Ao tomar as ruas, trabalhadores e juventude redescobriram sua capacidade de fazer história, conquistaram o fim da escala 6×1 e mudaram o curso de uma eleição que a conciliação de classes se mostrava incapaz de vencer. A derrota da extrema direita abriu uma nova situação política. Cabe agora organizar essa força e construir uma oposição de esquerda ao governo Lula para impedir a recomposição da reação, enfrentar os ataques do governo e impor pela mobilização as reivindicações dos trabalhadores e oprimidos que a conciliação, por sua própria natureza de classe e seus compromissos políticos com a classe dominante, é incapaz de levar adiante.

Por RENATO ASSAD

A cartografia eleitoral

No último domingo, 25 de outubro, o Brasil viveu um desfecho histórico e inédito em um dos seus capítulos mais dramáticos da política nacional. Pela primeira vez, o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conquistou a vitória no segundo. Lula alcançou 64,26 milhões de votos, a maior votação nominal da história brasileira, e assegurou seu quarto mandato com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma desvantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos transformou-se, em três semanas, numa vitória por 4,43 milhões. Nesse intervalo, Lula acrescentou 10,38 milhões de votos à sua votação, enquanto seu adversário ganhou 3,72 milhões. A abstenção também recuou, de 21,08% para cerca de 19,2%. Esses números dimensionam a ruptura de uma dinâmica política que parecia encaminhar o retorno do bolsonarismo ao governo federal.

A geografia da virada revela a extensão dessa mudança. Minas Gerais foi o único estado a passar da liderança de Flávio Bolsonaro para a de Lula, que terminou o segundo turno com 50,43% dos votos válidos, mantendo a tendência observada desde 1989 entre o vencedor no estado e o vencedor do pleito nacional. Entretanto, no conjunto do país, 211 municípios mudaram de lado, entre eles duas capitais: Macapá e Rio de Janeiro. Na capital fluminense, berço político do bolsonarismo, Lula recuperou uma maioria que o PT não conquistava desde 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves com 50,76% dos votos válidos. Minas concentrou 76 dessas viradas, incluindo Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Ibirité e Itabirito; São Paulo registrou outras 32, entre elas Osasco, Cotia, São Vicente, Araraquara e Ribeirão Pires.

Mas a extensão desse deslocamento não se resume aos lugares onde houve mudança de liderança. O Nordeste cumpriu, mais uma vez, um papel decisivo: Lula venceu nos nove estados e ampliou sua votação de 21,49 milhões para 24,45 milhões, acrescentando quase 3 milhões de votos entre os turnos. No Sudeste, mesmo sem vencer no conjunto da região, conquistou outros 4,8 milhões de votos – aproximadamente 46% de todo o seu crescimento nacional -, incluindo 2,61 milhões em São Paulo e 872 mil no estado do Rio de Janeiro, onde Flávio manteve a maioria. No Sul, apesar da derrota nos três estados, Lula acrescentou 1,33 milhão de votos, com cerca de 530 mil no Rio Grande do Sul, 512 mil no Paraná e 291 mil em Santa Catarina. A vitória nacional – que, adiantamos aqui, se deu apesar do lulismo e da esquerda da ordem, como desenvolveremos mais adiante – combinou, portanto, a ampliação da força eleitoral no Nordeste com avanços expressivos em territórios nos quais a extrema direita permaneceu majoritária, mas viu sua vantagem sobre Lula diminuir.

Uma conquista para além das urnas

Na leitura política que defendemos, a virada eleitoral, com expressão nas periferias metropolitanas e em municípios de importante tradição industrial, permite uma primeira definição: diante da ameaça real de uma vitória da extrema direita, o segundo turno se transformou em outra campanha – mais precisamente, numa batalha política histórica que transcendeu o terreno eleitoral e deslocou o eixo da polarização na superestrutura e das disputas por cima para as ruas. Esse deslocamento retirou o protagonismo político dos palacetes de Brasília e o colocou nas mãos da juventude e, posteriormente, de setores de massas que assumiram conscientemente a iniciativa nas ruas. Nessa batalha, a intervenção direta nas ruas, que tomou conta do país durante as três semanas do segundo turno, rompeu com a inércia e a passividade e ultrapassou os limites políticos e estratégicos impostos pela frente ampla de conciliação de classes e pela campanha rotineira, conduzida a frio pelo lulismo, que, antes do primeiro turno, dava a vitória como certa e, no início do segundo, se encontrava paralisado, perdido e com fortes elementos de desmoralização.

