Abaixo segue mais um conjunto de notas de estudos, de Roberto Sáenz, para o segundo tomo (a ser publicado em dois volumes, o primeiro ainda em 2026) de “El marxismo y la transicion socialista” (cujo tomo I será lançado no Brasil em maio pela Editora Boitempo).
Neste artigo Sáenz vai sintetizar os objetos de estudo de dois anteriores (“Trabalho e atividade em Pierre Naville” e “Do Trabalho Humano ao “General Intelect” (Ou passagem da Transição ao Comunismo)”) onde aparecem temas que – por sua própria lógica – não haviam sido pensados no plano original. O que vem desenvolvendo então remete à dialética entre o conceito de “trabalho humano” e o de “atividade humana” ou seja com qual conceito abordar, no comunismo, a eterna atividade metabólica humano–natural.
Mas também, como conceber o trabalho e a lei do valor na transição socialista, esta assentada no tripé que classe dirige a revolução, na planificação e na mais estrita democracia operária (a ditadura do proletariado), porém, verifica que a planificação, por si só, não elimina a lei do valor a qual, no entanto, não deve predominar para não se cair num socialismo de mercado.
Neste sentido atendo-se à questão do trabalho e suas transformações, fugindo a um conceito ontológico e buscando a dialética marxiana, vai entender a contradição aí existente no mundo das máquinas e da evolução das forças produtivas, pois se as máquinas servem à exploração no capitalismo, também criam potencial para emancipação humana, ao reduzir a dependência do trabalho direto, criando então, segundo Marx, o conceito de “General Intellect”, ou seja, o conhecimento científico e social acumulado que se torna a principal força produtiva.
Assim, Sáenz, no presente artigo (apoiado em textos de Dussel, Naville e Pasquinelli), vai sintetizar os conceitos levantados anteriormente, mergulhando na leitura de o “Fragmento das Máquinas” de Karl Marx nos Grundrisse (1857/58), destacando sua importância para compreender a transformação do trabalho humano com o avanço da maquinaria — algo ainda relevante hoje, inclusive para debates sobre inteligência artificial.
A ideia central localizada por Sáenz, é a de que Marx mostra que, com o desenvolvimento das máquinas, o trabalho humano deixa de ser o elemento central da produção. Em vez de atuar diretamente, o trabalhador passa a desempenhar funções de vigilância e regulação do sistema produtivo automatizado, abrindo uma potencial via emancipatória onde o trabalho morto não mais domina o vivo, transformando o trabalho tradicional em algo mais amplo: uma atividade, onde as potencialidades humanas plenas poderão se realizar.
Nos “Grundrisse” a maquinaria é entendida como um sistema de máquinas (autômato) composto por: ferramentas combinadas e um princípio motor próprio (energia não humana), evoluindo historicamente do artesanato (trabalho completo por um indivíduo), à manufatura (divisão do trabalho) e finalmente à grande indústria (sistema de máquinas).
Este processo se constrói gradativamente mediante a expropriação do saber do trabalhador, da crescente divisão do trabalho até a substituição da força humana por forças naturais e tecnológicas, ou seja, a autonomização da produção em relação ao trabalho humano direto, indicando, que a riqueza passa a depender menos do tempo de trabalho e mais da ciência e da tecnologia, onde o conhecimento humano acumulado socialmente – o “general intelect” – será o determinante.
Relembrando, para finalizar esta introdução, que, presentes em vários trechos do artigo, para Sáenz, a transição socialista está ancorada em três pilares – o sujeito da revolução, na planificação e na mais absoluta democracia operária – que, fundamentalmente preparam no fim da transição a emancipação humana, onde o desenvolvimento das máquinas é inseparável das relações sociais mas que poderá abrir caminho para uma organização social diferente (comunista), baseada na apropriação coletiva da produção.
Boa leitura!
Por José Roberto Silva pela Redação.
Tecnologia, Máquinas e Emancipação Humana
Marx e as Máquinas: Introdução
“Fragmentos sobre Máquinas”, Grundrisse (1857/8), “Manuscritos sobre Máquinas”, V, XIX e XX (1861/3) e Capital, Volume 1 (1867). Notas sobre Máquinas e Trabalho Humano para “Marxismo e a Transição Socialista”, Volume 2.
Por ROBERTO SÁENZ
Desde o momento em que a participação imediata do ser humano na produção se reduz apenas ao fato de que ele começa a agir como uma mera força, nesse momento surge o princípio da produção por máquina. O mecanismo já era evidente: a força motriz poderia ser substituída doravante por água, vapor, etc.
(Marx: 2022: 114)
Como um sistema organizado de máquinas de trabalho que recebem seu movimento apenas de um autômato central (…) A indústria mecanizada assume sua figura mais desenvolvida. A máquina individual é aqui substituída por um monstro mecânico cujo corpo preenche fábricas inteiras e cuja força demoníaca, inicialmente oculta pelo movimento quase solene e rítmico de seus membros gigantescos, agora explode na dança loucamente febril e vertiginosa de seus inúmeros órgãos de trabalho.
(Marx: 1981: 464)
O chamado “Fragmento das Máquinas”, de Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundrisse), 1857/8 (a primeira tentativa de escrever O Capital) é um dos textos mais brilhantes de Marx. Ele é marcado por sua presciência.[1] Na forma de um “rascunho de trabalho”, Marx explora detalhadamente, em cerca de 60 páginas, os limites do trabalho humano como o conhecemos até hoje. É um texto escrito há cerca de 160 anos e que serve como suporte teórico, até mesmo para entender de forma materialista os debates atuais sobre IA, marcados pelo impressionismo dominante.
Por outro lado, nos Manuscritos dos anos 61/63, Marx aborda a análise das máquinas, não do ângulo do trabalho humano, mas das próprias máquinas (ele passa, portanto, do subjetivo para o objetivo), de modo que podemos considerar ambos os textos como complementares (Di Lisa insiste em que, a partir de 1863, Marx inaugura um novo gênero de investigação em seu estudo das máquinas: a metamorfose do instrumento em máquina aparece como uma fase crucial da formação econômica da sociedade). São rascunhos de trabalhos que posteriormente darão origem aos respectivos capítulos do primeiro volume de O Capital (os capítulos sobre mais-valor absoluto e relativo, sobre cooperação, manufatura e grande indústria).
Mas em nenhum outro texto Marx vai tão longe ao avaliar a transformação do trabalho humano sob a maquinaria quanto nos Grundrisse: ele afirma claramente que o trabalho humano, como tal, deixa de ser a base da produção material. Em nossas palavras, o trabalho humano como tal se transforma em outra coisa: atividade.[2]
Como antecedentes desses textos, não se deve esquecer de seus primeiros apontamentos sobre as máquinas, um caderno de citações de setembro e outubro de 1851, já instalado em Londres, e, segundo comenta Dussel, Marx escreve a seu amigo Engels, em uma carta de 13/10/1851, que estava trabalhando principalmente “sobre tecnologia, sobre sua história e sobre agronomia”. Tampouco se deve esquecer que, em 1847, Marx publica, em polêmica com Proudhon, Miséria da Filosofia, cujo capítulo II, ponto 2, intitula-se “A divisão do trabalho e as máquinas”, no qual já aparecem afirmações sugestivas sobre o tema que nos ocupa neste texto.
Por fim, evidentemente, está o corpo do primeiro tomo de O Capital, texto concluído e publicado por Marx já como obra definitiva, no qual ele aborda a questão do trabalho humano e do maquinismo de maneira que poderíamos dizer “definitiva”.
