Por Victor Artavia
No último dia 16 de novembro, foi realizada o primeiro turno das eleições presidenciais no Chile [1]. Embora o primeiro lugar tenha sido para Jeannette Jara, candidata do Partido Comunista na coalizão Unidad de Chile, quem terminou o dia com um grande sorriso foi José Antonio Kast, do Partido Republicano (extrema direita), que ficou em segundo lugar.
A felicidade do “nazista de Paine”, como é conhecido o republicano, se deve ao fato de que ele “perdeu ganhando”, pois entra como favorito na disputa do segundo turno, em 14 de dezembro, quando enfrentará a candidata do governo, Jara. Ao contrário de sua adversária, Kast tem muito espaço para ampliar sua base eleitoral, pois é certo que somará os votos da direita que teme que uma “comunista” ganhe a presidência do país.
No entanto, a eleição expressou uma guinada à direita e o cenário inicial é muito adverso para Jara, também é verdade que o segundo turno apresenta muitas incógnitas e mediações que tornam imprevisível o resultado, que não pode ser previsto antecipadamente pela simples aritmética eleitoral.
Os números da votação
Vejamos os dados revelados pelas eleições, que apresentam algumas informações interessantes sobre a distribuição dos votos e a configuração do cenário político no futuro.
Como mencionamos anteriormente, Jara venceu a votação geral com 26,8% dos votos, seguida de perto por Kast com 23,9%. Em terceiro lugar ficou Franco Parisi, do Partido da Gente, um populista de direita que obteve 19,7% dos votos (o dobro do que lhe davam as pesquisas), deslocando para o quarto lugar Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário (13,9%). Quanto a Evelyn Matthei, candidata da coalizão de centro-direita Chile Vamos, ela passou de liderar as intenções de voto no início da campanha para ficar em quinto lugar, com 12,5%.

No Congresso, dos 155 assentos da Câmara dos Deputados, a direita (Kast, Kaiser e Matthei) conquistou 76 dos 155 assentos, enquanto no Senado obteve metade dos assentos. Apesar desse avanço global, é importante observar que a direita tradicional agrupada no Chile Vamos perdeu presença diante do avanço da extrema direita, passando de 12 para 5 cadeiras no Senado e de 52 para 23 na Câmara dos Deputados.
Quanto à esquerda institucional e à centro-esquerda, perderam o domínio que tinham na Câmara dos Deputados desde o retorno à democracia. Na próxima legislatura, contarão com apenas 40% dos assentos.
Do ponto de vista geográfico, os resultados sugerem que o país se dividiu em três faixas eleitorais. No norte minerador (regiões de Antofagasta, Atacama, Arica, Tarapacá), a vitória foi de Parisi, cuja campanha populista cativou um setor do eleitorado desencantado com a política tradicional, muito suscetível aos problemas de insegurança (associados pela direita ao aumento da migração) e que ressente o abandono do Estado. O eixo central e o sul agrícola, onde o eleitorado conservador, evangélico e ruralista tem muito peso, foi o “cinturão conservador” em que Kast se impôs com mais de 30% dos votos.
Por fim, a região metropolitana (que inclui Santiago), Valparaíso e a parte urbana do sul foram os bastiões onde Jeannette Jara se impôs. Na capital, por exemplo, ela obteve mais de 30% dos votos, pois conectou-se com um eleitorado mais politizado e crítico. Por outro lado, é um dado chamativo que a “esquerda” institucional tenha tido um péssimo desempenho nas comunas de menor renda, nas quais sua votação foi em média de 19%, enquanto melhorou sua votação nos setores que tinham melhor nível socioeconômico.
As perspectivas e as incógnitas para o segundo turno
À primeira vista, a matemática eleitoral indica que os candidatos da direita somaram 50,3% dos votos expressos no primeiro turno. Por esse motivo, Kast surge como o favorito para o segundo turno, pois pode potencialmente reunir os votos de toda a direita. De fato, na mesma noite de 16 de novembro, após o anúncio dos resultados, a direita encenou uma “reunificação” com a presença de Kaiser e Matthei no ato do Comando Republicano, no qual confirmaram seu apoio a Kast para o segundo turno.
A esse respeito, observemos que, no Chile, a direita tradicional mantém laços históricos e orgânicos com o pinochetismo. Por esse motivo, a reivindicação da ditadura (tácita ou explícita) é um ponto de encontro com os setores mais radicais e, ao contrário do que acontece em grande parte da Europa, não se pratica um “cordão sanitário” para frear a extrema direita.

