O Irã é uma subpotência regional que, como fruto da revolução de 1979, conquistou sua independência frente ao imperialismo tradicional. No contexto da guerra atual, defendemos criticamente o Irã como nação, mas não apoiamos politicamente o regime dos aiatolás, o qual caracterizamos como uma repulsiva teocracia burguesa. A seguir, desenvolvemos os elementos políticos e históricos que fundamentam essa caracterização e nossa posição.

Por Víctor Artavia

Na madrugada de 13 de junho, Israel atacou de surpresa o Irã, dando início à “Operação Leão Nascente”, cujo objetivo é eliminar o arsenal militar e as capacidades nucleares iranianas.
No entanto, o governo fascista de Netanyahu deixou entrever que sua verdadeira intenção é forçar uma mudança de regime, ou seja, submeter completamente a nação persa por meio de uma guerra total. Trump, por sua vez, começou a flertar com essa ideia e está exigindo uma “rendição total” do governo dos aiatolás, embora ainda não tenha definido se os Estados Unidos participarão da guerra (algo que pode ser decidido nos próximos dias).
Em um artigo anterior, nos posicionamos criticamente a favor do Irã no contexto da guerra, pois consideramos que se trata de um Estado independente do imperialismo tradicional (ver Apuntes y perspectivas en torno a la guerra entre Irán e Israel).
A seguir, desenvolveremos os elementos políticos e históricos que fundamentam essa caracterização e nossa posição diante da guerra em curso.

Por que apoiamos criticamente o Irã nesta guerra?

“No Brasil reina agora um regime semifascista que todo revolucionário não pode ver senão com ódio. Suponhamos, no entanto, que amanhã a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil… Nesse caso, estarei do lado do Brasil ‘fascista’ contra a ‘democrática’ Grã-Bretanha. Por quê? Porque o conflito entre eles não será uma questão de democracia ou fascismo… […] É preciso estar com a cabeça vazia para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre fascismo e democracia. Por trás de todas as máscaras, é necessário saber distinguir os exploradores, os escravizadores e os saqueadores!”
León Trotsky, Entrevista com Mateo Fossa, setembro de 1938

Tanto o Irã quanto Israel são Estados burgueses com regimes abertamente reacionários. Mas essa é uma equiparação formal e unilateral que não basta para formular uma posição socialista revolucionária, sendo necessário considerar as profundas diferenças qualitativas entre ambos.

Israel foi criado/imposto como parte de um acordo inter-imperialista no pós-guerra (com o vergonhoso apoio da URSS!, uma das maiores traições históricas do stalinismo), para funcionar como um gendarme armado dos Estados Unidos no Oriente Médio.
É um Estado colonial e racista fundado a partir do roubo da maior parte do território pertencente à Palestina histórica, cuja população originária foi expulsa na Nakba e, desde então, está submetida a um brutal regime de apartheid.

Como se isso não bastasse, atualmente o governo fascista de Netanyahu leva adiante um genocídio na Faixa de Gaza que, no momento em que escrevemos este texto, já contabiliza o assassinato de 60 mil palestinos de Gaza.

O Irã, por sua vez, é uma subpotência regional que, como fruto da revolução de 1979, conquistou sua independência frente ao imperialismo tradicional, embora tenha adotado um regime autoritário, teocrático e ultraconservador, que não representa nenhuma alternativa emancipadora para os setores explorados e oprimidos.

Diante disso, defendemos criticamente o Irã como nação, mas não apoiamos politicamente o regime dos aiatolás, o qual caracterizamos como uma repulsiva teocracia burguesa. Mais que isso, somos opositores do governo iraniano e defendemos seu derrubamento revolucionário pelas massas, com a perspectiva de refundar o país a partir dos interesses e reivindicações dos setores explorados e oprimidos.

Mas nos opomos à sua substituição por meio da intervenção militar do sionismo e do imperialismo estadunidense, o que só poderia resultar na imposição de outro regime opressor e servil ao imperialismo.

Em resumo, nossa tática consiste em apoiar o Irã no plano estritamente militar, mas sem abrir mão de nossas bandeiras de independência de classe e de rejeição a toda forma de opressão social e cultural.

