Em maio deste ano, o governo de Lula lançou o programa Move Brasil, uma linha de crédito destinada a motoristas de aplicativo, taxistas e entregadores financiarem a compra de veículos novos produzidos no país. Operado por bancos públicos e privados com recursos do BNDES, o programa prevê até R$ 30 bilhões em financiamentos, com juros reduzidos – entre 11,5% a 11,6% ao ano –, prazos estendidos e possibilidade de financiamento de até 90% do valor do veículo.
Embora tenha sido apresentado por Lula como uma política de valorização dos trabalhadores de aplicativo e taxistas, o Move Brasil também foi celebrado por setores da burguesia, sobretudo aquela ligada à indústria automobilística, ao sistema financeiro e pelas entidades empresariais ligadas ao setor automotivo, já que amplia o mercado de veículos novos e a oferta de crédito. Mas não só, mesmo as próprias empresas de transporte e delivery (99, Ifood, Uber) estão divulgando o Move Brasil nos aplicativos dos trabalhadores.
Vale lembrar que, o país em que os bancos atingiram um lucro recorde de R$ 225 bilhões em 2025 é o mesmo em que 81,6% das famílias estão endividadas. Em uma sociedade baseada em interesses inconciliáveis entre as classes, a proposta de Lula é, no mínimo, ambígua. Cabe, assim, uma investigação mais aprofundada sobre o papel de programas como esse no interior da classe trabalhadora e da luta de classes no Brasil.
Por Francisco M.
O papel da dívida pública e privada no capitalismo
Para começar o debate sobre o endividamento, há que se analisar a perspectiva marxista sobre a forma mais elementar da dívida no capitalismo: a dívida pública.
Como se sabe, o metabolismo social do capitalismo exige que os capitalistas sempre retirem mais dinheiro da esfera da circulação do que nela haviam colocado inicialmente. Esse mecanismo é conhecidamente representado por Marx pela fórmula do movimento geral do capital: D-M-D’, em que D representa o capital inicial investido pelo capitalista na forma de dinheiro, que logo é transformado em uma mercadoria qualquer M, para ser, por fim, transformado em uma quantia de dinheiro superior à inicial (D’).
Comprar para vender, ou, mais acuradamente, comprar para vender mais caro, D-M-D’, parece ser apenas um tipo de capital, a própria forma do capital comercial. Mas também o capital industrial é dinheiro que se transforma em mercadoria e, por meio da venda da mercadoria, retransforma-se em mais dinheiro. Eventos que ocorram entre a compra e a venda, fora da esfera da circulação não alteram em nada essa forma de movimento (Marx, 2013, p. 231).
Contudo, o “segredo” desse movimento aparentemente autônomo repousa no fato de que a valorização do capital só é possível por meio do roubo de uma parcela do trabalho executado pela classe trabalhadora (o trabalho vivo) na forma da mais-valia na oculta esfera produção. Eis que, coloca Marx: “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga” (Marx, 2013, p. 307).
Esse incessante movimento do capital cria, entretanto, os seus próprios percalços e contratempos. Ao mesmo tempo em que depende do trabalho para a sua valorização e medida, o capital também deseja reduzir o trabalho a um mínimo, e acaba, assim, se esvaziando do seu sangue vital. Essa contradição fundamental se manifesta, por exemplo: na redução generalizada dos salários dos trabalhadores para a elevação da taxa de lucro (que reduz o consumo das mercadorias produzidas no movimento do capital), no desemprego em massa causado pela automação da produção etc. Em suma, o movimento do capital cria barreiras intransponíveis, que dificultam cada vez mais a sua própria valorização neste modo de produção.
