No momento assistimos ao ressurgimento das rebeliões populares do século XXI (iniciadas em 2001 e ressurgidas em 2011/2015), algumas delas são detentoras de uma força de ação bastante radicalizada dos de baixo.

Essas ondas de revolta têm como resposta a absorção à normalidade e outras são desviadas para os projetos neo-reformistas, ambas com o fito de impedir uma alternativa de independência de classe dos trabalhadores.

É necessário, assim, voltar a estudar e criticar os momentos históricos de movimentação da classe trabalhadora e as formas de controle utilizadas para ludibriar a mesma para apresentarmos soluções próprias do socialismo revolucionário.

Os momentos de ascenso dos trabalhadores e, no momento oposto, de revoltas contra a forma burguesa de dominação – que traz como resposta somente a miséria, a devastação, a opressão e uma ignominiosa exploração -, nos dá subsídios concretos para romper com as políticas e táticas apresentadas pelas concepções que não apostam na luta anticapitalista, na autodeterminação da classe trabalhadora, na construção de organizações e no desenvolvimento da consciência socialista. O que é vital, inclusive, para vencermos velhas políticas de conciliação de classes travestidas de “política de resistência democrática”.

Neste sentido, apresentamos artigo de Marcelo Yunes, escrito em 2005, mas ainda bastante atual diante dos processos eleitorais na América Latina, em que se debate as origens do peronismo, o começo da estatização e o controle desde cima do movimento operário.

Nota do tradutor

O DIA DA “LEALDADE

O que foi o 17 de outubro de 1945?

Por Marcelo Yunes

60 anos após um momento transcendental da história política argentina, cabe voltar à origem, significado e consequências do 17 de outubro.

Mais que um fato histórico, 17 de outubro representou por várias gerações – e ainda representa, embora em menor grau – um verdadeiro marco fundador, uma lenda, uma data épica nacional. Em 17 de outubro de 1945, a história da Argentina se dividiu em duas e, por décadas, também dividiu a sociedade argentina em torno do movimento político em que se originou: o peronismo.

Por isso, seria inútil e tedioso transcrever aqui os julgamentos dos historiadores e políticos peronistas (ou os dos antiperonistas gorilas). Para os primeiros, 17 de outubro não faz parte de um processo a ser analisado, mas um mito a ser reverenciado que não admite discussão ou crítica. Para os últimos, trata-se de expressar o horror mais profundo da intervenção direta das massas na política, qualquer que fosse essa.

Contra a apologia e contra o ódio de classe, ambos igualmente cegos a qualquer tentativa de aproximar a verdade histórica, não há antídoto melhor que o método, a análise e a política marxistas. Contaremos aqui, especialmente, com o trabalho de dois historiadores e intelectuais da formação marxista: Milcíades Peña e Alejandro Horowitz. [1]

Da Década Infame ao golpe do 4 de junho de 1943

Desde o golpe de 1930 contra Hipólito Yrigoyen, o regime político era caracterizado por eleições fraudulentas e corrupção galopante, o que lhe rendeu o merecido apelido de Década Infame. Mas a nota mais marcante foi que, como resultado da crise mundial iniciada em 1929, que ameaçava o lugar das exportações argentinas no mercado mundial e, portanto, a renda da burguesia latifundiária, esta decidiu deitar nos braços da Inglaterra. O Pacto de Roca-Runciman de 1933 praticamente converteu a Argentina em um membro econômico informal do Império Britânico. Isso gerou um atrito profundo com a nova metrópole imperialista que estava substituindo a Inglaterra em todo o mundo, e particularmente na América Latina: os Estados Unidos. Ambas as potências disputariam de maneira surda sobre qual delas teria o favor da Argentina, e essa disputa repercutiria em todas as classes sociais.

O desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial afiaria esse conflito. Apesar de serem aliados, a Inglaterra e os EUA não tinham os mesmos interesses ou objetivos em relação à Argentina, e isso se manifestava em que os EUA pretendia que a Argentina declarasse guerra à Alemanha e ao Japão, enquanto a Inglaterra preferia que a Argentina mantivesse uma neutralidade amigável. Em 1942, os Estados Unidos promovem o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (o mesmo que ignorou na Guerra das Malvinas), pelo qual os ianques garantiram hegemonia militar e política no hemisfério. “Os grupos representativos do capital britânico entendem que a ruptura com o Eixo colocará a Argentina inteiramente no bloco pan-americano e sob o domínio econômico dos Estados Unidos, rival comercial da Grã-Bretanha na Argentina.”[2]

A burguesia industrial e a latifundiária – entre os quais não houve conflito essencial, contra a fábula dos historiadores peronistas da burguesia nacional “anti-oligárquica” – se dividem até certo ponto após 1940. Os industriais entendem que precisam de insumos ianques para desenvolver. seu setor e que a antiga e tradicional metrópole, a Inglaterra, está esgotada e seu tempo passou. Federico Pinedo, cujo plano de 1940 promoveu inicialmente a entrada de capital fundamentalmente europeu, e não ianque, admite que “se a Argentina (…) aspira a preservar sua organização social e a se proteger de choques violentos, precisa urgentemente preservar suas relações com os Estados Unidos. Quem disser o contrário, não sabe o que é a economia argentina, nem a produção, nem a indústria, nem quais são as fontes de suprimento, nem quais são os possíveis mercados.” [3]

Os “choques violentos” a que Pinedo se refere estão relacionados a mudanças na estrutura social argentina. Em particular, o crescimento numérico da classe trabalhadora pelas mãos do desenvolvimento das fábricas e a incipiente crise no campo que deslocou centenas de milhares de pobres rurais para as cidades. Nasceu uma nova classe trabalhadora, nascida da imigração interna e praticamente nenhuma experiência sindical ou política, diferentemente da classe trabalhadora desde o início do século, originada na imigração estrangeira e que trouxe consigo uma bagagem de organização e tradições políticas. Por outro lado, a política abertamente burocrática, legalista e próyanqui do PS e do PC ajudaram a aliená-los a favor dos novos trabalhadores, presa fácil da exploração. As próprias estatísticas oficiais admitiram que “a situação do trabalhador na Argentina piorou, apesar do progresso da indústria. Enquanto grandes lucros se realizam diariamente, a maioria da população é forçada a reduzir seu padrão de vida (…) A maioria dos empregadores se recusa a conceder aumentos salariais.” [4]

O governo de Ramón Castillo (que sucedeu ao presidente Ortiz, eleito em 1938, devido a sua doença) não se atreveu a mudar o status quo pró-inglês e manteve a neutralidade. Mas as eleições de 1943 tiveram um candidato e vencedor “cantado”: o saltenho Robustiano Patron Costas, “membro principal da oligarquia industrial e proprietário de terras do Norte, vinculado ao Standard Oil[5], isto é, aos Yankees, o que significaria uma virada completa na política externa argentina. Como evidenciado por uma petição publicada na imprensa em 3 de junho de 1943, quase toda a burguesia fechou fileiras atrás de Patron Costas, Pinedo e dos Yankees.

Assim, “a balança se inclinava perigosamente para Wall Street. Então, o Exército, interpretando os agricultores neutralistas, deu um golpe de estado para restaurar, de maneira bonapartista [6], a unidade dos exploradores.[7]

