Vivemos uma conjuntura mundial com a dominância de um mundo de instabilidades e contrastes,  combinando elementos reacionários e pré-revolucionários, que não produz apenas a amplificação da barbárie, mas que também tem em sua dinâmica a atividade dos trabalhadores e dos povos oprimidos, a resistência de importantes categorias, a polarização e a incerteza como marcas.

No Brasil essa conjuntura de incerteza é marcada por um compasso de espera onde a extrema direita e o bolsonarismo estão na defensiva por conta do envolvimento no caso do Banco Master e com figuras do crime organizado. Não é diferente a situação do governo Lula 3, com figuras centrais atingidas pelas investigações da PF no caso Master e agora com o inquérito por tráfico de influência e corrupção do filho de Lula, ou seja, assentada na polarização e no impasse entre o governo Lula 3 e o bolsonarismo.

No entanto, a polarização não ocorre apenas “por cima”, mas também “por baixo”, por meio da ação direta de velhos e novos sujeitos político-sociais. Os trabalhadores e os oprimidos tem enfrentado os ataques provenientes da extrema direita, do Centrão e do governo Lula, como se pode observar na paralisação dos caminhoneiros autônomos de 13/07 que fez o senado aprovar no dia seguinte a MP 1.343/2026, conhecida como a MP do Frete, antes que caducasse. Mais recentemente tivemos a greve dos motoristas de ônibus no Rio de Janeiro e a greve de 24 horas dos bancários, impulsionando novas rodadas de negociação entre os comandos de greve e os bancos no atendimento de suas demandas.

Outras lutas se apresentam no cenário nacional, como a Marcha pelo Clima, marcada para 20 de setembro próximo, a dos Correios que  realizarão no dia 10 de setembro assembleias com indicativo de greve nacional da categoria, em resposta ao plano de reestruturação da estatal, corte de direitos e à proposta de reajuste salarial oferecida pela empresa e também os trabalhadores da Engie que estão em estado de greve e em assembleia permanente, por uma proposta digna de Acordo Coletivo na próxima semana, caso contrário entrarão em greve. 

Tudo isso em meio ao processo eleitoral, demonstrando que após as eleições, se abre a possibilidade e a necessidade de um ascenso das lutas diretas nas ruas e o incremento da luta de classes, seja contra o golpismo da extrema direita, seja contra o fracassado governo burguês de conciliação de classes.

Queremos ressaltar, que esse é um processo que se materializa na realidade e que vem se acirrando desde as greves do final do ano passado, da resistência indígena contra a privatização do Tapajós, das mobilizações a favor da escala de trabalho 6×1, mas principalmente, pela nova classe trabalhadora representada pelos Entregadores por Aplicativo.

Tendo realizado anualmente paralisações desde o ano de 2020, inclusive a paralização nacional de 2025, em que o ONTDR foi em caravana a Brasília e fez recuar o governo e a extrema direita, que retiraram da pauta o PLP 152, partem agora para a o seu 7o. Breque, exigindo do governo Lula Alckmin a edição de uma MP dos entregadores antes das eleições.

As últimas medidas do governo de conciliação de classes como a linha de crédito para compra de motocicletas e o “Mais Entregas” e o sistema de passes (o passe 99) implementado pelas plataformas de distribuição, num quadro em que morrem 30 entregadores por dia e grande parte colocados em absoluta insegurança alimentar, vem contra todas as necessidades da categoria, o que os tem deixado enfurecidos e dispostos à uma nova paralisação nacional neste primeiro de setembro de 2026, ao qual desde já conclamamos o total apoio ao movimento engrossando as fileiras da manifestação.

È preciso massificar a luta dos entregadores, em conjunto com todas as outras lutas: a 6×1, a marcha pelo clima, as lutas das mulheres, da juventude, dos negros e negras, das pessoas trans, para impor uma derrota nas ruas à conciliação de classes e ao golpismo da extrema direita.

Para termos uma melhor ideia dos problemas que os aflige apresentamos abaixo uma entrevista, concedida para o nosso News Letter em 17/8, por Renato Assad, líder da ONTDR, em que ele explica as agruras e a disposição de luta dos entregadores de Aplicativo e os movimentos para a mobilização de 1/9. Viva o breque!

Por José Roberto Silva, pela Redação

“A categoria está enfurecida”: afirma Renato Assad

NL — Renato, como você avalia atualmente as condições de trabalho dos entregadores de aplicativos?

Renato — As condições pioraram brutalmente. Do breque do ano passado para cá, a remuneração por entrega caiu para menos da metade. Estamos falando de valores como R$ 3,50 por entrega, enquanto as plataformas aumentaram o controle sobre o trabalho. O sistema “Mais Entregas”, por exemplo, exige que o trabalhador agende horário e escolha a região em que vai trabalhar. Se ele não estiver no local e horário determinados, praticamente não recebe chamadas.