E é aí que o Estado e a sua dívida pública assumem um papel essencial para a manutenção do sistema capitalista. Sendo um mero “balcão de negócios da burguesia”, o Estado se encarrega de “valorizar” o capital dos grandes capitalistas quando isto não é possível no interior da indústria nacional. De forma simplificada, funciona assim: o Estado vende títulos da dívida pública aos grandes capitalistas. Esses títulos conferem (por lei) uma obrigação ao Estado de retornar aos capitalistas uma quantia maior àquela que eles investiram inicialmente (definida pela taxa de juros). Para cumprir essa obrigação, o Estado precisa arrecadar recursos do restante da sociedade por meio de impostos ou até mesmo emitindo novos títulos – é justamente por esse motivo que a palavra de ordem da Economia burguesa é o “superávit”, para que o Estado continue gastando menos do que arrecada para continuar remunerando os grandes capitalistas.
É importante notar que os recursos arrecadados para o pagamento da dívida pública à burguesia advém, praticamente na sua totalidade, da classe trabalhadora: segundo levantamento do ILAESE, em 2024, 91,3% dos impostos no Brasil incidiram direta ou indiretamente sobre a classe trabalhadora. Já se vê aí o papel nefasto que a dívida pública cumpre no sistema capitalista: quando os grandes capitalistas já não conseguem mais obter os mesmos retornos financeiros ao investir na indústria nacional, o Estado garante a eles esses rendimentos ao arrancar mais recursos do conjunto da classe trabalhadora. Não fomos nós quem contraímos essa dívida, mas somos nós que a pagamos com suor do nosso trabalho!
Entretanto, não é apenas a dívida pública que afeta os trabalhadores e restringe o seu orçamento. Por meio da dívida privada (dívida “pessoal” dos trabalhadores), os bancos extraem ainda mais riqueza dos trabalhadores, com juros conhecidamente abusivos em cartões de crédito, financiamentos imobiliários etc. O endividamento já afeta 81,6% das famílias brasileiras, e, segundo levantamento feito pelo Serasa[1], o desemprego é o principal motivo do endividamento dos trabalhadores brasileiros. Segundo a mesma pesquisa, 83% dos brasileiros já atrasaram o pagamento de outras contas para priorizar o pagamento de água, luz ou gás e 59% das dívidas de cartões de crédito correspondem a compras de alimentos em supermercados.
Além disso, o endividamento da classe trabalhadora adiciona uma nova camada à expropriação do seu trabalho. Como se sabe, durante a jornada de trabalho, a maior parte do tempo trabalhado corresponde ao trabalho excedente — isto é, ao valor gerado para a classe capitalista na forma da mais-valia —, enquanto apenas uma pequena parcela corresponde ao trabalho necessário, isto é, à remuneração do próprio trabalhador. Com o endividamento, porém, o trabalhador não está sujeito apenas à exploração no interior do processo de trabalho. Agora, uma parcela do seu próprio trabalho necessário futuro — isto é, da remuneração futura da força de trabalho destinada à sua subsistência— já se encontra de antemão em cheque e direcionada ao capital bancário.
É evidente, assim, como o endividamento da classe trabalhadora é causado por aquelas mesmas contradições inerentes ao capitalismo que geram a necessidade da dívida pública: a redução no consumo por conta da redução dos salários e do desemprego em massa, a queda estrutural da taxa de lucro etc. Paradoxalmente, assim como a dívida pública, o endividamento dos trabalhadores funciona como uma forma dos capitalistas “atenuarem” a sua crise, ao ampliar no curto prazo a realização (venda) das mercadorias por meio do crédito fornecido aos trabalhadores. Curiosamente, todas as “soluções” fornecidas pelos capitalistas à crise que eles mesmos geraram recaem nas costas dos trabalhadores, que agora pagam pela dívida pública e privada!
