As dinâmicas sociais do século passado, protagonizadas pela ascensão latente do capitalismo, junto às incertezas do mundo moderno pós-Primeira Guerra Mundial, fizeram com que os principais nomes do modernismo brasileiro voltassem seus olhos à complexidade do Eu diante de um novo mundo.

Pelo contato direto com as desigualdades sociais e econômicas e por sua atuação como gestor público, Graciliano Ramos contribuiu enormemente para a construção de obras literárias profundamente críticas e comprometidas com a realidade. Sua prisão durante o Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, intensificou ainda mais sua percepção das contradições sociais e da opressão institucional, elementos que atravessam sua produção literária.

Ao analisar “Ciúmes”, o autor nos convida à uma experiência imersiva na subjetividade e interioridade da personagem Zulmira, que após uma descoberta fatídica, tem sua essência subjetiva colocada em crise.

O núcleo desta análise literária consiste em demonstrar, de maneira didática, como os conceitos de alienação e fetichismo – uma vez que as relações entre pessoas aparecem como relações entre coisas –  permeiam as práticas sociais, manifestando-se na experiência subjetiva de Zulmira. Ao expor a personagem em sua vulnerabilidade (despojada de defesas simbólicas diante da crise), o conto evidencia como suas percepções e relações são mediadas por valores e significados que ela própria não domina plenamente. Nesse sentido, sua condição revela não apenas um drama íntimo, mas a internalização de formas sociais que estruturam e limitam a compreensão de si própria e do outro.

Dessa forma, esta análise busca compreender de que maneira a crise de Zulmira, tal como representada no conto, expressa as contradições do sujeito moderno e evidencia, no plano da experiência individual, os efeitos da alienação nas relações sociais.

Introdução por Matheus Sarilho

As crises de subjetividade em Zulmira

Uma análise marxista do sujeito moderno

POR ANDRÉ CERQUEIRA

O conto “Ciúmes”, publicado em Insônia (1947), integra um conjunto de narrativas que, embora originalmente dispersas, compõem um todo coeso pelo tratamento da interioridade humana e suas tensões sociais. Em “Ciúmes”, Graciliano Ramos explora, através de uma linguagem concisa, aparentemente objetiva e seca, os aspectos psico-sociais da personagem Zulmira, desnudando as peculiaridades e complexidades dos sentimentos desse sujeito moderno, figura que, desde o século XIX, se caracteriza pela separação entre a dimensão privada e a vida social, estranhamento diante das coisas e pessoas e a fragmentação do eu – elementos que culminam em tensões conflituosas entre o eu e o mundo. Graciliano se vale da economia expressiva como modo de realçar a ausência de síntese do fluxo de pensamentos de Zulmira, um procedimento típico em suas obras. As frases curtas e o estilo conciso e seco dispensam ornamentos linguísticos, pois já traduzem demasiadamente bem a dificuldade da personagem de analisar suas próprias experiências. Compreendendo que esses impasses da subjetividade moderna estão presentes na obra de Graciliano, interessa-nos, nesta análise, compreender como Zulmira, cuja experiência emocional é narrada como um estado de crise interior permanente, deflagra um eu cindido entre a realidade que a envolve e a si própria.

A modernidade, ao estabelecer a distinção entre a esfera íntima e a esfera pública, gesta a noção de indivíduo que cultiva uma dimensão privada impenetrável, intransponível e, ao mesmo tempo, abriga uma porção de sentimentos em dissonância, fortemente marcados pela insegurança, dúvida e indiferença. Esse sujeito, condicionado às tensões psicológicas e sociais, encontra dificuldades em estabelecer relações de confiança. É justamente a incompatibilidade entre pessoas – desencadeada pelo estranhamento que a personagem nutre tanto em relação ao outro quanto a si mesma – que norteia a narrativa do conto. A cisão do eu com o mundo é um tema literário profundo, que aborda o sentimento de alienação, atomização social e estranhamento do indivíduo em relação à realidade circundante. Esse tema será fundamental para refletirmos sobre as crises de subjetividade em Zulmira (LUNA FILHO, 2021).

Zulmira é uma figura que atravessa um momento singular em sua vida: a descoberta de que está sendo traída por seu marido. Após a revelação, a narrativa descreve um encadeamento de acontecimentos internos e externos das ações da personagem. A princípio sente raiva, que recai sobre a figura do próprio filho, Moacir, que manejava bonecas – ação que Zulmira aparentemente desaprova para um menino -, depois negação, tristeza e indiferença. O sentimento que Zulmira descreve, resume em poucas palavras aquilo que Benedito Nunes assinala à respeito da tensão conflitiva qualificada pelo estado de alheamento diante das coisas, que paralisa e esvazia, por instantes, a vida pessoal da personagem. São momentos de descortínio da realidade cotidiana que Zulmira estava imersa, rompendo com a realidade habitual. O êxtase que suspende o tempo cronológico para um instante de iluminação do tempo psicológico é o clímax da narrativa (NUNES, 1973).

No trecho a seguir, vejamos como a experiência de Zulmira tenta e falha em dar significado à sua crise, revelando a dificuldade em estabelecer uma síntese concreta de seus próprios sentimentos.