O golpe das forças armadas nucleadas na loja (NT.: loja maçônica) do GOU (Grupo Obra de Unificación) foi frequentemente sublinhado como nazista ou pró-nazi, especialmente pelos EUA e seus agentes locais. Mas, embora existissem no GOU, sem dúvida, oficiais germanófilos, a ala nazista logo foi deslocada, toda vez que rejeitavam as demandas ianques cada vez mais desavergonhadas. Nem o Presidente Ramirez nem seu sucessor Farell não se movem da neutralidade que tanto convinha aos ingleses e fazendeiros. O Estado garantiu a renda agrícola comprando colheitas e favoreceu os interesses ingleses ao resgatar a dívida externa. A satisfação britânica é melhor resumida pela decana revista do imperialismo inglês, The Economist:A política americana na Argentina parece menos motivada pelo desejo de derrotar Hitler do que pelo desejo de estender a influência de Washington a Cabo de Hornos. Em suma, um imperialismo certamente benevolente, mas não menos real (…) Por décadas, a Argentina tem sido um dos maiores fornecedores de alimentos baratos para a população industrial britânica. Em compensação, houve na Argentina um mercado valioso para itens britânicos (…) Não é do interesse de nenhum britânico quebrar uma das sociedades mais bem-sucedidas da história econômica. ” [8] Escusado será dizer quem foi o principal beneficiário nessa “sociedade de sucesso” …

Do Ministério do Trabalho e Bem-Estar ao 17 de outubro

O coronel Perón assume no Ministério do Trabalho e Bem-Estar em 2 de dezembro de 1943 e imediatamente define seu objetivo, segundo disse em seu discurso em transmissão de rádio, “abolir a luta de classes“. Em vez de tão ambicioso objetivo, coloca em marcha medidas mais práticas: “o trabalho do Ministério do Trabalho foi múltiplo e eficaz no sentido de estatiizar o movimento operário. Perón passou a varrer a burocracia sindical desacreditada controlada pelo PC, para o qual teve a ajuda da poderosa burocracia sindical que respondia ao PS. [9](…) Então foi a vez da burocracia socialista, eliminada sem dificuldade, em parte devido à absorção de seus elementos mais acomodativos. O Ministro do Trabalho e Bem-Estar não foi econômico no uso de meios de repressão e suborno (…) Além da maior parte do novo proletariado, trabalhadores de origem rural recém-ingressados ​​na indústria (…) eram campos virgens para o proselitismo dos sindicalistas peronistas. A partir dos escritórios do Ministério do Trabalho e Bem-Estar, uma nova organização sindical foi estruturada, culminando na CGT do período 1946-1955 e cuja primeira e fundamental característica era depender em todos os aspectos do Estado que lhe dera vida” [10]

Qual é a origem dessa atitude diferente em relação ao movimento operário? Para Alejandro Horowicz, “Perón refleti os novos tempos e uma nova política para os novos tempos. Em vez da Lei de Residência, em vez da Semana Trágica, em vez da repressão brutal e desavergonhada, a parlamentarização da luta de classes (…) Os termos não eram reforma ou revolução, mas reforma ou crise. E é por isso que os militares se dirigiram, a contragosto, à reforma (…) Toda a política do golpe, toda a política do GOU, se resume à sua política social: à legalização do movimento operário (ilegal desde sempre), reconhecer a legitimidade de suas velhas bandeiras; em suma, reconhecer que na república burguesa os proletários eram cidadãos.[11]

Essa política foi concretizada em reais concessões à classe trabalhadora: melhorias de salário e condições de trabalho, proteção dos líderes sindicais contra a arrogância dos patrões, tendência a favorecer o trabalhador nos conflitos, reconhecimento dos sindicatos “leais a Perón” e vários instrumentos legais de defesa do trabalhador.

Embora nada disso significasse violar significativamente os imensos lucros que a classe capitalista estava obtendo, as acusações de “demagogia” da União Industrial, da Sociedade Rural e da Câmara de Comércio foram rápidas. Ao coro se somava a pressão cada vez mais insuportável da embaixada ianque, reproduzida com prazer pela imprensa. Farrell finalmente declarou guerra ao Eixo em 1945, semanas antes da rendição da Alemanha, mas isso não satisfez aos ianques. O embaixador Spruille Braden chega bem a tempo de se tornar o factotum de toda a oposição a Peron. Radicais, socialistas, conservadores e o PC, sob a liderança do inefável Victorio Codovilla, compõem a União Democrática, que se prepara para arrasar nas eleições.