A dinastia Pahlavi e a submissão ao imperialismo

Durante grande parte do século XX, o Irã foi governado pela dinastia Pahlavi (1925–1979). Em certa medida, essa monarquia surgiu como consequência e resposta à Revolução Russa, cuja onda expansiva foi sentida por toda a Eurásia, da Europa Central até a China.

O Irã não foi exceção. Desde o final do século XIX, milhares de trabalhadores iranianos migraram para Baku, no Azerbaijão, que à época fazia parte do Império Czarista e era um importante centro petrolífero. Por esse motivo, muitos operários persas tiveram contato com as ideias da social-democracia russa.

De fato, Baku foi o epicentro de uma enorme greve geral em 1904, que foi a ante-sala da primeira revolução russa, que ocorreria no ano seguinte. Isso teve fortes repercussões em Teerã, pois provocou uma onda de protestos revolucionários que exigiam reformas constitucionais à dinastia Qajar, que então governava o país.

De acordo com Shiva Balaghi, historiadora cultural iraniana, a chamada “Revolução Constitucional” se estendeu de 1905 até 1911, ano em que as tropas czaristas invadiram o país e reprimiram os movimentos insurgentes. No entanto, com a queda do czar em 1917, a dinastia Qajar perdeu seu principal ponto de apoio externo e rapidamente sucumbiu.

Em 1920, no contexto da guerra civil russa, o Exército Vermelho apoiou a formação da efêmera República Socialista Soviética da Pérsia, que se estabeleceu em Gilan, no mar Cáspio, uma região fronteiriça com o Azerbaijão. Os soviéticos apoiaram o exército guerrilheiro nacionalista Janjal (ou “movimento da selva”), liderado por Mirza Kuchak Khan, mas não demorou para que surgissem divergências entre os dois lados, devido ao fato de que os nacionalistas iranianos recusaram-se a tomar medidas mais radicais, como decretar a reforma agrária contra o poder dos latifundiários.

Nesse contexto, em 1921 ocorreu o golpe militar liderado por Reza Khan, que posteriormente se coroou como xá e inaugurou a dinastia Pahlavi.

Essa monarquia se caracterizou por modernizar o país em vários aspectos. De acordo com o historiador Luis E. Bosemberg, essa monarquia aspirava transformar o Irã em uma potência; para isso, recorreu a um discurso nacionalista, restaurou antigos monumentos e redescobriu textos históricos da antiga Pérsia.

Diante da ausência de uma burguesia interna forte, a monarquia iraniana desenvolveu um capitalismo de Estado, que se transformou no principal “agente industrializador” do país. No início dos anos 1950, o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria petrolífera, que até então estava sob controle de companhias britânicas.

Em resposta a isso, o imperialismo britânico e a CIA organizaram um golpe de Estado que destituiu Mosaddegh em 1953 e favoreceram uma maior concentração de poder nas mãos do xá, que pôde retornar ao país após protagonizar uma breve fuga para Roma devido às suas disputas com o primeiro-ministro deposto.

Durante certo tempo, essa fórmula foi bem-sucedida, já que o país obteve enormes lucros com a renda do petróleo, que passou de 2 bilhões de dólares em 1972 para 20 bilhões em 1977. Da mesma forma, o crescimento econômico foi impressionante entre 1966 e 1977, com uma média anual de 9,6% (o dobro da média dos países do Terceiro Mundo).

Parte desses recursos foi investida no desenvolvimento da indústria de bens de consumo, na construção civil, no comércio e no setor imobiliário. O mercado interno cresceu, favorecendo o surgimento de uma nova burguesia e de classes médias urbanas.

Mas, de forma contraditória, a enorme riqueza petrolífera tornou o país dependente do mercado mundial, particularmente dos Estados Unidos — potência que se transformou em seu principal mercado e, consequentemente, passou a ditar sua política externa.

Dessa forma, o Irã se transformou em um gendarme armado do imperialismo estadunidense no Oriente Médio e, a partir de 1953, tornou-se um aliado estratégico de Israel na região.

Entre 1963 e sua queda em 1979, o xá Mohammad Reza Pahlavi impulsionou um agressivo programa de modernização que ficou conhecido como “revolução branca”. Seu objetivo central era enfraquecer a influência dos latifundiários e urbanizar o país. Embora tenha tido êxito econômico, o programa aprofundou a desigualdade social e concentrou os benefícios no grupo de capitalistas próximos ao governo.