Tratou-se de uma resposta democrática de amplos setores da população contra o perigo de que a extrema direita voltasse ao poder. Como parte desse processo, houve um verdadeiro despertar da vida política de setores da juventude com signo antifascista e antiimperialista, com elementos anticapitalistas, e não apenas e simplesmente de um apoio ao governo Lula e à sua frente ampla burguesa – longe disso. Esse despertar ocorreu diante da ameaça concreta de um triunfo da extrema direita – expressa, por exemplo, nas falas de Flávio sobre mudar a Constituição – e da incapacidade do lulismo e da esquerda da ordem de derrotá-la nos limites de sua fracassada e utópica estratégia de tentativa de normalização do regime em um mundo em plena combustão. Uma estratégia acompanhada, no governo, de ataques diretos aos trabalhadores e aos serviços públicos. Como não lembrar que, durante o primeiro turno, o governo atacava diretamente duas categorias que se viram obrigadas a construir greves: os trabalhadores dos Correios e os bancários da Caixa Econômica Federal?

A conquista parcial, mas de dimensões históricas, do fim da escala 6×1, antes da derrota política e eleitoral de Flávio Bolsonaro, foi a primeira materialização desse transbordamento do terreno eleitoral. Impulsionada pela mobilização de 11 de outubro, cuja iniciativa passou ao largo da orientação do lulismo e da esquerda da ordem, a pressão das ruas obrigou o Senado, inclusive a extrema direita, a ceder. Em plena disputa eleitoral, os trabalhadores impuseram uma reivindicação contra os interesses patronais, conquistando também melhores condições materiais para viver, organizar-se e lutar. A intervenção de massas começava, assim, a produzir seus próprios resultados antes mesmo do desfecho das urnas.

Dessa dinâmica decorre uma segunda e central definição: o que nossa corrente, a SoB, vinha denominando de novo metabolismo da luta de classes no Brasil, iniciado no final do ano passado, completa seu ciclo. Passamos de um movimento de vanguardas que impactavam a realidade nacional, fazendo governos, burocracias e burguesias recuarem, a uma relação mais direta e conectada entre as iniciativas políticas dessas vanguardas e o movimento de massas.

Esse movimento de vanguardas se expressou nas lutas sindicais dos petroleiros e dos trabalhadores dos Correios, na mobilização indígena contra a Cargill e o governo no Baixo Tapajós, na luta dos estudantes em São Paulo e no movimento dos entregadores por aplicativos, em sua luta por direitos e contra o PLP 152. A partir da mobilização dos estudantes no Rio de Janeiro, vimos a irrupção de um gigantesco movimento de massas de alcance nacional.

Essa efetiva irrupção do movimento de massas no cenário político – a entrada em cena de um terceiro sujeito na dinâmica política do país -, combinada à derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro, abriu categoricamente uma nova situação política nacional, alterando a correlação de forças sociais a favor dos explorados e oprimidos. Configura-se, assim, uma nova dinâmica política no país, que supera a polarização por cima, entre governo e Congresso, lulismo e bolsonarismo, e passa a contar com três polos determinantes: a frente ampla de conciliação de classes, como força institucional; a extrema direita e a direita clássica do Centrão, esta última oscilando entre o alinhamento ao lulismo e ao ultrarreacionarismo; e o movimento de massas, cuja intervenção questiona os limites da disputa entre os dois primeiros.