Como diz Horowitz, “o voto em si não era um objetivo do GOU (…) a realização das eleições constituiu uma vitória da União Democrática, uma concessão aos EUA, uma quase derrota do GOU“. [12]

Os bairros aristocráticos e a classe média abastada que levantaram um andor para Braden como apóstolo da liberdade são a base social de apoio ao golpe palaciano de 9 de outubro de 1945. O almirante Vernengo Lima propõe transferir o poder para o Supremo Tribunal corrupto até as eleições. A maior parte do Exército, liderada pelo chefe do Campo de Mayo, Eduardo Ávalos, aceita as eleições, mas não a transferência de poder. A terceira facção das forças armadas, a de Perón, não tem comando de tropas reais e deve aceitar a prisão do coronel. A Marinha representa o sentimento de toda a burguesia proyanqui; Perón tinha a sua base social no movimento operário. Como resume Horowitz, “no centro está Campo de Mayo (…) [a única facção] em posição de ditar sua vontade, mas ao mesmo tempo a única que carece de aliados socialmente representativos (…) Perón não chama a luta, não mobiliza; em sua opinião, seu ciclo está fechado.[13]

Após a manifestaçãoção reacionária de 12 de outubro em frente ao Círculo Militar, que exige a entrega de poder ao Supremo Tribunal Federal há agitação no movimento operário. Enquanto o dirigente sindical da carne Cipriano Reyes pede para iniciar uma greve geral para exigir a liberdade de Perón, o líder ferroviário Luis Monzalvo, intimamente ligado a Perón através de Domingo Mercante, se reúne com o general Ávalos, então ministro da Guerra, em 16 de outubro , para negociar uma solução política.

Na reunião do Comitê Central Confederal da CGT aprova-se, por 16 votos a 11, a greve geral da quinta-feira 18. Horowitz, analisando as atas do debate, mostra que é um movimento defensivo, não ofensivo ou muito menos revolucionário: “Não é uma aliança entre a fração nacionalista do Exército e a classe trabalhadora – como diz Ramos [e toda a mitologia peronista. MY] – mas de uma situação em que os interesses imediatos da fração Ávalos e os interesses imediatos da CGT coincidem (…) Não apenas a classe trabalhadora exige mobilização; é exigido por toda oposição militar a Vernengo Lima [ou seja, o setor mais reacionário, a Marinha. MY] (…) pelas fissuras do conflito militar deslizam as delgadas fileiras dos trabalhadores industriais.” [14]

Em 17 de outubro, a Polícia Federal e várias outras do interior se sublevam; o exército se pronuncia a favor de Perón. Segundo Peña, “entre todos, policiais, militares e altos burocratas estatais e sindicais, tiraram a classe trabalhadora das ruas, especialmente os seus setores mais jovens e recém proletarizados“.[15]

A concentração na Plaza de Mayo recolocou Perón no poder em uma manifestação de características sem precedentes em vários sentidos. Por sua massividade, em primeiro lugar, mas também por seu comportamento. Por exemplo, o embaixador inglês, David Kelly, conta em suas memórias que estava preocupado com a proteção do principal investimento inglês, as ferrovias. Mas não foi necessário: ao se drigir à mobilização de 17/10 no carro oficial com a bandeira inglesa, recebeu a saudação amigável da multidão, gritando por Peron e contra Braden. [16]

Da mesma forma, o jornal da Cúria, que na época apoiava fervorosamente Perón, diz que: “o aparecimento das “turbas” era “bem-humorado e calmo”. Não havia rostos hostis ou punhos erguidos (…) A multidão é respeitosa (…) [e] fizeram o sinal da cruz ao passarem em frente à Igreja (…) Essas turbas pareciam cristãs sem sabê-lo (…) um eco distante, ignorante e humilde, de nossos Congressos Eucarísticos … Embora não revelassem muita cultura, tinham pelo menos um saudável senso de respeito à propriedade, aos bens e à honra alheia.” [17]

É, sem dúvida, outra classe trabalhadora, outros líderes e outra perspectiva política que não as que se desenvolveram nas primeiras quatro décadas do século XX. Alguns não queriam reconhecê-lo, como o PC, que descreveu os trabalhadores peronistas como “manifestantes da escravidão”, “conglomerado uivante”, “turbas bêbadas”, “bandidos e desclassificados”, porque “os verdadeiros trabalhadores argentinos nunca deram esse show[18]. Esse gorilismo sem paralelo negou a realidade: era a classe trabalhadora que estava nas ruas em 17 de outubro.

