Por Marcelo Yunes
1.1 Xi assume o controle total… até quando?
A renovação do mandato de Xi Jinping como presidente da China e líder do Partido Comunista Chinês (PCCh) rompeu com a regra não escrita de um máximo de dois mandatos, que havia sido cumprida de maneira aproximada por Jiang Zemin (1993-2003, mas ele era líder do PCCh desde 1989) e mais estritamente por Hu Jintao (2003-2013). Essa ruptura, no entanto, não representou qualquer surpresa: há anos Xi vinha preparando o terreno para quebrar essa tradição, que nem era tão longa assim.
Na prática, isso implica a consolidação de uma tendência que já se entrevia: o fim do critério de “liderança coletiva” estabelecido por Deng Xiaoping nos anos 1980, cujo objetivo era evitar a concentração de poder pessoal excessivo nas mãos de um “grande timoneiro”. É por essa razão que a maioria dos analistas coincide em apontar que a consagração desse terceiro mandato e, sobretudo, a perspectiva de que o caminho fica aberto para outros mais – o que converteria Xi praticamente em líder vitalício do país – fazem de Xi o homem mais poderoso da China desde a época de Mao Tsé-Tung, o fundador da República Popular da China após a revolução de 1949.
Embora se esperasse uma conformação do Comitê Central (376 membros), do poderoso Politburo (24 membros) e do núcleo da direção, o Comitê Permanente de sete pessoas, incluindo Xi, que refletisse um novo “equilíbrio de poder” dentro do partido, surpreendeu a quantidade de cargos importantes atribuídos a homens (todos do sexo masculino) com longa trajetória comum e de plena confiança pessoal de Xi. Para a revista The Economist (agora em diante TE), “o mais chamativo foi que tantos dos homens que o acompanharam [ao apresentar-se o novo Comitê Permanente] fossem claramente gente sua. Suas conexões com Xi datam de muito antes de ele se converter em líder máximo do partido há dez anos. No passado havia ao menos uma aparência de equilíbrio, com membros que representavam uma diversidade de redes pessoais. Agora não mais” (“The people’s leader’s people”, TE 9319, 29-10-22). [1]
O marxista francês Pierre Rousset, vinculado ao Secretariado Unificado da IV Internacional mandelista e com reconhecida especialização na realidade chinesa há décadas, também sustenta que não se trata de uma renovação a mais: “O Comitê Permanente do Burô Político, composto por sete membros, é o núcleo do poder no PCCh. Tradicionalmente, incluía um mínimo de pluralismo das diversas facções. (…) Xi quer marginalizar a administração que Li encarnou (outra contrarreforma) no governo do país. (…) Embora até agora a preeminência do partido estivesse sempre assegurada, a pluralidade de centros de autoridade deu flexibilidade ao sistema e permitiu à população dirigir-se a mais de um interlocutor. A partir de agora, a autoridade do partido deve ser exclusiva”. E Rousset chega inclusive a considerar o XX Congresso como “um ponto de inflexão: completou-se a ruptura anunciada com a ordem política estabelecida no final da década de 1980-1990 sob a égide de Deng Xiaoping. Xi Jinping outorgou a si mesmo um poder pessoal sem precedentes na história da China contemporânea” (“XX Congresso do PC Chinês: o ponto de inflexão”, europe-solidaire.org, 24-10-22).

O fato de Xi ter conseguido romper com esse acordo é uma clara demonstração do fortalecimento de sua liderança no interior do partido.
Rousset cita com aprovação outra voz autorizada para a análise marxista da China, o hongconguês Au Loong Yu, para concluir (antes mesmo do XX Congresso!) que Xi Jinping “impôs uma mudança de regime político”. Em que sentido? No de que “já não é o PCCh histórico quem governa o país. É a camarilha de Xi Jinping. (…) Ontem, uma direção colegiada permitia preparar a sucessão das gerações à frente do partido, fator de estabilidade. Hoje, somente a facção de Xi Jinping controla os distintos poderes. Após sangrentas purgas e a modificação da Constituição, pretende liderar por toda a vida” (P. Rousset, “China: O surgimento de um novo imperialismo”, Europe Solidaire Sans Frontières, 13-11-2021).
