Por Roberto Sáenz

Ao contrário do que quer Fourier, o trabalho não pode se tornar jogo, mas cabe a ele o grande mérito de ter apontado que o ultimate object (fim último) não era abolir a distribuição, mas sim o modo de produção, inclusive em sua forma superior. O tempo livre – que é tanto tempo para o lazer quanto tempo para atividades superiores – transformou seu possuidor, naturalmente, em outro sujeito, o qual entra então também, enquanto esse outro sujeito, no processo imediato de produção. Este é, ao mesmo tempo, disciplina – considerado em relação ao homem que virá – e exercício, ciência experimental, ciência que se objetiva e é materialmente criadora – com relação ao ser humano já desenvolvido, em cujo intelecto está presente o saber acumulado da sociedade –. Para ambos, o trabalho, na medida em que exige atividade manual e liberdade de movimentos, é ao mesmo tempo exercise (exercício)

Marx, 1980: 236/7

Continuamos com esta entrega nosso trabalho de estudo do “Fragmento das máquinas” dos Grundrisse, sendo esta nossa terceira entrega da série de artigos intitulados “Marx e as máquinas”.

1- “Die politische Oekonomie ist nicht technologie” (a economia política não é tecnologia)

 “O capital fixo, o capital que se consome no próprio processo de produção, é, em sentido rigoroso, meio de produção” (1980: 216).

Fica claro aqui o que apontamos na introdução: Marx chega ao conceito de capital fixo como aquele capital acumulado ou trabalho morto que exclui as matérias-primas: o capital fixo é propriamente as máquinas.

(…) o capital se apresentou como a totalidade das condições deste processo e se cindiu, conforme este, em certas proporções qualitativamente diferentes: material de trabalho (é esta, e não matéria-prima, a expressão correta e conceitual), meios de trabalho e trabalho vivo [essas divisões são conformes ao valor de uso e, portanto, trans-históricas, para além da transformação do trabalho em atividade]. Por um lado, o capital, conforme sua existência material [isto é, enquanto valor de uso], se fracionava nesses três elementos; por outro, a unidade dinâmica dos mesmos constituía o processo de trabalho (ou a incorporação conjunta desses elementos no processo), enquanto a unidade estática constituía o produto (1980: 217).

Seguimos no terreno geral da produção material, isto é, da produção de valores de uso, do processo de produção e ainda não do processo de valorização. Podemos acrescentar que os três conceitos remetem ao trabalho, que, de certo modo, nos Grundrisse, aparece mais como sujeito da produção do que em O capital. (Considerando-o subjetivista, que o era –subjetivista/objetivista para nós–, Hundis assinala que Negri via os Grundrisse como superiores a O capital porque este último sofreria do que os “teóricos da dialética sistemática” encontram mais atrativo nele: um “certo objetivismo” no qual as categorias econômicas assumem, em certo modo, vida própria, uma preocupação semelhante à expressa por Karel Kosik mediante sua categoria de pseudoconcreticidade, como vimos em nosso tomo 1.)

Marx acrescenta nesta citação algo importante: que a unidade dinâmica do material de trabalho (em vez de matérias-primas), dos meios de trabalho (em vez de meios de produção) e do trabalho vivo —tudo remetido ao trabalho humano— é constituída pelo processo de trabalho enquanto fator ativo, no qual o produto é seu resultado estático, passivo, poderíamos dizer. Aqui aparece um jogo de palavras entre o ativo e o passivo, em que o ativo, evidentemente, é a reunião dinâmica dos três “fatores” da produção, onde o trabalho humano é a parte viva —dominante nesse sentido— do processo. Embora o trabalho vivo se torne atividade, o pensamento de Marx, evidentemente, não é pós-humanista: a natureza tem primazia ontológica, mas a totalidade das relações humano-naturais compreende o objeto e o sujeito, e é próprio da humanidade ser o fator ativo, consciente, dessa relação nas áreas de atuação que vai conquistando a cada momento de seu desenvolvimento.

“Nessa forma, os elementos materiais — material de trabalho, meios de trabalho e trabalho vivo — se apresentam unicamente como os momentos essenciais do próprio processo de trabalho, dos quais o capital se apropria. Mas esse aspecto material —ou sua determinação enquanto valor de uso e processo real— se separa totalmente de sua determinação formal [isto é, enquanto capital criador de valor]” (1980: 217).

