Ainda não se conhecem os detalhes do acordo, mas tudo indica que se trata de uma retirada da guerra em troca de promessas de negociações durante os próximos 60 dias, sem qualquer certeza sobre qual será o resultado final desse processo. Por enquanto, o resultado aponta para uma derrota de Trump e uma vitória do regime dos aiatolás. Permanece a preocupação com a população iraniana, que foi massacrada pelo regime em janeiro deste ano e com a libanesa, onde nesta terça-feira (16) Israel desferiu outro ataque e matou mais quatro pessoas, cujo total já ultrapassa os 3.800 mortos.
Por Agustín Sena
O princípio de acordo foi anunciado no domingo pelo Paquistão (que vem atuando como mediador diplomático) e, posteriormente, foi confirmado tanto pelo trumpismo quanto pelo governo iraniano. “Ambas as partes declararam o cessar-fogo imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. A cerimônia de assinatura ocorrerá na sexta-feira, 19 de junho, na Suíça”, anunciou o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif. Em resposta ao anúncio, o preço do petróleo bruto caiu 3% na primeira sessão após a divulgação do acordo. O barril do Brent estabilizou-se em 84 dólares.
Declarações
Trump repercutiu o anúncio em sua rede social, a Truth Social, com seu habitual tom triunfalista:
“O acordo com a República Islâmica do Irã já está fechado […]. Autorizo plenamente a abertura do Estreito de Ormuz sem pedágios e, simultaneamente, autorizo o levantamento imediato do bloqueio naval dos Estados Unidos. Navios do mundo: liguem seus motores! Que o petróleo flua!”
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, anunciou que “o texto do memorando de entendimento já está concluído”.
A notícia chega após longas semanas de negociações entre Trump e o regime iraniano, durante as quais as partes jogaram de esconde-esconde em relação à possibilidade de um eventual acordo. Na semana passada, cogitou-se a possibilidade de uma escalada do conflito após ataques mútuos (de menor intensidade) entre os dois exércitos. No próprio domingo do anúncio, as versões se sucederam em meio a incertezas, quando novos bombardeios israelenses sobre o Líbano colocaram em dúvida a efetiva concretização de um acordo entre as partes.
Mesmo após o anúncio, os elementos de dúvida e incerteza continuam sendo inúmeros. Em primeiro lugar, ainda não se conhece o texto real do memorando que seria assinado nesta sexta-feira pelas delegações diplomáticas de ambos os governos. Além disso, vale destacar que não se trata propriamente de um acordo de paz. O texto a ser assinado nesta sexta-feira em Genebra será, no máximo, um acordo de cessar-fogo em novas condições, que daria início a um período de negociações de 60 dias para alcançar um “acordo definitivo”, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Irã.
Segundo Gharibabadi, nessa (longuíssima) rodada de negociações,
“serão abordados o levantamento das sanções contra o Irã, bem como seu programa nuclear, mecanismos para a supervisão do cumprimento dos compromissos e um plano de reconstrução para o Irã” (El País, 14/6).
Do mecanismo diplomático participariam o Paquistão, o Catar, a Turquia e o Egito como Estados observadores do processo. E teria início “uma vez que o novo cessar-fogo tenha entrado em vigor, o Estreito de Ormuz tenha sido desbloqueado e os fundos iranianos congelados no exterior tenham sido liberados” a implementação dos compromissos previstos no acordo.
Um pré-acordo com mais dúvidas do que certezas.
É evidente que ainda é preciso aguardar os termos efetivos do texto a ser assinado neste 19 de junho para que se possam fazer diagnósticos mais precisos. Mas o primeiro dado que salta aos olhos é que o acordo (ou pré-acordo) que Trump anuncia com grande alarde deixa indefinidos e adia todos os pontos problemáticos da negociação que vinha sendo conduzida até agora. O único dado confirmado por ambos os governos, até o momento, é a abertura do Estreito de Ormuz por parte do Irã e o levantamento do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos.
Esse ponto básico implica restabelecer condições mais estáveis para a continuidade das negociações, mas deixa sem solução todas as questões centrais da disputa que levaram Trump a iniciar a guerra. O pré-acordo parece ser uma extensão das dúvidas estratégicas e do permanente taticismo que Trump demonstrou ao longo de todo o conflito. Diante disso, por enquanto, o resultado aponta para uma derrota de Trump e uma vitória do regime dos aiatolás.