Mas, não teve nada da epopeia operária, autônoma e revolucionária da mitologia peronista. A classe trabalhadora, é claro, não chega à força, mas por vontade própria e “nesse sentido“, diz Peña, “a mobilização de 17 de outubro foi espontânea (…) Mas se cada trabalhador agiu espontaneamente, sem ser forçado , a classe trabalhadora, como classe, não se mobilizou espontânea nem autonomamente, porque a iniciativa do movimento não veio da classe trabalhadora, a liderança não estava nas mãos da classe trabalhadora e a classe trabalhadora não teve outro papel senão o de aclamar Perón na Plaza de Mayo. (…) O resto foi preparado por generais, burocratas, políticos, padres e chefes de polícia. E esse resto é o tudo: é a condução do movimento, a fixação de seus fins e métodos (…) Os trabalhadores foram um fator decisivo nessa história, mas a história passava sobre suas cabeças[19]

Com um ponto de vista diferente em relação a Peña, Horowitz observa que “Perón não organizou o 17 de outubro: a mobilização de 17 de outubro é o resultado da atividade sindical da classe trabalhadora (…) que é (…) no âmbito da república burguesa, quando a classe trabalhadora ainda não integrava a república burguesa (…) uma manobra defensiva bem-sucedida do movimento operário que não constitui uma vitória, mas uma prorrogação: a política do coronel se prorroga até as eleições (…) O 17 de outubro não é uma greve revolucionária, nem uma mobilização pré insurrecional, nem uma revolução democrática em escala; é (…) uma mobilização de um líder militar do movimento operário (…) que violenta os fiéis da balança em que a política burguesa é executada. ” [20] É por isso que “Perón se dedicou ao longo de sua carreira política a impedir os 17 de outubro, ou seja, impedir que os trabalhadores escavassem fossos entre as diferenças das classes dominantes por meio da mobilização direta. Essa era a tarefa do próprio Perón (…) Perón cunhou implicitamente a seguinte fórmula: o destino do movimento operário está atrelado ao meu destino e meu destino está atrelado ao das Forças Armadas; se as Forças Armadas mudam de lado a classe trabalhadora, está derrotada, porque não pode e nem deve confrontar os soldados da Nação.”[21] Foi o que aconteceu, digamos de passagem, no golpe de 1955.

Conclusão

O nascimento do peronismo como movimento político é inseparável de seu controle absoluto do movimento operário e do afogamento de qualquer perspectiva independente dele. Esse tem sido o papel histórico de 17 de outubro: incorporar à vida política o novo movimento operário ao custo de que sua vida política não ultrapasse, em nenhum momento, os umbrais da institucionalidade burguesa. Como diz Horowitz.

Os limites da política argentina permaneciam dentro dos contornos traçados pelo bloco de classes dominantes (…) nenhum rompimento irreparável; bastava que os trabalhadores votassem e ganhassem para que se  redistribuíssem os benefícios do capital de outra maneira, e se os trabalhadores podiam redistribuir com o simples instrumento de votar, a confiança no capitalismo, na capacidade de atender às suas necessidades, se multiplicava até o infinito. E não se tratava da confiança no capitalismo independente, como sustentam os maquiadores profissionais da burguesia, mas a confiança no capitalismo tal qual era: dependente, semi-grotesco (…) A opulência argentina ocultava a dependência, gerava a ilusão de que, com repartindo melhor, bastava e sobrava. E o peronismo não se propôs seriamente outra coisa a cada vez que chegou ao governo.[22]