É preciso entender algo essencial que, por ser conhecido, não deve ser deixado de lado: o processo material da produção e o processo de valorização coincidem até certo ponto, porque o segundo tem como base material o primeiro, mas não são o mesmo: são dois universos paralelos. Há uma definição de Marx muito precisa a esse respeito, que colocamos primeiro em alemão por ser bastante categórica (além de servir, também, para compreender a transição socialista): “(…) die politische Oekonomie ist nicht Technologie” (a economia política não é tecnologia); uma é técnica, ainda que puramente positivista como já vimos; a outra são relações sociais. Por isso, na transição socialista, em que as relações econômicas ainda não podem ser reduzidas a meras relações técnicas, não se pode falar de “tecnologia social” em substituição da economia política: seguem dominando, queira-se ou não, as categorias da economia política (as categorias econômico-sociais), ainda que sob os “rigores” da planificação democrática e da democracia socialista.

O marxólogo-teólogo Enrique Dussel é bastante preciso a esse respeito: 

“A tecnologia é «instrumento de produção» (Produktioninstrument). Nesse nível, é preciso situar bem o tema, pois «a economia política não é tecnologia». Trata-se da intervenção da tecnologia no mero «processo de trabalho» (Arbeitsprozess), em geral, de forma abstrata, em si; na produção de valor de uso; como «destreza» [do] exercício repetido, ou como instrumentos objetivos (máquinas)” (Dussel, 1984: 24).

Retomando Marx, fica claro: o que interessa ao capital é o processo de valorização como tal (a criação de valor e mais-valia), seja qual for o suporte material (valor de uso: sempre deve haver um “suporte material”, salvo quando se trata de capital fictício). [1] Daí que o processo formal se separe “totalmente” do processo material, embora, como já dissemos, sem o processo material, sem o “suporte material”, isto é, sem a produção de valores de uso, ainda que não seja o objetivo específico do capital, não pode haver produção de valor (não se pode criar valor no ar, exceto, como dito, no caso do capital fictício).

Essa separação dos momentos materiais e formais da produção capitalista não significa que possam se tornar completamente independentes, mas sim que o elemento formal domina —paradoxalmente— o material (e nisso consiste a economia política): “Não falo aqui de uma suposta substância social comum do valor de troca”; pelo contrário, os valores de troca (pois o valor de troca só existe quando há pelo menos dois) representam algo comum a eles, algo independente “de seus valores de uso” (isto é, de sua forma natural), a saber: o valor. Assim, no livro de O capital, diz-se: “Esse algo comum que se manifesta na relação de troca ou no valor de troca das mercadorias é, pois, seu valor” (Marx, Notas sobre Wagner, 2022: 15). [2]

Na transição socialista e no comunismo, as determinações se invertem: a produção mercantil deve ser “controlada”, o “processo formal” deve ser controlado e, por fim, deve dominar exclusivamente o aspecto material do processo: a produção de valores de uso para satisfazer as necessidades humanas, deixando para trás, na história, a produção fundada na exploração do trabalho humano, sob qualquer forma histórica que seja.

“A forma material do valor de uso, sob a qual existem essas porções diversas [de valor], nada modifica na homogeneidade dessa determinação [de valor: magnitude de trabalho abstrato]. De acordo com a determinação formal, apresentam-se apenas como se o capital se cindisse quantitativamente em porções” (1980: 217).

Fica claro: a determinação quantitativa do valor, do trabalho abstrato, faz caso omisso da forma concreta de cada trabalho, do valor de uso do que é produzido, e o único que importa é a magnitude de valor criado. Isso é justamente o que caracteriza o modo de produção capitalista: o processo de valorização do capital, o domínio do momento formal sobre o material da produção.

Marx joga com o quantitativo e o qualitativo sob a influência de Hegel: 

“Sabe-se que Pitágoras expôs as relações racionais ou filosofemas em números (…) No plano pedagógico, o número foi considerado como o objeto mais apropriado da intuição interior e a tarefa de calcular as relações numéricas [foi considerada] como a atividade do espírito, onde este leva à intuição suas próprias relações e, em geral, as relações fundamentais da essência. Até que ponto o número pode competir com esse alto valor decorre de seu conceito, tal como foi apresentado.
Vimos o número como determinação absoluta da quantidade, e seu elemento como diferença tornada indiferente —que é a determinação em si, posta ao mesmo tempo apenas como extrínseca. A aritmética é ciência analítica, porque todas as conexões e diferenças que se apresentam em seu objeto não estão nele mesmo, mas lhe são sobrepostas de maneira totalmente exterior (a determinação de magnitude — de valor — é formal nas palavras de Marx, parafraseando Hegel sem dúvida em algum aspecto da quantidade e da qualidade, do formal e do real; Hegel, 1982: 274).

