O escândalo do Banco Master desmoraliza o Supremo, influencia diretamente o processo eleitoral e abre uma disputa sobre os rumos do país. A esquerda precisa exigir a investigação independente de todos os envolvidos, enfrentar a ofensiva bolsonarista e imperialista nas ruas e impulsionar a mobilização independente antes, durante e após as eleições.
ANTONIO SOLER e THIAGO E.
Do escândalo do Master à crise aberta no STF
O ministro André Mendonça (indicado ao STF por Jair Bolsonaro) passou a ocupar uma posição central na crise provocada pelo caso Master. Em fevereiro, ele foi sorteado relator das investigações após Dias Toffoli deixar a condução do processo em meio a graves questionamentos sobre sua relação com Daniel Vorcaro. A Polícia Federal havia encaminhado ao presidente do STF um relatório apontando elementos que levantavam dúvidas sobre a permanência de Toffoli à frente do caso, inclusive informações relacionadas a uma transferência de R$ 35 milhões envolvendo um fundo ligado ao resort Tayayá, negócio associado à família do ministro – acusações cujo mérito não foi julgado pelo Supremo e que Toffoli negou. Já como relator, Mendonça encaminhou à presidência do STF um novo relatório da Polícia Federal, elaborado a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro, contendo informações relacionadas a Alexandre de Moraes.
Foi justamente a partir daí que se desencadeou uma verdadeira guerra de petições entre ministros do Supremo, transformando as revelações do caso Master em uma crise aberta dentro da própria Corte. As acusações e pedidos de apuração passaram a atingir, de lados distintos, Alexandre de Moraes e André Mendonça, obrigando o presidente do STF, Edson Fachin, a intervir diretamente no impasse. Fachin assumiu a relatoria da petição relacionada às informações sobre Moraes, determinou que processos vinculados aos casos Master e INSS fossem remetidos à Presidência e convocou uma sessão extraordinária do Plenário para o dia 15 de setembro. Era o sinal de que o escândalo havia ultrapassado definitivamente os limites das investigações sobre Daniel Vorcaro e se convertido em uma crise interna do próprio Supremo Tribunal Federal.
Em 15 de setembro, o plenário do STF realizou uma sessão extraordinária para discutir o encaminhamento de duas petições relacionadas ao caso Master. Uma delas tinha origem no relatório da Polícia Federal elaborado a partir de informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro e reunia elementos relacionados a Alexandre de Moraes; a outra tratava de questionamentos sobre a atuação de André Mendonça. Formalmente, o que estava em discussão era se os dois procedimentos deveriam tramitar conjuntamente. Mas, por trás dessa questão processual, estava em jogo uma disputa política muito mais ampla. De um lado, o campo que se articula em torno de André Mendonça buscava deslocar o centro da crise para Alexandre de Moraes e para suas relações com o governo Lula, num movimento que tinha evidente potencial de interferir de forma ainda mais direta na disputa eleitoral.
Essa ofensiva também interessava politicamente ao bolsonarismo, num momento em que o próprio Flávio Bolsonaro enfrenta questionamentos sobre suas relações com Daniel Vorcaro e sobre o financiamento do filme (sic) Dark Horse. De outro lado, os ministros que naquele momento convergiam com Moraes defendiam uma condução que poderia ampliar o alcance das apurações para outros magistrados citados no caso Master e, com o pedido de vista de Flávio Dino, acabou suspendendo uma definição imediata sobre os processos. Na prática, o impasse empurrou a crise para dentro do calendário eleitoral e abriu a possibilidade de que seu desfecho ficasse para depois das eleições – justamente quando o caso Master já havia se tornado um elemento da disputa política nacional.
A sessão acabou revelando uma divisão aberta no tribunal. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes defenderam a reunião dos casos, posição à qual Flávio Dino também indicou adesão antes de pedir vista. Por outro lado, Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram pela tramitação separada das petições. Essa divisão, contudo, não correspondia mecanicamente a dois blocos político-ideológicos estáveis no STF. O conflito central se organizava naquele momento em torno do enfrentamento entre Moraes e Mendonça e da disputa sobre a própria condução das investigações. Moraes acusava Mendonça de utilizar a Polícia Federal com finalidade político-eleitoral, enquanto Mendonça negava as acusações e sustentava a regularidade de sua atuação; Gilmar Mendes também acusou Mendonça, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, de agir com viés político-eleitoral.