No conjunto desses rascunhos, mas sobretudo nos Grundrisse (onde leva mais longe a reflexão que aqui nos interessa), Marx realiza um movimento coerente e materialista. Interroga-se em que medida, junto com a modificação do meio de trabalho (Marx assinala nos Grundrisse que lhe parece mais adequado chamar os meios de produção de “meios de trabalho”), isto é, com o maquinismo, modifica-se também o trabalho humano. O trabalho passa a ser uma atividade de vigilância e regulação, não operatória nem motriz, que se coloca ao lado do processo de produção e não subsumida a ele (o que, em certo sentido, modifica o seu próprio caráter, acrescentamos nós).
No que segue, realizaremos uma folha de estudo comentada o mais detalhadamente possível sobre todos esses textos (prometemos este arquivo em “Do Trabalho Humano ao ‘General Intelct’, ou a passagem da transição para o comunismo“ Esquerda Web, 19/10/2025), sendo esta primeira parte uma espécie de introdução a esse estudo.
1- O nascimento do autômato
A modo introdutório, assinalemos que Marx inicia sua reflexão em torno da conceituação do capital fixo (nos Manuscritos de 61/63 passará a uma análise mais concreta das máquinas propriamente ditas). Como sabemos, a partir do ordenamento categorial que Marx realiza em O Capital (os Grundrisse aparecem, em relação à sua obra principal, como mais desordenados, sem uma estrutura conceitual global; mais como um rascunho de trabalho para esclarecer suas próprias ideias), não se deve confundir os conceitos de capital constante/capital variável com os de capital circulante/capital fixo. (Chama a atenção que Enrique Dussel, um reconhecido marxólogo, “salteie”, em certa medida, a delimitação fundamental entre capital constante e capital fixo em seu “Estudo preliminar do caderno tecnológico-histórico de Marx de 1851”: “Em terceiro lugar, a tecnologia entra nesse silogismo como sua premissa maior ou ponto de partida: o capital constante é agora o capital fixo (…)” (Dussel: 1984: 27), e o mesmo ocorre quando afirma: “(…) poderemos concluir que a questão que nos ocupa é essencial na totalidade do pensamento de Marx, na própria estrutura da essência [sic] do capital, no núcleo fundamental da produção, como capital fixo, ou constante, ou produtivo” (1984: 24).)
No primeiro caso, ligado ao próprio processo de produção, no Volume I de O Capital, o capital variável é exclusivamente força de trabalho. E o capital constante todo o resto: matérias-primas e meios de produção (ou seja, o que não cria valor). No entanto, do ponto de vista da reprodução-circulação do capital, as categorias são modificadas. No Volume II de O Capital aparecem, precisamente, os conceitos de capital circulante e capital fixo (capital circulant e capital fixe na escrita original de Marx).[3] Capital circulante é tudo aquilo que entra e sai constantemente e completamente de cada processo imediato de produção. Aqui, tanto a força de trabalho quanto as matérias-primas (tanto a criação de valor quanto a não criação de valor) são combinadas (misturadas), por assim dizer, que são esgotadas em cada processo de produção (em cada dia de trabalho). Mas, no caso do capital fixo, apenas uma parte dele é gasta no processo imediato de produção. Seu valor total não entra inteiramente no processo imediato em cada jornada de trabalho, mas apenas na parte proporcional do desgaste em cada dia útil, o que faz com que permaneça como capital fixo. A máquina — ou o sistema de máquinas, não faz diferença aqui — entra em sua totalidade em cada dia útil como valor de uso, mas não como valor: transfere apenas a parte componente de seu desgaste na forma de uma parte de seu valor.[4]
Tendo em mente essas determinações elementares, Marx, nos Grundrisse, questiona-se sobre as modificações revolucionárias nos meios de produção que o maquinismo significa e, ao mesmo tempo, , de maneira materialista e dialética, ele também questiona, evidentemente, as virtualidades (modificações reais e potenciais) que a maquinaria contém em relação ao trabalho humano (o “Marx para além de Marx” do qual Negri fala).[5]
Obviamente faz sentido, porque o que está acontecendo sob o capitalismo – de modo geral e já apontado no Manifesto Comunista como específico desse sistema, algo verificado diariamente nas economias capitalistas avançadas – é um revolucionamento permanente de suas forças produtivas. Esse é o caso hoje da IA para além do debate sobre suas potencialidades produtivas e suas possíveis reversibilidades destrutivas, além do insuportável impressionismo dominante.[6] E parte das forças produtivas são os meios de produção – meios de trabalho – que, com a grande indústria capitalista, passam por uma revolução completa com o aparecimento da máquina – a maquinaria.[7]
Assim, aqui está uma segunda transição: capital fixo como aquele capital que não é totalmente renovado no processo imediato de produção, mas ao longo de todo um período, é, propriamente dito, capital expresso em máquinas, capital fixo. Assim, é diferente do conceito de capital constante que, do ponto de vista da não criação de valor, aparece misturado com esse conceito e impede a identificação do sistema máquina como tal. Esse capital fixo aparece em circulação como a parte do capital constante que não é totalmente renovada em cada ciclo produtivo e/ou como parte do trabalho acumulado (morto) que passa pelo processo de desgaste gradual, como já vimos.
Assim chegamos ao capital fixo do qual Marx fala nesta parte dos Grundrisse: as máquinas ou o sistema de máquinas. E acontece que capital fixo é precisamente o trabalho acumulado na forma de máquinas; ou melhor, como Marx afirma, “sistema de máquinas”. Do “corpo orgânico de produção” baseado em trabalhadores/artesãos, passamos, na indústria em grande escala, para o “corpo inorgânico de produção” fundado em máquinas. O ou a trabalhadora são expropriados de seu “know-how” e tornam-se “apêndices” no processo produtivo baseado em máquinas (o conceito de know-how é do autor autonomista John Holloway: Como cambiar el mundo sin tomar el poder, 2002, é a obra de referência desse conceito).[8]
No entanto, no “Fragmento sobre as Máquinas” dos Grundrisse, Marx não trata da delimitação do que acabamos de apontar, mas vai diretamente a dois objetos (objetivos): a) o surgimento da máquina e do maquinismo, e b) as modificações que o trabalho humano sofre nesse processo (que é o objetivo final de nossa pesquisa devido à análise das relações subsistentes de autoexploração na transição socialista e seu potencial de superação no comunismo – a base material e as relações sociais para tal fim. A propósito, vale ressaltar que, em muitos trabalhos sobre o maquinismo que estamos analisando para nossa obra, a questão do maquinismo como base material para a emancipação humana não surge como tema central desses estudos).
Marx inicia esses fragmentos com a análise das máquinas e do sistema de máquinas cujo longo subtítulo é: “O Processo do Trabalho – Capital Fixo. Ambiente de trabalho. Máquina – Capital fixo. Transposição das forças de trabalho em forças do capital, tanto no capital fixo como no circulante – Em que medida o capital fixo (máquina) cria valor. Lauderdale. – A máquina pressupõe uma massa de operários” (1980: 216). Acrescentamos, de passagem, que a análise especificamente concreta das máquinas é retomada anos depois nos cadernos V e XIX – XX dos Manuscritos de 1861/63, uma questão que abordaremos na segunda parte deste ensaio. O que é conceitualmente focado nos Grundrisse, nos Manuscritos 61/63, é abordado de forma mais concreta: ele faz uma história das máquinas (já que Marx é Marx, para entender as máquinas em um sentido concreto, ele faz um curso prático com um especialista no assunto que dava aulas aos operários: o professor Willis. De passagem assinalemos que, diferente do instrumento que sempre é operado pelo ou pela trabalhadora, a máquina já é um conjunto de instrumentos e um autômato, o veremos a seguir).
