Por Sthefany Zúñiga

No último sábado (07), o governo de Donald Trump apresentou o “Escudo das Américas”, sua nova política para combater o “narcoterrorismo”. O anúncio foi feito durante a cúpula realizada na Flórida, que reuniu 13 chefes de Estado do continente. A seguir, detalhamos a lista de países e seus representantes no encontro:

  • Estados Unidos – Donald Trump
  • Argentina – Javier Milei
  • Bolívia – Rodrigo Paz
  • Chile – José Antonio Kast (participou na qualidade de presidente eleito)
  • Costa Rica – Rodrigo Chaves
  • Equador – Daniel Noboa
  • El Salvador – Nayib Bukele
  • Guiana – Mohamed Irfaan Alí
  • Honduras – Nasry “Tito” Asfura
  • Panamá – José Raúl Mulino
  • Paraguai – Santiago Peña
  • República Dominicana – Luis Abinader
  • Trinidad y Tobago – Kamla Persad-Bissessar

Segundo o presidente dos norte-americano, trata-se de “uma nova grande coalizão militar para erradicar os cartéis criminosos”, e ele nomeou como enviada especial Kristi Noem, a ex-secretária de Estado que, recentemente, foi destituída do cargo como consequência das manifestações em Minneapolis contra as violentas operações anti-imigrantes do ICE.

De acordo com a Casa Branca, o Escudo das Américas é uma iniciativa destinada a garantir a segurança regional do hemisfério ocidental, para o que afirmam ser necessário o uso de “força militar letal” para destruir os cartéis e suas “redes terroristas”. Nesse sentido, a iniciativa aposta no aumento da colaboração entre os diferentes governos que participaram da cúpula. “Assim como formamos uma coalizão para erradicar o ISIS no Oriente Médio, agora devemos fazer o mesmo para erradicar os cartéis em casa”, afirmou Trump.

Como parte da iniciativa, a Casa Branca pretende aumentar sua influência militar nos treinamentos das diversas forças armadas dos países que participaram da cúpula. Além disso, de acordo com o documento apresentado na cúpula, o Escudo das Américas não se limita à guerra contra as drogas, mas também tem como objetivo combater a migração e limitar a influência da China na região.

Assim, essa aliança tem um viés ideológico muito acentuado em vários aspectos. Em primeiro lugar, pela apresentação da proposta, cabe questionar o que Trump entende por Ocidente. Classicamente, essa categoria agrupa tanto os Estados Unidos quanto as potências europeias. No entanto, no “mapa” apresentado por Trump, o “Ocidente” parece limitar-se a Washington e à sua zona de influência mais próxima, ou seja, a América Latina, que ele considera seu “quintal”.

Isso está em consonância com a lógica da Doutrina Monroe 2.0 e com o alinhamento que o imperialismo norte-americano exige em torno de si, para o qual obriga os governos da região a permanecerem submissos. Trump quer vassalos na região, não presidentes que se pretendam “independentes”. Isso ficou claro com o sequestro de Maduro e com as ameaças contra Cuba ou o México.

Um segundo elemento a destacar foi a lista de convidados, composta pelos chefes de Estado dos governos mais reacionários ou de extrema direita da região. Entre eles, podemos citar figuras como Milei, da Argentina, Kast, do Chile, e Bukele, de El Salvador. Também vale ressaltar as ausências, entre as quais se destacaram os presidentes de governos “progressistas” e com algum tipo de distanciamento da Casa Branca, como Lula, do Brasil, Sheinbaum, do México, ou Petro, da Colômbia.

No âmbito da cúpula, Trump afirmou que o México era o epicentro da violência associada aos cartéis e prometeu “atacar as redes do narcotráfico” com maior intensidade.

Um terceiro elemento é a abordagem da “guerra contra a migração” que o imperialismo norte-americano pretende adotar, o que constitui uma extensão da política migratória xenófoba e racista que aplica nos Estados Unidos por meio dos agentes do ICE.

Ainda não se sabe como o fluxo migratório para o norte irá diminuir, mas o certo é que ele está tratando isso como um problema de segurança regional e, ao mesmo tempo, propõe a adoção de medidas de força militar de forma mais ampla na região.

Um último elemento a mencionar é a retórica da guerra contra as drogas para justificar o desdobramento das forças armadas norte-americanas na região, como ocorreu com os bombardeios no Caribe, que foram a antesala da agressão contra a Venezuela e do cerco contra Cuba. Além disso, insere-se em um contexto de ataques levados adiante pelo próprio imperialismo estadunidense contra o Irã e de “exercícios militares conjuntos” no Equador.

O cerne da questão: afastar a China da América Latina

A Doutrina Monroe surgiu com a intenção de manter as potências europeias (principalmente a Inglaterra) fora da América Latina. Agora, a Doutrina Monroe 2.0 retoma esse elemento, direcionado ao principal adversário imperialista, a saber, a China. Isso ficou evidente há alguns meses, quando a Casa Branca forçou o governo do Panamá a retirar uma empresa de Hong Kong da operação em dois cais do canal.

Nos últimos anos, a China tornou-se um parceiro comercial de grande importância para a região. Em 2024, por exemplo, o intercâmbio comercial com a América Latina atingiu US$ 518 bilhões, tornando-se o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo em nível regional. Além disso, a potência asiática concedeu mais de US$ 120 bilhões em empréstimos a governos de todo o hemisfério.

Trump quer tirar a China da região, para que seu concorrente estratégico pela hegemonia mundial não tenha acesso comercial nem aos recursos que Washington considera seus.

Por fim, é importante observar que essa cúpula ocorreu algumas semanas antes do encontro entre Trump e Xi Jinping em Pequim, no final do mês. Nesse contexto, a cúpula do Escudo das Américas serviu para fazer uma demonstração pública dos vassalos que o presidente norte-americano tem no “hemisfério”. Além disso, ele não teve receio de dizer na frente deles que “eu não vou aprender a maldita língua de vocês”.

A nova etapa da luta de classes expressa um aumento dos choques entre Estados e classes. No topo, há uma disputa para reordenar o mundo, passando por cima da autodeterminação dos povos (como ocorre na Ucrânia e no Irã), uma pilhagem interimperialista que pode abrir caminho para mobilizações anti-imperialistas e anticapitalistas a partir da base.

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