Contudo, há que avaliar como cada polo político se acomodará no próximo período e qual peso terá na realidade. A depender da continuidade e do aprofundamento da intervenção do movimento de massas, pode se abrir não apenas uma nova situação – uma mudança na correlação imediata de forças -, mas uma nova etapa política no país, com transformações mais profundas e duradouras na correlação de forças entre as classes e nas condições de suas lutas. Veremos.

Mas uma coisa é certa, quando o movimento de massas entra em cena, as disputas por cima, entre as diferentes frações da classe dominante, passam a enfrentar limites e condicionamentos impostos pela ação dos de baixo. Uma coisa é uma crise política e institucional com as ruas vazias, dinâmica que tende a favorecer saídas reacionárias; outra são essas mesmas crises com o movimento de massas em cena, o que, dito exageradamente e a depender da dinâmica que ainda venha a se desenvolver, pode desencadear uma situação pré-revolucionária.

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, a exemplo de seu pai e de seu irmão e como um rato covarde, e sua patética carta de natureza golpista expressam o impacto dessa mudança. Depois de se autoproclamar “presidente eleito”, o derrotado – e agora desmoralizado – recuou em poucos minutos para a condição de “líder do Brasil”, mantendo a risível e repetida denúncia de fraude e se credenciando como forte candidato a palhaço do ano. Enquanto isso, seu próprio partido e seu candidato a vice já reconheciam a derrota, assim como Tarcísio de Freitas, que já disputa o espólio do bolsonarismo com outras figuras, como Michelle e Nikolas. Afinal, deixaram o papai sozinho com os filhos 03 e 04, hoje os maiores inimigos da sinapse no país, incapazes de liderar até mesmo uma reunião de condomínio. E, além de nós, a classe dominante – no Brasil, nos EUA e em todo o mundo – também sabe disso…

A pretensão de contestar o resultado assumiu, assim, contornos de uma verdadeira comédia de erros ao estilo dos Trapalhões, com repercussão internacional. Segundo informações publicadas na imprensa, representantes do governo Trump teriam pressionado Flávio a substituir sua autoproclamação de “presidente eleito” pela condição de “líder do Brasil”. A combinação entre a fuga, o agradecimento público a Trump e Milei e a autoproclamação criou um constrangimento para seus próprios protetores: vinculava o apoio que haviam dado à saída de um covarde do país a uma tentativa risível de desconhecer o resultado eleitoral brasileiro, imposto por um movimento político de impacto internacional. Na prática, Flávio procurava transformar o acolhimento recebido em respaldo político para sua aventura golpista, totalmente desconectada da realidade, comprometendo os dois governos com uma iniciativa que teriam de sustentar ou desautorizar.

Esse constrangimento ocorre em um momento particularmente desfavorável. Trump se aproxima das eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, com sua aprovação próxima dos menores níveis registrados em seus dois mandatos: a pesquisa Reuters/Ipsos de 26 de outubro apontou 32%, após o piso de 31% na semana anterior. Nesse quadro, respaldar um candidato derrotado que se autoproclama presidente de outro país poderia acrescentar um novo desgaste à sua batalha eleitoral e dificultar suas próprias pretensões bonapartistas.

Para Milei, confrontado pelas mobilizações em defesa da universidade pública e pela resistência à sua política de austericídio, a associação com uma operação de contestação golpista no país vizinho também poderia alimentar a oposição nas ruas, além de suscitar questionamentos jurídicos sobre sua eventual participação em uma operação de saída do Brasil em descumprimento de ordem judicial.

Assim, a derrota que as ruas impuseram ao bolsonarismo passa, nessa leitura, a funcionar como um estímulo àqueles que enfrentam a extrema direita nos Estados Unidos e na Argentina. O triunfo no segundo turno assume, portanto, dimensões regionais e internacionais que ultrapassam o terreno nacional.

A intervenção de massas e o fracasso da conciliação de classes

A dimensão regional e internacional dessa conquista torna ainda mais necessário examinar a dinâmica que a produziu: como a iniciativa de uma vanguarda estudantil encontrou resposta em setores mais amplos das massas e o que essa experiência permite concluir sobre os limites políticos e estratégicos da conciliação de classes.