Note-se não é possível compreender o crescimento da dívida pública, o crescente protagonismo da financeirização e o surgimento do chamado “neoliberalismo” como frutos de escolhas individuais feitas por certos membros da burguesia. Ainda que necessitem de representantes e discursos que lhes deem razão, essas configurações
surgem como respostas sistêmicas do capitalismo às suas próprias barreiras e crises de desenvolvimento. Advêm de suas contradições, mas se configuram e aparecem como respostas que são construídas, administrativa, política e geopoliticamente, pelos agentes-suportes da relação de capital frente ao evolver das forças produtivas e das relações de produção, e, assim, das lutas de classes em geral. (Prado, 2023a, p. 30)
Não é, tampouco, resultado de um suposto parasitismo de uma burguesia financeira sobre a burguesia industrial. Como demonstrado, a emergência da dívida pública e de um certo protagonismo do capital financeiro é resultado do desenvolvimento histórico das contradições do capitalismo: uma evolução, não uma involução (Prado, 2023b). Coloca Lênin que o capital financeiro é “uma fusão do capital bancário com o capital industrial” (Lênin, 2021, p. 114) justamente uma não-oposição entre o capital financeiro e industrial.
Uma saída socialista e dos trabalhadores para a crise da dívida
Fica evidente, assim, que programas como o Move Brasil representam um alinhamento do programa do governo Lula com os interesses da burguesia ao incentivar o endividamento dos trabalhadores. Trata-se, nesse caso particular, do endividamento de uma das parcelas mais exploradas da classe trabalhadora – vale lembrar que a categoria dos trabalhadores de plataforma está sob a remuneração de “trabalho por peça” descrita por Marx, a mais extenuante e exploratória – que conta com uma grande imprevisibilidade da sua renda para quitar as dívidas.
Por isso, nós da bancada anticapitalista defendemos que um programa socialista e que de fato defenda os interesses dos trabalhadores deve atacar a raiz do problema: o sistema capitalista e a propriedade privada que o fundamenta. O que é preciso é parar de pagar a dívida pública e a estatização do sistema bancário sobre controle dos trabalhadores – estatização na medida que ela é “apenas uma expressão jurídica do fato de que a burguesia foi expropriada”, mas o controle do sistema deve estar nas mãos dos trabalhadores, e não de uma burocracia que tenha “o Estado como a sua propriedade privada” (Sáenz, 2026, p.258–263).
Em conjunto com um programa de transição, são necessárias também medidas imediatas que tirem os trabalhadores da condição de servidão por dívida, tais como: proibição de cortes de água e energia às famílias de baixa renda, rumo à universalização gratuita; cancelamento total de dívidas contraídas para alimentação, medicamentos, aluguel, energia, água e outras necessidades fundamentais; suspensão imediata das cobranças para desempregados e famílias sem renda suficiente; construção massiva de habitações populares, creches e restaurantes públicos; controle de aluguéis; estoques públicos e controle popular dos preços dos alimentos essenciais.
Diminuir os juros é, sem dúvida, fundamental, mas é insuficiente e utópico se não for levado em conjunto com um projeto de enfrentamento à burguesia e controle dos trabalhadores sobre a produção. Como vimos, a financeirização e a elevação dos juros mostraram-se como uma necessidade histórica do próprio capitalismo para sobreviver; e a burguesia, como classe dominante deste modo de produção, não largará mão da austeridade:
[..] a burguesia tem opção? E aqui é preciso distinguir analiticamente as pessoas postas socialmente como capitalistas e a própria classe capitalista. É evidente que as primeiras têm opção de se oporem à austeridade – e muitas o fazem até mesmo com prejuízo próprio. Entretanto, enquanto membros da classe, enquanto personificações e suportes do capital, elas estão obrigadas a defender – mesmo apelando à hipocrisia e ao máximo cinismo – o seu quinhão no butim capitalista. E, como se sabe, não deixam de fazê-lo.Entretanto, ao afirmar que a austeridade se impõe à burguesia no capitalismo financeirizado, não se está caindo no economicismo. A política econômica que se estabelece em cada momento está condicionada pelo encontro e pelo conflito de forças políticas diversas. Ela depende das lutas sociais, dos modos com que as classes se põem na luta política, classes estas que se orientam pelas culturas, tradições e circunstâncias históricas vigentes. De qualquer modo, a condenação moral da austeridade não parece ir muito longe como crítica dos rumos do capitalismo contemporâneo. É a sua funcionalidade que precisa ser eliminada. A austeridade não está aí à toa. (Prado, 2021)
Dessa forma, programas como o da “Bancada da Esquerda Radical” (de setores da ala da esquerda do PSOL) mostram-se como fetichistas, à medida em que julgam ser possível uma mudança radical nas formas econômicas por meio do Estado – i.e., sem alterar as relações sociais de produção que estão ocultas por trás das categorias superficiais da economia (juros, inflação, dinheiro etc.). É um programa que coloca o Estado como agente da transformação social, e em que os trabalhadores apenas teriam que esperar pelo trabalho desta burocracia iluminada.