Tão brutal é o critério de homogeneidade nas máximas instâncias diretivas que, por mais que os “especialistas” buscassem, não encontraram sinais externos do menor dissenso nas sessões do Congresso – totalmente formais – ou nas semanas prévias. [2] Tanta unanimidade – obviamente forçada – levou alguns analistas a questionar um clássico da “sinologia” – disciplina parente próxima da “sovietologia” na época da Guerra Fria –, a identificação e caracterização das alas internas do PCCh. Assim, Joseph Torigian, da American University de Washington, chega a sustentar que “a ideia de facções em competição foi extremamente exagerada” e que inclusive o primeiro-ministro cessante, Li Keqiang – alguém visto como certo contrapeso “pró-mercado” a Xi – “já era um submisso” (yes-man, alguém que sempre obedece a seus superiores) (TE 9319, idem).
Sucede que o critério de seleção número um para a integração do Politburo e do Executivo não foi, como vimos, a capacidade política, intelectual ou técnica, mas a mais incondicional lealdade a Xi. É o caso do prefeito de Xangai, Li Qiang. As fortes críticas internas e externas que havia recebido por seus problemas – mais precisamente, incompetência – no manejo da pandemia, incluindo o isolamento a que se submeteu aquela imensa cidade durante meses, pesaram muito menos que sua disposição de respeitar a política de “covid zero” implementada por Xi.
Os nomes mais ligados ou próximos da ideia de dar mais jogo às forças de mercado, nos quais vários analistas ocidentais depositavam expectativas, foram removidos do Politburo e alguns inclusive do Comitê Central. É o caso de Wang Yang (67 anos), destituído apesar de ser presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (órgão que permite intercâmbios informais); segundo Rousset, “considerava-se que ele era demasiadamente liberal no terreno econômico” (“XX Congresso…”, cit.).
Essa decepção manifestou-se na reação negativa dos “mercados” financeiros ao conhecer-se a composição do Politburo: os investidores faziam fila para desfazer-se de suas posições em companhias chinesas. O índice Hang Seng de Hong Kong despencou 6% em um dia, e o índice Golden Dragon, que agrupa companhias chinesas incluídas no índice tecnológico Nasdaq, como Alibaba e Baidu, caiu quase 20%, para níveis prévios à assunção de Xi Jinping. O yuan caiu para 7,23 por dólar, uma desvalorização de 14% no acumulado do ano, no seu nível mais baixo desde 2007.
Certas comparações alarmam o Ocidente. Por exemplo: “quando desabaram os mercados financeiros da China em março deste ano, os investidores foram tranquilizados pelas reconfortantes palavras de Liu He, membro do Politburo e uma autoridade econômica respeitada. Ninguém de seu calibre poderia pronunciar essas palavras hoje. Os níveis superiores do PCCh carecem agora de dirigentes cuja formação e experiência possam colocar freios aos instintos econômicos de Xi” (“The fleeing committee”, TE 9319, 29-10-22). [3]
Esses “instintos” são vistos essencialmente como estatizantes e orientados a um maior controle do partido, mas não como “anticapitalistas”. Uma análise anterior ao Congresso, da imprensa de negócios Bloomberg, descartava os temores dos investidores sobre uma “segunda Revolução Cultural” – em referência à iniciativa de Mao nos anos 1960 – e a ideia de uma hostilidade fundamental de Xi à classe capitalista: “As evidências (…) sugerem que, em matéria econômica, Xi não é Mao, no sentido de que quer redirecionar as energias dos empresários, não eliminá-los como classe (…). Tampouco Xi abraça completamente o igualitarismo de Mao. Em matéria de bem-estar, seus principais lugares-tenentes estão mais próximos dos neoliberais do que dos socialistas; em sua opinião, esmolas aos pobres apenas promovem a indolência” (www.bloomberg.com, 4-9-21).
