Direção da Corrente Socialismo ou Barbárie e Bancada Anticapitalista
Os resultados parciais do primeiro turno apontam um evidente giro à direita nas eleições nacionais. Com 93,31% das seções apuradas, Flávio Bolsonaro alcançava 47,78% dos votos válidos, contra 44,27% de Lula. Além da vantagem na disputa presidencial, o bolsonarismo conquistou o governo de São Paulo no primeiro turno, com a reeleição de Tarcísio de Freitas, que registrava 62,69% dos votos válidos, contra 36,38% de Fernando Haddad, com 96,58% das seções totalizadas.
No Senado, a eleição de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) por São Paulo, de Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) pelo Paraná, e de Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo) pelo Rio Grande do Sul, reforça o avanço da direita e da extrema direita e torna o cenário político nacional ainda mais grave.
Esse cenário aponta para um segundo turno extremamente dramático e perigoso. Uma vitória de Flávio Bolsonaro com o apoio do imperialismo consolidaria condições políticas e institucionais para uma ofensiva autoritária, fortalecendo o golpismo, intensificando os ataques aos direitos dos trabalhadores e aprofundando a recolonização do país.
Com este quadro, ganharia força a ofensiva pela anistia de Jair e os golpistas, as ameaças de impeachment de ministros do STF e um fortalecimento do reacionarismo na Suprema Corte. Esse avanço também abriria caminho não só para enterrar avanços, como o fim da escala 6×1, como para implementar novas contrarreformas sobre direitos sociais e trabalhistas e um ajuste fiscal ainda mais agressivo.
Esse cenário, condicionado pela situação econômica e política mundial e pela intervenção trumpista, também é fruto direto do fracasso da política de conciliação de classes do lulismo. A precarização do trabalho, os salários achatados, o peso dos preços sobre a renda do trabalho, o transporte público precário, a falta de acesso ao saneamento básico, ao atendimento médico e a insegurança seguem marcando a vida de grandes contingentes da população. Diante desses graves problemas, Lula 3 não apresentou respostas à altura das necessidades da nossa classe e dos oprimidos.
Além disso, o governo preservou os pilares das contrarreformas anteriores, instituiu novas restrições aos gastos públicos e manteve uma política de ajuste que limita o atendimento das necessidades populares. A conciliação de classes cobra seu preço na vida de quem trabalha e abre espaço para que a extrema direita explore o descontentamento social.
Do ponto de vista político, Lula 3 reproduziu a orientação dos governos anteriores do PT. Não tirou as lições de junho de 2013, manteve a política confinada aos gabinetes e incorporou dirigentes dos movimentos ao governo, subordinando a mobilização às negociações por cima. A combinação entre insatisfação social e desmobilização das ruas, por responsabilidade direta do governo Lula, permitiu uma onda reacionária no Congresso e que a extrema direita chegasse à frente no segundo turno.
Diante dos perigos que esse avanço representa para os direitos políticos, democráticos e sociais conquistados pelos trabalhadores, é necessário lutar para impedir a vitória de Flávio Bolsonaro. Sua eleição também aprofundaria o giro reacionário na América Latina e favoreceria a intervenção trumpista, tornando ainda mais difíceis as condições de luta em toda a região.
Desde a Corrente Socialismo ou Barbárie, não cedemos à ladainha do voto útil no primeiro turno e chamamos o voto em na candidatura de Hertz Dias, em que pesem nossas diferenças políticas com o PSTU.
Entretanto, entendemos que esse cenário coloca a necessidade de lutar contra a vitória da extrema direita golpista e entreguista no segundo turno. Trata-se de uma situação excepcional, em que é necessário enfrentar a ameaça de um retrocesso político-estrutural, com o avanço do golpismo sobre os direitos econômicos, sociais e políticos dos trabalhadores.
A luta para derrotar o bolsonarismo deve ser travada, em primeiro lugar, nas ruas, com uma campanha que vincule o combate ao golpismo à defesa das demandas mais sentidas dos trabalhadores e dos oprimidos.
A tarefa de derrotar a extrema direita não apaga o caráter burguês do governo de conciliação, não nos coloca no campo político de sua coalizão com setores da classe dominante, nem transforma seu projeto em uma saída para os trabalhadores.
Por isso, nossa posição tem como eixo central a necessidade de derrotar a extrema direita golpista, e não de embelezar o lulismo no poder. Ou seja, somos contra qualquer composição política orgânica com o governismo e contra a renovação da confiança ou das expectativas nele, como fazem o PSOL e outros satélites do PT.
Preservando nossa independência política e sem alimentar nenhuma ilusão no lulismo, defendemos o voto ultra-crítico em Lula no segundo turno. Essa posição deve se traduzir em mobilização nas ruas, sem confiança política no lulismo, no PT ou em seus aliados.
A disputa não pode ficar entregue aos acordos de gabinete e à espera pelas urnas. É preciso mobilizar desde já, com independência política, organização de base e reivindicações concretas que respondam às necessidades da classe trabalhadora, como a escala de trabalho 5×2, o aumento geral dos salários e a garantia de direitos aos trabalhadores por aplicativos, a reestatização das empresas e a investigação independente, o julgamento, a prisão e a expropriação dos envolvidos no escândalo do Banco Master.
Desde a candidatura coletiva da Bancada Anticapitalista a deputado federal, agradecemos os votos combativos e independentes que recebemos, compreendendo que a necessidade de transformar esta expressão em organização nas ruas e nas lutas para derrotar Flávio Bolsonaro.
Isso exige, preservando nosso pleno direito à crítica, à agitação de nosso programa e à defesa de nossas táticas, a capacidade de mobilizar de forma unificada todos os que defendem os direitos democráticos e políticos, principalmente os de luta e organização.