Sigamos com Marx. “A diversidade, enquanto valores de uso, ou seja, o aspecto material, na medida em que entra em cena, o faz, no entanto, permanecendo totalmente à margem da determinação formal do capital” (1980: 217). Trata-se do que já vínhamos apontando, mas que não deixa de ser interessante: é como se o valor enquanto valor que se valoriza e o valor de uso estivessem de costas um para o outro, unidos “assintoticamente”, sem nunca chegar a se unir; respondem a mundos completamente distintos (mundos paralelos, galáxias distintas): toda economia deve ser produtora de valores de uso porque deve responder, de uma forma econômico-social ou de outra, às necessidades materiais da reprodução humana, à relação material-metabólica humano-natural: “A primeira premissa de toda história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos. O primeiro estado que cabe constatar é, portanto, a organização corpórea desses indivíduos e, como consequência disso, sua relação com o restante da natureza” (Marx, 2010: 19). No entanto, a forma mercantil ou a “forma valor” da produção capitalista, na realidade, não tem como objetivo direto satisfazer as necessidades humanas, mas sim sua própria valorização; se a produção capitalista satisfaz tais necessidades, é porque não pode se sustentar materialmente sem produzir valores de uso. (Nenhuma forma histórico-social pode fazê-lo, pois não haveria reprodução humana.)

Mas esses valores de uso não são seu objetivo específico: seu objetivo específico é a produção de valor e mais-valia, a reprodução ampliada do capital (D–M–D’, dinheiro que se valoriza). É preciso notar que o modo de produção mercantil simples continua tendo como objetivo a produção para a troca, mas não a valorização do capital; daí sua fórmula seja M–D–M. Na produção especificamente capitalista domina completamente o elemento formal sobre o real da produção de valor pelo valor mesmo, desconsiderando-se a importância do valor de uso como tal; daí sua fórmula ser D–M–D’.

Tudo isso é importante do ponto de vista da transição socialista e do comunismo porque neles a dinâmica se inverte: é a determinação real que passa a dominar a formal até o ponto em que, finalmente, a determinação formal desaparece sem deixar vestígios. (A forma mercantil se mantém por um tempo, mas, em uma transição socialista autêntica, retorna a uma espécie de “modo de produção mercantil simples” como etapa intermediária rumo a uma produção que deixa de ser totalmente para a troca, por meio da socialização da produção — o que não deve ser confundido com a estatização da propriedade, um momento anterior.)

“O material de trabalho e o produto do trabalho, o precipitado neutro do processo laboral [neutro do ponto de vista do processo de valorização do capital], enquanto matéria-prima e produto, tampouco estão materialmente determinados como material e produto do trabalho, mas como valor de uso do próprio capital em fases diversas (1980: 218).

Marx é preciso ao falar de “precipitado neutro” da produção capitalista, pois aponta para a mesma insistência: o objetivo específico do capitalismo é a produção de valor e mais-valia; a valorização do capital a qualquer custo, e não a produção de valores de uso. É indiferente quais valores de uso são produzidos, desde que sirvam, como suporte material, à valorização do capital.

“(…) o meio de trabalho (…) experimenta [historicamente] uma modificação formal unicamente na medida em que passa a aparecer não apenas como meio de trabalho segundo seu aspecto material, mas ao mesmo tempo como um modo específico de existência determinado pelo processo global do capital: como capital fixo (1980: 218).

A indicação é clara: a modificação formal faz com que o meio de trabalho — a máquina, a força produtiva, o valor de uso — passe a ser capital como capital fixo, na medida em que se insere no processo global da produção capitalista. Materialmente, trata-se do mesmo tipo de meio de trabalho que antes, mas que formalmente sofreu uma transformação profunda: foi convertido em um instrumento para a valorização do capital.

