“Queima de arquivo” – Miliciano Adriano da Nóbrega é executado

Fonte: Brasil247

RENATO ASSAD

Há mais de um ano foragido, o miliciano Adriano da Nóbrega, acusado de chefiar a mais antiga e poderosa milícia do estado do Rio de Janeiro, conhecida como o “Escritório do Crime”, e de possuir relações diretas com a família Bolsonaro, foi assassinado no último domingo (2/02) no município de Esplanada na Bahia, durante uma operação policial.

Adriano, ex-capitão do BOPE e expulso da Polícia Militar do Rio de Janeiro em 2014, estava foragido ha cerca de um ano. Queremos aqui, primeiro ressaltar a ligação direta deste criminoso e liderança miliciana com a família Bolsonaro e com o próprio Presidente da República, fator que mais adiante pode evidenciar uma queima de arquivo. O miliciano estava envolvido e foi citado na investigação aberta pelo Ministério Público (MP) do Estado do Rio de Janeiro no caso da prática de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, onde as contas de Adriano eram usadas para repassar dinheiro à Fabricio Queiroz, então assessor do deputado e acusado de comandar o esquema de devolução de salários.

Foi através de Queiroz, ex-companheiro de PM do 18º Batalhão que parentes do miliciano foram empregados e contratados para o gabinete de Flávio, incluindo sua mulher e sua mãe. Para além da relação familiar lotada em seu gabinete, em 2005, quando ainda estava preso pelo homicídio de um guardador de carros, Adriano foi condecorado pelo então deputado Flávio Bolsonaro com a mais alta honraria da casa. Não bastasse a defesa e a moção lhe conferida pelo filho do presidente, o próprio Jair Bolsonaro, então deputado federal em 2005, o defendeu ferrenhamente contra a acusação de homicídio e, “coincidentemente”, o miliciano seria absolvido em um novo julgamento.

Há quase dois anos sem respostas sobre o assassinato de nossa companheira Marielle Franco e Anderson Gomes, seu motorista, a polícia ainda investiga se há relação direta entre Adriano e os executores da então vereadora, Ronnie Lessa (suspeito de efetuar os disparos) e Élcio Vieira de Queiroz (suspeito de estar dirigindo o carro). O que parece não ter como dissociar é a relação entre esses criminosos e, mais do que isto, uma subordinação política às figuras que mandaram silenciar Marielle. E neste caso não há como descartar uma possível intenção direta da família Bolsonaro.

Parece-nos que se Adriano da Nóbrega estivesse vivo e fosse preso e posteriormente interrogado, poderia apresentar elementos que, primeiro comprometeriam uma ampla rede de figuras políticas e possíveis envolvimentos com o “Escritório do Crime” e, segundo, uma indiscutível aproximação da família Bolsonaro com a sua figura e os elos e esquemas que a mesma estaria inserida. Fato que comprometeria a família e o presidente até os dentes e tornaria insustentável o seu governo.

Temos, necessariamente, sobre este cenário, que indagar: a quem interessa o silenciamento do miliciano? Ao que tudo indica, sua execução trata-se de uma queima de arquivo, segundo José Cláudio Souza Alves, sociólogo e estudioso das milícias. Segundo Alves “Ele não estava em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, armado até os dentes e cercado de outros milicianos do seu grupo (…) Ele estava numa residência em um espaço rural no interior da Bahia. Como o fator surpresa estava nas mãos dos investigadores, se o objetivo fosse prendê-lo, os policiais poderiam eleger o momento ideal para isso e fazer um cerco. Não há plausabilidade na situação descrita pela polícia de que ele teria reagido, se ferido e acabado morto. Na minha visão, é uma operação suspeita. O Adriano era um cara com ampla experiência nesta área. Atuou no Bope. Numa condição de cerco, ele saberia que não teria chance alguma e se entregaria. Tudo indica, portanto, que partiram de um plano para eliminá-lo”, afirmou o autor do livro “Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense”.

Para além da visão do sociólogo, da qual compartilhamos, o advogado de Adriano, Paulo Emilio Catta Preta, disse que seu cliente temia ser morto como queima de arquivo e não há como discordar do próprio receio do miliciano. Enquanto isso, a esquerda socialista, deve retomar a campanha e consignas por justiça à Marielle e Anderson, inserir na dinâmica das ruas e exigir respostas que até hoje não nos foram dadas.