De sua análise pode-se deduzir que o moinho é a primeira verdadeira máquina, uma máquina que se enraíza muito antes do surgimento do capitalismo:
“O moinho (…) Pode ser considerado o primeiro instrumento de trabalho no qual o princípio da máquina é aplicado. No moinho, isso era relativamente mais fácil do que em rodas de fiar, máquinas têxteis, etc., porque, nesse caso, a parte operacional da máquina, ou seja, a parte que supera a resistência do objeto de processamento, atuava desde o início independentemente da mão do homem e sem suas interferências ulteriores. Seja o grão seco esmagado ou esfregado com a mó de moinho no pilão, a mão entra em jogo só como força motriz” (Marx: 2022: 119).
Na realidade, Marx coloca o moinho e o relógio como as primeiras máquinas, que também são anteriores ao próprio capitalismo:
“Ao reler o Caderno tecnológico-histórico [1851], cheguei à conclusão de que as invenções da pólvora, da bússola e da imprensa são pré-condições do desenvolvimento burguês, ou seja, desde o período dos ofícios, desde o século XVI ao XVIII, eles se desenvolveram para se tornarem manufaturas e alcançarem à autêntica grande indústria. Esta teve duas bases materiais com as quais se formou no interior das manufaturas e como trabalho preparatório para a constituição da indústria mecânica, e foram o relógio e o moinho (…) ambos transmitidos desde a Antiguidade (…) O relógio foi o primeiro autômato aplicado ao uso prático e a base da teoria do desenvolvimento da produção de um movimento constante (…) Por outro lado, no moinho, desde a descoberta do moinho hidráulico, se conheceram as diferentes partes essenciais da máquina como se fosse um organismo (…)” (Dussel: 1988: 269/70).
Como introdução aos “Fragmentos” de 1857/8, vamos apontar com Marx que a máquina moderna só pode ser apreciada por meio da análise (algo semelhante acontece com a inteligência artificial, Pasquinelli)[9]. O que significa “apreciá-las por meio da análise”? Significa que se opera um duplo processo de decomposição das capacidades do artesão e de recomposição dessas capacidades na máquina, como acabamos de ver, em relação a uma nota de rodapé com Pasquinelli, no “treinamento” para o manuseio de veículos autônomos.[10] A recomposição do trabalho socialista pós-revolucionário não passa por um retorno ao artesanato, mas por uma recomposição do trabalho em um nível superior: planejamento econômico socialista, trabalho associado. É uma polêmica que Marx estabelece com Proudhon.[11]
A máquina é, portanto, uma composição de dois termos: a) um sistema combinado de ferramentas (uma máquina é uma multiplicidade de ferramentas que “vence a resistência do material”); b) um sistema que se move por um princípio motor próprio: um autômato.[12] Os primeiros autômatos foram os escravos. Porque eles, como meio de produção e não apenas como força de trabalho, como coisas, eram autômatos: tinham auto-movimento. Eram “ferramentas mugentes”, nas palavras de Aristóteles.[13]
O interessante e contraintuitivo aqui é que, como será visto mais precisamente em nossa fichagem dos Manuscritos de 1861/63, para Marx não é o autômato que precede o “princípio da máquina”, mas sim o (a) princípio da máquina – no sentido de um conjunto de ferramentas que realizam um trabalho que antes era feito por vários artesãos; que antecede o ponto; b) a substituição do princípio motor humano, a força humana, pela força natural, o autômato propriamente dito.
Isso porque, nas primeiras máquinas, a transmissão da energia ainda era humana (Marx o afirma com clareza). Posteriormente, essa energia foi substituída por energia natural, hidráulica, eólica, mecânica, eletrônica, ou seja, energia não humana: “(…) A revolução industrial abrange, antes de tudo, a parte da máquina que executa o trabalho. A força motriz é, no início, ainda o ser humano (…) Desde o momento em que a participação imediata do homem [ser humano] na produção se reduz apenas ao fato de que ele começa a agir como uma mera força, nesse momento surge o princípio da produção por máquina. O mecanismo já era evidente: a força motriz poderia ser substituída doravante por água, vapor, etc.” (Marx: 2022: 114). E é evidente, também, que se isto é assim, se o ser humano deixa de ser essencial para a produção – é verdade que Marx lhe agrega sempre a palavra “imediata” – começa a operar-se, para nós, uma transformação no conceito de trabalho tal como o conhecemos em nossos dias.
Na escravidão assalariada moderna, as e os trabalhadores perdem sua autonomia porque passam a ser um apêndice mecânico do sistema de máquinas: o trabalho puramente mecânico se oculta atrás do véu do livre movimento, fazendo desaparecer o auto-movimento (aqui estamos parafraseando Marx segundo nosso critério: 2022: 118, ou seja, nos fica a imagem chaplinesca imortalizada em Tempos Modernos). As máquinas passam a ser o verdadeiro sujeito da produção, ainda que a produção de valor seja patrimônio exclusivo do trabalho vivo.[14] Como aparece a máquina? Por meio da análise do trabalho e da expropriação do saber-fazer do trabalhador/a. A máquina recompõe aquilo que foi decomposto do trabalhador/a, como já dissemos. E o recompõe, ao mesmo tempo, como autômato: com uma fonte própria de energia.
Dando um passo além, o sistema de máquinas (porque é disso que se trata) vem a ser o coletivo de máquinas postas a funcionar em uníssono em um mesmo âmbito (em uma “cadeia de produção” automatizada, em uma fábrica, em um sistema de fábricas). Em O Capital, a análise da emergência do sistema de máquinas vai da cooperação simples à grande indústria, passando pela manufatura. Já no interior do sistema fabril, o taylorismo, o fordismo, o toyotismo, a automação, a robotização, o trabalho sob algoritmos (o que Marx evidentemente não analisa, por se tratar de formas de sujeição do trabalho científico-capitalistas posteriores a ele) são formas de organização do trabalho que adaptam as e os trabalhadores ao revolucionamento constante do “sistema de máquinas” e às formas de divisão do trabalho que lhe são próprias.
Falando da “condena” que a divisão do trabalho significa sob o capitalismo, podemos citar Marx: “Adam Smith foi mais perspicaz do que pensa o senhor Proudhon. Viu muito bem que ‘na realidade, a diferença de talentos naturais entre indivíduos é muito menor do que cremos. Essas disposições tão diferentes, que parecem distinguir as pessoas de diversas profissões quando chegam à idade adulta, não são tanto a causa quanto o efeito da divisão do trabalho’. A diferença inicial entre um carregador e um filósofo é menor do que a que existe entre um mastim e um galgo. O abismo entre um e outro foi aberto pela divisão do trabalho” (Marx: 1987: 101; é interessante porque Marx e Engels buscam também reduzir as diferenças entre os seres humanos e os animais apoiando-se em Reimarus, mas esse é outro tema — que abordamos em certa medida em Engels antropólogo).
Existe uma relação dialética entre máquina e divisão do trabalho na qual uma influencia a outra, mas a precedência materialista é a da divisão do trabalho, como consequência da qual vai surgindo a máquina. No entanto, aqui há várias interpretações (a de Dussel é uma delas: “Marx mostra que não é a divisão do trabalho que cria as máquinas”, 1984: 17) e é difícil identificar as idas e vindas entre uma e outra determinação (o que pode dar lugar tanto a interpretações positivistas quanto culturalistas, ambas equivocadas): “Constitui um erro em geral — escrevia Marx em O Capital — a ideia de que, no princípio, a máquina moderna se apoderou daquelas operações que a divisão manufatureira do trabalho havia simplificado. Durante o período manufatureiro foram divididas em novas categorias a fiação e a tecelagem e se aperfeiçoaram e diversificaram seus instrumentos, mas o próprio processo de trabalho, que de modo algum se dividiu, continuou sendo artesanal. O ponto de partida da máquina não é o trabalho, mas o instrumento de trabalho” (Marx citado por Di Lisa: 1982: 20).