Cabe aclarar que essa “ilusão de melhor distribuição” a que o autor se refere em 1985 é muito mais ilusória, mesmo nas condições do capitalismo globalizado, como o mostram os esforços de Menem, Duhalde e agora Kirchner. Mas esse é o conteúdo político profundo da ideologia peronista, sancionada pelas massas em 17 de outubro: a ilusão da repartição do bolo em benefício dos trabalhadores e dos setores populares sem tocar nos interesses dos capitalistas e sem tocar no edifício institucional da democracia burguesa.

Em certo sentido, 17 de outubro funciona como o mito fundador dessa ideologia, oposto pelo vértice a tudo que se assemelha ao classismo marxista: “os trabalhadores conseguiram alcançar seus objetivos do momento sem se mobilizar como uma classe, sem usar métodos revolucionários, sem contar com sua própria direção, simplesmente servindo de massa de manobra disciplinada e obediente para generais, burocratas, políticos burgueses, padres e chefes de polícia, que ajustaram suas contas com outros generais e políticos. Para que explicar à classe trabalhadora que somente com seu esforço revolucionário deve esperar a vitória e que deve desconfiar e não esperar nada de bom dos militares, padres e políticos burgueses? (…) Para que explicar à classe trabalhadora que apenas sua organização e suas atividades desde baixo, sua presença ativa nos sindicatos e nas ruas, podem levar os trabalhadores ao poder? Tudo isso é desnecessário, argumenta o líder sindical peronista, uma vez que em 17 de outubro os trabalhadores obtiveram uma vitória sem fazer nada disso, muito pelo contrário.[23]

Este e nenhum outro é o legado ideológico de 17 de outubro, que foi explorado até o infinito por todos os governos peronistas desde 1946 até hoje. Esta é a expressão do “senso comum” de milhões de pessoas que ainda pensam que o peronismo tem muitas falhas, mas, em última instância, “algo será distribuído” e que, desde o estado nacional, provincial ou municipal, um peronista será “menos prejudicial” e tenderá a “tirar algo para o lado dos trabalhadores e dos pobres”.

Mas as condições de surgimento do peronismo, sintetizadas em 17 de outubro, se foram e não voltarão. O PJ de hoje não é o partido que, ainda que sendo capitalista, conseguirá “distribuir alguma coisa”, mas, que definitivamente, é hoje o principal partido capitalista. Para os trabalhadores, não só não é possível, mas também não é desejável reviver o peronismo de 1945.

Devemos romper com a ilusão da redistribuição: nenhum partido distribuiu riqueza de maneira mais desigual do que o peronismo de hoje.[24] A única saída para os trabalhadores não é aspirar a que alguma força ou político capitalista “redistribua” o produto social, mas lutar por um novo regime social em que esse produto social esteja nas mãos dos trabalhadores e do povo: o socialismo.


[1] É claro que, infelizmente, existem outros trabalhos escritos por aqueles que, também com formação marxista, defenderam posições políticas completamente lamentáveis. É o caso, por um lado, de Jorge Abelardo Ramos, apóstolo do “socialismo crioulo”, fundador da Frente Popular de Esquerda nos anos 70 e firme defensor do peronismo em textos como Revolução e Contra-revolução na Argentina. No extremo oposto, Juan José Sebreli, em Os desejos imaginários do peronismo, desencadeia um anti-peronismo visceral que nada mais é do que um gorilismo meio liberal, meio social-democrata. A literatura sobre o peronismo, marxista e não-marxista, é, por outro lado, inesgotável, mas consideramos que os trabalhos que citamos atendem a requisitos básicos: pesquisa séria – nenhuma manipulação ad hoc de fontes para demonstrar uma tese concebida de antemão – e um método são baseado em uma sólida formação marxista. Apenas tocamos aqui os aspectos políticos mais apropriados, pois é impossível lidar em profundidade com o contexto internacional, a estrutura econômica e outros fatores.

