Neste domingo (8), o show do intervalo do Super Bowl se transformou em uma verdadeira festa. Com o vencedor do Grammy, Bad Bunny, o estádio vibrou ao ritmo da cultura latina e com uma apresentação explosiva o artista transformou o espetáculo esportivo mais assistido do mundo em uma celebração em espanhol, algo muito significativo no contexto do governo de extrema direita de Trump e das batidas da ICE contra os imigrantes.
Por Milagros Moreno
Uma verdadeira festa latina, repleta de imenso carinho e orgulho por sua terra natal, Porto Rico, marcaram a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, um dos palcos mais cobiçados e vigiados da indústria musical global.
Durante o intervalo do evento esportivo, o artista apresentou um show carregado de símbolos e imagens identitárias, acompanhado por artistas de renome como Lady Gaga e Ricki Martin, que se juntaram ao espetáculo e contribuíram para o desenvolvimento do show sem perder a estética e o simbolismo do mesmo.
A apresentação também contou com a presença do ator chileno Pedro Pascal, da rapper porto-riquenha Young Miko, da rapper de família dominicana Cardi B e da cantora colombiana Karol G, que foram vistas dançando e se divertindo na varanda da já icônica casita do cantor, a qual faz parte do cenário de todos os seus shows e simboliza uma casa tradicional porto-riquenha.
Através de cenários que remetem à memória e à cultura latino-americana, o artista interpretou vários de seus maiores sucessos, como “El apagón” e “NUEVAYoL”, nos quais a cultura porto-riquenha e o orgulho latino-americano ressoaram em cada nota, transformando o espetáculo em muito mais do que um simples show musical.
Uma apresentação disruptiva em tempos de ICE
O Super Bowl e o futebol americano costumam estar relacionados aos setores mais conservadores da sociedade americana, aqueles que acreditam que a cultura “americana” tem um dono, um único idioma (o inglês, é claro) e fronteiras claras. Por isso, o que aconteceu foi um tapa na cara de todos os supremacistas brancos e xenófobos do país. A presença do cantor porto-riquenho teve um impacto cultural que já está sendo comentado em todos os meios de comunicação em nível mundial.
Longe de se limitar a uma exibição apenas de sucessos, o artista utilizou os treze minutos de show para construir uma narrativa da qual muitos pudemos nos sentir parte. Embora não tenha feito um protesto explícito (em comparação com outras apresentações suas), ele construiu uma trama a partir de imagens reconhecíveis para milhões de pessoas que raramente se veem refletidas no centro do imaginário cultural americano. A “casinha”, a barbearia, a cana-de-açúcar e as cadeiras de plástico eram todos objetos cotidianos que, colocados nesse contexto, se transformaram em uma reivindicação cultural.
Outro gesto profundo e contundente foi a presença do espanhol, falado e cantado sem tradução nem concessões. No evento mais assistido da televisão americana, a língua de milhões de migrantes e seus descendentes deixou de ocupar um lugar marginal e passou a ser protagonista.
As aparições de outras artistas e figuras latinas enriqueceram essa mensagem. Por exemplo, destacou-se a presença de Ricky Martin, que não se limitou a acompanhar o espetáculo, mas interpretou trechos de “Lo que le pasó a Hawaii”, uma canção que denuncia o colonialismo e a expulsão das comunidades de seus próprios territórios. Letras como
“querem tirar meu rio, e também a praia, querem meu bairro e que minha avó vá embora”
ressoaram com força em um cenário global, transformando a festa em um canto coletivo de memória, resistência e celebração.
A diversidade de origens — Porto Rico, Colômbia, República Dominicana, Chile — reforçou uma ideia simples, mas poderosa: que os latinos não são um bloco homogêneo, mas uma constelação de histórias, corpos e trajetórias que atravessam a cultura estadunidense há décadas.
Em tempos de discursos que criminalizam a migração e de políticas que reforçam o medo e a exclusão, o show de Bad Bunny se transformou em uma resposta disruptiva do ponto de vista cultural. Ele não confrontou diretamente, mas também não foi inocente. Celebrar o que é próprio, torná-lo visível e massivo, também é uma forma de resistência.
O que mais impactou (e incomodou os setores do movimento MAGA) no show de Bad Bunny não foi o volume, nem a dança, nem mesmo o idioma. O que impactou foi o contexto. Enquanto o governo Trump reforça políticas de perseguição à população migrante, batidas violentas e deportações por cotas nas mãos dos agentes do ICE, o palco mais visível do entretenimento americano foi ocupado por aquilo que se tenta disciplinar: corpos latinos, língua espanhola e orgulho identitário. É nesse contraste que se joga a verdadeira dimensão política do espetáculo.
A reação de Trump não demorou a chegar. Através de sua rede social Truth Social, o presidente americano classificou o espetáculo como “absolutamente terrível” e “um dos piores da história”, garantindo que “não faz sentido” e que representa “uma afronta à grandeza dos Estados Unidos”.
Além disso, ele criticou o fato de Bad Bunny ter interpretado sua apresentação majoritariamente em espanhol, dizendo que “ninguém entende uma palavra” do que ele diz e classificou a dança como “repugnante”, especialmente para as crianças que assistiram. Trump afirmou que o show não representava “os padrões de sucesso, criatividade ou excelência” que ele atribui à cultura estadunidense e o descreveu como um “tapa na cara do país”.
Claramente, para um racista e xenófobo de extrema direita como Trump, um show que contradiz seu discurso, dá visibilidade à cultura latina e evidencia que a América Latina não é seu quintal, mas um conjunto de povos com história, memória e cultura próprias, é algo intolerável. Não é por acaso que ele o tenha qualificado como “repugnante”, pois gera repulsa um show musical disruptivo que questiona seu discurso anti-imigrante.
A reação de Trump revela o cerne de seu projeto político, uma ideia de nação fechada, hierárquica e excludente, onde os latinos só são aceitáveis se forem mão de obra barata para explorar e os países são tratados como territórios de onde se extraem recursos de acordo com os interesses imperialistas dos Estados Unidos.
Para encerrar seu show, Benito pronunciou “God bless America” e passou a nomear um por um os países do continente americano, terminando com um “seguimo’ aquí”, ao lado de uma bola de futebol americano com os dizeres “Together We Are America”. Um gesto que materializa a disputa direta pelo sentido do que é — e de quem é — a ideia de América.
Em um contexto de forte polarização política, onde a violência exercida pelo ICE se intensifica e, ao mesmo tempo, a organização e a solidariedade entre os de baixo crescem, o show de Bad Bunny funcionou como uma intervenção cultural disruptiva que teve impacto na esfera política. Não mudou leis nem impediu batidas policiais, mas colocou em evidência algo que o trumpismo tenta negar: que a América real é diversa, mestiça e multilíngue — e que não aceita voltar à marginalidade.