Esse enfrentamento no STF interno se conecta diretamente à polarização política existente fora do tribunal. Moraes havia se tornado um dos principais alvos do bolsonarismo por sua atuação nos processos relacionados à tentativa de golpe e à condenação de Jair Bolsonaro, enquanto Mendonça havia sido indicado ao STF pelo próprio ex-presidente. A sessão, portanto, rapidamente ultrapassou os limites de uma discussão processual: acusações cruzadas, questionamentos sobre a atuação dos próprios ministros e disputas sobre quem deveria conduzir as investigações transformaram o julgamento numa exposição pública de uma crise profunda do Supremo. O pedido de vista de Flávio Dino interrompeu a análise antes que o mérito das suspeitas fosse examinado e adiou uma definição sobre os próximos passos dos casos.
Não se trata, portanto, apenas de uma simples disputa entre ministros. Nos últimos anos, o STF – instituição do Estado burguês que, em inúmeros conflitos sociais, têm atuado contra direitos e interesses da classe trabalhadora – desempenhou, contraditoriamente, um papel na contenção institucional da ofensiva golpista do bolsonarismo porque a classe dominante e as Forças Armadas se dividiram sobre a viabilidade ou não de um golpe de Estado naquele momento. É nesse quadro que deve ser compreendida a ofensiva protagonizada por André Mendonça, ou seja, a serviço político direto da ofensiva da extrema direita.
A crise do STF em uma conjuntura cada vez mais perigosa
Ao deslocar o centro da crise para Alexandre de Moraes e aprofundar a guerra interna no Supremo, essa ofensiva oferece ao bolsonarismo uma possibilidade política dupla: sair da defensiva provocada pelas revelações sobre Flávio Bolsonaro e explorar a já elevada rejeição ao STF para recuperar iniciativa na campanha eleitoral. Nesse sentido, o ataque ao STF alimenta na perspectiva da extrema direita a narrativa de deslegitimação das instituições eleitorais e judiciais caso o resultado das urnas seja desfavorável ao bolsonarismo.
Não podemos deixar de observar que, independentemente do resultado das eleições de outubro, sem que o movimento de massas tome as ruas pela esquerda, com suas reivindicações e auto-organização política, essa dinâmica política fortalece a campanha de extrema direita para cassar ministros, mudar a composição política da Corte, tornando-a ainda mais reacionária, para avançar contra direitos políticos e econômicos dos trabalhadores – obviamente que esse cenário interno, com a intervenção política imperialista no Brasil favorável ao golpismo, está se tornando cada vez mais perigoso..
Se confiar ao STF o enfrentamento ao bolsonarismo já foi um erro crasso da esquerda da ordem no passado, agora com o apoio direto do imperialismo estadunidense ao bolsonarismo, essa postura pode ser mortal…Na verdade, o processo de investigação, condenação e punição dos golpistas de 8 de janeiro foi extremamente limitado, pois não processou, condenou e expropriou empresários e políticos que financiaram e articularam diretamente o golpismo. Além disso, o governo Lula não tomou nenhuma medida para enfraquecer as bases políticas, sociais e econômicas do golpismo. Ao contrário, governou unicamente com as instituições do regime e desmobilizou a luta política nas ruas – como é típico nos governos lulistas -, não revogou as contrarreformas e aprovou outras, dando assim condições econômica e políticas para a sobrevivência do bolsonarismo como força de massas do ponto de vista estrutural.
O escândalo do Banco Master, ao atingir diretamente o STF – instituição que o bolsonarismo procura apresentar como parte de um mesmo campo político do governo Lula -, irrompe em uma conjuntura já marcada por forte insatisfação social. O peso do custo de vida, a precarização das relações de trabalho e dos serviços públicos e a crescente preocupação com a violência e a segurança pública alimentam um cenário de descontentamento que atravessa o processo eleitoral. Pesquisas recentes colocam justamente a violência, a economia e a saúde entre as principais preocupações da população.
A isso se soma a ingerência direta do governo Trump sobre a política brasileira. No decreto que elevou as tarifas sobre produtos do Brasil, em julho de 2025, a Casa Branca assumiu abertamente a defesa de Jair Bolsonaro, qualificou os processos contra ele como perseguição política e chegou a afirmar que a atuação das instituições brasileiras poderia comprometer a realização de uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026. Assim, a crise do Supremo não se desenvolve isoladamente: ela se combina com o mal-estar social, com a disputa eleitoral e com a pressão exercida pelos Estados Unidos. É nesse terreno que a extrema direita procura transformar cada nova crise em combustível para recuperar iniciativa política, desgastar seus adversários e ampliar sua ofensiva eleitoral.
