As mobilizações tiveram como eixo a exigência de justiça no caso da morte de Albert Omondi e contra o aumento da violência policial. O governo desencadeou uma feroz repressão.
Por Sthefany Zúñiga
Há uma semana, Quênia foi palco de enormes protestos contra o presidente William Ruto. Isso ocorreu no marco de uma crescente brutalidade policial, em particular após o assassinato de Albert Omondi Ojwang.
Omondi, um professor de 31 anos, foi preso em 7 de junho por “publicar informações falsas” no X (antigo twitter), depois de compartilhar uma denúncia sobre casos de corrupção no Ministério Público. Segundo a polícia, enquanto estava detido, ele “cometeu suicídio” em sua cela; no entanto, o estado do corpo indica que ele foi espancado até a morte. A polícia também se encarregou de deletar seu perfil no X.
Esses protestos também têm um elemento de continuidade com as mobilizações do ano passado. Naquela ocasião, principalmente a juventude, saiu a protestar contra uma reforma fiscal promovida pelo governo de Ruto que introduziu novos impostos. Devido à força dos protestos, o governo recuou no projeto.
Nesta ocasião, as mobilizações tiveram como eixo a exigência por justiça no caso da morte de Albert Omondi e contra o aumento da violência policial. Com mensagens como Ruto deve ir!, Justiça para Albert!, Protestar não é crime!, milhares de jovens foram às ruas em 17 condados em todo o país.
Além disso, nas mobilizações, expressou-se a falta de perspectiva que angustia a juventude. “Não é apenas o preço do pão: é que não temos futuro“ ou “Se você não morre de pobreza, morre por uma bala da polícia”, gritavam os manifestantes.
Os principais protestos ocorreram em Nairóbi, capital do Quênia, bem como em Kikuyu, onde as instalações policiais foram incendiadas, e em outros lugares onde houve confrontos com forças repressivas.
Nesse contexto, o governo desencadeou uma repressão feroz. Vários meios de comunicação locais foram retirados do ar; além disso, a polícia montou bloqueios de estradas para impedir o movimento dos manifestantes e não teve escrúpulos ao disparar gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas sonoras para dispersar os protestos. Como se não bastasse, o governo autorizou na última quarta-feira, 10 de julho, a atirar “nos pés” dos manifestantes.
“O país não pertence a William Ruto. O país pertence a todos nós. E se não há país para William Ruto, não há país para vocês“, declarou o presidente. Essas palavras ajudaram a aumentar o descontentamento e, além disso, contêm um fundo muito autoritário, bem como uma ameaça velada sobre até onde ele poderia estar disposto a ir.
De fato, somente em 7 de julho, 11 manifestantes foram mortos pela polícia, além de dezenas de feridos e mais de 500 pessoas presas.
Uma crise estrutural em um país dependente
Quênia é a quarta maior economia da África Subsaariana e responde por 50% do PIB da Comunidade da África Oriental. Por isso a crise do superendividamento e do aumento do custo de vida gera preocupação na região, pois pode desencadear um efeito dominó na região.
A dívida do país subsaariano atingiu 68% do PIB. Esse problema se repete em mais da metade dos países da região. No ano passado, por exemplo, além dos protestos no Quênia, também houve mobilizações contra o aumento do custo de vida na Nigéria, Tanzânia e Uganda.
Voltando ao caso do Quênia, em 2021, o governo de Ruto adquiriu um empréstimo de US$3,6 bilhões do FMI, com o compromisso de reduzir os gastos públicos e aumentar a arrecadação de impostos. Foi em 2024 que ele tentou introduzir os novos impostos, mas não avançou devido aos protestos.
Em junho de 2025, o governo queniano reconheceu que não poderia cumprir as obrigações do FMI, de modo que a última parcela do empréstimo (de US$480 milhões) não foi executada e, por esse motivo, as autoridades quenianas entraram em contato com a organização internacional para chegar a um novo acordo.
Além disso, Ruto está mantendo outros empréstimos internacionais, notadamente um empréstimo de US$1,5 bilhão com os Emirados Árabes Unidos e um Eurobond de US$1,5 bilhão emitido em fevereiro.
Isso demonstra a dependência do país de empréstimos internacionais, que têm servido para financiar infraestrutura (pelo menos é o que diz a versão oficial). No entanto, esse investimento é permeado pela corrupção estrutural do país, uma vez que, como indicou o chefe anticorrupção, em 2016 um terço do orçamento do governo foi perdido devido à corrupção (cerca de US$6.000 milhões).
Além disso, a dependência do Quênia se estende a outras áreas. Por exemplo, com o fechamento da agência USAID por Trump, os programas do setor de saúde estão entrando em colapso, a ponto de haver escassez de vacinas – principalmente para a poliomielite – e medicamentos para o tratamento do HIV, o que coloca em risco a saúde de milhares de pessoas.
Soma-se a isso o problema da habitação. Na comunidade de Mathare, após as inundações do ano passado, o governo interveio em uma área de assentamentos perto do rio e deixou os habitantes da área sem acesso às suas casas. Diante disso, a comunidade se organizou e saiu para marchar no ano passado, exigindo seu direito à moradia.
Diante do exposto, fica claro que a crise no Quênia tem várias faces, incluindo a dependência do imperialismo e as políticas do FMI que visam beneficiar os credores da dívida às custas das condições de vida dos trabalhadores. Soma-se a isso a ação da burguesia nacional, que vai em direção semelhante: desmantelar os direitos sociais para proteger seus lucros.
Apesar da adversidade, a juventude queniana está se levantando e lutando para ter uma perspectiva de futuro que não seja a austeridade, a pobreza e a brutalidade policial.
Tradução de José Roberto Silva, do original Kenia: 11 muertos y 500 detenidos en protestas contra el gobierno.










