Já Basta! – Juventude Anticapitalista

A Universidade de São Paulo esteve mais uma vez envolta nas eleições de sua principal entidade estudantil, o DCE Livre da USP Alexandre Vannucchi Leme. Trata-se de uma disputa importante para envolver a comunidade nos debates políticos e programáticos e apontar as perspectivas de luta do movimento estudantil no próximo período.

Após três dias de urnas abertas, os resultados foram conhecidos pela base uspiana: na dianteira, a frente adaptada e semindependente de recondução da última gestão (Correnteza/UP, UJC/PCBR, Juntos/MES-PSOL, Rebeldia/PSTU e Vamos à Luta/CST), que obteve pouco mais de 4 mil votos (67%). Em segundo lugar, o pífio resultado do campo lulista (Juventudes do PT, UJS/PCdoB, Levante Popular e Juventude Sem Medo do PSOL), que conquistou cerca de 1,4 mil votos (23%), consolidando mais um prego no caixão do petismo na universidade. Logrando uma importante vitória política, a frente da esquerda independente Intifada (Já Basta!/SoB, Faísca/MRT) terminou em terceiro lugar com 501 votos (8%), ampliando sua votação e alcançando resultados expressivos nos principais centros da vida política universitária: Letras (175 votos) e o Vão da Geografia e História (182 votos).

Fazendo as contas nas pontas dos dedos, o leitor logo percebe um elemento intransponível que permeou todo o processo: a baixa participação estudantil. O quórum final da eleição totalizou pouco mais de 6 mil votantes, uma redução de cerca de 30% em comparação com a eleição de 2024, quando aproximadamente 8,8 mil estudantes foram às urnas. Sintoma da política rotineira que as direções do movimento estudantil levam adiante no cotidiano da organização, essa prática se expressa também no processo eleitoral que, muito além da disputa pelo aparato, deveria servir para debater os rumos do movimento, avaliar nossas direções, refletir sobre nossas lutas e organizar a base para avançar em nossas pautas.

Este cenário refletiu-se na votação das chapas. A chapa do campo majoritário foi, sem dúvidas, a maior derrotada. Perdeu mais da metade dos votos obtidos na última eleição da entidade e angariou cerca de 40% a menos do que conquistou na eleição para o CONUNE em junho. A chapa reeleita tampouco teve vida fácil: mesmo acoplando novas organizações em sua ampla coalizão, não decolou em votos — pelo contrário, perdeu eleitores em comparação com o pleito anterior. Remando contra a maré da despolitização, a Chapa 2 – Intifada foi o único setor que ampliou sua votação, crescendo em mais de 100 votos e praticamente dobrando sua presença no prédio de História e Geografia. Trata-se de uma demonstração fundamental da reserva de mobilização que hoje existe na vanguarda universitária, que enxerga no movimento estudantil uma ponta de lança para derrotar a extrema-direita de Bolsonaro e Tarcísio, enfrentar o imperialismo e arrancar, com a força da luta, uma universidade anticapitalista.

Construindo a Chapa 2 – Intifada, apresentamos uma alternativa independente das reitorias, dos governos e das burocracias, apostando na organização do movimento estudantil na luta pela prisão de Bolsonaro e de todos os golpistas, rompendo de vez com o histórico ciclo de anistia do país. Inspiramo-nos nos estudantes argentinos que saem às ruas e triunfam contra Milei, bem como na juventude nepalesa que incendeia uma rebelião contra a repressão e a desigualdade social. Também acreditamos que a luta estudantil deve ser uma aliada permanente dos trabalhadores na batalha contra a precarização do trabalho que condena a juventude à escravidão moderna dos aplicativos e à terceirização. Por isso, impulsionamos o primeiro curso do Brasil para trabalhadores por plataforma na Faculdade de Direito da USP, com aulas ministradas por intelectuais como Ricardo Antunes, Jorge Luis Souto Maior, Plínio de Arruda Sampaio Jr., Renata Dutra e Valdete Severo.

 

O que isso quer dizer?

Como síntese do processo, algumas tendências se decantam após o acúmulo dos debates na base:

1. O completo fracasso das direções burocráticas do campo majoritário, aquelas que atuam como barreira de contenção da luta a serviço do governo Lula-Alckmin. Como lanterna, o setor majoritário do PSOL, sobretudo o Afronte/Resistência, que embarcou de mala e cuia no lulismo e amargou uma grande derrota. Esse resultado é reflexo do próprio fracasso do lulismo e do frentismo para enfrentar a extrema-direita, barrar a anistia e avançar em nossas lutas, como o fim da escala 6×1 e a revogação das contrarreformas. A aliança com a classe dominante e seu principal representante, o Centrão, não só garante ataques como o Arcabouço Fiscal, mas também decisivos votos da bancada da base aliada e do PT para aprovar a PEC da Blindagem.