A iniciativa das ruas, que se enfrentou com a ingerência imperialista de Trump e das BigTechs, dos operativos golpistas de prefeitos como Ricardo Nunes (MDP-SP) em sabotar a circulação de uma importante quantidade da frota de ônibus no dia da votação do segundo turno, colocou em movimento uma força que, há décadas, vinha sendo conscientemente contida e sabotada pelo lulismo e pela esquerda da ordem, e que os cálculos eleitorais e os acordos de cúpula não poderiam produzir: a entrada em cena de setores de massas dispostos a tomar em suas próprias mãos a luta para impedir a vitória da extrema direita. Foi a materialização daquilo que nossa corrente, SoB, vinha apontando, como contraponto às leituras derrotistas e antecipadas dos oportunistas de plantão, como Valério Arcary, Boulos e companhia: a possibilidade da reversibilidade dialética de uma situação política reacionária caso entrasse em cena o movimento de massas, sobretudo em um país como o nosso, de dimensões continentais. Um movimento que, como apontado acima, produziu uma verdadeira inflexão na relação entre a vanguarda de massas e as massas, com forte pulsão independente, transbordou as velhas direções de conciliação e se ergueu, ainda que de maneira intuitiva, para afirmar: “Não! Não aceitaremos que a extrema direita volte a governar o país! Não aceitaremos um retrocesso em relação ao que já vivemos!”

Nesse despertar, a relação entre a vanguarda de massas e as massas adquiriu uma dinâmica de impulsão recíproca. A iniciativa do movimento estudantil em Niterói, no dia seguinte ao resultado adverso do primeiro turno, impulsionou uma mobilização que ultrapassou seu núcleo inicial e incorporou setores mais amplos da sociedade. Essa resposta, por sua vez, reforçou a confiança e a disposição de agir da própria vanguarda, encabeçada pela geração Z, um fenômeno hoje internacionalizado que constitui um profundo contrapeso às intenções da extrema direita mundo afora e cumpre um papel central nesse interregno, marcado pela crise da velha ordem e pela ofensiva da extrema direita como saída para a crise estrutural do capitalismo. A ampliação da mobilização e o fortalecimento de seus setores mais ativos alimentaram-se mutuamente, transformando a indignação diante da ameaça bolsonarista em uma iniciativa política coletiva de ação direta que assume dimensões de junho de 2013, das Diretas Já, em 1983–1984, das greves metalúrgicas do final dos anos 70 e começo dos 80 e das mobilizações pelas reformas de base de 1963–1964, antes do golpe cívico-empresarial-militar.

Ou seja, se em 2022 os teóricos do possibilismo[1] justificavam todo e qualquer tipo de capitulação à frente ampla de conciliação de classes em nome do “combate ao fascismo”, apresentando como virtuosas não apenas essas capitulações, mas a própria frente ampla como eixo central da derrota de Jair Bolsonaro, hoje se torna impossível e escandaloso, para quem se diz marxista, sustentar essa mesma posição oportunista-derrotista.

A intervenção de massas desmente os oportunistas-reformistas também por outro ângulo. A verdade é que a correlação de forças sociais ainda não havia sido posta à prova – não havia qualquer derrota histórica, nem no Brasil nem no mundo. O triunfo neste teste histórico da luta de classes nos permite afirmar, de maneira enfática, que Arcary, Boulos e companhia elaboraram suas definições ante festum, de maneira impressionista, antecipando como consumada uma derrota que a própria luta de classes – terreno em que se decidem as relações de força – ainda não havia definido.

Essa experiência expõe, portanto, o fracasso da orientação de conciliação de classes compartilhada pelo PT e pelo PSOL. A força capaz de alterar a situação política surgiu justamente da intervenção das massas que essa orientação procurava conter nos limites da institucionalidade. Para o PSOL, esse processo evidencia também sua liquidação como alternativa política para os explorados e oprimidos. A adesão à frente ampla e a entrada de Boulos no governo consumaram uma trajetória de integração à ordem burguesa, na qual a preservação do aparato parlamentar passou a comandar a estratégia partidária. Consolidou-se um partido pequeno-burguês, profundamente desbalanceado entre o peso de suas figuras parlamentares e a organização de sua militância de base, que funciona como uma escola de formação de jovens para os gabinetes, subordinando sua preparação para a luta de classes às necessidades de reprodução desse aparato. Nessas condições, o PSOL seguirá limitado ao papel de quinta roda do lulismo, organicamente dependente do projeto que nasceu prometendo superar.

