É tarefa da esquerda revolucionária ser linha de frente da construção de um ato nacional pela redução da jornada de trabalho antes das eleições de outubro!
O pontapé do processo eleitoral se dá em um quadro em que a vida política brasileira contraditoriamente combina perigos e enormes oportunidades em paralelo. Em que pese a ofensiva imperialista e a vitória eleitoral de distintas variantes da extrema direita por uma pequena margem em nosso continente, estamos diante de um novo aquecimento das lutas no Brasil e em toda a América Latina. Em nosso país, não há outra saída senão combinar uma tática político-eleitoral independente com uma ativa política de unidade de ação que ocupe as ruas contra a jornada de trabalho 6×1, pelos direitos dos entregadores por apps e contra o imperialismo. Uma orientação que fazemos coro a partir da plataforma político-programática da Bancada Anticapitalista, candidatura coletiva da Juventude Já Basta! e da Corrente Socialismo ou Barbárie.
Pedro Cintra, direção da Juventude Anticapitalista Já Basta!
Entre oportunidades, traições e perigos
A fotografia de agora, como reporta a grande maioria dos noticiários e pesquisas, mostra Lula em lenta ampliação de sua vantagem sobre um Flávio Bolsonaro mais à defensiva. Embora a polarização tenda a seguir marcando o tabuleiro, a leitura acompanha o desgaste que vem sofrendo a direita bolsonarista após a eclosão das íntimas relações do filho 01 com o banqueiro fraudador do Master. Como desdobramento, se seguiu o desafeto público com Michelle e o desenrolar da Operação Unha e Carne, que tem exposto a conexão de figuras do bolsonarismo como Rodrigo Bacellar (União Brasil – RJ), ex-presidente da Alerj e antigo nome favorito do grupo ao governo do Rio, com alta cúpula do crime organizado.
Mesmo demonstrando uma inquestionável resiliência e penetração social, a queda de intenção de votos de Flávio Bolsonaro foi o suficiente para criar rachaduras internas e afastar o apoio direto do Centrão de direita (Federação União Brasil – Progressistas e Republicanos) ao palanque de Flávio. Com os impactos econômicos das tarifas e a vassalagem dos Bolsonaro exposta para todos, Flávio se demonstrou uma alternativa pouco viável e estável na avaliação até de segmentos da classe dominante. Trata-se da fase mais crítica que vive a extrema direita desde meados da ofensiva reacionária de 2015. Mais do que isso, se abre uma janela única para impor uma derrota do bolsonarismo ainda no primeiro turno a partir, sobretudo, da mobilização de rua.
Ao mesmo tempo, ao invés de se apoiar nas lutas e fazer uma campanha a quente para cima do Centrão e de uma extrema direita mais debilitada, o lulismo faz o papel totalmente contrário: não pressiona pelo fim da 6×1, não exige a abertura pública da investigação do Master e nem sequer enfrenta a ingerência trumpista com medidas efetivas que defendam a soberania e o emprego dos trabalhadores. Ou seja, o lulismo adota uma campanha passiva para tentar se mostrar como o interlocutor mais consequente para administrar a governabilidade burguesa e sua crise.
Para se vender como um gestor capitalista mais estável que o campo bolsonarista, a conciliação de classes do PT e do PSOL, pela própria natureza palaciana de sua estratégia fracassada, não chama a luta nas ruas e prefere abrir mão de ir à uma ofensiva política por cima e por baixo. Essa perspectiva poderia ser um elemento chave para dar melhores condições para se enfrentar a ultradireita, a ingerência imperialista e impor uma derrota histórica ao bolsonarismo não apenas no campo eleitoral, mas desde a luta direta.
Como expressão dessa orientação de classe, o governo federal já costura um pacto de não-agressão com o Centrão, envolvendo poupar Ciro Nogueira (Progressistas-PI), representante parlamentar direto da burguesia, das denúncias de sua mesada paga pelo Master. No plano econômico, os acenos também são públicos. Em interlocução com o sistema financeiro, o ministro da Fazenda Dario Durigan assegura que o aprofundamento do ajuste fiscal e a restrição do aumento do salário mínimo já estão nos planos do governo em um novo mandato.
Em uma situação de imprevisibilidades e ameaças estrangeiras, o modus operandi lulista não só desperdiça oportunidades para impor uma derrota categórica à extrema direita, como também subestima a aliança Trump-Bolsonaro frente a uma nova onda azul no Cone Sul. Na prática, o governismo petista desarma conscientemente os de baixo e abre um perigoso espaço à reação golpista.