Ou seja, esse capital fixo não é apenas um meio de produção (ou meio de trabalho), uma força produtiva, mas também um meio de valorização do capital, passando previamente — evidentemente — pela exploração do trabalho no processo produtivo. Marx pressupõe aqui os elementos comuns e os elementos distintos do processo de trabalho e do processo de valorização. Se o primeiro remete à transformação material da matéria-prima (algo que, a priori, “fica fora da economia política”, nas palavras do próprio Marx), o segundo remete ao aspecto formal da criação de valor e de mais-valia (a exploração do trabalho alheio): 

“Ainda que o capital apenas na maquinaria (…) adquira sua forma adequada como valor de uso dentro do processo de produção, isso de modo algum significa que esse valor de uso — a maquinaria em si — seja capital, ou que sua existência como maquinaria seja idêntica à sua existência como capital” (Marx citado por Dussel, 1984: 24).

O capital fixo é, justamente, esse constructo que permite ao capitalista espremer o trabalho vivo do trabalhador. Toda a sua lógica é realizar esse “espremer” da forma mais profunda possível, porém sob uma forma histórica determinada: a extração de mais-valia relativa, isto é, a redução do valor da força de trabalho e o aumento da produtividade do trabalho sob a forma da máxima produção de mercadorias no menor tempo possível: 

“A maquinaria se apresenta como a forma mais adequada do capital fixo, e o capital fixo como a forma mais adequada do capital em geral” (Marx citado por Dussel, 1984: 24).

2 – Trabalho, ciência e atividade

“(…) uma vez inserido no processo de produção do capital, o meio de trabalho experimenta diversas metamorfoses, a última das quais é a máquina —ou, mais precisamente, um sistema automático de maquinaria (sistema de máquinas; o automático nada mais é do que a forma mais plena e adequada da maquinaria, e a transforma pela primeira vez em um sistema)—, posto em movimento por um autômato, força motriz que se move por si mesma; esse autômato é composto por muitos órgãos, mecânicos e intelectuais, de modo que os trabalhadores são determinados apenas como membros conscientes do sistema” (1980: 218).

Bem, esclareçamos primeiro um elemento geral vinculado ao que viemos apontando e, em seguida, aprofundemos na “imersão” de Marx nas máquinas. O primeiro é o óbvio: o capital fixo inserido no processo de produção do capital significa que ocorreu uma metamorfose, o processo de passagem da subsunção formal à subsunção real do trabalho ao capital. Já não é mais o trabalhador o órgão da produção, seu corpo orgânico (com sua qualificação e as relações de força daí decorrentes); agora é o corpo inorgânico da produção que a estrutura. O sistema de máquinas expropriou sua qualificação e passou a estruturar o sistema produtivo; é nessa passagem da subsunção formal à real que o capital fixo, o sistema de máquinas, cumpre seu papel de exploração e dominação do trabalho vivo pelo trabalho morto — algo já bastante conhecido para ser desenvolvido aqui em detalhe.

Realizada essa transformação do orgânico ao inorgânico como base da produção — especificamente capitalista —, detenhamo-nos nas definições que Marx oferece da maquinaria (já mencionadas em textos anteriores, mas retomadas aqui):
a) a maquinaria é composta por muitos órgãos mecânicos e intelectuais (em vários momentos, Marx fala da máquina como um conjunto de ferramentas reunidas em um mesmo órgão: a própria máquina);
b) a máquina, ou sistema automático de maquinaria, caracteriza-se por ser um autômato, isto é, por possuir uma força motriz que se move por si mesma (a isso remete o conceito de “automático” ou “autômato”, ainda que essa polissemia traga nuances distintas: o automático é um sistema mecânico automatizado, enquanto o conceito de autômato —embora Marx não o utilize exatamente nesse sentido— remete mais a um sistema que se autorregula; Naville, Simondon);
c) Marx assinala que, no sistema de máquinas, os únicos determinados como membros conscientes do sistema são os trabalhadores. A palavra “únicos” é um acréscimo interpretativo, pois Marx enfatiza mais a subsunção real do trabalho ao capital e sua subordinação —contraditória— como membros conscientes desse sistema. O fato de serem “apenas membros conscientes” sugere que ficaram subordinados ao sistema de máquinas, que por si não é consciente; e que essa condição envolve uma contradição: algo que não pode ser totalmente submetido. Sua consciência crítica, não automática, seu sofrimento diante das condições de exploração, a pressão da necessidade — tudo isso pode levá-los eventualmente à resistência; possuem consciência, autoconsciência e a possibilidade de uma representação relativamente autônoma da realidade.