No entanto, no texto denso porém valioso de Di Lisa também se cita Marx afirmando que: “A diferenciação, a especialização e a simplificação dos instrumentos de trabalho, nascidas da divisão do trabalho na indústria manufatureira, que por sua vez se baseia nessa mesma divisão, e os mecanismos construídos para realizar operações muito simples, levando em conta justamente esses três elementos, estão entre os mais importantes pressupostos tecnológicos e materiais do desenvolvimento da produção por meio da máquina, enquanto elementos que revolucionam os métodos e as relações de produção” (Marx citado por Di Lisa: 1982: 20).
Como se vê, divisão do trabalho e desenvolvimento dos instrumentos e das máquinas estão profundamente entrelaçados, tendo talvez, a princípio, “vidas paralelas” que depois se unem; porém, neste estágio de nossa investigação, ainda não podemos decidir com clareza a ordem de precedência, dadas as consequências que uma ou outra interpretação implicam para uma abordagem equilibrada do marxismo.
O próprio Marx assinala com agudeza já em Miséria da Filosofia: “O trabalho se organiza e se divide de diferentes modos conforme os instrumentos de que dispõe [algo que soa bastante materialista]. O moinho movido à mão supõe uma divisão do trabalho distinta da do moinho a vapor. Querer começar pela divisão do trabalho em geral, para chegar depois a um dos instrumentos específicos da produção, significa zombar da história.
“As máquinas não constituem uma categoria econômica, assim como tampouco o boi que puxa o arado. As máquinas não são mais do que uma força produtiva. A fábrica moderna, baseada no emprego das máquinas, é uma relação social de produção, uma categoria econômica” (Marx: 1987: 105).
Está bastante claro que a máquina aparece aqui como força produtiva e a fábrica já como relação social. Mas, dito assim, em sentido amplo, e considerando os desenvolvimentos do marxismo no século XX — que por vezes transformaram as forças produtivas em uma esfera independente das relações sociais, ou, ao contrário, em algo intrinsecamente maligno —, a questão deve ser aprofundada. A nosso ver, em ambos os casos é preciso delimitar que o há de forças produtivas e que o há de relação social em cada termo (o que não quer dizer que a transição socialista não deva partir das máquinas disponíveis!).
A nosso ver, em todos os casos (mecânicos, elétricos, automáticos ou cibernéticos), o “sistema de máquinas” funciona por meio da análise do trabalho humano individual e social. Pasquinelli demonstra bem em sua obra o direcionamento explorador que a IA e os algoritmos assumem sob as condições de acumulação do capital:
“Neste livro argumento (…) que o código interno da IA não é constituído pela imitação da inteligência biológica, mas pela [imitação] da inteligência do trabalho e das relações sociais. Hoje, deve ser evidente que a IA é um projeto para capturar o conhecimento expresso por meio do comportamento individual e coletivo e codificá-lo (encode) em modelos algorítmicos para automatizar as mais diversas tarefas (…)” (Pasquinelli: 2023: 2).[15]
A força produtiva expropriada às e aos trabalhadores pelo sistema de máquinas, no entanto, pode reverter em seu contrário (essa é a dialética das coisas, o lado (b) do maquinismo que poucos analistas consideram e que abre potencialidades emancipatórias): não se trata de voltar ao antigo sistema integrado individual do trabalho artesanal, mas de se apropriar do “sistema de máquinas” e da produção social como um todo por meio da planificação democrática da economia pelas e pelos trabalhadores (como trabalhadores sociais, coletivos, associados).
Esse processo de autonomização da produção em relação ao trabalho humano direto (ou seja, ao suor humano, ao esmagamento dos nervos e músculos das e dos trabalhadores, à base raquítica de valor da produção — mantida pelo estalinismo, ainda que deva ser violada em toda transição socialista autêntica; isto é, a base de troca de valores) é, dialeticamente, o surgimento, a cada momento e em um nível superior, do conhecimento das ciências naturais e sociais expresso no desenvolvimento da técnica produtiva como potencialidade emancipatória, repetimos.
É o aparecimento do que Marx chama de General Intellect, isto é, as forças do conhecimento histórico-social acumuladas pela humanidade e transformadas em forças produtivas: “(…) a criação da riqueza efetiva torna-se menos dependente do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho empregados do que do poder dos agentes postos em movimento durante o tempo de trabalho, poder que, por sua vez – sua powerful effectiveness – não guarda qualquer relação com o tempo de trabalho imediato que custa sua produção, mas depende antes do estado geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção (…) A riqueza efetiva manifesta-se antes – e isso é revelado pela grande indústria – na enorme desproporção entre o tempo de trabalho empregado e seu produto, assim como na desproporção qualitativa entre o trabalho, reduzido a uma pura abstração, e o poder do processo de produção supervisionado por ele” (Grundrisse: 1980: 227/8).[16]
Na medida em que isso ocorre e enquanto as “pulsões utópicas” não se convertam em distópicas — isto é, que sejam produto de uma revolução e de uma transição autenticamente socialistas (tendência ao domínio do trabalho vivo sobre o trabalho morto) e não de um processo de burocratização ou de um caminho rumo à barbárie capitalista —, pode-se compreender com clareza como Marx fala da redução do trabalho em sua acepção tradicional (do conceito de trabalho como explorado e dominado) a uma “pura abstração” que nega seu próprio conteúdo tradicional: o trabalho devém, genericamente, atividade (ou seja, coloca-se outro conceito para compreender e conter o necessário intercâmbio metabólico eterno entre a humanidade e a natureza).
Assinala Di Lisa a esse respeito:
“A intervenção na ‘grande batalha sobre a distinção entre a máquina e o instrumento’ teria como objetivo defender e consolidar as conquistas conceituais: o desaparecimento do trabalho imediato como princípio determinante da produção, sua passagem a um segundo plano diante do devir da força produtiva da ciência” (1982: 16),
algo que passa completamente ao largo de Pasquinelli em sua ridícula crítica ao conceito de General Intellect como “idealista” (sic). (E acrescenta Di Lisa, citando Marx:
“Como já vimos, a máquina não desloca a ferramenta. Esta, de instrumento diminuto do organismo humano, cresce em volume e quantidade até converter-se em ferramenta de um mecanismo criado pelo homem [ser humano]” (1987: 21).
Aqui podemos sublinhar que, em Marx, a dialética histórica é uma dialética aberta, feita de suas tendências ascendentes e descendentes (Engels), e não o “romantismo anticapitalista” cético de Weber, que apenas percebia os elementos negativos da racionalização capitalista e perdia de vista as potencialidades emancipadoras do desenvolvimento das forças produtivas — evidentemente, superando a camisa de força das relações exploradoras do capitalismo. Marx não é idiota: nesses textos sobre o maquinismo, ele identifica tanto a expropriação do saber-fazer das e dos trabalhadores quanto as virtualidades emancipatórias que o maquinismo encerra. E aqui nos encontramos, nesta terceira década do século XXI, quebrando a cabeça sobre como relançar a batalha pela revolução socialista diante de um capitalismo que deu uma guinada destrutiva brutal e criou uma multidão de forças que escapam ao seu controle: militarismo, destruição ecológica, inteligência artificial, etc.
