A poucos dias do primeiro turno, medidas do governo Trump, tensões diplomáticas e denúncias de interferência se combinam a uma eleição marcada pela polarização, pela crise institucional e pela disputa pela mobilização social.
REDAÇÃO ESQUERDA WEB
Neste momento, sob uma conjuntura de extrema polarização político-eleitoral por cima, em um jogo permanente de ofensiva e contraofensiva entre a extrema direita e o governismo de conciliação de classes, o cenário brasileiro muda rapidamente.
Depois da ofensiva do bolsonarismo sobre o STF, o governo Lula toma medidas, como a proibição das bets, para tentar sair das cordas e recuperar a iniciativa política às vésperas do primeiro turno. Mas essas são medidas totalmente insuficientes.
Essa conjuntura tem diversos perigos pela frente – mas também possibilidades abertas pelo novo metabolismo da luta de classes in nascenti. Estamos diante de uma eleição ímpar porque ela ocorre em uma conjuntura mundial totalmente fora do comum.
O imperialismo estadunidense assume com Trump uma forma ainda mais protecionista, territorialista e militar, que tem como uma de suas manifestações uma intervenção política ainda mais direta sobre a América Latina. A captura de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, por uma operação militar estadunidense em janeiro deste ano é uma das expressões mais extremas dessa nova situação.
Nesta quadra, portanto, o resultado das eleições de outubro no Brasil se dá em uma conjuntura internacional muito mais instável, é mais diretamente afetado por ela e, dialeticamente, também terá consequências para a correlação de forças políticas na América Latina.
Uma nova escalada da intervenção estadunidense
Como expressão desse processo, nesta sexta-feira (02/10), apenas dois dias antes da abertura das urnas para o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, o governo estadunidense suspendeu os serviços consulares presenciais de sua embaixada e de seus consulados no país. A Austrália também suspendeu suas atividades diplomáticas em Brasília, alegando questões de segurança.
A Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, para investigar o suposto planejamento de atos contra instalações diplomáticas estadunidenses. Até o momento, porém, não encontrou elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados nem identificou suspeitos ligados a organizações criminosas.
Essa ação do trumpismo não pode ser observada isoladamente. A Agência Brasileira de Inteligência já vinha tratando a possibilidade de interferência estrangeira no processo eleitoral como uma questão relevante. Em setembro, representantes da inteligência brasileira apresentaram a delegações francesas e alemãs informações sobre alegadas interferências externas, incluindo ações dos Estados Unidos.
Nas últimas semanas da campanha, diferentes episódios ampliaram o debate sobre a presença política da extrema direita estadunidense no Brasil. Um deles foi a tentativa de instalação da Rockbridge Network no país – grupo conservador fundado nos Estados Unidos por J.D. Vance e Chris Buskirk, que reúne grandes empresários, investidores e figuras ligadas à direita trumpista.
Documentos revelados pela imprensa mostram que o projeto previa atuação em mídia, formação de jovens e atividade legislativa, além da criação da Rockbridge Brazil LLC. A própria organização afirma, entretanto, que a iniciativa brasileira foi abandonada antes de entrar efetivamente em operação.
Soma-se a isso a denúncia publicada pelo The Guardian sobre a destinação de US$ 1 milhão do Departamento de Estado estadunidense para um projeto denominado “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, direcionado a organizações críticas à atuação do Supremo. A Advocacia Geral da União encaminhou o caso à Polícia Federal e à Procuradoria Geral da República para apurar eventual financiamento externo e possíveis interferências no processo político brasileiro.
Entre outros elementos desta pressão estadunidense sobre o Brasil estão o tarifaço e seus novos desdobramentos; as iniciativas para colocar sob suspeita a segurança do sistema eleitoral brasileiro; a crise diplomática entre os dois países; e a revogação, em agosto, do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Agora, às vésperas do primeiro turno, a suspensão dos serviços consulares contribui objetivamente para aumentar o clima de tensão em torno das eleições, independentemente da justificativa oficial apresentada pelo governo estadunidense.
A esse cenário se soma uma declaração de Trump. Questionado sobre as eleições brasileiras, o presidente estadunidense afirmou que está acompanhando o processo “muito de perto” e ressaltou a importância estratégica do Brasil.