Se, a partir dos centros capitalistas, não se vê Xi como um novo Mao, nem seu giro atual como um retorno aos tempos agitados da Revolução Cultural, o olhar dos marxistas mais conhecedores do assunto não é muito diferente. Au Loong Yu explica assim as diferenças: “Enquanto Mao tinha carisma, Xi é apenas um anão, (…) é simplesmente o chefe da burocracia estatal sem imaginação. (…) Essa enorme diferença de talento e temperamento também revela uma grande brecha em suas respectivas ações. Se Mao confiava, quando chamou os jovens a fazer uma ‘revolução’ em seu próprio partido na segunda metade da década de 1960, que esta não se voltaria contra ele, Xi jamais se atreveria a tentar tal manobra. O aparato estatal é a única força com a qual Xi se sente confortável. A última coisa que ele quer são manifestações nas ruas. Com esse marcado contraste, qualquer comparação entre a política de Xi e a Revolução Cultural de Mao parece absurda” (“A China de Xi Jinping: reação, não revolução”, sinpermiso.info, 1-10-21).
Entretanto, o caráter conservador e temeroso de Xi diante das eventualidades de desordem interna converte-se em audácia e determinação quando se trata da projeção internacional da China. Nesse tema, a mensagem central de Xi ao partido foi preparar-se para enfrentar o desafio estratégico de um equilíbrio de poder em estado dinâmico, cujas oportunidades o país deve aproveitar. Em uma palavra, disputar a hegemonia dos EUA na ordem mundial e, em certo sentido, a própria estrutura dessa ordem. Desde já, as formas foram muito mais rebuscadas do que essa afirmação taxativa. Houve um delicado equilíbrio entre afirmar as capacidades do país, por um lado, e, por outro, advertir sobre os obstáculos apresentados por um “ambiente hostil”, que aludia – sem nomeá-lo – aos EUA.
Os eixos temáticos e ideológicos ficaram enunciados com toda clareza e mostram tanto continuidades como mudanças mais ou menos sutis em relação ao congresso anterior. No plano local, a grande novidade da pandemia e suas consequências só deixou espaço para a reivindicação cerrada da política de covid zero, sem qualquer referência às contradições econômicas e incômodos sociais que ela gera. Mas, como assinalamos, o maior peso do informe e das deliberações recaiu sobre as prioridades vinculadas às aspirações da China na arena internacional. Ali, e ao contrário de outros anos em que se sublinhava o papel “construtivo” e “estabilizador” da China como ator da globalização – sem faltar à verdade –, o acento esteve na crescente autossuficiência e na necessidade de liderar a inovação em tecnologia digital. Nas palavras do próprio Xi, “devemos aderir à ciência e à tecnologia como a força produtiva número um, ao talento como o recurso número um, à inovação como a força motriz número um”.
Algo muito oportuno no contexto da ofensiva ianque para bloquear, isolar e prejudicar o quanto possível o desenvolvimento chinês nesse terreno. Embora não seja seu estilo expô-lo nesses termos, de fato o informe de Xi pode ser interpretado também como uma promessa de resistência à escalada anti-China dos EUA, que se torna explícita com o boicote tecnológico ianque que trataremos mais adiante.
A chave mestra que Xi propõe tanto para o progresso econômico interno como para abordar o desafio de competir pela hegemonia global com os EUA é a mesma: o fortalecimento renovado do controle do partido em todas as ordens, desde as decisões econômicas (em geral em detrimento do mercado) às prioridades políticas e à vida social. A vida partidária e a vida política são virtualmente a mesma coisa e reduzem-se a defender e implementar as políticas do PCCh, sem sequer sonhar com o menor questionamento. No plano interno, a ideia-chave, ontem como hoje, é fortalecer o papel condutor do partido para garantir dois imperativos: estabilidade e prosperidade. Nessa ordem.