Além disso, é preciso destacar um último conceito de importância. O maquinismo, em qualquer de seus estágios, é uma fusão entre natureza e cultura: leis da natureza “capturadas” para a produção humana no “sistema de máquinas”. Trata-se de uma rara síntese entre natureza e cultura humana, um subproduto da fusão “orgânica” entre ambas. É a criação de algo onde antes não havia “nada” — salvo a matéria-prima natural —, como assinalava Gordon Childe a propósito da indústria da olaria analisada pela arqueologia. “Vê-se como a indústria e a existência que se tornou objetiva, da indústria, são o livro aberto das forças humanas essenciais (…)” (Marx citado por Dussel: 1984: 15).
Por fim, valendo-nos de certa pedagogia em Dussel, é interessante a genealogia geral que ele traça — de maneira sumária — do conceito de modo de produção em Marx, que aqui apenas deixamos apontada para estudos ulteriores. Ele rastreia na Gazeta Renana a seguinte ideia: “Assim como todo modo de vida determinado (Weise des Lebens) é o modo de vida (Lebensweise) de uma determinada natureza. Seria absurdo exigir que o leão se submetesse às leis da vida do pólipo (…)” (Marx citado por Dussel: 1984: 10). Dussel acrescenta que, dessa maneira, encontram-se protoconceitos dos futuros “modos de produção” na ideia de “modos de vida”.
E mais adiante acrescenta, precisamente tomando como fonte A ideologia alemã:
“O próprio homem [ser humano] distingue-se dos animais a partir do modo como começa a produzir seus meios de vida (Lebensmittel zu produzieren) (…) Ao produzir seus meios de vida, o homem [ser humano] produz indiretamente sua própria vida material. O modo (Weise) como os homens produzem seus meios de vida depende da própria natureza desses meios de vida (…) Esse modo de produção (Weise der Produktion) (…) já é um determinado modo de objetivar sua vida, um determinado modo de vida (Lebensweise). Donde se segue que um determinado modo de produção (Produktionsweise) ou uma determinada fase social traz sempre consigo um determinado modo de cooperação ou uma determinada fase social (…) A história da humanidade deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio” (Marx citado por Dussel: 1984: 16).
Após essa introdução geral, ainda provisória, passemos a analisar — de maneira comentada — alguns fragmentos de Marx para não perder nada de sua riqueza. Nesta primeira parte, nos dedicaremos ao “Fragmento das máquinas” dos Grundrisse (1857/8); na segunda, aos fragmentos dedicados ao maquinismo dos Cadernos V e XIX e XX (1861/3); e, em uma terceira, aos antecedentes dos Cadernos tecnológico-históricos de 1851.
2- Do artesanato à maquinaria
Para compreender as citações dos Grundrisse e dos respectivos Cadernos que analisaremos em próximos artigos, devemos fazer uma revisão sumária de algumas definições de Marx em O Capital, que, como é amplamente sabido, é uma obra posterior (dez anos se passaram entre o rascunho dos Grundrisse e a publicação do tomo I de O Capital). É preciso lembrar que, antigamente, os primeiros trabalhos não agrários eram realizados no seio da comunidade rural. A primeira divisão do trabalho foi a divisão campo-cidade, como lembra Marx a Proudhon:
“(…) reduzir as coisas às categorias do senhor Proudhon seria simplificá-las demais. A história não atua de modo tão categórico. Na Alemanha foram necessários três séculos inteiros para estabelecer a primeira grande divisão do trabalho, isto é, a separação entre a cidade e o campo. À medida que se modificava essa única relação entre cidade e campo, toda a sociedade se transformava” (Marx: 1987: 100/1).
Os artesãos eram os responsáveis por realizar uma série de trabalhos não diretamente agrícolas e que, ao mesmo tempo, eventualmente saíam do círculo familiar. Os ofícios de sapateiro, carpinteiro, alfaiate, ferreiro etc., toda essa série de atividades saía do trabalho especificamente agrícola e, quando também saía do âmbito familiar, era realizada por artesãos que se especializavam nessa produção.
Logicamente, se isso se concentrava nas cidades, nelas também se concentrava o intercâmbio, o que dava lugar à circulação mercantil simples identificada por Marx como mercadoria-dinheiro-mercadoria (a origem da mercadoria é a produção para outro, e não para si, razão pela qual supõe o mercado, onde tais mercadorias são trocadas). Os artesãos, por sua vez, agrupavam-se em corporações de ofício com suas diversas hierarquias, que se mantiveram rígidas ao longo dos séculos como uma “divisão natural do trabalho”, afirma Marx, como cristalização de uma determinada divisão do trabalho.
Tudo isso é amplamente conhecido, de modo que não cabe desenvolvê-lo aqui em extensão.
A importância do caso — se acrescentarmos também, por exemplo, a óptica ou a relojoaria, que são artesanatos mais complexos — é que o artesão (ou seus subordinados, à medida que aprendiam o ofício) realizava toda a tarefa: possuía, em alguns casos, um saber-fazer muito refinado de seu ofício:
“(…) o virtuosismo do trabalhador parcelar (…) Sua transformação do trabalho parcelar em ocupação vitalícia de um homem (…) corresponde à tendência das sociedades anteriores de tornar hereditários os ofícios, de petrificá-los em castas (…) de ossificá-los em corporações. Castas e corporações surgem da mesma lei natural que regula a diferenciação de plantas e animais em espécies e variedades; apenas que, quando alcançam certo grau de desenvolvimento, o caráter hereditário das castas ou o exclusivismo das corporações é estabelecido por decreto, como lei social” (Marx: 1981: 413).
À medida que foi emergindo, ao lado das classes senhoriais, uma burguesia e uma acumulação inicial de capital, essa acumulação também permitia dispor de matéria-prima, e assim se difundia o trabalho a domicílio. O capitalista incipiente fornecia matéria-prima às e aos trabalhadores a domicílio, que lhe devolviam, em troca de uma soma de dinheiro, o trabalho terminado, a mercadoria acabada.
A manufatura surge quando os capitalistas passam a poder reunir as e os trabalhadores sob um mesmo teto:
“(…) a produção capitalista só começa, em rigor, quando o mesmo capital individual emprega simultaneamente um número relativamente grande de operários e, em consequência, o processo de trabalho amplia seu volume e fornece produtos em uma escala quantitativamente maior. A atuação de um número relativamente grande de operários, ao mesmo tempo, no mesmo espaço (ou, se se preferir, no mesmo campo de trabalho), para a produção do mesmo tipo de mercadorias e sob o comando do mesmo capitalista, constitui histórica e conceitualmente o ponto de partida da produção capitalista” (Marx: 1981: 391).
Em um primeiro momento, esses trabalhadores/as-artesãos/as continuam realizando a tarefa completa. Ou seja, ainda não se estabelece uma grande divisão do trabalho para além da divisão social do trabalho que implica a existência da agricultura como ramo específico e o surgimento da manufatura (campo-cidade):
“No que diz respeito ao próprio modo de produção (…), em seus começos a manufatura mal se distingue da indústria corporativa do artesanato pelo maior número de operários que o mesmo capital utiliza simultaneamente. A oficina do mestre artesão nada mais fez do que se ampliar” (Marx: 1981: 391).
No entanto, no interior da manufatura, a partir da reunião de trabalhadores-artesãos sob um mesmo teto, começa a emergir a magia da cooperação (o trabalho associado): “A forma de trabalho de muitos que, no mesmo lugar e em conjunto, trabalham de maneira planificada no mesmo processo de produção ou em processos distintos, mas conexos, denomina-se cooperação” (Marx: 1981: 395). É interessante observar aqui como Marx associa cooperação à planificação, algo que o estalinismo destruiu: na planificação burocrática desapareceram tanto a planificação quanto a cooperação. Como assinalava com agudeza Nahuel Moreno, cada empresa, cada diretor de empresa, se voltava contra o outro (a planificação havia desaparecido no “plano”, como observava Moshe Lewin!).