Não por acaso, no histórico dia 11, a intervenção do PSOL nas ruas esteve quase inteiramente voltada à exaltação de seus parlamentares, com faixas que priorizavam seus nomes em lugar de consignas de agitação capazes de dialogar com aqueles que se mobilizavam e contribuir para desenvolver sua iniciativa política. A faixa da Resistência, tendência do partido, sintetizava essa orientação ao apresentar-se como parte do “time do Lula”. Diante de um movimento que ultrapassava o terreno eleitoral-institucional e abria possibilidades de ação independente, sua perspectiva permanecia restrita à conversão da mobilização em sustentação política ao lulismo. Essa contradição entre o alcance da ação das massas e a orientação de suas direções é fundamental para o balanço do processo. É precisamente essa distinção que os companheiros do MRT, com os quais polemizaremos a seguir, acabam por perder de vista ao interpretar as mobilizações como ações exclusivamente eleitorais e politicamente subordinadas ao lulismo, atribuindo ao conjunto do movimento os limites políticos daqueles que procuravam dirigi-lo e fracassaram em contê-lo nesses marcos. Confundir esses dois planos significa fechar os olhos para um fenômeno complexo, de dimensões históricas: a entrada em cena de setores de massas cuja ação transbordou os cálculos e os limites da esquerda da ordem, abrindo possibilidades para o desenvolvimento de sua organização e de sua experiência política independente.

O sectarismo colocado à prova pelas ruas

Se a intervenção de massas colocou à prova a estratégia da conciliação de classes, também expôs, pelo vértice oposto, a esterilidade do abstencionismo sectário. É nesse terreno que queremos polemizar com os companheiros do MRT, que tiveram uma atuação – ou, melhor, uma não-atuação – completamente estéril durante esse processo.

Apoiados em formulações ultrassectárias e em leituras vulgares e simplistas da realidade, foram incapazes de compreender que essas eleições haviam se transformado em um teste histórico da luta de classes. Aqui reside um problema clássico de método das correntes sectárias e doutrinárias: reduzir o caráter de uma batalha ao programa das candidaturas que disputam as urnas, desconsiderando os sujeitos sociais que entram em movimento, as formas de sua intervenção e as consequências concretas de cada desfecho para os explorados e oprimidos. Ou seja, os companheiros foram incapazes de assimilar algo elementar: a natureza burguesa da frente ampla não esgota a caracterização de um processo de enfrentamento direto à extrema direita golpista no qual setores de massas passam a intervir pelas ruas, com suas próprias motivações, ambições e objetivos políticos.

Numa posição abstencionista, conscientemente de costas para o movimento e limitando-se ao papel de comentaristas durante todo o processo, os companheiros conseguiram combinar a velha e recorrente tática do “voto nulo envergonhado” – neste ano, ainda mais dissimulado – com a ausência de convocação e de participação efetiva nas maiores mobilizações do Brasil nos últimos quarenta anos. Uma política própria de uma seita de propaganda, incapaz de dialogar com a realidade da luta de classes quando milhões de pessoas entram em cena e tomam as ruas.

Essas mobilizações, como já assinalamos, extrapolaram amplamente o caráter de uma campanha eleitoral típica ou de defesa do governo de conciliação de classes, de seu programa e de sua frente ampla. Confundir a luta para impor uma derrota à extrema direita com o apoio político ao lulismo significa apagar grosseiramente as contradições do movimento real e abandonar a disputa por sua orientação. Os companheiros também confundem algo básico da tradição do marxismo revolucionário: a independência de classe nunca significou a recusa à unidade de ação contra um inimigo comum, inclusive nas ruas e com setores burgueses democráticos, preservando-se a plena independência política e organizativa.