A questão do programa nuclear iraniano, apresentada por Trump como o centro do conflito durante o último período, não faria parte do texto a ser assinado nesta sexta-feira (19) e ficaria adiada para ser discutida nas próximas semanas. As negociações sobre o tema nuclear aparecem, por enquanto, vinculadas às questões econômicas. O regime iraniano pretende negociar (e obter) o levantamento das sanções econômicas internacionais, o desbloqueio de fundos iranianos congelados no exterior (que somam 24 bilhões de dólares, cerca de um quarto do total afetado pelas sanções) e até mesmo receber recursos internacionais para um plano de reconstrução da infraestrutura interna estimado em 300 bilhões de dólares. A versão difundida pelo trumpismo é que esses recursos estariam condicionados à entrega do material nuclear iraniano. Trata-se, porém, de algo que está longe de ser claro neste momento.
O outro grande ponto que antecipa problemas é, obviamente, a questão libanesa. Já nas últimas semanas, o avanço territorial israelense sobre o sul do Líbano e os repetidos bombardeios sobre a região de Dahiyeh, em Beirute, colocaram em risco, repetidas vezes, as negociações entre Trump e o Irã. É verdade que o anúncio prevê um acordo de cessar-fogo “em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Mas o mesmo ocorreu com o cessar-fogo firmado em abril. Desde então, os ataques israelenses contra o Líbano não cessaram. Apenas se tornaram mais espaçados por um período, para depois voltarem a se intensificar. A ampliação da chamada “linha amarela” das Forças de Defesa de Israel (IDF) está incorporando uma porção de território quatro vezes maior do que a capturada no início do cessar-fogo.
Do que não resta dúvida é que Benjamin Netanyahu e o regime sionista israelense expressam uma vontade colonial desenfreada, que não encontra freios nem moderação política. Nessas condições, o (pré-)acordo entre Trump e o Irã mostra-se insuficiente para resolver qualquer um dos pontos de crise regional (e global) desencadeados pela agressão imperialista que o próprio Trump (secundado por Netanyahu) iniciou alguns meses atrás.
O que ganhou Trump?
Além das dúvidas em torno de qual será o novo status quo da região caso se alcance o fim da guerra, a pergunta que surge é: o que Trump ganhou com a incursão imperialista que começou unilateralmente há três meses e meio?
“O certo é que, se, como todos desejam, a guerra iniciada em fevereiro passado terminar de uma vez por todas, ela o fará sem que se tenham conhecido as razões pelas quais começou. E não porque Trump as tenha mantido em segredo, mas porque foi mudando continuamente de justificativa até evidenciar sua falta de convicção” (El País, 16/6).
Trump iniciou, apoiado por Netanyahu, uma guerra que parecia ter como objetivo a derrubada do regime teocrático iraniano. Trabalhou com uma hipótese semelhante à da Venezuela, que não se confirmou no país persa. Não é de se estranhar, já que existem enormes diferenças entre o regime dos aiatolás e da Guarda Revolucionária, por um lado, e o regime decadente do madurismo, por outro.
Posteriormente, Trump mudou seu discurso para a questão nuclear. Nesta terça-feira (16), declarou durante a cúpula do G7, na França, que “o acordo se trata de garantir que o Irã jamais tenha uma arma nuclear”. A contradição é dupla. Em primeiro lugar, porque foi o próprio Trump quem rompeu unilateralmente o acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã, os Estados Unidos e outras potências. Esse acordo estabelecia um limite de 3,67% de pureza para o enriquecimento de urânio iraniano em troca da suspensão das sanções econômicas, ao mesmo tempo em que obrigava o Irã a descartar 97% do material enriquecido que possuía armazenado. Naquela época, Trump afirmou que o pacto era uma abominação do governo Obama que fornecia bilhões de dólares a um regime sanguinário.
Desde a ruptura do acordo original (o JCPOA – Joint Comprehensive Plan of Action), o regime dos aiatolás passou a enriquecer urânio livremente até acumular cerca de 450 quilos de material enriquecido a 60%. O nível de enriquecimento necessário para a produção de armas nucleares é estimado em torno de 90%.