Por outro lado, Parisi surge como uma grande incógnita para o segundo turno, pois ainda não declarou seu apoio a nenhum dos dois candidatos e, portanto, ninguém pode prever qual candidato será favorecido por seus eleitores que, como apontamos anteriormente, representaram 19,7% dos votos.
Nas eleições de 2021, Parisi não apoiou nem Boric nem Kast, embora pesquisas de opinião tenham revelado que a maioria de seus eleitores optou pelo atual presidente. Desta vez, não se sabe se ele mudará sua tática, já que agora o voto é obrigatório. Até o momento, ele se limitou a declarar que Jara e Kast precisam conquistar os votos de sua base eleitoral. Ele é um candidato bastante imprevisível, algo típico de um populista de direita que se define de forma negativa: “Nem fascista nem comunista”.
Para Jara, é vital conquistar a maioria dos eleitores de Parisi, pois é a única forma de contrariar parcialmente o voto unificado da direita em torno de Kast. Além disso, ela precisa conquistar o setor mais moderado que votou em Matthei, que não aceita facilmente apoiar um extremista de direita como Kast. Por isso, tudo indica que ela vai se voltar para o “centro”, o que já é muito dizer para uma candidata que, embora se apresente como “progressista” e seja militante do Partido Comunista, até mesmo uma revista reformista como a Jacobin caracteriza que ela não fez uma campanha de esquerda.
Por fim, é importante acrescentar que outros fatores de mediação internacional podem ter peso. Por exemplo, nas eleições da Bolívia, o candidato de centro-direita, Rodrigo Paz, venceu, e a candidatura de extrema direita de Tuto Quiroga sofreu uma derrota inesperada, embora as pesquisas o colocassem como favorito para o segundo turno. Além disso, podemos acrescentar que Lula está em uma situação melhor atualmente, assim como a vitória de Zohran Mamdani em Nova York teve um grande impacto.
Dessa forma, embora o cenário para o segundo turno das eleições de 14 de dezembro pareça muito favorável a Kast, a realidade é mais complexa do que parece à primeira vista. Colocamos esses elementos para ver o panorama mais global e não incorrer em um simples exercício de aritmética eleitoral, ou seja, a soma mecânica das porcentagens obtidas pelos candidatos da direita e da extrema direita.
Por que a campanha girou tanto para a direita?
Em 2019, o Chile foi palco de uma impressionante rebelião popular, que questionou abertamente o regime político e econômico neoliberal imposto após o fim acordado da ditadura e a transição para a democracia burguesa. “Não são trinta pesos, são trinta anos”, foi o grito dos manifestantes durante os dias icônicos na Plaza Italia, em Santiago.

Agora, em 2025, o país foi palco de uma campanha totalmente voltada para a direita, na qual dois candidatos de extrema direita (Kast e Kaiser) somaram 37,8% dos votos e, além disso, marcaram a agenda política com suas propostas repressivas para “resolver” os problemas de insegurança e agitaram discursos abertamente xenófobos contra os migrantes.
Como se explica essa reviravolta de 180 graus na situação política do país? A nosso ver, ela obedece a uma conjunção de vários fatores mediatos e imediatos.
Comecemos por salientar que foi muito importante a derrota do processo constituinte, uma operação na qual o atual governo teve uma enorme responsabilidade. Boric foi eleito para liderar o processo de mudança constitucional, mas durante todo o seu mandato foi cúmplice das manobras da direita para congelar a rebelião e desgastar o processo constituinte numa série interminável de votações que acabaram por beneficiar a direita [2].
Por esse motivo, Boric entregará o governo deixando intacta a Carta Magna da ditadura, demonstrando o fracasso da “esquerda” reformista chilena em derrotar a herança de Pinochet e enfrentar seus novos representantes da extrema direita. Apesar de o governo ter realizado algumas reformas progressistas de baixa intensidade, ele não reverteu as relações de força do regime dos “trinta anos” pós-ditadura.