[2] Felix Weil, The Riddle Argentine, Nova York, 1944, p. 23, citado por Milcíades Peña em Massas, caudillos y élites, Buenos Aires, Fichas, 1973, p. 52

[3] “Carta del 20 de mayo de 1942″, em Federico Pinedo, La Argentina en la vorágine, Buenos Aires, 1946, em M. Peña, cit., P. 50.

[4] Comunicado de imprensa da Direção Nacional do Trabalho, Argentinisches Tageblatt, 23-4-1942, em M. Peña, cit., P. 58.

[5] M. Peña, cit., P. 56.

[6] Na linguagem política marxista, se dá o nome de bonapartista a um regime que busca encontrar um equilíbrio entre setores sociais conflitantes, com base nas forças armadas e policiais.

[7] Nahuel Moreno, Método de interpretación de la historia argentina, Buenos Aires, Pluma, 1975, p. 170

[8] The Economist, 5-8-1944, citado por M. Peña, Industrializacion y clases sociales en Argentina, Buenos Aires, Hyspamérica, 1986, p. 272

[9] Peña remete (em Masas, caudillos y élites, p. 61) a Jacinto Oddone, que em seu Gremialismo proletário argentino (Buenos Aires, La Vanguardia, 1949), destacou que “foi precisamente o principal líder sindicalista socialista que conferiu a Perón o título do primeiro trabalhador argentino ”(p. 412).

[10] M. Peña, cit., P. 61. Nahuel Moreno, no entanto, qualifica essa afirmação esclarecendo que “ainda não havia controle total sobre o movimento  operário, o que foi evidenciado nas atitudes ‘independentes’ de Cipriano Reyes, novo líder do sindicato da carne” ( N. Moreno, cit., P. 177).

[11] Alejandro Horowitz, Los Quatro Peronismos, Buenos Aires, Edhasa, 2005 (primeira edição, 1985), pp. 79-80. A Lei de Residência havia sido usada pelos governos antes de Hipólito Yrigoyen (1916-1922) para expulsar “agitadores” estrangeiros socialistas e anarquistas, enquanto a Semana Trágica foi como se denominou à repressão sangrenta do governo Yrigoyen sobre uma greve maciça em Buenos Aires em janeiro de 1919.

[12] A. Horowitz, cit., p. 83

[13] Idem, p. 85

[14] Idem, p.90-91

[15] M. Peña, cit., P. 80

[16] Citado por Peña, op. cit., pp. 82-83. Em relação ao mito do 17/10 como um “movimento nacional anti-imperialista”, Peña observa que: “esquece-se que em 17 de outubro de 1945, a Argentina foi dominada pelo imperialismo inglês, não pelo americano, que pressionou para expulsar seu rival, mas até depois, sem sucesso (…) No dia da famosa ‘mobilização anti-imperialista’, nenhuma mão levantou pedra para jogar contra o símbolo da presença imperialista na Argentina [ferrovias] ” (Industrialización y clases sociales em la Argentina, p. 301).

[17] Diario El Pueblo, 25 e 27 de outubro de 1945, em M. Peña, cit., P. 81-82.

[18] Jornal do PCA Orientación, 24-10-45, em M. Peña, cit., p. 80.

[19] M. Peña. Industrialización y clases sociales en Argentina, p. 302, 299 y 286.

[20] A. Horowitz, cit., p. 91-92 y 95-96.

[21] Idem, p. 95.

[22] Idem.

[23] M. Peña, Industrialización y clases sociales en la Argentina, p. 299.

[24] A diferença entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres atingiu seu recorde em toda a história do país com Duhalde, em maio de 2002: a diferença era de 30 para 1 a favor dos ricos. Mas depois de atenuar um pouco até maio de 2003 (24 para 1) com Kirchner, aumentou novamente: 27 para 1 (Clarín, 4-10-05).

Tradução: José Roberto Silva