Aqui entra em jogo a reversibilidade dialética que percorre esse fragmento dos Grundrisse: a forma como o maquinismo submete os trabalhadores e, ao mesmo tempo, como estes podem, de maneira “reversível”, submeter as máquinas para sua emancipação do jugo do trabalho. Essa dialética atravessa toda a elaboração de Marx e se relaciona ao fato de que o desenvolvimento das forças produtivas representado pelo maquinismo tanto serve para intensificar a exploração e a dominação quanto para possibilitar a emancipação sob um modo associado de produção. Como sintetiza Naville:

 “A alienação não pode ser superada pela via técnica da automação; como consciência pessoal, só pode ser superada por meio de uma consciência coletiva que se liberte do sentimento de subordinação” (Naville, 1963: 189).
“A máquina não aparece em nenhum aspecto como meio de trabalho do operário individual. Sua differentia specifica não é, de modo algum, como no caso do meio de trabalho, a de transmitir ao objeto a atividade do operário; ao contrário, essa atividade está posta de tal maneira que apenas transmite à matéria-prima o trabalho ou ação da máquina, [a qual] o operário vigia e preserva de avarias” (1980: 218).

Aqui há três definições a destacar:
a) a máquina é uma espécie de “ferramenta coletiva”, diferentemente da antiga ferramenta artesanal, razão pela qual não pode aparecer como “meio de trabalho do operário individual”: naquele caso, o meio de trabalho era um órgão do trabalhador; no caso da máquina, a relação se inverte, e o trabalhador passa a aparecer como um órgão dela;
b) ocorre uma modificação radical nos termos da própria atividade produtiva: se antes a ferramenta transmitia ao objeto a atividade do trabalhador (sua ação), agora é a máquina —e não o trabalhador— que transmite sua atividade à matéria-prima. (Há uma transformação profunda, potencialmente revolucionária, nos termos da produção material: o trabalhador como princípio ativo é substituído pela máquina ou pelo sistema de máquinas, e passa a ocupar outro lugar no processo.)

Tudo isso é muito significativo e aponta para uma transformação do trabalho no sentido tradicional do termo: se os termos da “equação laboral” mudam, então o próprio trabalho humano —seu elemento central— também deve se transformar. A atividade humana continua sendo, em última instância, o elemento mais importante, mas houve uma mudança na própria estrutura do intercâmbio material produtivo com a natureza:

“A inatividade pura é contrária à manifestação da existência dos organismos vivos. O organismo é sede de intercâmbios ativos constantes com o meio ambiente imediato e mediato. A inatividade total é a morte. Mas o não-trabalho não é inatividade: ao contrário, é atividade, porém uma atividade que já não tem preço. Como tal, torna-se felicidade, genus, satisfação das necessidades do ser humano (…) a felicidade é, ela mesma, interesse, mas em outro sentido: como participação direta no movimento da natureza, isto é, como liberdade” (reflexão de Naville, 1970: 495).

Chegando ao ponto c): se já não é o trabalhador que transmite sua atividade ao objeto de trabalho, mas sim a máquina, ocorre uma modificação profunda nessa própria atividade. Como vimos: trata-se de uma atividade que se limita a transmitir à matéria-prima a ação da máquina, “[a qual o trabalhador] vigia e preserva de avarias”.

O que temos aqui? Um deslocamento substancial na atividade do trabalhador, que altera, em última instância, o próprio caráter do trabalho —evidentemente, quando pensado sob relações sociais emancipad as (já que a dialética entre forças produtivas e relações de produção é ainda mais complexa do que aquela apresentada por Marx em termos analíticos). “Vigiar e preservar de avarias” as máquinas não é o mesmo que, como ocorre no capitalismo ou em Estados burocráticos, estar subjugado a elas (o trabalho morto deixa de dominar o trabalho vivo; a relação se inverte).

Como digressão, cabe uma referência crítica a Marx. Marx é Marx —e isso não é pouca coisa. Entende-se que, analiticamente, ele busque separar as forças produtivas (a relação humanidade/natureza) das relações de produção (as relações entre pessoas no processo produtivo), por exemplo, contra a abordagem reducionista das máquinas por parte do movimento ludista (ainda que fosse compreensível que as atacassem, pois eram usadas pelos primeiros capitalistas contra eles; sua lógica, porém, era mais um romantismo anticapitalista do que propriamente socialista):

“As máquinas não constituem uma categoria econômica, assim como tampouco o boi que puxa o arado. As máquinas são apenas uma força produtiva. A fábrica moderna, baseada no uso de máquinas, é uma relação social de produção, uma categoria econômica” (Marx, 1987: 105).