A independência de classe precisa se materializar na intervenção, no programa e na organização, e não permanecer restrita às palavras e à propaganda, como costuma ocorrer com o MRT. Isso exige combater a extrema direita e, ao mesmo tempo, disputar a orientação do movimento para que os trabalhadores não se subordinem à direção burguesa que procura apresentar-se como sua única alternativa. Abster-se dessa batalha deixa justamente às direções conciliadoras o terreno livre para capitalizar politicamente a disposição de luta das massas.

Basta recuperar a experiência do ato no Largo da Batata. Enquanto PT e PSOL trabalharam para desarticulá-lo, setores independentes, como nós, compreenderam que não se podiam subestimar os elementos espontâneos presentes na vanguarda de massas e nas massas e batalharam para que ele acontecesse. O resultado dessa linha e da vontade de lutar da juventude foi uma praça lotada, com cerca de 30 mil pessoas, numa mobilização dirigida politicamente por setores independentes do lulismo, da esquerda da ordem e de suas burocracias. Essa experiência oferece um ponto de apoio concreto para discutir questões de natureza estratégica e colocar à prova a política revolucionária: a disposição de mobilização ultrapassava os limites que as direções tradicionais pretendiam impor, e a intervenção de setores organizações independentes contribuiu para que ela encontrasse uma expressão política nas ruas.

Disso decorrem duas reflexões importantes. A primeira é que organizações pequenas podem, em determinadas circunstâncias da luta de classes, cumprir um papel político que ultrapassa seu peso numérico. Essa possibilidade depende de identificar uma necessidade do movimento, encontrar os pontos de apoio existentes e tomar iniciativas capazes de estabelecer uma relação com setores mais amplos. A espontaneidade, por sua vez, contém possibilidades e limites: pode abrir uma brecha no controle das velhas direções, mas exige uma intervenção consciente que contribua para desenvolver a organização, a experiência e a independência política dos que entram em luta. Foi essa tarefa que a nossa corrente e juventude procuraram assumir.

A segunda reflexão é que o marxismo revolucionário exige uma relação viva entre elaboração e experiência, entre a política e o movimento real. As categorias marxistas precisam servir à compreensão das contradições concretas e à orientação da ação. Quando isso não acontece, o que se promove são fórmulas que dispensam o exame dos acontecimentos e, assim, dão lugar a receituários dogmáticos e estéreis. Os companheiros deram uma pedagógica demonstração de política de laboratório ao se recusarem a reconhecer na entrada em cena das massas um fato político de importância histórica e um ponto de apoio tanto para derrotar a extrema direita quanto para disputar a superação da conciliação de classes. Essa superação exige que os trabalhadores e a juventude façam sua própria experiência, adquiram confiança em suas forças e encontrem, no curso da luta, uma alternativa às direções que procuram contê-los.

Do ponto de vista do marxismo revolucionário, é uma contradição profunda que uma corrente que se reivindica revolucionária se abstenha daquela que consideramos a mais importante batalha da luta de classes atravessada pelo país neste século. O conteúdo dessa crítica vai além da equivocada tática eleitoral do “voto nulo envergonhado”. Diz respeito, sobretudo, à capacidade de reconhecer uma mudança na conjuntura, intervir nas contradições existentes e lutar pela direção de um movimento que não escolhemos nem controlamos de antemão. A tarefa revolucionária exige entrar nessa experiência com uma política própria, ajudando a transformar a disposição de resistência em organização e ação independente. A ausência nesse terreno em nada contribui para o relançamento do marxismo revolucionário; enfraquece sua possibilidade de se constituir como força atuante na experiência histórica das massas.