Com efeito, como assinalamos em ocasiões anteriores, não há absolutamente nenhuma obsessão maior em Xi e na elite que o acompanha do que a ideia de perder o controle das coisas, seja na economia interna, seja na situação social, ou em ambas. Por mais importante que seja para Xi a projeção internacional da China na ordem global, a prioridade absoluta é sempre que nada escape ao partido: “O maior erro que os observadores cometeram foi subestimar até que ponto Xi era governado pelo temor de um colapso do partido, quão longe iriam para evitá-lo e até que ponto a elite governante compartilhava essa preocupação (…) Xi continua obcecado com o destino da União Soviética e segue vendo inimigos no interior da China. (…) Xi não é nenhum maoísta. (…) Ao contrário de Mao, que não tinha problemas em derrubar estruturas partidárias na busca de suas metas utópicas, Xi quer fortalecer as instituições políticas e econômicas do país e manter o partido firmemente no controle. (…) Dar rédea solta às massas é perigoso” (“The prince among princelings”, TE 9315, 1-10-22). Como se vê, na caracterização da personalidade do líder chinês coincidem desde marxistas como Yu até liberais como a The Economist.
Uma vez assegurado esse objetivo de estabilidade, a perspectiva para a qual Xi busca preparar o Estado e o partido é a de novos e maiores choques com os EUA. Xi tomou nota de que Biden não apenas passou da guerra comercial à tecnológica como, já sem muitos rodeios e pela boca de múltiplos porta-vozes, adiantou que sua estratégia é a) ao menos retardar, se possível b) deter e, no melhor dos casos, c) derrotar a ameaça que a China representa para a hegemonia estadunidense, chegando inclusive à mudança de regime.
O giro que Xi vem concretizando há pelo menos três anos e que acaba de ser sancionado no XX Congresso pode resumir-se assim: menos prioridade ao dinamismo econômico e ao lugar do mercado nele; mais ênfase nos objetivos delineados pelo partido, em especial o de preparar-se para uma crescente confrontação com os EUA.[4]
Nesse marco, a obrigação do investimento privado local e estrangeiro é alinhar-se a esses objetivos ou sofrer as consequências. Xi insistiu várias vezes em seu informe ao Congresso na necessidade de reforçar a “construção do partido” no seio das empresas privadas. Isso não deve ser tomado necessariamente como uma espécie de intervenção externa por parte de um “comissário político”. As relações entre Estado, comitê partidário e gerência empresarial, longe de serem de conflito permanente, costumam ser da mais cor-de-rosa harmonia. Segundo Colin Hawes, da Universidade Tecnológica de Sydney, “em sua maioria, as companhias privadas conseguiram cooptar e integrar a organização partidária. Costuma acontecer que essas organizações sejam dirigidas pelo gerente da empresa. Os membros [do comitê partidário] sabem que é a empresa, não o partido, quem paga seus salários”. No entanto, dado o ênfase de Xi no disciplinamento de organizações públicas e privadas aos ditames do partido, é certo que “não há garantias de que esse modus vivendi vá durar, especialmente em algumas das companhias maiores” (“The fleeing committee”, TE 9319, 29-10-22).
Nessas condições, é compreensível que o esfriamento do entusiasmo na relação entre o PCCh e os investidores seja perfeitamente recíproco. À desconfiança crescente de Xi e da cúpula chinesa em relação às empresas que não se disponham a seguir os lineamentos partidários corresponde o desencanto dos investidores, que antes se deixavam deslumbrar pelas oportunidades do mercado chinês e minimizavam os riscos políticos.
Nesse ponto, analistas tanto marxistas quanto liberais coincidem em que a mudança na forma de funcionamento do poder político, que Xi vinha configurando e que o XX Congresso terminou por sancionar, implica novas incertezas, não mais estabilidade. Segundo Rousset, “durante muito tempo, a capacidade do governo de dirigir o desenvolvimento econômico foi uma vantagem importante na ascensão da China. Entretanto, o novo sistema político configurado por Xi pode resultar agora em uma perigosa desvantagem” (“XX Congresso do PC Chinês: o ponto de inflexão”, cit.).