Além disso, vale ressaltar que o programa da “Bancada da Esquerda Radical”[2] nem sequer propõe o fim do pagamento da dívida pública, algo certamente impensável para a ala de economistas de inspiração keynesiana da bancada[3]. O programa também afirma que é preciso “reorganizar juros, crédito, câmbio e capitais”, caindo assim, na velha crença proudhoniana[4] já criticada por Marx:
É dito por socialistas que precisamos do capital, mas não do capitalista. O capital aparece então como pura coisa, não como relação de produção, que, refletida em si mesma, é precisamente o capitalista (Marx, 2011, p. 375).
Ao não defender o calote à dívida dos banqueiros e ao propor uma mera “reorganização” do capital, o manifesto da “Esquerda Radical” mostra que a sua independência de classe é, na verdade, puramente fraseológica.
O problema dos juros e do endividamento não pode ser resolvido com uma canetada nem com um programa que coloque o Estado como sujeito da transformação social. Antes, só pode ser enfrentado de maneira séria por uma transição estrutural na forma de sociedade – isto é, por trabalhadores organizados em organismos de duplo poder, conscientes de um projeto de expropriação dos seus inimigos de classe. Essa tarefa, sem dúvida, não cabe dentro dos limites da institucionalidade burguesa e das suas eleições; mas começa, inevitavelmente, pelo convencimento da maioria da população do projeto da revolução socialista, tarefa urgente e difícil que a Bancada Anticapitalista se propõe a construir coletivamente em conjunto com muitas outras mãos.
Referências bibliográficas
ILAESE. Anuário Estatístico do ILAESE: Trabalho & Exploração 2025/26. São Paulo: Editora Sundermann, 2025.
LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011.
MARX, Karl. O Capital – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013
PRADO, Eleutério F. S. Austeridade: livre opção da burguesia? Economia e Complexidade, 10 mai. 2021. Disponível em: https://eleuterioprado.blog/2021/05/10/austeridade-livre-opcao-da-burguesia/. Acesso em: 5 ago. 2026.
PRADO, Eleutério F. S. Capitalismo no século XXI: ocaso por meio de eventos catastróficos. São Paulo: CEFA Editorial, 2023a.
PRADO, Eleutério F. S. Uma crítica da ideia de financeirização. Economia e Complexidade, 3 set. 2023b. Disponível em: https://eleuterioprado.blog/2023/09/03/uma-critica-da-ideia-de-financeirizacao/. Acesso em: 4 ago. 2026.
SÁENZ, Roberto. O marxismo e a transição socialista. Sâo Paulo: Boitempo, 2026
[1] Disponível em: www.serasa.com.br/imprensa/serasa-comportamento/
[2] Disponível em: bancadaesquerdaradical.com.br/manifesto/
[3] Como David Deccache, economista do MES, apoiador da bancada e um dos principais expoentes da burguesa Teoria Monetária Moderna no Brasil.
[4] Toda a elaboração econômica do manifesto da Bancada da Esquerda Radical é, no fundo, de inspiração proudhoniana. Tópico para outra elaboração.