Foi uma modernização imposta de cima para baixo e contra os setores explorados. Por exemplo, o xá tentou suprimir os bazares — espaços tradicionais que eram o centro do comércio local e vendiam a crédito para vizinhos conhecidos. Mas o governo os via como um “obstáculo” à modernização econômica capitalista, apesar de sua importância para amplos setores da população.

Por outro lado, no final da década de 1970, o modelo econômico começou a apresentar sinais de deterioração, principalmente porque a bonança petrolífera dos anos anteriores entrou em declínio. A enxurrada de petrodólares também provocou uma inflação elevada, que corroeu o poder de compra da classe trabalhadora iraniana e provocou uma onda de greves ao longo de 1978 — as quais foram a ante-sala da revolução.

A revolução iraniana e a classe operária

Tinha-se aberto um novo horizonte de emancipação operária. Como disse um operário metalúrgico, citado em um artigo sobre o tema:
“Depois da revolução, os trabalhadores se deram conta de que o país lhes pertencia.”
Arya Zahedi, “The Iranian Revolution at the Twilight of the Worker’s Council”

A revolução de 1979 destronou o xá e mudou a relação do país com o imperialismo estadunidense. Foi um processo de massas que reuniu nas ruas todos os setores que repudiavam a monarquia por sua corrupção, pelos traços autoritários com que reprimia a oposição política e pela queda nos níveis de vida das massas.

Organizações sindicais, partidos de esquerda e laicos, mulheres e estudantes foram alguns dos setores sociais e políticos que protagonizaram a luta contra a dinastia Pahlavi.

De acordo com o historiador Osvaldo Coggiola, a revolução começou como um vasto processo democrático dirigido pelo clero islâmico tradicional, pois esse setor conservador se chocava com as medidas modernizadoras implementadas pelo xá e se opunha à ingerência dos Estados Unidos no país.

Apesar disso, em meio aos protestos contra a sangrenta monarquia, algo inesperado aconteceu: a crescente afirmação do proletariado como sujeito político dentro do movimento democrático e anti-imperialista.

A classe operária iraniana entrou em cena com seus próprios métodos de luta (como greves e ocupações de fábricas) e, no decorrer da luta contra o regime, fortaleceu seus elementos de independência frente às direções burguesas e ao clero xiita. De fato, a partir de setembro de 1978 até fevereiro de 1979, formaram-se uma grande quantidade de conselhos operários independentes, denominados shoras no idioma farsi.

A greve geral de 1978 paralisou o país inteiro — até mesmo as refinarias de petróleo, eixo da economia iraniana, pararam de funcionar. A partir desse momento, o regime começou a vacilar e o país se tornou ingovernável. O xá tentou acalmar os ânimos concedendo cada vez mais concessões, mas já era tarde demais.

Em fevereiro de 1979, o regime finalmente colapsou. No dia 9 daquele mês, um grupo de técnicos alinhados a Khomeini se amotinou na principal base aérea nos arredores da capital do país. O movimento foi violentamente reprimido pelos “Imortais”, as tropas de elite ainda leais ao xá.

Esse foi o estopim que acendeu a revolta e desencadeou as jornadas revolucionárias de 10, 11 e 12 de fevereiro, quando o movimento de massas se armou e derrotou o exército imperial.

O sábado, 10 de fevereiro, foi particularmente sangrento em Teerã. Naquele dia, ocorreram ataques a quartéis e delegacias de polícia. Barricadas foram erguidas e houve combates por toda a cidade, além de tanques e viaturas incendiadas por todos os lados. As fábricas de armas foram tomadas e milhares de fuzis foram distribuídos à população. As prisões, cheias de opositores ao regime, foram libertadas pelo povo insurgente. No total, foram contabilizadas 200 mortes e 800 feridos, mas o sacrifício valeu a pena: no dia seguinte, emissoras de TV e rádio anunciaram a vitória da revolução.

A dinastia Pahlavi, que governou o país de forma despótica por mais de cinco décadas, havia chegado ao fim. Mais importante ainda: em sua queda, a classe operária desempenhou um papel de protagonismo e começou a tomar consciência de seu peso social e político.

A queda do regime não pôs fim à revolução, mas deu início a um processo de maior radicalização. Os shoras se espalharam por todo o país e, após a fuga dos proprietários e gerentes ligados ao xá, foram vitais para retomar o funcionamento das fábricas abandonadas, agora sob controle operário.