Hoje, Trump está negociando, em meio à guerra, desde uma posição ainda mais desfavorável do que aquela em que se encontrava quando rompeu o JCPOA em 2018. Segundo as informações divulgadas até o momento, a discussão com Teerã gira em torno da imposição de um limite de enriquecimento de 5%. Trump pretende que o Irã entregue os 450 quilos de urânio enriquecido (cujo paradeiro atualmente é incerto), mas o regime da Guarda Revolucionária Islâmica (GRI) pretende, em vez disso, apenas diluí-lo até o limite de enriquecimento estipulado.
Não foi apenas a ruptura do JCPOA por parte de Trump que permitiu um maior enriquecimento de urânio, senão que esse processo havia sido interrompido pela chamada Guerra dos Doze Dias do ano passado, quando os bombardeios de profundidade realizados pelos Estados Unidos impediram que o Irã continuasse suas operações nucleares normalmente. Ou seja, a guerra iniciada por Trump em 28 de fevereiro não parece, até o momento, ter feito avançar nem um milímetro a questão nuclear.
Variáveis incertas no médio prazo
Vale lembrar que a situação do regime iraniano era pouco menos que desesperadora no início do ano. Após o revés da Guerra dos Doze Dias, o regime teocrático-militar iraniano não conseguia controlar as variáveis econômicas básicas. A rebelião popular massiva de dezembro-janeiro foi um dos maiores processos de mobilização de massas da história da República Islâmica, expressando o esgotamento da população urbana iraniana com o regime. A Guarda Revolucionária a esmagou sob o fogo dos fuzis Kalashnikov. Mas a imagem política deixada por esse processo foi a de um regime sem instrumentos para administrar a economia do país e com cada vez menos elementos de legitimidade junto à população.
Trump interrompeu o dia a dia do regime em um de seus momentos mais críticos. Hoje, a situação é diferente: o regime iraniano pode sair da guerra melhor do que entrou. Em primeiro lugar, porque a guerra trumpista subordinou a principal ameaça aos aiatolás e à Guarda Revolucionária Islâmica: a mobilização e a atividade independente das massas trabalhadoras iranianas. Qualquer atividade autônoma da população ficou limitada pelos bombardeios norte-americanos e sionistas. Além disso, o regime iraniano demonstrou ao mundo uma importante carta de força: sua capacidade de fechar o Estreito de Ormuz com um gasto mínimo de recursos e causando um impacto econômico de magnitude global.
Não se trata de afirmar que o regime iraniano (e o Irã como país) não tenha sofrido danos em decorrência da agressão. É de esperar que as consequências econômicas sejam severas para a infraestrutura local, tanto na indústria energética quanto na militar e em outros setores. Sem mencionar os 7 mil mortos causados por Trump e Netanyahu.Mas isso não se traduz necessariamente em um maior enfraquecimento político do regime. Sobretudo se vierem a se concretizar, juntamente com a assinatura de um acordo, a liberação dos fundos iranianos congelados no exterior e o levantamento das sanções econômicas.
“Esse dinheiro e a suspensão de algumas medidas punitivas podem constituir uma tábua de salvação para um regime que, antes da guerra, estava em uma situação extremamente delicada. Esses recursos lhe darão margem para melhorar um pouco a economia nacional e reduzir o descontentamento, sobretudo se vierem acompanhados do plano bilionário de reconstrução que o Irã pretende obter” (El País, 16/6).
Na semana passada, recordávamos que Trump embarcou em uma guerra confiando em sua supremacia militar, para depois se chocar com a subordinação do fator militar à política e à economia internacionais. A falta de uma estratégia clara em relação à guerra contra o Irã, somada à insuficiente legitimidade interna para conduzir uma nova aventura militar ultramarina, abriu elementos de crise política que ele vem carregando há meses.
Hoje, Trump se encontra necessitado de encerrar a crise do Golfo para conter seu desgaste político e concentrar-se na disputa eleitoral de meio de mandato, que pode assumir um caráter cada vez mais plebiscitário nos Estados Unidos. Ainda assim, o pré-acordo anunciado no domingo não resolve definitivamente nenhum de seus problemas. Por mais que ele o apresente com gestos de triunfo, não se trata de um ponto final na guerra, mas sim do início de uma nova etapa de negociações.