E Marx acrescenta imediatamente:
“(…) a soma mecânica das forças de operários isolados difere essencialmente da potência social das forças que se desdobra quando muitos braços cooperam simultaneamente na mesma operação indivisa (…) O efeito do trabalho combinado (…) não poderia ser alcançado pelo trabalho de indivíduos isolados (…) Não se trata aqui apenas de um aumento da força produtiva individual devido à cooperação, mas da criação de uma força produtiva que, em si e para si, é necessariamente uma força de massas” (Marx: 1981: 396).
E reafirmando a “magia” do trabalho associado (o conceito é nosso, não de Marx), Marx assinala com agudeza:
“(…) o mero contato social gera, na maioria dos trabalhos produtivos, uma emulação e uma peculiar ativação dos espíritos vitais (animal spirits), as quais aumentam a capacidade individual de rendimento (…) isso se deve ao fato de que o ser humano é, por natureza, se não, como afirma Aristóteles, um animal político, em todo caso um animal social” (Marx: 1981: 396/7).[17]
À medida que a manufatura se torna mais estável, começa a operar em seu interior uma divisão de tarefas. É aí que começa a se romper o ofício artesanal.
“A cooperação fundada na divisão do trabalho assume sua forma clássica na manufatura. Enquanto forma característica do processo capitalista de produção, ela predomina durante o período manufatureiro propriamente dito, que dura, em linhas muito gerais, de meados do século XVI até o último terço do século XVIII” (Marx: 1981: 409).
E Marx acrescenta que a manufatura surge de duas maneiras: a) a primeira consiste em reunir em uma oficina, sob o comando do mesmo capitalista, trabalhadores pertencentes a ofícios artesanais diversos e independentes, por cujas mãos deve passar um produto inteiro até sua conclusão definitiva. Encontramo-nos, assim, ainda no terreno da cooperação simples, que encontra como pré-existentes seu material humano e os meios de que necessita. b) Logo ocorre, afirma Marx, uma mudança essencial: o estofador, o chaveiro, o latoeiro etc., que se ocupa apenas da fabricação de uma única coisa, ao perder o hábito perde também, pouco a pouco, a capacidade de exercer seu antigo ofício artesanal em toda a sua amplitude. Sua atividade, agora unilateral, assume a forma mais adequada ao campo de ação restrito. Originalmente, a manufatura aparecia como uma combinação de ofícios artesanais independentes. Pouco a pouco, transforma-se em uma divisão da produção em diversas operações particulares que a compõem, cada uma das quais cristaliza como função exclusiva de um trabalhador, sendo o conjunto executado pela associação desses trabalhadores parcelares.
Marx assinala que, embora haja duas vias pelas quais se chega à manufatura, seu princípio permanece o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são os próprios seres humanos (há subsunção formal, mas não real, do trabalho ao capital).“O artesanato continua sendo a base técnica, uma base técnica estreita que exclui, na realidade, a análise científica do processo de produção” (Marx: 1981: 412). E o exclui porque, ao reunir o artesão toda a tarefa de maneira “subjetiva”, torna difícil a análise da própria atividade (seu trabalho ainda não foi decomposto).
Nesse ponto, Dussel é pedagógico: o ateliê artesanal e a manufatura são formalmente diferentes, mas materialmente semelhantes, porque se baseiam em instrumentos simples; por sua vez, entre a manufatura e a grande indústria, o âmbito de produção — por assim dizer — já ampliado é o mesmo, mas materialmente as coisas já são distintas, pois a produção passa a se basear na máquina ou no sistema de máquinas.
É a partir daí que começa a se estabelecer o “princípio da máquina”: por meio da análise e da decomposição do trabalho artesanal, se se dispuser dos instrumentos correspondentes, o trabalho pode ir se recompondo na máquina.
Como etapa prévia, ainda de maneira artesanal, as tarefas podem ser progressivamente divididas, de tal forma que um artesão-trabalhador não as realize integralmente. Aqui se combinam dois princípios: a) a “magia do trabalho associado” e/ou da cooperação, que permite, com a especialização, ganhar em produtividade, já que agora um conjunto de trabalhadores/as realiza determinadas tarefas e outro conjunto realiza outras; b) ao mesmo tempo, começa a surgir o “princípio das máquinas” ou da máquina-ferramenta, porque, em última instância, como já vimos, uma máquina é uma reunião de ferramentas em uma única unidade que passa a operar com um princípio motor próprio, um autômato.
“Toda máquina desenvolvida compõe-se de três partes essencialmente diferentes: [a] o mecanismo motor, [b] o mecanismo de transmissão e, finalmente, [c] a máquina-ferramenta ou máquina de trabalho. O mecanismo motor atua como força impulsora de todo o mecanismo. Ele gera sua própria força motriz (…)” (Marx: 1981: 453, transformando a máquina em um autômato).
Como digressão, assinalemos que, nesta mesma página de O Capital que acabamos de citar, Marx coloca uma citação em nota de rodapé que é uma verdadeira genialidade em matéria de análise dialético-materialista:
“Darwin despertou o interesse pela história da tecnologia natural, isto é, pela formação dos órgãos vegetais e animais como instrumentos de produção para a vida de plantas e animais. Não merece a mesma atenção a história relativa à formação dos órgãos produtivos do homem na sociedade, à base material de toda organização particular da sociedade?
E essa história não seria muito mais fácil de expor, já que, como diz Vico, a história da humanidade se diferencia da história natural porque a primeira foi feita por nós e a outra não? A tecnologia põe a descoberto o comportamento do ser humano em relação à natureza, o processo imediato de produção de sua existência e, com isso, também suas relações sociais de vida e as representações que delas surgem” (Marx: 1981: 453).
Aqui cabem duas reflexões. A primeira é que a história da tecnologia, dos instrumentos de trabalho, constitui uma dimensão fundamental para uma abordagem materialista da história humana, dos instrumentos de inter-relação entre a vida humana e a natureza, da própria reprodução da espécie humana (A ideologia alemã).
A segunda é que parece que Marx deu lições avant la lettre a objetivistas como Althusser, para os quais a história humana não possui nenhuma especificidade, nada de “particular” que nos permita conhecê-la melhor: trata-se de nossa própria experiência, algo que nos aproxima de seu conhecimento justamente porque diz respeito à nossa própria existência prática; mas o conceito de experiência nada vale para Althusser (para quem só tem valor, de maneira idealista, a “prática teórica”).
Assim sendo, o “princípio da manufatura” conduz ao “princípio da cooperação”, e o princípio da cooperação conduz ao “princípio da máquina”, tudo isso no interior de uma determinada divisão do trabalho:
“Na manufatura, a revolução que ocorre no modo de produção tem como ponto de partida a força de trabalho; na grande indústria, o meio de trabalho” (a máquina, Marx: 1981: 451).[18]
E Marx acrescenta que a) o mecanismo motor e b) o mecanismo de transmissão de energia são dois dos componentes da máquina, aos quais se acrescenta o terceiro e fundamental, c) a máquina-ferramenta, que se apropria do objeto de trabalho e o modifica conforme um fim (a ideia do trabalho como atividade orientada a um fim, teleológica, é desenvolvida com agudeza por Georg Lukács em sua Ontologia do ser social, questão que abordaremos em outro texto).
É dessa parte da maquinaria, da máquina-ferramenta, que tem início a revolução industrial no século XVIII.
