias normais de investimento, a financeirização e a intensificação da rivalidade interestatal criam um cenário em que a guerra, o armamento e a preparação permanente para a guerra deixam de ser exceções para se tornarem modalidades permanentes de acumulação de capital – o que não deixa de ser um problema.

A ordem mundial em combustão

O mundo entra decisivamente no que Roberto Sáenz denomina a era da combustão: uma etapa de deslocamento global em que a velha ordem, articulada em torno de hegemonias estáveis, mercados relativamente regulados e consenso internacional, entra em colapso, dando lugar a um regime de militarização e competição territorial.

Nesta fase, a economia já não domina a política como antes, mas a política (e a geopolítica) tendem a se impor sobre a economia, e a acumulação capitalista encontra na guerra, na ameaça permanente e na apropriação violenta de territórios, recursos e sujeitos, um motor para impulsionar o crescimento. A economia capitalista já não pode crescer como antes, “o bolo ficou pequeno” e, portanto, recorre à expropriação e à coerção.

A acumulação por desapropriação e a militarização evidenciam que estamos diante de um capitalismo que enfrenta a “finitude”, ou seja, em que parte do crescimento se sustenta na apropriação e na pilhagem.

Se o capitalismo se reconfigura por meio da militarização e da territorialização, a única alternativa coerente é um projeto que vincule a superação do capitalismo ao desarmamento, à demolição do complexo militar-industrial, à construção de uma sociedade sobre bases anticapitalistas e socialistas, na qual o valor de uso, a cooperação internacional e a emancipação humana substituam a lógica do valor de troca, da guerra e da dominação.

Nesse sentido, a tarefa revolucionária torna-se urgente. Não se trata apenas de deter uma guerra ou mudar um governo, mas de intervir na própria estrutura da acumulação capitalista, de desmascarar o belicismo do capital como alavanca de dominação e de articular uma saída que vá além do imperialismo, além do Estado-nação dominador, rumo a uma internacionalização emancipadora do proletariado e dos povos oprimidos.