Nesse cenário, é compreensível que uma parte do eleitorado veja nas candidaturas da extrema direita uma “alternativa”, pois são as únicas que se apresentam com um discurso disruptivo que promete mudar o estado atual das coisas. É uma saída falsa, pois a extrema direita não questiona o capitalismo que origina a desigualdade social que aflige as massas exploradas chilenas. Mas, dado o fiasco que foi a experiência “progressista” de Boric e a derrota da rebelião, a “mudança” prometida por Kast é tentadora para os setores da população que, com razão, estão desencantados com suas condições de vida.
Por esse motivo, a extrema direita conseguiu ditar o ritmo da campanha eleitoral, instalando os debates e obrigando os demais partidos a se posicionarem à direita. Isso ocorreu com o tema da insegurança que, de forma oportunista e reacionária, a extrema direita explorou como a causa dos problemas do país (em particular da insegurança cidadã), ocultando assim as raízes dos problemas sociais nas profundas desigualdades sociais que atravessam a sociedade chilena. Da mesma forma, é indubitável que isso está em sintonia com a agenda imposta por Trump, da qual se alimenta a extrema direita a nível internacional.
O mais grave é que a xenofobia não foi exclusiva da extrema direita. Além de o governo de Boric ter adotado posições repressivas contra a migração ao longo de seu mandato, também tiveram grande repercussão as declarações repugnantes do deputado socialista Daniel Manouchehri, que em um debate na Câmara dos Deputados sobre as multas ao voto obrigatório afirmou, referindo-se à Venezuela, que os da direita “querem transformar o Chile em Chilezuela. Querem que o debate presidencial do Chile seja sobre o que acontece em uma ilha no Caribe. Não queremos que nossa política seja de arepa e rum”.
Por outro lado, de acordo com um estudo do Painel Cidadão UDD realizado em maio passado, 70% dos migrantes residentes no país declararam-se simpatizantes das candidaturas da extrema direita e da direita, apesar de terem sido eles que promoveram com mais insistência os ataques contra a migração. Excluindo aqueles que declararam que votariam em branco e aqueles que afirmaram não saber em quem votariam, a preferência de voto se distribuía da seguinte forma: Kast liderava a intenção de voto com 37,8%, seguido por Matthei com 32,2% e, por último, Kaiser com 15,4%.
Uma possível explicação é a “solidariedade” expressa pela direita com os migrantes venezuelanos, em particular durante o governo de Piñera, durante o qual se promoveu o acolhimento de migrantes provenientes desse país para usá-los como argumento contra o governo de Maduro. Além disso, a população migrante venezuelana tende a se posicionar à direita, uma vez que associa o socialismo e a esquerda ao desastre social e autoritário do regime chavista.
Por último, um aspecto de enorme importância foi a restauração do voto obrigatório. Esta foi uma manobra da direita que, no âmbito do processo constituinte, pressionou para que fosse instituída a obrigatoriedade do voto e a imposição de pesadas multas econômicas para aqueles que não comparecessem às urnas. O governo de Boric foi cúmplice disso, pois apoiou a medida alegando que o voto obrigatório era uma medida para “enfrentar a espiral de abstenção que silencia a voz dos mais jovens e dos mais pobres”.
Dessa forma, garantiu uma representação excessiva dos segmentos conservadores e despolitizados da população nos processos eleitorais, algo que ficou demonstrado no primeiro turno, no qual se calcula que votou 85% do eleitorado. Para se ter uma comparação, em 2021, quando o voto era voluntário, menos da metade do eleitorado compareceu (47%).
Isso beneficiou Kast, porque o voto do interior (que geralmente é mais conservador) optou por apoiá-lo contra a “comunista” Jeannette Jara.
[1] Para a elaboração deste artigo, nos baseamos em muitas das reflexões compartilhadas por MG, correspondente da Izquierda Web no Chile, que publicamos no artigo Chile: una campaña polarizada y con el avance de la extrema derecha.
[2] Para aprofundar sobre a armadilha da Convenção Constituinte, recomendamos a leitura do artigo Chile: llamamos a votar “en contra” en el plebiscito constitucional











[…] Eleições presidenciais no Chile: uma votação à direita por Victor Artavia […]