Contra o culturalismo, essa análise de Marx é precisa e, além disso, a transição socialista partirá do sistema de máquinas existente (inclusive da organização do trabalho vigente; a crítica de Lenin ao “taylorismo” é superficial demais para ser aceita tout court). [5] Mas também é preciso evitar certo “positivismo” que não percebe que as próprias forças produtivas são, em alguma medida, “contaminadas” pelas relações sociais de produção (as “categorias econômicas”), transformando-as em um fator aparentemente independente da história. [6]

Uma história crítica materialista, como a que faz Pasquinelli sobre a IA, demonstra isso com clareza: 

“(…) na Inglaterra industrial [do século XIX], Charles Babbage adotou a intuição da divisão do trabalho como um princípio interno da Difference Engine (máquina diferencial), concebendo assim o primeiro protótipo moderno de computador. Babbage —e isso é fundamental— entendeu que a divisão do trabalho não era apenas um princípio para projetar máquinas, mas também para calcular os custos de produção (o que passou a ser conhecido como o ‘princípio de Babbage’)” (Pasquinelli, 2023: 4).

Além disso, na citação dos Grundrisse que vínhamos analisando, há um interessante jogo de palavras e conceitos, pois em poucas linhas se mencionam coisas distintas:
a) “atividade do operário”, em vez de trabalho do operário;
b) “trabalho ou ação da máquina”, quando é evidente que a ação da máquina não é propriamente trabalho no sentido marxista (isto é, trabalho humano); essas oscilações no próprio raciocínio de Marx (lembrando que os Grundrisse são cadernos de trabalho, não destinados à publicação) revelam, em certa medida, uma transmutação do conceito de trabalho humano em atividade. Isso se torna ainda mais evidente quando o trabalhador aparece como “vigilante e mantenedor” das máquinas: nesse caso, o suor humano deixa —ou tende a deixar— de ser a medida da riqueza (algo de que o próprio Marx tinha consciência nesses fragmentos). Em todo caso, Marx está captando uma nova situação — real em um sentido e potencial em outro — produzida pela maquinaria ou pelo sistema de máquinas: ao se transformar o meio de trabalho, tende a transformar-se também o próprio trabalho. Este é “escravizado” pela máquina na fábrica capitalista, mas, ao mesmo tempo, a máquina pode contribuir materialmente para sua emancipação —dependendo das relações sociais e técnicas que se estabeleçam. [7]

3 – General Intellect e emancipação humana

Comecemos agora a abordar o conceito de General Intellect nos “Fragmentos sobre as máquinas” de Marx:
“Não é como no caso do instrumento, ao qual o operário anima como a um órgão, com sua própria destreza e atividade, e cujo manejo depende, portanto, de sua virtuosidade. Ao contrário, a máquina, senhora —em vez do operário— da habilidade e da força, é ela mesma a virtuosa, possui uma alma própria presente nas leis mecânicas que nela operam, e assim como o operário consome alimentos, ela consome carvão, óleo etc. (…) com vistas ao seu automovimento contínuo” (1980: 218/9).

Está clara a inversão de determinações. No caso do instrumento, o trabalhador é o sujeito da produção. No caso da máquina, essa relação se inverte: é esse novo meio de trabalho — a máquina ou o sistema de máquinas — que se torna o sujeito, e não o trabalhador. Um “sujeito mecânico” (ou cibernético, ou algorítmico) cuja “alma” são as leis naturais que nele operam (possuindo um “automovimento” fundado nelas).

A precisão dessa formulação está em mostrar que as leis da natureza descobertas pela humanidade podem ser colocadas para funcionar de maneira relativamente autônoma como sujeito da produção, substituindo o sujeito tradicional —as trabalhadoras e os trabalhadores—, podendo operar tanto como força de dominação quanto como potência emancipatória. Isso depende das relações sociais: se o trabalho vivo domina o trabalho morto ou se ocorre o inverso, como nos regimes burocráticos.

Pasquinelli, que não aborda em seu estudo sobre a IA a problemática da emancipação do trabalho humano, propõe uma leitura dessas passagens de Marx que nos parece bastante equivocada. Falta-lhe uma imaginação histórica concreta, uma capacidade de “projeção utópica” no sentido de apreender os limites e possibilidades materiais de transformação. Ele afirma:

“Marx (…) assumiu o papel econômico da qualificação, do conhecimento e da ciência nos Grundrisse, especificamente na seção do ‘Fragmento sobre as máquinas’. Ali Marx explorou a hipótese heterodoxa —não retomada em O capital— de que, devido à acumulação do General Intellect (isto é, do conhecimento científico e técnico incorporado à máquina), o trabalho poderia tornar-se secundário para a acumulação capitalista, provocando uma crise da teoria do valor-trabalho e levando à explosão dos fundamentos do capitalismo” (Pasquinelli, 2023: 100).