Transformar a conquista das ruas em organização e independência de classe

A derrota da extrema direita devolveu, antes de mais nada, a amplos setores da sociedade a experiência concreta de que sua ação coletiva nas ruas pode alterar o curso dos acontecimentos e modificar a correlação de forças políticas e sociais. Há nessa experiência um aprendizado político fundamental que se faz necessário assimilar: a sociedade é um corpo vivo e os trabalhadores e a juventude podem intervir como sujeitos da sua própria história. Retomando uma ideia central de Trotsky, quando se trata dos próprios fundamentos da sociedade, o desenvolvimento histórico não é decidido pela aritmética parlamentar – pelos acordos institucionais -, mas pela luta de classes. É ela, e foi ela nesse segundo turno, quem deu a última palavra. O resultado eleitoral foi, antes de mais nada, uma resultante dessa luta, com impacto nacional, regional e internacional, ou seja, um triunfo das massas e para as massas que transcende o terreno eleitoral e estabelece um marco na subjetividade política de amplos setores, sobretudo das novas gerações.

Retomando uma ideia central de Rosa Luxemburgo, as principais conquistas dos trabalhadores e oprimidos são sempre aquelas em matéria de consciência, organização e mobilização. Nesse sentido, uma das conquistas fundamentais desse processo reside na confiança adquirida na própria capacidade de agir. Porém, preservar e desenvolver essa conquista exige transformar a experiência das ruas em organização política nos locais de estudo e trabalho, em espaços de discussão e decisão pela base e em iniciativas que deem continuidade à ação independente. A nova e muito mais favorável situação política oferece possibilidades que precisam ser disputadas politicamente.

Isso exige construir uma oposição de esquerda ao governo Lula, sem conceder qualquer espaço à oposição reacionária. A extrema direita sofreu uma derrota importante e atravessa um momento de desorganização e disputa por sua direção, mas permanece como força social, conserva importantes posições institucionais e conta com recursos e apoio de setores expressivos da burguesia, como o agronegócio e o capital financeiro representado pela Faria Lima. Seu enfraquecimento abre uma oportunidade para enfrentá-la em melhores condições; desperdiçá-la, subordinando novamente o movimento às expectativas no governo, favorece sua recomposição – acabamos de ver esse filme! Ao mesmo tempo, combater os ataques aos trabalhadores e oprimidos e o deslocamento ainda mais à direita que se anuncia para o governo Lula 4 – a verdade é que o estelionato eleitoral já começou – é parte fundamental da disputa para impedir que a extrema direita volte a capitalizar o descontentamento social produzido pela conciliação de classes.

A defesa dos povos indígenas constitui uma tarefa urgente dessa batalha. As denúncias de assassinatos, ameaças e intimidações contra comunidades no contexto eleitoral, particularmente em Mato Grosso do Sul, mostram que a derrota nas urnas não desarma automaticamente a reação dos ultrarreacionários. É preciso exigir proteção imediata às comunidades, investigação e responsabilização dos envolvidos, derrotar o marco temporal e garantir a demarcação e a desintrusão das terras indígenas, enfrentando os interesses do agronegócio e do garimpo que sustentam a violência contra os povos originários. A luta pela terra exige também uma reforma agrária que enfrente o latifúndio, vinculando as reivindicações dos povos originários e dos trabalhadores do campo à luta dos explorados nas cidades.

Essa orientação precisa se traduzir em reivindicações concretas e em mobilizações para impô-las: revogação das contrarreformas trabalhista e previdenciária e do Novo Ensino Médio; fim do arcabouço fiscal e dos cortes nos serviços públicos; não pagamento dos juros da dívida pública, destinando esses recursos à saúde, à educação e à moradia; recomposição dos salários, defesa dos empregos e ampliação dos direitos; aborto legal, seguro e gratuito pelo SUS; reestatização das empresas privatizadas sob controle dos trabalhadores; e uma transição energética planejada segundo as necessidades sociais e ambientais, sob controle público e dos trabalhadores, com garantia de empregos e direitos. A luta dos povos indígenas já demonstrou como enfrentar medidas do próprio governo. Após mais de um mês de ocupação do terminal da Cargill, em Santarém, a mobilização de quase 2 mil indígenas impôs a revogação do decreto que incluía as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.