Do outro lado, o olhar coincide. Para uma consultoria citada pelo Economist, “o mercado está despertando. A visão de muitos investidores é que, embora a China nunca tenha estado tão aberta ao capital estrangeiro, também nunca foi tão ideologicamente inflexível na história recente” (“Empty promises”, TE 9298, 28-5-22). Naquele momento, o cálculo mais otimista era que essa investida “ideológica” fosse uma onda transitória, motivada pelo Congresso do PCCh, e que depois as coisas voltariam ao normal. Agora devem assumir os fatos: existe uma nova normalidade.
1.2 A ofensiva ianque contra o avanço tecnológico da China
O marxista britânico Michael Roberts assinalava já há alguns anos, com toda razão, que “Trump pode ter lançado seus aumentos de tarifas, mas o que realmente preocupa os EUA é o progresso tecnológico chinês. A China sob Xi mira não mais ser o centro manufatureiro da economia global, mas impulsionar a tecnologia e a inovação até poder rivalizar com a dos EUA e de outros países capitalistas desenvolvidos no curso de uma geração” (“China workshop: challenging the misconceptions”, 7-6-18). Pois bem, é precisamente esse aspecto que aborda a última ofensiva anti-China lançada pelo presidente dos EUA, Joe Biden. Em 7 de outubro, anunciou a proibição da venda de chips de alta tecnologia e semicondutores à China, tanto por parte de companhias dos EUA quanto de companhias estrangeiras que usem tecnologia estadunidense.
Aqui já não se trata apenas de dar um impulso, desde o Estado ianque, à indústria de semicondutores, à semelhança do que a China faz (ver mais abaixo). O objetivo declarado é danificar irreparavelmente a indústria de tecnologia digital na China, em especial em inteligência artificial (IA) e supercomputadores, cujas inovações são consideradas “problema de segurança nacional”, expressão cada vez mais usual nos debates econômicos.
Logicamente, essa maneira de tentar paralisar o avanço chinês nessa área terá como efeitos – não desejados? – prejudicar os simples usuários chineses dessas tecnologias e as empresas que construíram uma relação comercial com a China que o Departamento de Estado considera demasiadamente próxima, e portanto é “em uma palavra, uma ferramenta demasiado tosca” (“A new chapter”, TE 9317, 15-10-22). Mas Biden não parece ter reparos em utilizá-la: se, para arruinar aquela flor chinesa, for preciso arrancar a planta inteira, que assim seja.

Os meios ocidentais batem o tambor na denúncia ao “nacionalismo agressivo” da dirigência chinesa, mas não se escandalizam do mesmo modo diante das vociferações histéricas da elite ianque. O senador republicano Todd Young, um dos principais patrocinadores da Chips and Science Act, lei que estabelece um fundo de 52 bilhões de dólares em cinco anos para a indústria de semicondutores, disse ao aprová-la em julho passado que “o governo chinês está planejando ganhar a corrida em inteligência artificial, ganhar as guerras do futuro e ganhar o futuro. (…) Estamos em uma competição multigeracional, que definirá uma era, com o Partido Comunista Chinês” (“Mothering invention”, TE 9317, 15-10-22).
Diante de uma perspectiva semelhante, é claro, os outrora sacrossantos princípios de livre mercado podem ir para o espaço, porque o que se necessita é a intervenção vigorosa e decisiva do Estado: “As teorias de Friedman e Hayek [os dois máximos gurus do monetarismo e da escola austríaca, ambas ultraliberais] de mercados totalmente livres… não fazem o menor sentido quando se está enfrentando um desafio existencial que zomba das forças de mercado” (idem). Nesse terreno, a coincidência bipartidária é exemplar: a deputada democrata Eddie Bernice Johnson, presidenta do comitê que redigiu a Chips Act, considerou o tema “um imperativo de segurança nacional”.
Como observa Gregory Allen, ex-chefe da unidade de Inteligência Artificial do Departamento de Defesa dos EUA, a Chips Act constitui algo mais que uma escalada em relação às sanções à Huawei; na verdade, representa “a medida mais drástica possível [a total clamp down], que tenta cortar todas as cabeças da hidra da indústria chinesa de chips” (idem). O informe de 140 páginas que acompanha a lei, redigido pela Bureau of Industry and Security (!) do Departamento de Comércio, aponta não só às companhias dos EUA envolvidas na venda de produtos tecnológicos à China, mas também a “pessoas dos EUA” (isto é, qualquer um que tenha passaporte ou green card dos EUA).