“A máquina, da qual arranca a revolução industrial, substitui o trabalhador que maneja uma única ferramenta por um mecanismo que opera simultaneamente com uma massa de ferramentas iguais ou semelhantes àquela e que é movido por uma única força motriz, seja qual for sua forma. Temos aqui a máquina, mas ainda apenas como elemento simples da produção mecanizada” (Marx: 1981: 457).[19]
A reunião desses três “mecanismos”, por assim dizer, é o que conduz ao que Marx chama de grande indústria, que nada mais é do que a organização da produção com base no sistema de máquinas: do corpo orgânico da produção, fundado no trabalhador-artesão, passa-se ao corpo inorgânico da mesma, que está fundado no capital fixo, isto é, no sistema de máquinas.
“Um sistema de maquinaria (…) constitui em si e para si um grande autômato, sempre que receba seu impulso de um primeiro motor que se mova a si mesmo” (Marx: 1981: 463).
Bibliografia
Daniel Bensaïd, La discordance des temps. Essai sur les crises, les classes, l’histoire, Les Éditions de la Passion, Paris, 1995.
Enrique Dussel, Hacia un Marx desconocido. Un comentario de los Manuscritos del 61-63, Siglo Veintiuno Editores, México, 1988.
Karl Marx, Cuaderno Tecnológico-histórico, estudo preliminar de Enrique Dussel, México, 1984.
John Holloway, Cambiar el mundo sin tomar el poder. El significado de la revolución hoy, Colección Herramienta, Universidad Autónoma de Puebla, Buenos Aires, 2002.
Karl Marx, El capital, tomo 1, volume 2, Siglo Veintiuno Editores, edição a cargo de Pedro Scaron, tradução, advertência e notas de Pedro Scaron, México, 1981.
Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse), 1857/8, volume 2, edição a cargo de José Aricó, Miguel Murmis e Pedro Scaron, tradução de Pedro Scaron, Siglo Veintiuno Editores, México, 1980.
Manuscritos 1861/63. Cuadernos V y XIX y XX, Ediciones Dos Cuadrados, tradução de Aricó, Blanco e Di Lisa, revisão Dos Cuadrados, Espanha, fevereiro de 2022.
Progreso técnico y desarrollo capitalista (manuscritos 1861-1863), introdução de Mauro de Lisa, Cuadernos de Pasado y Presente, 93, México, 1982.
Miseria de la filosofía, Editorial Cartago, Argentina, 1987.
Pierre Naville, Vers l’automatisme social? Problemes du travail et de l’automation, Gallimard, Paris, 1963.
Matteo Pasquinelli, The Eye of the Master. A social history of artificial intelligence, Verso, Londres, 2023.
León Trotsky, El pensamiento vivo de Marx, Losada, Buenos Aires, 1984.
Notas
[1] Os rascunhos para a escrita de Capital são compostos pelos Grundrisse; a um pouco malsucedida Contribuição para a Crítica da Economia Política publicada em 1859 (que contém apenas os capítulos sobre dinheiro e mercadoria e que permaneceu um texto muito abstrato); Manuscritos 61/63 (destinados a ser uma continuação do texto de 1859 e contendo o que mais tarde seria conhecido como Teorias do Plus-Valor, publicado por Kautsky), os inestimáveis fragmentos de continuidade da análise das máquinas nos cadernos V, XIX e XX desses Manuscritos; os cadernos de 63/65 que incluem algumas partes que mais tarde foram publicadas nos Volumes II e III do Capital preparados por Engels; assim como, finalmente, chegamos ao volume I de Capital , publicado em sua primeira edição por Marx em 1867 (Marx publicaria durante sua vida a valiosa edição francesa desse volume – muito reivindicada por Raya Dunayevskaya por ter sido publicada após a Comuna de Paris – assim como a segunda edição em alemão desse volume). Em 1885 e 1894, Engels publicou os volumes II e III de Capital , reduzindo os esforços à publicação de textos originais de sua autoria (ele nunca conseguiu terminar um de seus melhores textos, mas o melhor: Dialética da Natureza).
[2] Antoine Artous defende que é impossível decidir com Marx sobre o futuro do trabalho humano. Ele aponta o mesmo que colocamos aqui, que nos Grundrisse Marx aprecia sua supersessão, mas que no Capital ele regride à posição de que sempre haverá trabalho e tempo livre necessários, logicamente em proporções diferentes do que sob o capitalismo, mas sem considerar criticamente a própria ideia de trabalho. Por outro lado, Tony Negri é mais afiado (embora em seu estilo semi-pós-moderno e superficial), quando, em sua famosa palestra sobre a Grundrisse a convite de Althusser em 1978, ele intitula a obra que Marx posteriormente publicou sobre o tema além de Marx.
[3] Todos sabem que Marx incorporou palavras em vários idiomas em seus escritos, embora tenha escrito em alemão (a única obra escrita em outro idioma foi em francês: A Pobreza da Filosofia, uma crítica a Proudhon de 1847, uma obra importante à qual faremos referência em outra ocasião).
[4] Ciclos de mudança tecnológica podem acelerar a obsolescência do capital fixo, e as coisas são muito diferentes em diferentes ramos da produção. É claro que hoje, no século XXI, em ramos em pleno desenvolvimento acelerado como IA, telefonia móvel, ramos ligados à transição energética ou astronautica, até mesmo na indústria automotiva ligada aos carros elétricos, os tempos são muito diferentes das médias da época de Marx (sua média para a renovação do capital fixo era um ciclo de 8/10 anos).
Depreciação significa que, a priori, ao final de seu tempo útil, o capital fixo transferiu todo o seu valor incorporado nas mercadorias produzidas; se forem vendidas, ou seja, se conseguirem realizar seu valor e plusvalor em troca, significa que o capitalista recuperou todo o capital investido neles. O negócio de vender máquinas usadas aparece aqui como uma espécie de “uso excessivo” delas, ou uma transferência de valor para o vendedor que vende máquinas completamente “esgotadas”, para que o comprador possa saqueá-las, por sua vez, com lucro – embora em menor nível de produtividade – também alcançando uma transferência de valor ao vender os bens produzidos com elas.
De qualquer forma, esse “jogo” entre a criação de valor na produção e as transferências de valor no mercado é um “jogo lógico” que supõe combinações infinitas nos arcabous conceituais da análise de Marx. (A produção capitalista também é uma combinação complexa de proporções entre trabalho vivo e morto, entre produção e mercado, etc. É por essa razão que qualquer pessoa que revise o Capital verá que Marx busca combinar análise qualitativa e quantitativa: o materialismo histórico e a economia marxista são mistos para dar origem a um produto científico que afirma ser, também, ciência aplicada, e que os números do que ele afirma se aproximam qualitativamente do ponto de vista quantitativo).
[5] Há um reducionismo que vai do stalinismo e da social-democracia, do liberalismo de Hannah Arendt ao pós-modernismo de um falecido Andre Gorz, que tenta inventar um Marx cujo universo é o “mundo do trabalho”…
[6] A The Economist acaba de alertar que o desenvolvimento da inteligência artificial está fora de controle e, como a corrida entre EUA e China não tem limites, será necessária uma catástrofe para forçar uma regulamentação séria sobre ela. A busca irreprimível por lucro a qualquer custo, e a luta igualmente imparável entre imperialismos pela hegemonia internacional neste século XXI, só podem ser detidos, segundo a revista inglesa, por um apocalipse como Three Mile Island ou Chernobyl (TE implora para que seja a primeira circunstância, muito mais “benigna” que a segunda).
[7] O conceito de forças produtivas é complexo: Mandel e muitos outros marxistas confundem seu conteúdo com sua medida ou magnitude. Em nossa visão, seu conceito inclui tanto capital fixo quanto a qualificação da força de trabalho e seu padrão de vida. Mas para Mandel, em sua obra Capitalismo Tardio, ele seria reduzido a capital fixo. A confusão aqui é que a valorização do capital fixo, de sua magnitude e modernidade, por assim dizer, é o índice quantitativo de seu desenvolvimento, mas seu conceito real não pode excluir o desenvolvimento humano, um componente fundamental dessas mesmas forças produtivas.