 

2. A insuficiência política da atual gestão, capitaneada por Correnteza/UP e Juntos/MES, é evidente. Essa frente, desde sua vitória sobre o petismo em 2022, já assumiu várias roupagens para se manter à frente da direção do aparato. Desde sua direção vacilante e inconsequente da greve de 2023 — avaliação que também compartilhamos com seus novos associados do Rebeldia/PSTU — a gestão minou os espaços de organização de base, como as assembleias gerais, e submeteu o caldo de luta que havia em defesa das cotas trans e da democratização do acesso à universidade às eternas promessas da reitoria. Na prática, a gestão atua como barreira de contenção do desenvolvimento das lutas na universidade e na esfera política de nosso tempo. Em vez de construir uma eleição pautada na organização dos estudantes para derrotar Tarcísio, que escolherá a nova reitoria da USP este semestre, a gestão conduziu um processo eleitoral ordinário com apenas um único debate entre as chapas — que ainda contou com a vergonhosa ausência da Chapa 3 petista.

Tal insuficiência também se expressa em seu principal setor, o estalinismo frentepopulista da UP, sobretudo em sua colaboração com o governo Lula-Alckmin e as burocracias lulistas. Esse setor aposta em disputar o governo “pela esquerda”, e por isso se nega a construir uma oposição consequente, compondo chapas com CUT e CTB em diversos sindicatos. Essa herança é histórica: a aposta do assim chamado “marxismo-leninismo”, mais conhecido como estalinismo, em frentes populares com o reformismo e com a burguesia, como sua inserção em partidos como o MDB durante a ditadura e, mais recentemente, no PDT, partido de centro-esquerda da ordem.¹ Essa orientação mina a independência de classe dos trabalhadores frente aos governos burgueses das mais diversas matizes, impedindo o enfrentamento radical da extrema-direita por meio de uma alternativa anticapitalista e independente.

Por isso, caracterizamos  a posição des compas do Rebeldia/PSTU, que compartilham conosco a tradição marxista revolucionária, uma capitulação a composição neste campo e a negativa da construção de uma frente da esquerda independente para enfrentar a extrema direta, o imperialismo e os ataques do governo Lula-Alckmin.²

 

3. É preciso refundar o movimento estudantil! O mundo em combustão que nos cerca e o grave cenário de ataques exigem que as direções rompam com o rotineirismo e o imobilismo. Para ser linha de frente das lutas, o movimento estudantil precisa resgatar seu legado de mobilização e fortalecê-lo como instrumento da auto-organização dos estudantes, tomando as ruas para esmagar a anistia e arrancar a prisão imediata de Bolsonaro e seus comparsas golpistas.

Por isso, também é necessário abandonar o sectarismo que se recusa à unidade de ação nas ruas para golpear nossos inimigos da extrema-direita e do imperialismo — limite presente, por exemplo, na política des compas da Faísca Revolucionária/MRT que, de maneira inconsequente e sectária, não sairam as ruas no domingo 21/09.

É preciso apostar na organização pela base, com assembleias gerais, plenárias em unidade entre os três setores e a construção de um Congresso dos Estudantes da USP. A mobilização de base, ao lado das demais categorias, é o que garantirá que nossa batalha avance em defesa da democratização da universidade, com cotas trans e para PCDs, além do vestibular indígena; por políticas de permanência que estabeleçam um piso de um salário mínimo paulista para os auxílios e despejo zero no CRUSP; pela revogação do Teto de Gastos da USP, com contratação de professores e funcionários e a retomada do gatilho automático. Lutamos por uma universidade pública, laica e democrática, a serviço dos trabalhadores e dos de baixo.

Agradecemos a cada estudante que acreditou na Chapa 2 – Intifada e depositou seu voto e apoio em nossa proposta de uma alternativa independente, combativa e anticapitalista. Esse resultado não é apenas um número, mas a expressão viva da força para construir uma universidade anticapitalista. É com essa energia que seguimos firmes, chamando todas, todes e todos a se organizarem junto à Juventude Já Basta!, fortalecendo nossa militância cotidiana e ampliando a voz daqueles que não aceitam o imobilismo. Unidos, faremos da USP e das ruas um espaço de resistência e avanço para uma nova geração da luta de classes.

 

Notas: 

  1. O estalinismo pouco se referencia em Lênin e quase nada em Marx. “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, escreveu Karl Marx na Crítica ao Programa de Gotha (1891), em debate com a social-democracia e Lassalle, que apostavam em um programa mínimo e de “transição gradual ao socialismo” na Alemanha. Outro exemplo foi a estratégia etapista da 3ª Internacional, sob a direção estalinista, que defendia apoio e composição, nos países periféricos e semicoloniais, em governos e frentes com setores da burguesia nacional para desenvolver o capitalismo e postergar a revolução para um futuro incerto.
  2. Também lamentamos a postura do Rebeldia à frente do CAELL e abrimos um debate democrático quanto ao aparelhamento eleitoral das entidades. Como uma entidade eleita para representar a totalidade da base estudantil, não pode emitir apoios eleitorais a qualquer chapa. A instrumentalização eleitoral das entidades é uma prática burocrática comum, que também ocorreu na FEA com a gestão do CAVC (Centro Acadêmico Visconde de Cairu), dirigida pelo PT, em apoio à Chapa 3.