Porém, a conjuntura mundial não é marcada apenas pelo avanço da extrema direita e pelas ações imperialistas. Existem também elementos importantes de crescimento da mobilização social.
Na França, uma mobilização iniciada entre estudantes secundaristas se espalhou por centenas de escolas e chegou às universidades. Na Espanha, a crise da moradia voltou a produzir acampamentos e grandes manifestações, com presença destacada da juventude. Na Argentina, trabalhadores e estudantes universitários preparam uma nova Marcha Federal Universitária para 15 de outubro, em meio a um plano nacional de paralisações.
A juventude estudantil e novos setores da classe trabalhadora aparecem cada vez mais no centro desses processos. Esse eletomento internacional pode contribuir para um defeixo não reacionário no Brasil, mais em que temos in nascenti um novo metabolismo da luta de classes, com setores da juventde da nova e antiga classe trabalhadora que permanecem mobilizados de forma independente dos velhos aparatos burocráticos.
Um cenário eleitoral dramático e indefinido
A mobilização politica irá definir o resultado final
O PoderData/Aya divulgado neste sábado mostra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 41% no primeiro turno, dentro da margem de erro. Em uma simulação de segundo turno, ambos aparecem com 46%.
Estamos diante de uma das eleições mais polarizadas – e também mais sem perspectivas políticas claras – e dramáticas da história recente do Brasil.
Os contendentes passam rapidamente da ofensiva à defensiva e vice-versa. Polarização essa que é mediada pela pressão do imperialismo, pela hipertrofia do legislativo, pela crise do Judiciário e pela crise econômica, mas que tem como pano de fundo uma situação política mais antiga em que a correlação de forças não foi testada até o final.
Talvez a melhor imagem para o momento não seja a do drama clássico, mas a do novelão: os personagens começam movimentos, ensaiam ofensivas, mas raramente levam suas ações até as últimas consequências, fazendo com que o enredo se arraste ad infinitum.
Lula, o lulismo e seu governo, pela sua política de composição e conciliação com a classe dominante e suas instituições, desperdiçam sistematicamente as oportunidades que aparecem para passar à ofensiva política contra o bolsonarismo.
O empate técnico registrado pelo PoderData/Aya na véspera do primeiro turno – e também no cenário testado para o segundo – coloca a capacidade de mobilização das bases no centro da disputa.
Na nossa leitura, portanto, a questão estratégica para derrotar o bolsonarismo não pode ser reduzida à campanha do lulismo pelo “voto útil”, muito menos a medidas isoladas como a proibição das bets.
O problema decisivo é como transformar a polarização eleitoral em mobilização social contra o imperialismo, a extrema direita e os patrões. E isso significa também manter total independência política diante do governo Lula.
Enfrentar o imperialismo e a extrema direita não significa suspender a luta contra os ataques do governo Lula. Ao contrário: exige uma campanha política que cobre dos partidos, sindicatos e movimentos que se reivindicam democráticos que mobilizem nas ruas para exigir do governo que utilize o seu poder para atender as necessidades concretas da classe trabalhadora e dos oprimidos.
Não existe um muro separando esses dois campos de lutas, como pensa a esquerda da ordem e até mesmo algumas organizações no campo da indendência de classes. É necessario para derrotar o imperialismo e a extrema direita, um programa politico e econômico independente dos governos e patrões.
Esse programa se resume a nosso ver na luta pela investigação independente e o julgamento em juri popular dos envolvidos no escandalo do banco Master, a começar por Flavio Bolsonaro; na revogação das contrarreformas dos governos anteriores e do atual; na luta pela redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais; pelo salário mínimo que responda ao salário necessário calculado pelo DIEESE; pelos direitos dos entregadores e demais trabalhadores de aplicativos; entre outras medidas emergenciais em favor da classe trabalhadora.
São questões que a partir do chamado de luta unificado podem ligar a luta democrática à luta pelas condições materiais de vida. É nesse sentido que repetimos uma questão que atravessou toda a nossa campanha, ou seja: a luta contra a extrema direita exige a mobilização politica independente das massas nas ruas.
É dentro dessa perspectiva que se insere a Bancada Anticapitalista e a campanha política que construímos nestas eleições no primeiro turno e com a qual iremos atuar no segundo. Vote e lute com a Bancada Anticapitalista – 1611