[8] Esta obra bem conhecida de Holloway é supostamente ingênua, mas fornece alguns elementos e análises de valor, como essa ideia de know-how, isto é, do valor que a profissão trabalhadora em geral continua a ter, assim como elementos mais dialéticos de conceituação na consciência do trabalhador que não é uma caixa preta fechada, que contém, como Gramsci apontou, elementos de falsa consciência e consciência verdadeira (nisso, sua crítica é a Lukács e a uma ideia de partido que é muito esquemática).
[9] “(…) Um veículo autônomo é projetado para imitar todas as micro decisões que um motorista [humano] toma em uma estrada engarrafada. Seu trabalho neurológico artificial “estuda” as correlações entre a percepção visual do ambiente e o controle mecânico do veículo (frenagem, aceleração, curva), juntamente com as decisões éticas que devem ser tomadas em poucos milissegundos em caso de perigo. Dirigir exige altas habilidades cognitivas que não podem ser abandonadas à improvisação, mas também a rápida resolução de problemas que só é possível graças ao hábito e ao treinamento, que não são totalmente conscientes (…) até mesmo Elon Musk reconheceu, após mais de alguns acidentes fatais com Teslas, que “a generalização da direção autônoma (direção automatizada não humana) é um problema difícil” (…) Se as qualificações da gestão [humana] podem ser transferidas para um modelo algorítmico, é porque a gestão é uma atividade lógica [humana], porque, em última análise, todo trabalho é lógico” (porque somente de forma lógica os valores de uso podem ser construídos, acrescentamos, Pasquinelli: 2023: 3).
[10] É impressionante como o estudo da análise materialista de Marx sobre máquinas serve como uma estrutura teórica para entender como a IA realmente funciona.
[11] Proudhon manteve erroneamente uma “inversão de termos” porque considerava que a máquina permitia a recomposição do trabalho do trabalhador, quando na verdade era exatamente o contrário. Marx afirmou logicamente o oposto: a máquina decompõe o trabalho do artesão e o recompõe em si mesma como um Meccano, na forma de alienação ou afastamento do trabalhador, que permanece como “trabalho nu” (o conceito é nosso): “As máquinas são, para M. Proudhon, “a antítese lógica da divisão do trabalho” (…) O trabalho é organizado e dividido de diferentes maneiras de acordo com os instrumentos à sua disposição. O moinho acionado manualmente envolve uma divisão de trabalho diferente do moinho a vapor. Querer começar pela divisão do trabalho em geral, e depois chegar a um dos instrumentos específicos de produção, as máquinas, é, portanto, ridicularizar a história. Máquinas não são uma categoria econômica, nem o boi que puxa o arado. As máquinas não passam de uma força produtiva [de qualquer forma, elas supõem componentes das relações de produção, mas isso aqui é secundário] (…) O que caracteriza a divisão do trabalho na oficina mecânica é que o trabalho perde dentro dele todo caráter de especialidade. Mas, assim que todo desenvolvimento especial cessa, o desejo de universalidade, a tendência ao desenvolvimento integral do indivíduo, começa a se fazer” (Marx: 1987: 104/5 e 115).
Como eu disse: a recomposição e superação do próprio trabalho é alcançada na transição para o comunismo por meio do planejamento democrático e do trabalho associado, elevando o trabalho humano a um nível superior; não há outro caminho para alcançá-lo. Daí a crítica ao stalinismo, que, obviamente, não recompunha o trabalho, mas mantinha a dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo. É por isso que Itsvan Mészáros fala da necessidade de “ir além do capital”: para a sobrevivência da dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo nas sociedades não capitalistas do século XX.
[12] Marx deriva a ideia do “primeiro movimento” de Aristóteles, embora, no caso do brilhante filósofo grego, o primeiro movimento, precisamente, não tivesse movimento; obviamente, em Marx esse “primeiro movimento” tem auto-movimento.
[13] Apontamos várias vezes que escravos não eram considerados humanos no mundo grego, mas apenas “ferramentas de fala”. Fazendo uma espécie de analogia com a contemporaneidade, poderíamos dizer que a IA é identificada por muitos como uma ferramenta “pós-humana” (que substituiria os humanos)… “Este trabalho continua os estudos analíticos do processo de trabalho através da era industrial até o surgimento atual da IA, com o desejo de mostrar como a “inteligência” da inovação tecnológica sempre se originou da imitação desses diagramas abstratos da práxis humana e do comportamento coletivo” (Pasquinelli: 2023: 5/6).
Logicamente, a IA se originou em uma cópia do comportamento e do conhecimento humanos, isso não significa que ela não possa sair do controle humano: como qualquer força produtiva sob o capitalismo, ela é tanto uma força produtiva quanto, potencialmente, e em muitos casos, realmente destrutiva.
[14] A citação, de fato, referia-se a animais colocados a trabalhar de olhos abertos, embora seja válida em relação a aspectos da subordinação dos trabalhadores ao sistema das máquinas quando eles deixam de ser, de certa forma, sujeitos da produção (embora, dialeticamente, por meio da dialética, seja o trabalho vivo que produz valor porque todo o sistema se baseia na exploração do trabalho). A citação de Marx continua brilhantemente sobre o que tem a ver com essa combinação de critérios ativos – sujeito – ou passivos, mecânicos: “O caso do moinho é completamente diferente, pois nele os animais são guiados vendados e forçados a girar em círculo. Nesse caso, seu movimento é contra a natureza e eles são forçados a seguir mecanicamente uma linha reta ou uma circunferência” (Marx: 2022: 118). Marx é brilhante, e aqueles marxistas que não entendem a profunda dialética sujeito/objeto que o anima, não entendem nada!
[15] Já apontamos isso em outros textos, mas repetimos aqui: automação não é o mesmo que automação. Automação é mais “mecânica”, automação refere-se a um autômato que tem capacidade de adaptação autônoma. Isso nos leva a um debate que não podemos abordar neste texto e que, como Naville sugere, exige estudar Simondon, algo que ainda não conseguimos fazer.
[16] Os itálicos em nossos textos são sempre os do autor dessas notas.
[17] Marx acrescenta por nota de rodapé que: “A definição de Aristóteles é, na realidade, que o ser humano é, por natureza, um membro da cidade. Essa definição é tão característica da antiguidade clássica quanto a definição de Franklin é de ‘ianqueidade’, segundo a qual o homem é, por natureza, um animal fabricante de ferramentas” (idem: 1981: 397).
Em seus textos sobre a Grécia, que são a coisa mais valiosa sobre ele para nós, Castoriadis investiga de forma aguda o significado político da cidade entre os gregos.
[18] Para Marx, a primeira máquina é o moinho, como já vimos: “Com o moinho d’água, o Império Romano nos legou a forma elementar de toda maquinaria. O período artesanal nos deixa com as grandes invenções da bússola, pólvora, a prensa de impressão e o relógio automático” (Marx: 1981: 424). De qualquer forma, Marx acrescenta que a máquina específica do período de manufatura permanece o próprio trabalhador coletivo, formado pela combinação de muitos trabalhadores parciais.
[19] Marx acrescenta uma definição importante: a determinação: o ponto de partida da máquina não é o trabalho, mas o instrumento do trabalho. Vamos voltar a isso.






[…] e muito perspicaz menção a Babbage que já levamos em conta em nosso artigo anterior (“Marx e as Máquinas: Introdução“, Esquerda […]