A política sérvia acaba de sofrer uma reviravolta que, há menos de dois anos, parecia difícil de imaginar. A Lista de Estudantes obteve 52,6% dos votos nas eleições parlamentares antecipadas de domingo, 25 de outubro, contra 39,2% da coalizão liderada pelo governista Partido Progressista Sérvio (SNS), de Aleksandar Vučić.

Por J. M.

Com 96% das seções eleitorais apuradas, as projeções atribuem à Lista de Estudantes cerca de 140 das 250 cadeiras do Parlamento, uma maioria absoluta que põe fim a mais de uma década de predomínio político do bloco liderado por Vučić.

A participação chegou a 68,8%, cerca de dez pontos percentuais a mais do que nas eleições parlamentares de 2023 e uma das mais elevadas desde a dissolução da Iugoslávia. A derrota de Vučić começou muito antes da abertura das urnas. Foi gestada em universidades ocupadas, bloqueios, assembleias e manifestações multitudinárias. A eleição foi, em grande medida, a expressão eleitoral de uma crise política desencadeada de baixo para cima por um movimento estudantil que conseguiu se transformar em um amplo fenômeno social.

O ponto de partida está em Novi Sad. Em 1º de novembro de 2024, desabou a marquise da estação ferroviária da segunda maior cidade da Sérvia, recentemente reformada. A tragédia causou 16 mortes. O que inicialmente foi apresentado como um acidente rapidamente adquiriu uma dimensão política, quando estudantes e familiares começaram a exigir informações sobre as obras, os contratos e as responsabilidades relacionadas a uma infraestrutura recém-reabilitada.

A estação tornou-se um símbolo de algo muito maior. As suspeitas sobre contratos obscuros e as denúncias de corrupção permitiram relacionar as mortes ao funcionamento do regime político. O problema passou a ser a estrutura política e empresarial que permitia que as obras públicas fossem administradas sem transparência. O movimento começou com a ocupação da Universidade de Novi Sad e rapidamente se espalhou pelo sistema universitário nacional. Em poucos meses, mais de sessenta universidades estavam ocupadas, incluindo faculdades das universidades de Belgrado, Niš e Kragujevac.

O decisivo foi que o movimento não permaneceu restrito aos campi universitários. Agricultores que lutavam contra projetos de extração de lítio apoiaram os bloqueios com seus tratores; os taxistas colaboraram com os manifestantes; professores e setores culturais expressaram sua solidariedade; personalidades do esporte, do teatro e do cinema apoiaram os protestos. O conflito estudantil começou a se transformar em uma contestação social mais ampla.

Em 15 de março de 2025, esse acúmulo de forças deu um salto quando cerca de 325 mil pessoas se mobilizaram em Belgrado, naquela que foi a maior mobilização da história recente do país. Foi ali que começou, de fato, a derrota política de Vučić, que ocupou o poder político durante mais de uma década. Foi vice-primeiro-ministro, primeiro-ministro entre 2014 e 2017 e, posteriormente, presidente. Em setembro passado, renunciou à Presidência para se candidatar novamente ao cargo de primeiro-ministro, pois a Constituição o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial.

Durante esses anos, o SNS construiu uma rede de poder baseada na hegemonia eleitoral, no controle institucional e em uma forte concentração de poder em torno de Vučić. As denúncias de corrupção tornaram-se constantes. Até mesmo a União Europeia expressou questionamentos sobre a situação institucional, enquanto o país recuava nos indicadores internacionais de corrupção. O desenvolvimento dos protestos revelou os traços autoritários do regime, que acusou os estudantes de serem mercenários e chegou a caracterizar as mobilizações como uma tentativa de golpe de Estado.

A polícia utilizou gás lacrimogêneo contra as manifestações que exigiam sua saída. Mas a repressão e a desqualificação não conseguiram enfraquecer o movimento. Pelo contrário, os protestos continuaram, e a exigência inicial de responsabilização pela tragédia de Novi Sad foi evoluindo até se transformar em uma reivindicação política nacional. A palavra de ordem acabou sendo a necessidade de tirar Vučić do poder. É aqui que surge um dos aspectos mais interessantes do processo.

O movimento não nasceu como uma máquina eleitoral nem em torno de um dirigente da oposição. Durante boa parte de seu desenvolvimento, sua força esteve na organização por meio de assembleias, ocupações e participação democrática. Mas a experiência também colocou uma questão inevitável: como tirar Vučić do poder? Os protestos acabaram levantando a exigência de eleições antecipadas. Inicialmente, Vučić rejeitou a reivindicação, mas a pressão social acabou obrigando-o a convocar as recentes eleições, um ano antes do previsto. Foi então que o movimento fez a transição das ruas para as urnas.

Um dado que expressa a profundidade do movimento é a participação eleitoral. Quase sete em cada dez eleitores compareceram às urnas. Houve uma incorporação massiva de setores que entenderam a eleição como uma possibilidade de disputar eleitoralmente um confronto que vinha se desenvolvendo nas ruas havia quase dois anos. A eleição funcionou como um momento de condensação política da mobilização social; em outras palavras, as urnas registraram uma correlação de forças que primeiro se modificou nas ruas.