Contraofensiva da extrema direita e polarização por baixo
Desse conjunto de elementos é preciso extrair uma caracterização política da conjuntura. O que vemos, neste momento, é o desenvolvimento de uma contraofensiva política da extrema direita, impulsionada pela explosão da crise institucional no STF e pela possibilidade de utilizar essa crise para recuperar iniciativa na disputa eleitoral e alimentar novamente uma ofensiva golpista. Essa caracterização política não pode abstrair o papel da conciliação de classes do terceiro governo Lula. Como já apontamos, trata-se de um governo que preserva os interesses fundamentais das classes dominantes, enquanto procura administrar as contradições sociais por meio de políticas compensatórias destinadas aos trabalhadores e aos setores mais pobres da população, que são cada vez mais incapazes de resolver os grandes problemas causados pelo capitalismo e suas formas de dominação política. Dessa forma, longe de eliminar as bases sociais do descontentamento, essa política contribui para manter aberto o terreno sobre o qual a extrema direita procura crescer.
A conjuntura também não pode ser compreendida apenas a partir dessa polarização por cima, entre os diferentes setores das classes dominantes, do regime político e das instituições do Estado. Desde o final do ano passado, trabalhadores, mulheres, juventude e diferentes setores oprimidos também vêm protagonizando mobilizações que apontam para a existência de uma polarização por baixo. A recente onda de greves é uma expressão disso. Em setembro, entregadores por app construíram uma forte greve nacional, paralisando suas atividades para exigir do governo federal uma medida provisória que garantisse um piso nacional de R$10 por rota, além de outras demandas econômicas. Depois, os trabalhadores dos Correios realizaram uma greve nacional em defesa de direitos e do plano de saúde, enquanto funcionários da Caixa Econômica Federal também entraram em greve nacional após rejeitarem as propostas apresentadas pelo banco. São processos que demonstram a disposição de luta existente na base, embora frequentemente encontrem pela frente direções sindicais ligadas ao lulismo que procuram limitar, controlar ou encerrar essas mobilizações antes que elas possam adquirir maior força política.
Voltando à caracterização da conjuntura, podemos defini-la pela combinação de três elementos: uma contraofensiva política da extrema direita; uma resposta do governo Lula baseada em medidas de alcance limitado e na manutenção de sua política de conciliação de classes; e, ao mesmo tempo, uma disposição de luta de setores dos trabalhadores e dos oprimidos que aponta para a possibilidade de que a crise política não se resolve exclusivamente no terreno eleitoral.
Essa caracterização exige evitar duas posições antagônicas. De um lado, não podemos reproduzir a lógica de setores da esquerda lulista que, diante da ofensiva bolsonarista, acabam blindando politicamente ministros do STF, como Alexandre de Moraes, e apagando o caráter de classe e as responsabilidades dessa instituição. De outro, tampouco retomar a lógica da política do “fora todos” em um contexto de ofensiva da extrema direita, como fazem alguns setores da esquerda independente, tratando como equivalentes os diferentes polos da crise e desconsiderando que os desdobramentos do caso Master estão sendo utilizados politicamente pelo bolsonarismo em plena disputa eleitoral. Reconhecer essa ofensiva não significa suspender as denúncias ou defender qualquer setor do Supremo. Ao contrário disso, significa sustentar uma política independente, que exija a investigação, o processamento, a prisão e a expropriação de todos os envolvidos no escândalo, sem blindagem para empresários, parlamentares, integrantes do Executivo ou ministros dos tribunais. Mas essa investigação deve começar por Flávio Bolsonaro.
É preciso compreender que os atuais desdobramentos do escândalo do Banco Master – particularmente a crise aberta no STF – criam um terreno favorável para que o bolsonarismo recupere iniciativa política e eleitoral. A Bancada Anticapitalista defende uma investigação independente, com participação das organizações dos trabalhadores, abertura de todas as informações de interesse público e júri popular para apurar o envolvimento de todos os responsáveis no escândalo Master. Isso significa começar pelas relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, avançar sobre os chefes do Centrão no Congresso e nos estados e investigar, sem qualquer blindagem, empresários, parlamentares, integrantes do Executivo e membros do Judiciário envolvidos no caso. Aos comprovadamente responsáveis, prisão e confisco dos bens provenientes dos esquemas de corrupção.