Diferentemente da eleição apertada de 2022, a extrema direita conta com o imperialismo bonapartista de Trump como seu mais estreito aliado e comandante em chefe. Trata-se da interferência estrangeira mais explícita da história de nosso país. Para fomentar o desejo insurrecional de sua base, o primogênito de Jair volta a impulsionar o questionamento das urnas e do processo eleitoral assim como seu pai. Com as ruas vazias e uma disputa eleitoral por cima (como quer Lula e a frente ampla), a combinação entre o não reconhecimento das urnas e a falsa agenda de combate ao narcoterrorismo podem servir de pretexto para Trump colocar a extrema direita em mais uma contraofensiva.
Neste enquadramento, o grande ausente é uma política que se apoie e fortaleça o novo metabolismo de lutas que polariza por baixo a situação política e se desenvolve nas ruas com revolta dos estudantes trabalhadores, dos povos indígenas e dos entregadores de aplicativo que novamente se movimentam a brecar diversas cidades do país. Para encontrar espaço político real, uma perspectiva como essa só pode se satisfazer impulsionando um campo independente ao lulismo e também buscando superar a deriva sectária e passiva que consome setores da oposição de esquerda.
A partir da reabertura dos trabalhos na Câmara, não pode ser tarefa da esquerda independente adequar-se ao calendário eleitoral. É preciso superar a inércia das burocracias sindicais e ir além das agitações digitais, construindo a unidade de ação nas ruas e organizando as categorias e os setores em luta a partir de espaços conjuntos e democráticos.
Lulismo, um beco sem saída
Com a redução da jornada de trabalho travada no Senado, Lula retirou a urgência do PL 1838/26 e não mobiliza sua base sindical e social. A ideia é fazer do fim da 6×1 mera bandeira eleitoral sem mover uma palha sequer para transformar a pauta em cotidiano concreto na vida da classe, algo que certamente fortaleceria sua experiência política rumo ao pleito de outubro. Como expressou o Ministro do Trabalho e burocrata sindical de origem Luiz Marinho, o PT se conforma que a votação da PEC do Fim da 6×1 no Senado ficará para o pós-eleição. Com o fim das campanhas e a classe política longe dos holofotes, mesmo o projeto rebaixado de 40 horas e transição pode se dissolver em um congresso de manobras e ataques com maioria reacionária.
O grito que surgiu das ruas e da revolta contra as super-exploratórias condições de trabalho do capitalismo brasileiro, uma vitória parcial de dimensões históricas como avaliamos, poderia se converter em derrota pela posição traidora e profundamente adaptada do lulismo. Uma traição com potenciais desastrosos frente à postura beligerante do imperialismo e a capacidade de recomposição da extrema direita.
Defender até as últimas consequências a redução da jornada nas ruas exigiria se enfrentar com os interesses da burguesia e colocar em risco as bases de seu pacto histórico conservador. Colocar sua inserção sindical e nos movimentos sociais a serviço da pressão pelas ruas, obrigaria a burocracia petista a fazer algo que não querem: fortalecer um novo metabolismo social de lutas que se desenvolve pelo país e guarda um importante potencial de unificação. Essa hipótese impensável ao modus operandi liberal-social, poderia ameaçar o domínio sindical de seu aparato (CUT, CTB, MST e MTST) e produzir melhores condições aos trabalhadores enfrentarem suas próprias políticas de ataque.
Essa é uma demostração cabal de que não há horizonte possivel ao enfrentamento consequente da extrema direita tendo o PT como sócio e o eleitoralismo como principal horizonte. Nessa linha vermelha de independência de classes, o PSOL atravessa com os dois pés ao eleger como suas tarefas prioritárias compor o time de Lula, “eleger a maior bancada federal da história do partido” e retirar toda e qualquer pressão da classe trabalhadora pelas ruas. Da ala direita de Boulos e Erika Hilton (com as malas prontas para ir ao PT) aos companheiros da Bancada da Esquerda Radical, o partido fecha questão em ser o pilar esquerdo da campanha palaciana governista.
