por Martin Camacho e Maria Cordeiro
A COP30, realizada na Amazônia, escancarou aquilo que nós denunciamos há muito tempo: a política climática global não tem como cumprir suas próprias metas porque está construída sobre a mesma base material que produz a crise. A conferência, vendida como marco histórico para reafirmar o Acordo de Paris, acabou mostrando seu esgotamento definitivo. A própria cientista-chefe do evento reconheceu que o mundo não sabe mais como impedir a superação do limite de 1,5 °C, e que as tecnologias necessárias para reverter o aquecimento não existem na escala requerida.
Esse diagnóstico encontra respaldo científico. Em 2024, a concentração de CO₂ na atmosfera atingiu 422,8 ppm, o nível mais alto dos últimos 800 mil anos. O consumo global de energia continua esmagadoramente fóssil: mais de 80% da energia primária do planeta ainda vem de petróleo, gás e carvão, segundo dados consolidados de 2023. E mais grave: entre 2017 e 2024, o uso global de combustíveis fósseis aumentou: cresceu cerca de 7%, com destaque para o gás natural, que subiu mais de 13% no mesmo período.
Enquanto isso, a demanda global de energia em 2024 cresceu 2,2%, acima da média da década, e todas as fontes — inclusive o carvão — cresceram juntas. Essa é a prova empírica de que a transição energética não está para nada em andamento; ao contrário, ela está sendo engolida pelo aumento estrutural da demanda global por energia dentro de um capitalismo cada vez mais voraz e descontrolado que coloca a relação metabólica entre humanidade e natureza em níveis inéditos de desequilíbrio.
É nesse contexto que o Acordo de Paris se converte em completa ficção operacional. Suas metas dependem de cortes radicais e imediatos nas emissões, mas as próprias estatísticas globais mostram que estamos indo na direção oposta. Por exemplo, mesmo que todos os países passassem a cumprir integralmente suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) atuais, a trajetória do planeta aponta para 2,5 °C a 3 °C de aquecimento até o fim do século: um cenário incompatível com a sobrevivência de múltiplos ecossistemas e sociedades humanas inteiras.
A COP30 explicitou essa contradição ao mesmo tempo em que aprofundou o abismo entre discurso e prática, sobretudo do governo Lula. O Brasil, enquanto sede da conferência, autorizou a Petrobras a explorar petróleo na Margem Equatorial, após cinco anos de impasse. Essa posição é um enquadramento perfeito do descontrole climático global ao qual a esquerda da ordem contribui: Lula apresenta a Amazônia como capital mundial da transição energética, enquanto se abre ali mesmo uma nova fronteira petrolífera. Com uma mão, o lulismo oferece à comunidade internacional a imagem de um país ambientalmente responsável; com a outra, abre caminho para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins por meio do decreto 12.600 assinado pelo próprio presidente, aprofundando o projeto de financeirização e mercantilização das águas.
Assim sendo, não se trata de contradição pontual, mas estrutural. Como afirmou a própria ministra Marina Silva, nenhum país consegue escapar das “contradições da transição energética”. Isso porque, abandonar radicalmente os combustíveis fósseis causaria um colapso não do clima, mas do modo de produção capitalista, cuja base material depende de energia fóssil barata e abundante. Essa afirmação, ainda que moderada, revela o que raramente se pronuncia nos palcos oficiais: não há transição energética possível sem ruptura com a (des)sociabilidade do capital.
É diante dessa impossibilidade estrutural que o capitalismo verde emerge como narrativa dominante. Mercados de carbono, compensações, cadeias produtivas sustentáveis, créditos florestais e bioeconomia amazônica foram apresentados na COP30 como supostas soluções. Mas todos esses mecanismos operam dentro da mesma racionalidade extrativista que produziu a crise em que estamos.
Os dados científicos também desmontam essa narrativa. A maior parte das emissões globais vem de setores intrinsecamente conectados ao capitalismo industrial: produção de eletricidade e calor (34% das emissões globais), indústria pesada (24%), transporte (15%). Nenhum desses setores está diminuindo sua dependência fóssil na escala necessária. Isso confirma que medidas de mercado não alteram a matriz energética global, mas apenas a rentabilizam.
A performatividade da COP30 reforçou essa leitura. A precariedade da infraestrutura — como a falta de água em banheiros — contrastou com o luxo dos transatlânticos contratados para hospedagem e com a presença de celebridades ambientais, revelando um evento mais preocupado exclusivamente com uma imagem a ser construída. Não é desorganização; é a estética própria das COPs: espaços que projetam a aparência de governança enquanto preservam os interesses das corporações e dos países imperialistas.
A COP30 não falhou por acaso. Ela fracassou porque cumpre exatamente a função que lhe cabe no capitalismo global: administrar expectativas, produzir legitimidade simbólica, conter pressões sociais e evitar a única solução real – uma saída anticapitalista.
O capitalismo é estruturalmente incompatível com os limites planetários – assim como também o foi a experiência pós-capitalista de acumulação burocrática do stalinismo. Falar em transição energética e em equilíbrio metabólico entre humanidade e natureza dentro dos marcos do capitalismo nada mais é do que uma utopia reacionária, como se fosse possível administrar a barbárie: o planeta aquece porque o sistema capitalista exige que ele aqueça.
O que está em falência não é a COP30, é o próprio modelo que tenta administrá-la.











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