Mas nós temos uma interpretação completamente distinta da abordagem de Marx sobre o General Intellect. Pasquinelli “ontologiza” em excesso o trabalho e não compreende que, nessas passagens, Marx está tratando das potencialidades contidas no maquinismo, no sentido de que sejam as forças produtivas criadas pela humanidade — e não o trabalho humano direto — a fonte da riqueza. Evidentemente, para que isso se realize, é necessária a revolução socialista.

O que escapa a Pasquinelli é a conhecida afirmação de Marx —frequentemente usada de forma oportunista por certas correntes— de que “nenhuma sociedade se coloca tarefas que não pode resolver”. Trata-se de uma formulação correta do “Prólogo” de 1859, mas que precisa ser compreendida em sua justa medida; uma forma de fazê-lo é articulá-la com o texto de Antonio Gramsci, “Revolução contra O Capital”, de caráter profundamente antimecanicista.

Pois bem, o desenvolvimento das forças produtivas da humanidade no século XXI — que, infelizmente, rapidamente assumem também formas destrutivas — abre materialmente a possibilidade da emancipação do trabalho humano, isto é, a possibilidade de que a medida da riqueza deixe de ser o trabalho humano direto (essa “base miserável”, como afirma Karl Marx).

Ao interpretar mal —ou simplesmente não perceber— essa tendência histórica potencial (as tendências ascendentes e descendentes da história de que fala Friedrich Engels), Pasquinelli acaba não enxergando o essencial. E não o enxerga porque não insere sua investigação —sólida e sugestiva em muitos aspectos— no contexto de uma reflexão mais ampla sobre o futuro do trabalho humano: as potencialidades emancipadoras da atividade humana, sempre assentadas em bases materiais determinadas.

Acrescenta Pasquinelli: 

“Depois de 1989, o fragmento de Marx sobre as máquinas foi retomado pelo pós-operaísmo italiano (…) A partir daí, muitos autores —inclusive fora do marxismo— mobilizaram esses fragmentos esotéricos como uma profecia” (Pasquinelli, 2023: 100–101). 

Mas isso constitui um equívoco teórico-estratégico e revela uma limitação de imaginação criativa —uma ausência de horizonte transformador revolucionário.

De fato, se o operaísmo italiano era marcadamente obreirista e antipolítico, e o pós-operaísmo herdou traços pós-modernos (em ambos os casos, correntes marcadas por um certo subjetivismo/objetivismo), isso nada tem a ver com a força antecipatória dos “Fragmentos sobre as máquinas” de Karl Marx. Esses textos, articulados com os “Manuscritos sobre as máquinas” de 1861–63, formam uma totalidade que fornece bases para pensar, de maneira materialista, a eventual superação do jugo do trabalho pela humanidade.

Além disso, essa reflexão é de enorme importância para analisar criticamente a fetichização do trabalho (explorado) que ocorreu na União Soviética e em outras sociedades não capitalistas, onde, apesar da superação formal do capitalismo, manteve-se — sob outras formas — a centralidade do trabalho como imposição social.

Em todo caso, para encerrar este texto e antes de continuar com o próximo “Marx e as máquinas”, podemos responder a Pasquinelli com o próprio Karl Marx:

“Na mesma medida em que o tempo de trabalho —a mera quantidade de trabalho— é posto pelo capital como único elemento determinante, desaparecem o trabalho imediato e sua quantidade como princípio determinante da produção —da criação de valores de uso—; na mesma medida, o trabalho imediato se reduz quantitativamente a uma proporção mais exígua e, qualitativamente, a um momento sem dúvida indispensável, porém subalterno frente ao trabalho científico geral, à aplicação tecnológica das ciências naturais, por um lado, e, por outro, frente à força produtiva geral resultante da organização social da produção global, força produtiva que aparece como um dom natural do trabalho social (embora [seja, na realidade,] um produto histórico). O capital trabalha, assim, em favor de sua própria dissolução como forma dominante de produção” (1980: 222).

Bibliografia

Enrique Dussel, Cuaderno tecnológico-histórico de 1851, estudo preliminar, México, 1984.