Para os entregadores de aplicativos, é preciso transformar as reivindicações em direitos efetivos. Para isso, seguirá sendo necessário enfrentar o governo, que se alinhou à direita e à extrema direita em torno do PLP 152/2025, cujo conteúdo caracterizamos como uma nova contrarreforma trabalhista. A categoria se mobiliza há sete anos pela taxa mínima de R$ 10,00 por entrega e pelo adicional de R$ 2,50 por quilômetro percorrido a partir do quinto quilômetro. Embora essas reivindicações tenham aparecido nas propostas anunciadas pelo governo, seu atendimento efetivo permanece pendente e seguirá pendente se depender da frente ampla.

Nessa luta, é necessário também denunciar a função política dos GTs do governo, que, sob a aparência de diálogo e participação, operam como mecanismos de cooptação das direções e contenção da luta direta, deslocando as reivindicações das ruas para negociações sem prazo nem garantia de atendimento. A maquiagem do “diálogo social” permite ao governo apresentar-se como aliado dos trabalhadores enquanto administra suas expectativas e preserva seus compromissos com as empresas-plataforma, produzindo frustrações que acabam sendo capitalizadas pela oposição de extrema direita. E isso nós vimos nesta eleição em que o governo preservou os interesses patronais, frustrou os trabalhadores e entregou à extrema direita a possibilidade de explorar politicamente esse descontentamento.

A nova situação coloca também a possibilidade de avançar na reorganização da esquerda independente. A crise das respostas reformistas e oportunistas – que subordinam as necessidades dos trabalhadores aos acordos com setores burgueses e aos limites da gestão do capitalismo – abre uma disputa pela orientação dos que começam a se mover. Essa disputa exige enfrentar também o sectarismo, que transforma a independência política em isolamento diante das lutas reais, e o economicismo, que restringe a intervenção às reivindicações imediatas de cada categoria, separando-as da luta política geral e da questão do poder. A superação dessas correntes dependerá da capacidade de construir uma alternativa que una participação nas batalhas concretas, elaboração estratégica e organização revolucionária.

É com essa perspectiva que chamamos a juventude que entrou em movimento, descobriu sua própria força e quer levar essa experiência adiante a construir a Juventude Anticapitalista Já Basta! e a corrente Socialismo ou Barbárie. Queremos organizar essa disposição de luta, formar novos militantes e preparar uma intervenção coletiva nos próximos desafios da luta de classes, ao lado dos trabalhadores e dos setores oprimidos. A nova situação abriu oportunidades para fortalecer uma alternativa anticapitalista, independente do governo e consequente no enfrentamento à extrema direita. Aproveitá-las exige transformar a experiência dessas semanas em organização e continuidade política. Se essa mudança poderá se aprofundar e abrir uma nova etapa da luta de classes no país – com transformações mais profundas e duradouras nas relações entre as classes e nas condições de suas lutas -, será decidido também pela capacidade de intervenção daqueles que começaram a escrever essa história nas ruas.

 

Notas:

[1] O termo “possibilismo” remonta ao final do século XIX, com os chamados possibilistas franceses, dirigidos por Paul Brousse, que defendiam a limitação da ação socialista às reformas imediatas e factíveis dentro da ordem parlamentar. Essa concepção operava uma contraposição mecânica – e, em muitos aspectos, reacionária – entre reforma e revolução, sendo duramente criticada por Engels, e posteriormente por Rosa Luxemburgo, Lênin e Trotsky. Já no século XX, o possibilismo foi amplamente adotado, para além da socialdemocracia, pelos partidos “comunistas” sob direção stalinista, principalmente através das chamadas “frentes populares”, apresentadas como instrumentos de combate ao fascismo. Essa orientação foi determinante para a derrota de revoluções socialistas como a da Espanha nos anos 1930, abrindo caminho para a vitória da contrarrevolução liderada por Franco. Países como Grécia e Itália também viram suas possibilidades revolucionárias serem bloqueadas por essa mesma política, cujas consequências históricas seguem cobrando fatura até hoje.