Isso “coloca em posição difícil muitos fundadores de companhias tecnológicas chinesas que estudaram nos EUA e conseguiram passaporte estadunidense. Também vai tornar muito mais difícil o recrutamento de talentos por parte das empresas chinesas. Analogamente, os laboratórios de P&D de companhias chinesas nos EUA, como Alibaba (Seattle e Vale do Silício) e Tencent (Seattle), agora ficam vulneráveis. E os EUA vão pressionar para que a holandesa ASML [uma das líderes mundiais em semicondutores] e empresas japonesas deixem de ser fornecedoras da China. Tudo isso deixa claro até que ponto a China é tratada como ‘inimiga’ pelos EUA. Isso vai muito além do que se costumava chamar de contenção” (M. Roberts, “Xi’s third term, part three: chips, dual circulation and imperialism”, 20-10-22).
Precisamente, a ideia de que a estratégia essencial dos EUA em relação à China estava definida como de “contenção” era a tese da especialista Jude Woodward, amplamente citada por seu célebre trabalho The US vs China: Asia’s new Cold War?, de 2017. E, de fato, a agressividade do enfoque de Biden indica que a relação EUA-China passou a um nível novo e mais alto de conflitividade.
O citado Allen admite, com brutal franqueza, que, apesar das tímidas desculpas de alguns funcionários, “os EUA passaram a ver o predomínio da fabricação de semicondutores de alta tecnologia como vital para a segurança nacional (…). O objetivo dos EUA é retardar o progresso tecnológico chinês, não arruinar a economia. Mas uma das metas não declaradas é preservar nossa capacidade de destruir sua economia mais adiante, caso precisemos dessa ferramenta” (“The coming storm”, TE 9319, 29-10-22).
A metáfora mitológica da hidra, à qual recorre Allen, expressa muito bem tanto a ferocidade da medida como o temor que o avanço chinês inspira nos EUA. É um tema que já havíamos desenvolvido em nosso trabalho anterior sobre a China. Os desenvolvimentos recentes não fizeram senão confirmar uma tendência à crescente equiparação da capacidade chinesa em relação às potências ocidentais.
Trata-se de uma política de Estado que começa por uma decisão de fortalecer o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), que passou de um terço do dos EUA e metade do da Europa em 2008 a ultrapassar a Europa em 2014 e chegar a 85% do investimento dos EUA em 2020. Em agosto passado, uma instituição de pesquisa japonesa estimou que a China já produz uma quantidade maior dos artigos acadêmicos de pesquisa mais citados do que os EUA. Um informe da Universidade de Harvard sustenta que “a China converteu-se em um competidor sério nas tecnologias fundacionais do século XXI” (Roberts, cit.).
A consequência dessa convicção compartilhada por ambas as potências acerca do papel crucial da inovação em tecnologia digital na competição geopolítica é o retorno da “política industrial” nos EUA (outro conceito demonizado pelas “teorias de Friedman e Hayek”). Nesse sentido, de certo modo se encerra um debate sobre qual é o modelo mais apropriado para o fomento do desenvolvimento tecnológico quanto à equação concreta entre financiamento/orientação estatais e empresas privadas. Para os EUA de Biden, não há discussão: o pontapé inicial é dado pelo Estado, algo que já ocorreu antes com a famosa agência estatal DARPA, que acabou sendo a criadora da Internet.