Dessa forma, estabeleceu-se um duplo poder entre o governo provisório surgido após a queda do xá e a sociedade organizada desde baixo durante a revolução. Além dos shoras, formaram-se também os komitehs (grupos armados de segurança) que patrulhavam os bairros para manter afastados os capangas do antigo regime. Surgiram ainda os shora-ye mahallat, onde se organizavam os desempregados.

O exposto confirma que a revolução iraniana apresentou uma tendência operária durante um curto período de tempo, a qual ameaçou radicalizar o processo em um sentido anticapitalista. Como aponta Arya Zahedi, pesquisador e professor da New School for Social Research, os conselhos operários iranianos se assemelharam aos das revoluções russa e alemã do início do século XX. Isso explica por que foram atacados pelas forças contrarrevolucionárias.

A contrarrevolução jomeinista

O regime havia compreendido que uma pessoa que saía de casa se perguntando: “Minhas calças estão compridas o suficiente? Estou usando o véu? Minha maquiagem está aparecendo? Vão me açoitar?” já não se perguntava: “Onde está minha liberdade de pensamento? Onde está minha liberdade de expressão? Minha vida é vivível? O que acontece nas prisões políticas?”
Marjane Satrapi, Persépolis

Esta epígrafe foi extraída da novela gráfica Persépolis, onde sua jovem protagonista relata sua experiência de vida na sociedade iraniana antes, durante e depois da revolução. A obra reflete as tendências emancipadoras que a revolução apresentou em seus primórdios, bem como seu retrocesso nas mãos das forças lideradas pelos fundamentalistas islâmicos.

Os aiatolás promoveram uma contrarrevolução teocrático-burguesa, por meio da perseguição, repressão e esmagamento do movimento operário e dos partidos de esquerda. Seu líder foi o clérigo radical Khomeini que, após seu retorno do exílio na França, passou a formar um governo de transição e conclamou as massas insurgentes à calma.

Seus apelos à prudência não surtiram muito efeito, pois a radicalização política tinha raízes profundas entre os explorados e oprimidos. Em vez de um ataque frontal, Khomeini recorreu a uma tática mais sutil: islamizou os conselhos operários, retirou-lhes os atributos de controle da produção e restringiu sua atuação ao plano salarial (uma demonstração a mais de que revolução e contrarrevolução não são processos simétricos).

Essa operação foi favorecida pela ausência de uma estratégia de poder unificada dos shoras. Os conselhos foram vistos como grupos de pressão sobre o Estado, e não como possíveis espaços a partir dos quais se pudesse impulsionar o poder operário. A autogestão da produção não é suficiente para substituir a preponderância do Estado como ente totalizador das questões políticas.

Para piorar as coisas, as correntes de esquerda iranianas pouco ajudaram a enfrentar a degradação dos conselhos operários impulsionada por Khomeini. Décadas de deformação stalinista provocaram uma ausência de perspectiva revolucionária.

O principal partido de esquerda, o Tudeh, defendia uma estratégia etapista da revolução, segundo a qual era necessário primeiro alcançar a libertação nacional do país para, só então, lutar pela revolução social. Em uma demonstração de completo descompasso político, esse partido chegou a afirmar que o clero islâmico radical era uma nova burguesia progressista, que impulsionaria a modernização do país e, assim, prepararia as condições materiais para se alcançar o socialismo.

Em contraposição a esses devaneios stalinistas, a contrarrevolução islâmica foi muito mais coerente. Impulsionou a reconstrução do poder estatal, para o que se apoiou centralmente em dois instrumentos militares. Primeiro, concedeu-se enorme poder às milícias islamistas dentro do novo Estado; posteriormente, elas foram rebatizadas como Guardiões da Revolução (ou Guarda Revolucionária).

Em segundo lugar, o regime implantou os “Comitês jomeinistas” (também chamados Comitês de Khomeini), cujo objetivo principal era competir com os shoras independentes nos principais centros industriais, mas depois foram usados para atacar militarmente esses espaços de auto-organização operária (segundo Coggiola, apesar da repressão, muitos desses comitês operários permaneceram ativos até 1981).

Por meio dessa campanha de repressão contra as forças de esquerda e o movimento operário, os islamistas se impuseram como força hegemônica e consolidaram seu projeto de república islâmica.