Mas enfrentar a extrema direita exige muito mais do que responder à crise institucional. Medidas como o aumento do Bolsa Família e o fim das casas de apostas, embora incidam sobre problemas reais, são insuficientes diante da profundidade do descontentamento social e das condições de vida da classe trabalhadora. É preciso lutar nas ruas para exigir do governo medidas que de fato possam responder diretamente às necessidades dos de baixo, tais como: fim imediato da escala 6×1 e redução da jornada para 30 horas semanais, sem redução salarial; aumento geral dos salários, aposentadorias e benefícios; garantia de taxa mínima de R$ 10 por corrida e R$ 2,50 por quilômetro, além de direitos trabalhistas para os entregadores de aplicativos; combate às privatizações e defesa dos serviços públicos; um plano nacional de enfrentamento ao feminicídio e à violência LGBTfóbica; e aborto legal, seguro e gratuito pelo SUS.
É a partir dessas reivindicações, conectando a crise política às lutas concretas que já estão em curso, que se pode construir uma resposta independente dos trabalhadores e dos setores oprimidos. A perspectiva da Bancada Anticapitalista é justamente superar a dispersão dessas lutas, unificando suas reivindicações em uma campanha nacional e construindo uma jornada de mobilizações capaz de avançar para uma paralisação nacional, colocando a força social dos de baixo no centro da conjuntura.
Nesse sentido, o 28 de setembro, Dia de Luta pela Legalização do Aborto, pode ser um importante ponto de apoio para essa perspectiva. A data integra o calendário de mobilizações dos movimentos de mulheres em 2026 e coloca novamente em primeiro plano a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, pela legalização do aborto e pela garantia de acesso ao aborto legal, público e gratuito nos hospitais. Trata-se de assegurar às mulheres o direito de decidir sobre a reprodução sem coerção do Estado, das igrejas ou das instituições, com acesso universal à saúde e condições materiais dignas. É, portanto, uma luta por autonomia, igualdade social e contra a ofensiva conservadora. Mais do que uma mobilização isolada, é preciso buscar sua conexão com as greves em curso, com a luta pelo fim da escala 6×1, com as reivindicações dos entregadores e com as demais batalhas travadas pela classe trabalhadora e pelos demais setores oprimidos.
Para derrotar a extrema direita, é necessário mobilização unificada nas ruas
É possível derrotar a extrema direita nas urnas e, mesmo assim, reencontrá-la mais forte no Congresso, nos estados e nas ruas após outubro se a vitória eleitoral não for combinada com um processo de crescente mobilização nas ruas. A vitória apertada de Lula em 2022 afastou Bolsonaro do governo, mas não desorganizou o bolsonarismo como força social.
O bolsonarismo como extrema direita, apesar de se constituir como um “partido digital”, formou-se como força parlamentar e extraparlamentar desde seu início, pois combina eleição, campanha permanente e ação nas ruas. O lulismo, com sua lógica social democrática que separa ação sindical de ação política, embora tenha uma ampla base social, sempre concentrou sua atuação na disputa no mero campo da institucionalidade burguesa. A esquerda anticapitalista não pode ficar presa a essa divisão. Sua campanha precisa servir também para organizar trabalhadores, estudantes e movimentos, construir laços duradouros e disputar a iniciativa fora do Parlamento. Uma nova vitória eleitoral apertada no segundo turno de qualquer um dos candidatos que polarizam o processo eleitoral – o cenário que parece mais provável – desacompanhada de mobilização nas ruas, apenas irá adiar por poucos conflitos e deixar de pé as condições para outra ofensiva ultrarreacionária.
Do ponto de vista da esquerda socialista, a política do “voto útil” em Lula já no primeiro turno coloca pelo menos dois problemas. O primeiro é programático. Em uma eleição presidencial de dois turnos, se nenhuma candidatura alcançar a maioria absoluta dos votos válidos, as duas mais votadas disputam uma nova eleição. Pressionar trabalhadores e setores da esquerda a abandonar, já no primeiro turno, as candidaturas e os programas com os quais se identificam significa despolitizar o processo eleitoral transformando antecipadamente essa etapa em uma espécie de segundo turno. Com isso, perde espaço justamente o debate sobre as diferentes saídas para a crise: a estratégia diante da ofensiva imperialista e da extrema direita, o fracasso da conciliação de classes, a independência política dos trabalhadores como condição fundamental para qualquer solução efetiva para a crise etc.
O segundo problema é político e tático. Concentrar antecipadamente os votos em Lula pode modificar a distribuição eleitoral no primeiro turno, mas não garante a derrota da extrema direita, pois essa antecipação de votos na conciliação de classes provoca uma desmobilização política que não arrasta os setores indecisos no sentido contrário da extrema direita. Além disso, a experiência de 2022 mostrou que é possível derrotar Bolsonaro eleitoralmente sem desorganizar o bolsonarismo como força social e política.