Aqui os EUA não fazem muito mais do que seguir, de maneira envergonhada e tardia, o exemplo da China quanto ao maior envolvimento estatal e à peremptoriedade oficial nas exigências ao setor. Daí a ofensiva contra as empresas de tecnologia durante o ano passado, que retomaremos mais adiante: a queixa do PCCh pela “expansão desordenada do capital” das gigantes como Alibaba, Tencent ou Baidu era uma maneira de manifestar a necessidade de mudar as prioridades: “Menos videogames e comércio on-line, mais inteligência artificial e chips” (“Mothering invention”, TE 9317, cit.). A mão do Estado chinês, mais pesada com o setor privado do que sua par ocidental, implica um crescimento do investimento no ramo tecnológico que é ao mesmo tempo mais acelerado, mais coordenado e mais focalizado, quando comparado aos esforços mais “difusos” da colaboração estatal-privada nos EUA e na Europa.
À vista dos resultados, a decisão estratégica de Biden é reconhecer que a importância do investimento e da orientação estatais é grande demais para deixar o monopólio dessa política à China; daí os fundos comprometidos na Chips and Science Act. Claro que, tão decisivo quanto colher os benefícios desses gigantescos fluxos de investimento, em primeiro lugar pelo próprio Estado envolvido, é impedir que os Estados rivais acessem esses cobiçados frutos tecnológicos. É precisamente isso que Biden busca com seu anúncio de 7 de outubro.
Não há margem para supor que, nesse ponto crucial, a política de Biden seja muito distinta da de Trump, como observávamos há dois anos. Como recorda o marxista britânico Adrian Budd, “uma das mensagens da campanha de Biden era que Trump era ‘brando’ com a China” (“China and imperialism in the 21st century”, Adrian Budd, International Socialism 170, 15-4-21).
De fato, não parece exagero afirmar que “tomado em conjunto, o enfoque de Biden não é uma retirada em relação à política de Trump de disputas com a China, mas sua profissionalização. (…) [Biden] está reconstruindo as relações com os aliados ocidentais que Trump havia desgastado. Mas, no mais, sua estratégia econômica para a relação com a China se assemelha muito a uma versão refinada da competição a punho limpo iniciada por Trump” (“Tougher than tariffs”, TE 9304, 9-7-22).
Uma amostra instrutiva das coincidências e diferenças da ofensiva anti-China à la Trump (mais tosca e errática) e à la Biden (mais disciplinada e focalizada) é comparar a maneira de um e outro de minar o avanço chinês no terreno das tecnologias digitais. No primeiro caso, sanções desesperadas a empresas individuais como a Huawei (chegando à grosseria de encarcerar uma de suas altas executivas); no segundo, estabelecer de maneira ordenada e consensuada com os aliados ocidentais um “cordão sanitário” para impedir o acesso de qualquer empresa chinesa a tecnologia considerada estratégica. Não é necessário esclarecer qual das duas maneiras de encarar o mesmo problema é mais eficaz para tentar bloquear o avanço ou o desenvolvimento de toda empresa ou tecnologia de origem chinesa que possa representar ameaça à hegemonia econômica e tecnológica do Ocidente em geral e dos EUA em particular.
Ora, a combinação do boicote tecnológico ianque e da orientação chinesa de autossuficiência resulta em um crescente isolamento do país asiático, uma situação que difere sensivelmente do período anterior. Assim, “depois de vários anos em que o ascenso tecnológico chinês parecia imparável, o panorama tornou-se repentinamente muito menos claro” (TE 9304, idem). Como assinala Roberts, “Pequim vê a decisão de tentar congelar a indústria chinesa acima de um nível definido de avanço tecnológico como profundamente provocadora. Obrigar a China a depender da produção estrangeira para os modelos mais recentes e sofisticados de chips ressoa exatamente com o temor de Xi à vassalagem tecnológica” (M. Roberts, “Xi’s third term, part three”, cit.).
Naturalmente, esse “vassalagem” é exatamente o objetivo proposto pelos EUA e, nesse sentido, o apelo de Xi à capacidade própria e à autossuficiência pode ser apresentado pelo PCCh como decisão autônoma e como virtude, mas, a partir deste ano, tem um forte componente de resposta forçada e de necessidade.