O novo poder se apoiou principalmente em um parlamento composto pelo clero islâmico, o campesinato e os pequenos comerciantes. Mas essa instituição representativa, eleita por voto popular, foi subordinada às instâncias não eleitas do clero xiita que, a partir daí, passaram a arbitrar a vida política, econômica, social e cultural do país. Ou seja, configurou-se um regime de natureza bonapartista-teocrática (nas palavras de Coggiola).

Além disso, os aiatolás se beneficiaram de elementos circunstanciais ou fora do seu controle. Um deles foi a crise dos reféns na Embaixada dos Estados Unidos, que lhes permitiu assumir um perfil anti-imperialista que, astutamente, usaram para bloquear as tendências de controle operário dos shoras.

Também o início da guerra com o Iraque facilitou a instauração da lei marcial e de uma austera economia de guerra, um contexto onde toda dissidência ou protesto operário era automaticamente tachado de “contrarrevolucionário”.

Junto a isso, o regime contrarrevolucionário se voltou contra as mulheres. A disputa começou em 1979, quando o aiatolá Khomeini decretou que elas deveriam usar o véu em seus locais de trabalho. O clérigo xiita fez um discurso diante de milhares de seguidores na cidade de Qom, onde afirmou que as mulheres que não usavam véu estavam nuas.

Além do conteúdo ultrarreacionário, o governo emitiu a ordem executiva um dia antes do Dia Internacional da Mulher. Uma provocação que despertou a fúria do movimento de mulheres, particularmente nas cidades, marcadas por um estilo de vida cosmopolita.

Mais de dez mil mulheres tomaram as ruas de Teerã, capital do Irã, em 8 de março de 1979. O ponto de encontro foi a Faculdade de Direito, e a manifestação respondia ao Primeiro-Ministro gritando que “não fizemos uma revolução para andar para trás”.

As manifestações continuaram por seis dias e conseguiram que o governo de Khomeini recuasse na medida, ao menos temporariamente. Quando a contrarrevolução eliminou os setores laicos e de esquerda, retomou seus ataques contra as mulheres e reimpôs o uso do véu. Em 1980, as mulheres tinham proibido entrar em prédios públicos sem o véu, e, no ano seguinte, a medida passou a valer para todas as mulheres a partir dos nove anos.

Uma economia debilitada e desigual

Diante da fuga massiva de empresários e quadros técnico-administrativos ligados ao antigo regime, da crise econômica aberta pela guerra com o Iraque (1980-1988) e do distanciamento dos Estados Unidos, a república islâmica promoveu uma onda de nacionalizações e colocou as empresas sob controle de fundações islâmicas. Cerca de 85% das principais empresas do país ficaram sob controle estatal.

Com a queda da URSS, os setores mais estatistas do regime dos aiatolás enfraqueceram. Somado a isso, a crise econômica que atingiu o país na década de 1990 facilitou o avanço dos reformistas neoliberais, que impulsionaram medidas para a abertura econômica, incentivando a integração com o mercado internacional e o desenvolvimento do setor privado.

A guinada reformista também teve reflexos no plano político, particularmente com a instauração e continuidade de vários governos moderados, como as administrações de Rafsanyani, Jatamí e Ruhani, caracterizados como pró-ocidentais pelo interesse em aprofundar os laços econômicos com a Europa e evitar alinhamentos com Rússia ou China.

Porém, a situação política mudou com o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, que foi atacado pelos Estados Unidos e fomentou a polarização contra o “Ocidente”, retórica que favoreceu a ascensão dos setores mais radicais — também chamados de “linha dura” — em detrimento dos reformistas. Desde então, a linha dura é hegemônica no Irã, como mostraram os resultados das últimas eleições parlamentares em março, quando conseguiram eleger 200 deputados de um total de 245.

Segundo um estudo do economista iraniano Djavad Salehi-Isfahani, após os Estados Unidos saírem do acordo nuclear e restabelecerem as sanções, o regime começou a falar em uma “economia de resistência”, cujo eixo é vincular o país à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ou aos BRICS. No entanto, os iranianos enfrentam muitas dificuldades para comercializar internacionalmente por causa das restrições bancárias impostas a eles, além de não conseguirem fomentar uma produção e exportações diversificadas. O país depende das exportações de petróleo, principalmente para a China, que absorve 90% do hidrocarboneto iraniano.