Por isso, na perspectiva que defendemos, a disputa pelos votos dos trabalhadores, pelos indecisos e pelos setores descontentes não pode se limitar ao argumento de “votar em quem pode ganhar”. É preciso apresentar respostas concretas às necessidades que alimentam esse descontentamento, tais quais: redução da jornada de trabalho, aumento geral dos salários, direitos para os trabalhadores precarizados, defesa e ampliação dos serviços públicos e mobilização em torno dessas reivindicações. É nesse terreno que se pode disputar também aqueles que hoje oscilam entre a abstenção, o desencanto com o governo e a extrema direita.
Isso não significa ignorar a pressão real pelo voto útil nem tratar de maneira sectária os trabalhadores e os setores da esquerda social que decidam votar em Lula já no primeiro turno. Existe um medo concreto diante da possibilidade de fortalecimento da extrema direita, e o lulismo procura transformar esse temor em concentração eleitoral ao seu redor. Mas reconhecer essa pressão não significa que a melhor alternativa programática, política e tática da esquerda anticapitalista é antecipar o voto em Lula no primeiro turno, justamente porque isso desmobiliza e a desmobilização, como já dito, fortalece a extrema direita.
Na perspectiva apresentada neste texto, as candidaturas da esquerda, os sindicatos, os movimentos sociais e as organizações populares devem buscar, já no primeiro turno – daqui a uma semana – iniciativas comuns de unidade de ação política para enfrentar a extrema direita e, ao mesmo tempo, fazer avançar as reivindicações e conquistas dos trabalhadores. O ponto de partida não é a roda a ser inventada, pois está nas próprias mobilizações em curso. A recente greve dos trabalhadores dos Correios, encerrada após duas semanas de paralisação, expressou essa disposição de luta; os trabalhadores da Caixa seguem mobilizados em defesa de suas reivindicações; e as mobilizações do 28 de setembro colocam novamente nas ruas a luta das mulheres pelo aborto legal, seguro, público e gratuito. São processos distintos, mas que podem convergir numa perspectiva comum de mobilização independente.
Se a estratégia do “voto útil” se justifica pela necessidade de derrotar Flávio Bolsonaro já no primeiro turno, então a questão decisiva não pode ser simplesmente concentrar votos em Lula. Uma política capaz de ampliar a força social contra a extrema direita deveria começar por atender às reivindicações daqueles que já estão em luta. Isso significa responder positivamente às demandas dos trabalhadores dos Correios e da Caixa, apoiar a luta das mulheres, decretar imediatamente o fim da escala 6×1 e garantir direitos e remuneração mínima aos entregadores de aplicativos. Medidas concretas que alterem as condições de vida da classe trabalhadora têm capacidade de disputar também os setores hoje descontentes, indecisos ou sujeitos à influência política da extrema direita.
Da parte da Bancada Anticapitalista, da Juventude Já Basta! e da Corrente Socialismo ou Barbárie, a perspectiva apresentada é enfrentar o bolsonarismo nas eleições sem dissolver a independência política da esquerda anticapitalista. Isso significa manter nossas próprias candidaturas, programa e bandeiras e, simultaneamente, lutar com toda a força pela unidade das mobilizações em curso. Independência política e unidade de ação não são contraditórias. Podemos e devemos disputar programas e candidaturas diferentes nas urnas e, ao mesmo tempo, estar nas mesmas ruas para derrotar a ofensiva da extrema direita, apoiar as greves e fazer avançar reivindicações concretas dos trabalhadores e dos setores oprimidos.
Essa orientação permite também enfrentar um falso dilema. Não é necessário escolher entre abandonar o programa em nome do voto útil contra Flávio Bolsonaro. A manutenção das candidaturas socialistas independentes contribui para convocar a mais ampla unidade de ação nas ruas – a única tática efetiva para derrotar Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. Aliás, a retirada das candidaturas do Psol a Presidente em 2022 em nada contribuiu para derrotar o bolsonarismo, ao contrário, contribuiu para produzir a dispersão, apatia e acomodação que permitiu a recuperação do bolsonarismo. Mais do que antecipar o segundo turno no primeiro, a tarefa é utilizar a campanha eleitoral para fortalecer a organização social dos trabalhadores e dos oprimidos e construir uma força que seja capaz de enfrentar o bolsonarismo antes, durante e depois das eleições.