Ao já conhecido perigo de “desacoplamento” econômico global entre EUA e China, que trataremos mais adiante, cabe acrescentar outro de consequências mais ominosas: o crescente deterioro dos canais de comunicação e de atividade em comum entre as duas potências do “G-2”, como se passou a chamá-las. Por exemplo, desde a controversa visita a Taiwan de Nancy Pelosi, a porta-voz da Câmara dos Deputados do Congresso dos EUA, “os funcionários chineses suspenderam toda conversa com os EUA sobre tudo, desde o narcotráfico a como evitar conflitos por choques involuntários entre navios e aviões de guerra [de ambos os países]. (…) Embora faltem apenas dias para a cúpula climática COP 27, a China não permite que seu enviado para o clima, Xie Zhenhua, se reúna com sua contraparte estadunidense, John Kerry”, entre outras demonstrações de frieza e falta de vontade de cooperação que antes eram habituais, como a contenção à Coreia do Norte (“The coming storm”, TE 9319, 29-10-22).
Toda essa ofensiva do imperialismo ianque na área tecnológica, no entanto, não passa, no fundo, de uma escaramuça muito importante, mas tática, frente à questão mais estratégica: fica cada vez mais claro que há entre EUA e China uma rivalidade crescente já não simplesmente comercial ou econômica, mas em todos os terrenos geopolíticos. O que está em jogo, em suma, é se haverá desafio – e eventual substituição – por parte de uma potência em ascensão à atual potência hegemônica global.
Notas
[1] As traduções e os destaques das citações são sempre nossos, salvo indicação em contrário.
[2] O curioso episódio da “saída escoltada” do líder anterior, Hu Jintao, ao lado de Xi e diante das câmeras da imprensa internacional, deu amplo pasto para a “sino-semiologia”: teria sido um ato de humilhação deliberada? Um mero “contratempo de saúde”, como disse a versão oficial? É impossível aqui emitir juízo sem mais elementos; apenas podemos assinalar que a mensagem parece ser que Xi não só carece de oposição visível como nem sequer necessita consultar os “anciãos veneráveis”, tradição muito arraigada no PCCh (e na cultura chinesa em geral). Por exemplo, mesmo já aposentados, Jiang Zemin e sobretudo Deng Xiaoping eram sumamente influentes, assim como outros altos quadros idosos do partido. Alguns analistas ocidentais, como Joseph Fewsmith, da Universidade de Boston, especulavam antes do Congresso que “não é impossível que possa haver certo número de líderes aposentados que quisessem agrupar-se e dizer algo” em questionamento a Xi ou a alguma de suas políticas (“Interfering elders”, TE 9316, 8-10-22). A exposição em público da frágil saúde de Hu operaria simultaneamente como desculpa perfeita para dispensar Xi de sua opinião e como advertência a esse setor. Desenvolveremos mais a questão do regime e das relações internas do PCCh na seção de debates.
[3] O monolitismo que Xi está instalando no PCCh é incomum até para os cânones de um partido stalinista. Como recorda Rousset, “a equipe que chegou ao poder no PCCh em 1935, durante a Grande Retirada da Longa Marcha, não foi formada por homens fiéis, nem muito menos. Mao foi capaz de reunir quadros experientes, personalidades fortes, muitas vezes à frente de distintos corpos do Exército, de diversas origens. Vários deles inclusive haviam se oposto a ele durante as múltiplas batalhas fracionais que tinham dilacerado o PCCh” (“XX Congresso do PC Chinês: o ponto de inflexão”, cit.).
[4] Nesse sentido, parece ter-se verificado a perspectiva que advertimos em 2020 de que a orientação de Xi apontava não tanto a uma ofensiva “reestatizadora”, mas a uma subordinação do curso econômico às necessidades políticas estabelecidas pelo partido. Razão a mais para que, como ampliaremos na seção de debates, o enfoque sobre a China não possa centrar-se, nem mesmo ao analisar a economia, exclusivamente nos aspectos econômicos.
Traduzido por Martin Camacho, do original https://izquierdaweb.com/china-hoy1-el-xx-congreso-del-pcch-xi-jinping-y-el-desafio-a-de-eeuu/