“[…] O que sentiu foi uma estranheza languidez. As pálpebras cerraram-se, o corpo morrinhento resvalou, a cabeça encostou-se no travesseiro, a mão curta insinuou-se no decote e experimentou a quentura do peito. Declarou a si mesma que era uma pessoa incompreendida. Não era bem o que tencionava exprimir, mas possuía vocabulário reduzido, e a palavrinha familiar vista em poesias de moças, servia-lhe perfeitamente.

Incompreendida. Sem fazer exame da consciência, achou-se pura, até pura demais. Esta convicção lhe deu grande paz, que foi substituída por um vago mal-estar, a impressão de ter se resguardado sem proveito”.

A incompreensão, no contexto da crise de Zulmira, manifesta tanto o ponto onde a alienação e a cisão do eu com mundo culminam na dificuldade de traduzir seus sentimentos, ao se declarar “uma pessoa incompreendida”, a personagem revela, precisamente, tanto a busca por significação de sua dor, angústia e desconforto; quanto um mecanismo de defesa que lhe concede um refúgio momentâneo de seu mal-estar, recalcando o sentimento pela ausência de um profundo “exame de consciência”. Ou seja, o eu de Zulmira está cindido entre o que sente (a raiva, languidez e incompreensão) e o que consegue expressar (“não era bem o que tencionava exprimir”). Seu mal-estar reside na constatação que seu resguardo numa relação que ela própria não padece de paixão e de que deste relacionamento não houve “proveito” ou benefício existencial, aprofundando sua sensação de vazio e incompreensão. Zulmira sente-se profundamente só, à deriva de seus próprios devaneios. Isso nos leva a pensar: Será que Zulmira realmente estava disposta a encarar tudo aquilo que surge quando se decide envolver emocionalmente com outra pessoa? De enfrentar suas inseguranças, desconfortos situacionais e a possibilidade de fissuras em sua relação? Afinal, a crise da personagem emerge com o fracasso em adequar-se aos novos condicionantes em seu casamento, complexificando ainda mais uma relação fortemente marcada pela desconfiança e desprezo.

O conto se concentra nela e em suas reações, usando do ambiente externo como o marido, o filho e até mesmo a pensão em que se passa boa parte da narrativa, como gatilhos para sua crise interna. A raiva que se desconta em Moacir e nos móveis da pensão, por exemplo, revela a existência de uma frustração e incapacidade de lidar com suas próprias contradições mais profundas que sua reação imediata, expressa através da violência contra seu filho que apenas brincava com bonecas e desferindo pancadas nas gavetas à procura de provas da infidelidade de seu companheiro. Quando na realidade, o que realmente aflige Zulmira é a perda da percepção de quem é e da essência de sua conexão com o mundo.  Nesse sentido, a alienação como uma categoria central dentro do pensamento de Marx, uma abordagem crítica que relaciona a exploração capitalista à uma perspectiva humanista comunista, funciona como chave crítica esclarecedora para compreender as contradições da personagem de Graciliano em Ciúmes.

Diante da degeneração humana dos trabalhadores sob o capitalismo, Marx assinala para a redução da vida humana ao produtivismo do trabalho, uma ação meramente lucrativa, anulando seu caráter de atividade basilar para a produção e reprodução da vida.

“Dessa forma, a exploração do trabalho em Marx não se reduz a um fenômeno puramente econômico; também contém uma dimensão “espiritual” ou antropológica, relativa à experiência de vida da classe trabalhadora e à forma como esta se relaciona com o mundo (apud ARTAVIA, 2025, p. 3).”

Sendo assim, as crises de subjetividade em Zulmira, materializada em seu ciúmes, admite esclarecimento através da categoria da alienação. Conforme observado, essa estrutura social produz a noção do sujeito apartado da sociedade, reduzindo a vida humana sob a égide de um modo de sociabilidade que valoriza o utilitarismo das coisas e pessoas.

Em última análise, o conto Ciúmes revela que não se trata apenas da consolidação de sintomas de insegurança, medo do abandono e frustração diante da incapacidade de lidar com as contradições desse modo de sociabilidade moderna mas, também, um drama sobre como a estrutura social molda as relações através da fragmentação do eu e da separação mecânica entre o indivíduo e a sociedade, resultando em profundas transformações no modo como se desenvolvem os laços afetivos e aprofundando em dramáticas contradições os elementos que condicionam o desenvolvimento histórico-social. A frustração é o resultado da colisão entre a realidade pragmática da vida social e o lugar desse sujeito na sociedade moderna, cujo ciúme funciona como sintoma da transversal alienação que circunscreve o desenvolvimento de laços afetivos.

Referências Bibliográficas

ARTAVIA, Victor. Apontamentos militantes sobre o livro “O marxismo e a transição ao socialismo” (cap.3). 2025. Disponível em: https://esquerdaweb.com/apontamentos-sobre-o-livro-o-marxismo-e-a-transicao-ao-socialismo/ . Acesso em: 21 nov. 2025.

LUNA FILHO, J. R. O problema do desejo em Ciúmes, de Graciliano Ramos. MACABÉA- REVISTA ELETRONICA DO NETLLI, v. 10, p. 211-220, 2021.

NUNES, Benedito. Leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Quíron, 1973.