No palanque que referendou Haddad como candidato ao governo de São Paulo, ficou difícil não notar a presença de signatários do “manifesto radical” como Sâmia Bomfim, deputada federal e figura do Movimento Esquerda Socialista. As mais duras críticas ao programa de austeridade, como as que veicula Jones Manoel, não passam de palavras ao ventos, pois não conseguem encontrar eco possível e consequente estando integrado orgânica e programaticamente ao projeto político-eleitoral do governo como expressa a mais recente resolução do Diretório Nacional do PSOL. Levar adiante a defesa incondicional dos interesses da nossa classe, exigiria que os companheiros e companheiras rompessem com o partido que hoje integram e adotassem uma política de independência de classe como debatemos no texto “Os limites estratégicos da Bancada da Esquerda Radical”. Sob cálculos eleitorais e parlamentares, infelizmente isso não parece estar no horizonte deste setor.
Superar o isolamento e a apatia para se apoiar nas oportunidades
Entretanto, para que a esquerda independente se mostre alternativa para conduzir ações de rua, precisa abandonar sua postura passiva e sectária que descola o voto da luta direta. Como debatemos em nossa plataforma eleitoral, os companheiros do PSTU, setor majoritário da CSP-Conlutas, não só se equivocam em negar a construção de uma frente da esquerda independente como caem em uma lógica social-democrata de juramento à bandeira. A orientação dos companheiros, embora corretamente de oposição de esquerda ao Lula, separam o voto no programa socialista da construção de uma estratégia e de táticas capazes de conectá-lo à luta imediata pelas demandas mais sentidas da classe, como é o caso da luta contra a escola 6×1. Um erro estratégico categórico em um momento em que existe mais luta de rua e mais espaço à esquerda da conciliação de classes para disputar setores amplos da vanguarda.
Presos a dinâmica do calendário eleitoral, os companheiros não veem a oportunidade de impulsionar pela CSP-Conlutas plenárias unitárias de ativistas e um calendário comum de lutas que pressione pela aprovação imediata da redução da jornada de trabalho. Como única perspectiva, os camaradas agitam um abstrato chamado à greve geral em exigência as centrais governistas. Apontar a responsabilidade e a inércia da burocracia é importante, mas precisa estar atrelado à demonstrações concretas ao movimento e exigências que dialoguem com o estado atual da luta. Não serve panfletar uma tática de luta histórica e fundamental como uma greve geral, se o estágio do movimento ainda é anterior e precisa superar sua fragmentação com uma perspectiva concreta de independência e unificação das lutas.
Por uma jornada de lutas rumo à paralisação nacional pelo fim da 6×1!
A ausência de uma chapa comum da esquerda independente, de forma alguma, é pretexto para abandonar a necessidade estratégica de unificar as candidaturas, organizações e movimentos independentes em torno de bandeiras que interessem a classe trabalhadora e os oprimidos. Para isso, é preciso desde agora organizar espaços conjuntos e mobilizações em todo o país que rompam com as campanhas superestruturais e se apoiem na força que as ruas têm demonstrado.
Encarando um cenário em que as oportunidades se mostram abertas para fortalecer a capacidade de luta dos de baixo para derrotar a aliança Trump-Bolsonaro e defender suas bandeiras, é preciso olhar para a cancha com consequência política e iniciativa.
Assim, a partir da candidatura da Bancada Anticapitalista a deputado federal e da Corrente Socialismo ou Barbárie, fazemos um chamado a todos os setores e candidaturas do campo da esquerda para construir um calendário de lutas que o coloque o fim da escala 6×1, a luta pelos direitos dos entregadores e o enfrentamento ao imperialismo no centro das ruas nesse processo eleitoral.
É preciso exigir das grandes centrais e movimentos sociais que construam a luta nas ruas rumo a um dia de paralisação nacional pela redução da jornada de trabalho antes do primeiro turno. Para ser ponta de lança dessa construção, também é necessário que a CSP-Conlutas, sua direção majoritária e os demais setores da esquerda independente superem seu rotineirismo e convoquem urgentemente encontros das candidaturas da esquerda independente e de todas as nossas forças sindicais e políticas. Com a abertura do do calendário parlamentar, é tarefa da esquerda revolucionária convocar um ato nacional pela aprovação do fim da escala 6×1 que tome as ruas de São Paulo e de todos os estados do país rumo a um dia nacional de paralisação das categorias.
Para além do processo eleitoral, é preciso mobilizar a força social capaz de impor derrotas ao imperialismo, à extrema direita e superar a conciliação de classes se apoiando na potência das ruas. Esse é o desafio central dos revolucionários e dos trabalhadores em todo o país.