Visto isso, o Irã combina muitas forças e fraquezas. Por um lado, é uma potência energética e possui uma forte tradição cultural na região; também conta com um passado imperial que alimenta seu orgulho nacional e aspirações hegemônicas (além de nunca ter sido colônia formal de nenhuma potência europeia). Por outro lado, apresenta muitas fraquezas estruturais, principalmente na sua economia.

Para ilustrar o exposto, vejamos algumas comparações entre Irã e Israel. Por exemplo, o país persa tem uma população de 87 milhões de habitantes e possui enormes depósitos de hidrocarbonetos, mas seu Produto Interno Bruto (PIB) é de 415 bilhões de dólares, muito atrás dos 520 bilhões de Israel, cuja população é de 10 milhões de habitantes e conta com um território setenta e cinco vezes menor.

Essa assimetria se estende ao plano militar, onde Israel possui clara superioridade em armamento de alta tecnologia (ajudado enormemente pelo imperialismo norte-americano). De acordo com uma reportagem da BBC, o Estado sionista gastou 19 bilhões de dólares em defesa em 2022, enquanto o Irã investiu 7,4 bilhões. Por isso, não surpreende o abismo que existe entre suas forças aéreas, sendo que os sionistas possuem 340 aeronaves de combate, como caças F-15, F-35 (estes podem escapar do controle dos radares) e helicópteros de ataque rápido. Por sua vez, o Irã tem 320 aeronaves, mas a maioria são dos anos 60, como os F-4, F-5 ou F-14 (este último foi o usado para filmar Top Gun em 1986!). Devido à sua antiguidade, há dúvidas sobre a capacidade de combate de várias dessas aeronaves, pois é difícil conseguir peças de reposição.

No único setor onde o Irã tem vantagem é no seu programa de mísseis e drones, desenvolvido desde os anos 80 durante a guerra com o Iraque. Mas é uma vantagem relativa, já que Israel tem cerca de noventa ogivas nucleares (estimativa não oficial, pois os sionistas têm uma política de ambiguidade em relação ao seu arsenal nuclear).

Esse breve resumo histórico mostra que o Irã passou de ser um aliado submisso e mimado do imperialismo norte-americano a se tornar uma nação independente. De fato, as relações diplomáticas entre os dois países estão rompidas desde a tomada da embaixada americana em Teerã, que durou 444 dias (novembro de 1979 a janeiro de 1981) e marcou o início das sanções econômicas dos Estados Unidos contra a república islâmica.

Igualmente, não consideramos o Irã uma potência regional, pois tem muitas fraquezas estruturais em relação a Israel e a outros Estados árabes (como Arábia Saudita ou Egito). Da nossa perspectiva, é mais acertado caracterizá-lo como uma subpotência que ainda é politicamente independente do imperialismo, inclusive da China, que é seu principal parceiro comercial atualmente, mas que de modo algum dita sua política externa.

Fontes consultadas:
BALAGHI, Shiva. Uma breve história do Irã do século XX. Em https://greyartmuseum.nyu.edu/2015/12/a-brief-history-of-20th-century-iran/ (Consultado em 19 de junho de 2025).
BOSEMBERG, Luis E. 1997. Neoliberalismo, Reformas e Abertura no Irã: Um Novo País? Em file:///C:/Users/HP/Downloads/histcrit15.1997.03.pdf (Consultado em 22 de abril de 2024).
COGGIOLA, Osvaldo. TRINTA ANOS DA REVOLUÇÃO IRANIANA. Em https://www.researchgate.net/publication/287205583_TRINTA_ANOS_DA_REVOLUCAO_IRANIANA (Consultado em 25 de abril de 2024).
SALEHI-ISFAHANI, Djavad. 2024. Economia iraniana: 10 pontos sobre um Estado forjado nas sanções. Em https://legrandcontinent.eu/es/2024/03/01/economia-irani-10-puntos-sobre-un-estado-forjado-en-las-sanciones/ (Consultado em 23 de abril de 2024).
Zahedi, Arya. The Iranian Revolution at the Twilight of the Worker’s Council. Em https://communemag.com/the-iranian-revolution-at-the-twilight-of-the-workers-council/ (Consultado em 19 de junho de 2025).

 

Traduzido por Martin Camacho, do original De la revolución de los shoras a la contrarrevolucion jomeinista.