Nesta segunda-feira (25), o exército de ocupação sionista bombardeou duas vezes o hospital Nasser em Khan Younis, Gaza. De acordo com as autoridades militares israelenses, o ataque foi ordenado para destruir uma “câmera de vigilância” que o Hamas colocou no telhado do centro de saúde. O resultado foi a morte de vinte pessoas, entre as quais se contam os socorristas que estavam ajudando os feridos do primeiro bombardeio e cinco jornalistas que cobriam a notícia. Compartilhamos esta crônica escrita por Mariam Dagga, uma das jornalistas mortas nos bombardeios, na qual ela expõe as consequências causadas pela fome planejada pelo governo fascista de Netanyahu.
Por Mariam Dagga e Lee Keath
KHAN YOUNIS.- O corpo sem vida de Ro’a Mashi, de dois anos e meio, jazia numa maca do hospital Nasser, em Gaza. Os seus braços e tórax estavam reduzidos a pele e osso, os olhos encovados no rosto. Os médicos garantiram que ela não tinha doenças pré-existentes e que se consumiu durante meses enquanto a sua família lutava para conseguir comida.
Sua família mostrou à Associated Press uma foto do corpo de Ro’a no hospital, cuja autenticidade foi confirmada pelo médico que recebeu os restos mortais. Vários dias após sua morte, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou à mídia local: “Não há fome. Não houve fome. Houve escassez, e certamente não uma política de fome”.
Diante do clamor internacional, Netanyahu rejeitou as acusações e garantiu que os relatos de fome são “mentiras” promovidas pelo Hamas.
No entanto, o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, alertou esta semana que os níveis de fome e desnutrição em Gaza são os mais altos desde o início da guerra.
A ONU informou que, em julho, quase 12.000 crianças menores de cinco anos sofriam de desnutrição aguda, incluindo mais de 2.500 com desnutrição grave, o nível mais perigoso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que os números provavelmente estão subestimados.
Condições pré-existentes
O Ministério da Saúde de Gaza informou que, desde 1º de julho, 42 crianças e 129 adultos morreram por causas relacionadas à desnutrição e que, no total, 106 crianças morreram por essa mesma causa desde o início da guerra. Embora o órgão dependa do governo do Hamas, ele é composto por profissionais médicos e seus números são considerados pelos EUA e outros especialistas como os mais confiáveis.
O exército israelense, por outro lado, apontou que algumas das crianças que morreram tinham doenças prévias e argumentou que suas mortes estavam “desvinculadas de seu estado nutricional”. Ele afirmou que uma revisão de seus especialistas concluiu que “não há sinais de um fenômeno generalizado de desnutrição” em Gaza.
Em uma coletiva de imprensa, Netanyahu apareceu diante de uma tela com o slogan “Crianças famintas falsas” sobre fotos de menores esqueléticos com doenças pré-existentes. Ele acusou o Hamas de deixar morrer de fome os reféns israelenses que continuam em cativeiro e repetiu que o grupo desviou grandes quantidades de ajuda, algo que a ONU nega.
Os médicos em Gaza reconhecem que alguns dos que morrem ou passam fome sofrem de doenças crônicas como paralisia cerebral, raquitismo ou distúrbios genéticos, que os tornam mais vulneráveis à desnutrição. Mas insistem que essas doenças são controláveis se houver alimentação e tratamento adequados.
Pele e osso
“A crescente escassez de alimentos acelerou a deterioração desses casos”, afirmou o Dr. Yasser Abu Ghali, chefe de pediatria do hospital Nasser. “A desnutrição foi o principal fator para suas mortes.”
Das 13 crianças gravemente desnutridas cujos casos a AP documentou desde o final de julho, cinco não tinham doenças pré-existentes, incluindo três que morreram, segundo os médicos.
Abu Ghali falou ao lado do corpo de Jamal al-Najjar, uma criança de cinco anos que morreu na terça-feira por desnutrição e que havia nascido com raquitismo, o que afeta a metabolização de vitaminas e enfraquece os ossos.
Nos últimos meses, o peso da criança caiu de 16 quilos para apenas 7. Seu pai, Fadi al-Najjar, com o rosto emaciado pela fome, relatou a deterioração.
Questionado sobre a afirmação de Netanyahu de que não há fome em Gaza, ele apontou para a caixa torácica saliente de seu filho: “É claro que há fome”, disse ele. “O peito de uma criança de cinco anos deveria ficar assim?”.
Uma menina morreu na barraca da sua família
Ro’a foi uma das quatro meninas que morreram de desnutrição levadas ao hospital Nasser em pouco mais de duas semanas, segundo os médicos.
Sua mãe, Fatma Mashi, contou que percebeu que sua filha começou a perder peso no ano passado, mas pensou que fosse por causa da dentição. Em outubro, ela a levou ao hospital Nasser, onde confirmaram a desnutrição grave.
Naquela época, nos últimos meses de 2024, Israel havia reduzido ao mínimo a entrada de ajuda humanitária.
A família também foi deslocada várias vezes por operações militares israelenses. Cada mudança interrompia o tratamento de Ro’a porque demoravam a encontrar um centro para obter suplementos nutricionais, explicou Mashi. A família sobrevivia com uma única refeição por dia — geralmente macarrão cozido —, mas “não importava o que ela comesse, nada mudava em seu corpo”.
Há duas semanas, eles se mudaram para os campos de Muwasi, na costa sul de Gaza. A deterioração de Ro’a se acelerou.
“Eu percebia que era apenas uma questão de mais dois ou três dias”, relatou Mashi na barraca da família na sexta-feira, um dia após a morte de sua filha.
Mashi e seu marido, Amin, pareciam abatidos, com as bochechas e os olhos encovados. Seus outros cinco filhos — incluindo um bebê nascido este ano — estavam magros, embora não tão consumidos quanto Ro’a.
DeWaal observou que, em situações de fome, não é incomum que um membro da família esteja em condições muito piores do que os outros. “Na maioria das vezes, é uma criança de 18 meses ou 2 anos, que é mais vulnerável”, explicou, enquanto os irmãos mais velhos costumam ser “mais resistentes”.
Mas qualquer fator pode desencadear uma espiral de desnutrição em uma criança pequena: uma infecção, dificuldades após o desmame ou até mesmo um problema menor.
“Uma coisa muito pequena pode levá-los ao limite”.
Tradução de Mariah Sinem, do original “Piel y huesos”: un relato desde las entrañas del genocidio, escrito por una de las periodistas asesinadas por Israel en un hospital en Gaza.