Karl Marx, Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse), 1857/8, Volumen 2, edição a cargo de José Aricó, Miguel Murmis e Pedro Scaron, tradução de Pedro Scaron, Siglo Veintiuno Editores, México, 1980.

Notas marginales al Tratado de Economía política de Adolph Wagner, tradução Aricó, Blanco y Di Lisa, revisão Dos Cuadrados, Estado Español, fevereiro 2022.
La ideología alemana, Nuestra América, Buenos Aires, 2010.
Miseria de la filosofía, Editorial Cartago, Buenos Aires, 1987.

  1. W. F. Hegel, Ciencia de la lógica, Ediciones Solar, Buenos Aires, 1982.

Peter Hudis, Marx’s concept of the alternative to capitalism, Brill, Leiden-Boston, 2012.

Pierre Naville, Vers l’automatisme social? Problemes du travail et de l’automation, Gallimard, París, 1963.

Le Noveau Leviathan 1., De l’aliénation a la jouissance. La genese de la sociologie du travail chez Marx et Engels, éditions antropos, Paris, 1970.

Matteo Pasquinelli, The Eye of the Master. A social history of artificial intelligence, Verso, London, 2023.

[1] O “suporte material” pode ser um “suporte imaterial” no sentido da criação de produtos nas redes sociais ou coisas semelhantes que, de todo modo, possuem base material: a nuvem do iCloud ou similares depende de enormes aparatos físicos onde a produção é armazenada, assim como as “mineradoras” de criptomoedas.

O capital como capital, isto é, valor que se valoriza, deve passar direta ou indiretamente pelo trabalho humano, criador de valor. O capital fictício é “valor que se valoriza” que não passa, nem direta nem indiretamente, pelo trabalho humano: por isso é fictício. E é por isso também que se criam bolhas de valorização que colapsam de um dia para o outro. De todo modo, esse não é o tema central da investigação; trata-se apenas de um exemplo. (Na verdade, o foco não é a economia marxista do capitalismo em si, mas a economia da transição, abordada mais a partir do materialismo histórico do que como economia propriamente dita.)

[2] No original desta tradução há um erro: onde se lê “algo absolutamente independente de seus valores de uso”, deveria constar apenas “algo independente de seus valores de uso”. Ainda assim, há uma nota dos tradutores com uma citação de Marx extremamente esclarecedora:

Agora, se deixarmos de lado o valor de uso do corpo das mercadorias, restará apenas uma propriedade: a de serem produtos do trabalho. Contudo, também o produto do trabalho já se transformou em nossas mãos. Se abstrairmos seu valor de uso, abstraímos também seus componentes materiais e as formas que o tornam valor de uso. Esse produto já não é mesa, casa, fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas propriedades sensíveis desapareceram. Já não é produto do trabalho do marceneiro, do pedreiro, do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho concreto. Com o caráter útil dos produtos do trabalho desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados e, portanto, também as diversas formas concretas desses trabalhos; eles deixam de se distinguir, reduzindo-se todos a trabalho humano indiferenciado, a trabalho abstratamente humano” (El capital, citado em nota de tradutores em Notas sobre Wagner, 2022: 57).

[3] A obra de Gilbert Simondon ainda não foi estudada em profundidade.

[4] Essa formulação é brilhante, mas não se trata apenas de um “sentimento” de subordinação: trata-se da materialidade da experiência concreta de subordinação permanente que o proletariado deve enfrentar para se constituir como classe histórica. Uma das condições materiais para isso é a automação e o desenvolvimento das forças produtivas; porém, a emancipação é, essencialmente, um processo político e social complexo, como demonstrado pelas experiências do século XX.

[5] Trata-se de uma crítica que perde de vista as condições concretas de desorganização do trabalho na Rússia soviética após a revolução.

[6] Ainda não foi possível aprofundar o estudo clássico do marxista analítico Gerald A. Cohen, La teoría de la historia de Karl Marx (1978). A “bíblia” dessa vertente é o famoso “Prólogo” à Contribución a la crítica de la economía política (1859), que gerou inúmeros debates no marxismo devido a seus elementos mecanicistas.

[7] Atenção: essa análise se baseia na tradução espanhola da Siglo XXI Editores, realizada por Pedro Scaron, considerada uma das melhores disponíveis, embora sem domínio do alemão ou formação filológica rigorosa.

Imagem: Fernand Léger., “Los Recreos en Fondo Rojo”, acrílico sobre tela, 1949

 

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