O cessar-fogo anunciado em abril passado foi, mais do que uma interrupção das hostilidades, uma atenuação delas. O que o acordo em gestação antecipa é um novo adiamento do problema, sem perspectivas claras de resolução, ao menos por enquanto. O fato é que Trump precisa apresentar como uma vitória um “pré-acordo” que, em princípio, apenas reverteria os problemas gerados pelo próprio Trump (o fechamento do Estreito de Ormuz). O regime iraniano, por sua vez, ainda que tenha sofrido danos materiais, econômicos e em termos de sua influência regional, tem a possibilidade de surgir aos olhos do mundo como tendo sobrevivido ao ataque coordenado do exército norte-americano e das forças sionistas.
Netanyahu: entre o expansionismo sem limites e o isolamento político
Nesse cenário de variáveis incertas, é inegável que o principal fator de instabilidade regional continua sendo a existência e a atuação do Estado sionista. Os interesses coloniais de Israel no Oriente Médio não apenas estiveram entre as motivações para o início da agressão, como também colocaram em risco todas as tentativas de desescalada militar e, ainda hoje, mantêm à beira do abismo qualquer perspectiva de encerramento do conflito.
Netanyahu e o conjunto do establishment sionista não dão qualquer sinal de moderação em sua orientação. Parecem decididos a avançar territorialmente, embora essa atuação enfrente uma rejeição massiva em nível internacional. Israel continua realizando ataques contra o Líbano, apesar da oposição formal de Trump e das ameaças do Irã de interromper as negociações caso as Forças de Defesa de Israel (IDF) não se retirem do território libanês.
O fato é que a perspectiva de um pacto entre Trump e o Irã abre uma série de problemas para Netanyahu. Isso porque a ação militar expansionista na região não possuía apenas motivações territoriais, mas também políticas. No plano interno do Estado colonial israelense, o estado de guerra permanente funciona como um fator de legitimação, sustentado por uma lógica evidentemente racista e de limpeza étnica.
“Para Netanyahu […] atacar a República Islâmica não era apenas um ‘sonho’ acalentado há quatro décadas (em suas próprias palavras), para o qual lhe faltava apenas um parceiro disposto na Casa Branca. Era também, caso tivesse sido bem-sucedido, uma espécie de redenção pessoal e política diante de outro imenso fiasco de segurança de seu mandato: o ataque do Hamas em outubro de 2023.”
Hoje, os meios de comunicação sionistas já falam em um “fracasso” da incursão de Netanyahu contra o Irã. Figuras da extrema direita sionista criticam Netanyahu por não levar mais adiante o ataque ao Irã e a incursão no Líbano. E, nas últimas horas, Trump declarou durante a cúpula do G7 que está “pouco satisfeito” com a atuação de “Bibi” Netanyahu em relação à invasão e ao cerco do Líbano.
Em termos militares, Israel vive um momento de ampla expansão. Não controlava tanto território alheio desde 1982 (quando realizou a maior invasão do Líbano, que duraria 18 anos) e nunca havia bombardeado tantos países quanto em 2025. Porém, Netanyahu tem poucas vitórias para exibir à base social colonialista israelense: o regime iraniano não caiu, o Hezbollah não foi eliminado do Líbano, o Hamas continua controlando parte de Gaza embora Israel mantenha ocupados cerca de 70% da Faixa e a vida dentro de Israel permanece longe da normalidade devido ao estado de guerra permanente.
O que não significa que os colonos sionistas não estejam ganhando terreno sobre os países vizinhos, perpetrando diariamente atos de limpeza étnica e racista. Mas a situação de Netanyahu é hoje contraditória e pode ampliar de forma contínua seus níveis de impopularidade.
“Em abril, um dia após a decretação do cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã, o Instituto Agam e a Universidade Hebraica de Jerusalém realizaram outra pesquisa. O resultado: apenas 10% consideravam a campanha contra o Irã, lançada em 28 de fevereiro, um grande sucesso; 64% lamentavam a trégua e 40% defendiam a continuidade dos ataques de forma unilateral. Os três principais sentimentos em relação ao cessar-fogo eram desespero (36,8%), confusão (18,1%) e raiva (15,6%).”
Em todo caso, um pré-acordo com datas e termos ainda incertos não será suficiente para deter a matança promovida pelo sionismo no Líbano e em todo o Oriente Médio. Nesta terça-feira (16), as Forças de Defesa de Israel (IDF) atacaram o sul do Líbano com drones e mataram pelo menos quatro pessoas. Os mortos em decorrência das ações sionistas desde 2 de março (início da atual agressão contra o Líbano) já ultrapassam 3.800, enquanto o número de deslocados supera um milhão.








