OLHOS QUE CONDENAM NOS EUA E AQUI


A triste realidade da juventude negra em sua plena potencialidade de existência, sendo destruída pela justiça racista, preconceituosa e manipuladora

Por Severino Félix

Seja no Brasil ou nos Estados Unidos, a “justiça” tem um olhar perverso para a população negra, ou seja, a condena antes de qualquer delito que venha a cometer.

Quando comecei a assistir o primeiro capítulo da série Olhos que condenam, como qualquer ser humano, fui tomado por muita raiva, revolta e choro, e não conseguir dar sequência ao capítulo.

Como qualquer outra pessoa, fui buscar informações sobre o ocorrido naquela noite de 19 de abril de 1989 no Central Park acerca do fato ocorrido com os cinco jovens negros do subúrbio do Harlem.

E, ao descobrir os fatos da época, fiquei ainda mais indignado vendo que o sistema judiciário é totalmente seletivo, racista, classista e que tem um alvo específico: pessoas negras, latinas e pobres, ou seja, independentemente dos fatos, é preciso condená-las.

Não existe igualdade para os desiguais dentro do sistema capitalista, a justiça elaborada e comandada por homens brancos e ricos, não se aplica a comunidade negra de um modo em geral. O fator racial é preponderante para acusação e condenação dentro do sistema judiciário brasileiro ou norte americano.

Como ocorrido nesta série, a polícia prende menores desacompanhados dos seus pais ou advogados, estes são interrogados por horas, coagidos e torturados para confessar algo que não cometeram, algo tão comum que chega a ser naturalizado por parte da sociedade.

Ao mesmo tempo, o estereótipo de homem negro e violento está embutido na sociedade racista, machista, homofóbica e capitalista na qual estamos vivendo.

A adultificação dos jovens negros nos Estados Unidos ajuda compreender como os cinco jovens retratados na série foram julgados, enquanto os jovens brancos são tratados como infantis em qualquer delito que venha a cometer.

No Brasil também não é diferente. Em 2017 tivemos mais de 65 mil casos de assassinatos, segundo o Atlas da Violência de 2018. Dentre esses, a taxa de assassinatos de homens negros cresceu 23 vezes em 10 anos. Enquanto isso, a taxa de assassinatos de homens brancos vem diminuindo ao longo do tempo.

Em Olhos que condenam, percebemos a velocidade do sistema para culpabilizar, julgar, criminalizar, condenar e encarcerar a juventude negra naquele país. Ver 5 jovens negros (inocentes) sendo condenados ha 14 anos de prisão pelo simples fato de serem negros e pobres nos deixa anestesiados e impotentes diante de tal brutalidade.

REPARAÇÃO TARDIA E PARCIAL

Os 5 jovens condenados por estupro em abril de 1989 foram inocentados em meados de 2002, após o próprio autor do delito assumir o crime. Porém, os responsáveis pelas investigações na época do ocorrido questionavam tal admissão de culpa após mais de uma década.

Após a libertação em 2003, os 5 jovens que tiveram suas vidas destruídas, especialmente Koroy Wise que ficou todo o período preso em um presidio para adultos, resolveram processar a cidade de Nova York em cerca US$ 250 milhões pela incriminação indevida (fraudulenta) da polícia e até mesmo da justiça que os condenou.

Porém, foi inevitável um acordo para pôr fim ao processo que já se prolongava por mais de 10 anos. Em 2014, os jovens foram indenizados em cerca de US$ 40 milhões, valor que não repõe a juventude e inocência dos jovens e o sofrimento dos seus familiares (principalmente às mães) deste enredo.

O mesmo Estado (justiça) que condenou os 5 jovens do Central Park e demorou mais de uma década para reconhecer a injustiça cometida, de forma lastimável, levou mais 10 anos para conceder a indenização financeira. Até o presente momento, não veio a público fazer um pedido de desculpas sobre esse episódio na cidade de Nova York, algo que talvez suavizasse a dor física e psicológica destes jovens e de tanto outros.

Essa postura do Estado comprova que somente a reconstrução de um movimento negro organizado em nível nacional e mundial para lutar nas ruas contra o racismo estrutural da sociedade capitalista poderá evitar o genocídio cotidiano da juventude negra e de todas as demais expressões de preconceito e racismo desse sistema.