O resultado também adquire relevância internacional porque faz parte da irrupção política mais ampla das novas gerações. Nas últimas semanas, as mobilizações juvenis e estudantis ganharam protagonismo em diferentes países. A particularidade da Sérvia está na dimensão alcançada por esse processo: de uma ocupação universitária à provocação de um terremoto nacional e à derrota eleitoral de um governo consolidado há mais de uma década.

Mas seria incorreto explicar o processo exclusivamente como um conflito geracional. Os estudantes foram o estopim e assumiram a direção social inicial, mas conseguiram colocar o governo contra a parede precisamente porque sua luta encontrou repercussão para além das universidades. Setores de trabalhadores, profissionais, professores e artistas foram se incorporando às mobilizações. A força do processo esteve nessa capacidade de transformar uma reivindicação inicialmente estudantil em um questionamento nacional ao regime.

Também existe uma dimensão geopolítica que convém observar com cautela. A Sérvia mantém negociações para ingressar na União Europeia há anos, mas, simultaneamente, possui importantes relações econômicas e políticas com a Rússia e a China. A Rússia continua sendo relevante devido à dependência energética do país, enquanto a China aumentou consideravelmente seus investimentos e chegou a se tornar o segundo maior investidor, atrás da União Europeia.

A própria tragédia de Novi Sad está relacionada a esse contexto, já que a estação havia sido reformada por meio de obras vinculadas a empresas chinesas e de contratos cuja falta de transparência esteve justamente entre os aspectos denunciados pelas manifestações. Nem Bruxelas nem Washington representam uma saída progressista em oposição a Moscou ou Pequim, assim como os vínculos do governo com a Rússia e a China tampouco constituíram uma alternativa “anti-imperialista” (além de que ambas as potências são imperialismos não tradicionais). As grandes potências buscam posições econômicas, diplomáticas e estratégicas nos Bálcãs de acordo com seus próprios interesses.

Dessa forma, derrotar Vučić foi o elemento que deu coesão ao movimento. Mas acabar com um governo não equivale a resolver o que e quem deve substituí-lo. A Lista de Estudantes é social e politicamente heterogênea; nela convivem setores pró-europeus com outros próximos de posições nacionalistas de direita. O programa que unificou as candidaturas esteve centrado fundamentalmente no combate à corrupção, na garantia de maior independência institucional e no fim do sistema político construído em torno de Vučić. São reivindicações democráticas importantes, particularmente diante de um regime cada vez mais autoritário, mas não constituem, por si mesmas, um questionamento das relações capitalistas que atravessam a sociedade sérvia.

Aqui, a contradição está no fato de que um movimento extraordinariamente radical em seus métodos de luta desemboca em um programa político consideravelmente mais moderado do que a dinâmica social que permitiu construí-lo. Durante quase dois anos, houve universidades ocupadas, bloqueios de estradas, enormes manifestações e experiências de organização a partir das bases. Entretanto, essa força foi canalizada em torno de um denominador comum cujo objetivo fundamental era afastar Vučić do poder.

A vitória da Lista de Estudantes constitui um fato político importante porque demonstra a capacidade de uma mobilização de romper os limites setoriais e se transformar em um movimento social. Mas o resultado eleitoral é um ponto de partida, não de chegada. O movimento, que cresceu por meio da mobilização a partir das bases, disporá de maioria absoluta no Parlamento, mas não possui um programa homogêneo e reúne correntes politicamente muito diferentes. Coloca-se, assim, a questão da relação entre as ruas e as instituições.

As eleições demonstraram que a mobilização podia modificar a correlação de forças (tal como aconteceu no Brasil neste fim de semana). Mas transferir toda essa energia para o Parlamento também pode transformar o movimento que a produziu. Se as universidades se esvaziarem, as assembleias desaparecerem e as organizações sociais delegarem suas expectativas aos novos parlamentares, a força que permitiu derrotar Vučić poderá se enfraquecer justamente depois de conquistar sua maior vitória.

Por isso, o ponto de ruptura será se desenvolve-se uma perspectiva anticapitalista. O desafio não é substituir uma administração por outra. As conquistas democráticas obtidas por meio da mobilização precisam se apoiar na organização de setores estudantis e dos trabalhadores, ao mesmo tempo que as reivindicações avançam da luta contra a corrupção para os problemas sociais que atravessam a vida cotidiana.

A vitória eleitoral demonstra que Vučić foi derrotado porque um movimento surgido a partir das bases alterou, durante quase dois anos, a normalidade política do país por meio de ações radicais que ultrapassaram a legalidade burguesa. A luta que tornou essa vitória possível enfrenta agora uma prova mais difícil: decidir se sua força acabará absorvida pelas instituições ou se manterá a organização e a mobilização que possibilitaram pôr fim a um governo corrupto e autoritário e construir uma alternativa política emancipadora que questione o sistema de exploração capitalista.