A categoria está enfurecida porque chegou a uma situação em que parece que estamos pagando para trabalhar. Os custos aumentam, a gasolina aumenta, o pagamento por quilômetro diminui e as empresas continuam determinando as condições de trabalho.

Quando uma nova empresa entra no mercado, poderia oferecer melhores condições para conquistar trabalhadores e clientes. Mas o que estamos vendo é um nivelamento por baixo. O trabalhador sai de uma plataforma e encontra praticamente as mesmas condições em outra.

Formou-se um padrão de exploração máxima. Não existe uma concorrência que eleve as condições de trabalho. As empresas acabam reproduzindo as mesmas práticas.

Quanto ao  governo apresenta programas como linhas de crédito para aquisição de motocicletas e pontos de apoio. Algumas dessas medidas podem ser progressivas em si mesmas, mas não resolvem o problema central.

A pergunta que o trabalhador faz é muito simples: como vou comprar uma moto nova recebendo R$ 3,50 por entrega? A conta não fecha. O entregador não está pedindo apenas uma moto nova ou um ponto para descansar. Ele quer remuneração digna. Quer taxa mínima, quer dinheiro, quer salário.

A prioridade deveria ser garantir uma remuneração mínima para os trabalhadores. É por isso que estamos defendendo uma Medida Provisória que estabeleça uma taxa mínima para as entregas.

O governo diz que está preocupado com os entregadores, mas, ao mesmo tempo, mantém uma relação muito próxima com as empresas. Então precisamos colocar o governo diante de uma escolha política: se realmente quer defender os trabalhadores, precisa tomar medidas concretas.

NL — Vocês acreditam que uma MP pode ser editada durante o período eleitoral?

Renato — Existe uma discussão jurídica sobre isso. Alguns setores dizem que uma medida desse tipo poderia gerar problemas eleitorais. Mas uma MP pode ser editada quando existe urgência e necessidade. E nós estamos falando de uma categoria em situação extremamente precária.

Há trabalhadores em insegurança alimentar, com renda muito baixa e submetidos a condições de trabalho cada vez mais difíceis. Se isso não caracteriza uma situação de urgência social, o que caracteriza?

Dentro disso é preciso combater o “Mais Entregas” e os mecanismos que aumentam o controle das plataformas sobre o trabalhador. Também precisamos discutir o valor pago por quilômetro, a remuneração das corridas e a transparência sobre quanto o cliente paga e quanto efetivamente chega ao trabalhador.

O trabalhador muitas vezes não sabe qual é a porcentagem que a plataforma está retendo. As empresas arbitram essas porcentagens de acordo com seus próprios critérios.

É só observar o mecanismo dos passes implementados pelas plataformas que é extremamente predatório. O trabalhador paga antecipadamente para ter acesso ao valor integral das corridas. Na prática, ele está antecipando dinheiro para depois receber aquilo que deveria ser sua remuneração.

Além disso, existem pegadinhas: o pacote pode ser apresentado como válido por determinado período, mas terminar antes se o trabalhador ultrapassar determinado número de corridas. É mais uma forma de transferir para o trabalhador os custos e riscos da atividade.

NL — Como foi articulada a atual mobilização?

Renato — Alguns influenciadores tentaram convocar um breque, mas a mobilização foi mal organizada e não teve a força esperada. A partir daí começamos a perceber que havia espaço para construir uma mobilização de verdade.

Fizemos uma plenária com mais de cem entregadores. A sala estava lotada e praticamente todos queriam falar da necessidade de parar. Começamos então a articular novas lideranças, organizar tarefas, arrecadar recursos e construir uma mobilização mais ampla.

A categoria está passando por um processo de reorganização. Algumas lideranças antigas perderam credibilidade, enquanto outras estão surgindo a partir da própria luta.

Ainda não temos uma organização nacional completamente estruturada. Isso leva tempo. Mas existe uma possibilidade concreta de construir uma organização mais forte e, inclusive, de aproximar setores com uma perspectiva socialista e revolucionária.

Mas é importante frisar que existem setores que estão tentando desarticular o breque e questionando inclusive a reivindicação da MP. Também houve ataques pessoais contra mim.

Mas a categoria está olhando para isso. O trabalhador quer saber quem está efetivamente lutando pelas suas reivindicações. A disputa política existe, mas não podemos deixar que ela substitua a luta concreta.

Porque a mobilização está começando a incomodar. Quando uma campanha se espalha por várias cidades e começa a colocar o governo contra a parede, surgem setores interessados em contê-la.

A campanha pela MP, que inicialmente era defendida por poucos, começou a ser reproduzida por trabalhadores de diferentes regiões. Hoje vemos vídeos de entregadores de várias cidades defendendo a mesma reivindicação. Isso mostra que existe uma demanda real na categoria.

NL — Quais cidades devem participar do próximo breque?

Renato — Neste momento (17/8), temos São Paulo, Salvador, Campinas, Feira de Santana, Sorocaba, Anápolis, Goiânia e Brasília como cidades que estão se mobilizando. Outras podem aderir.

Ainda não sabemos exatamente qual será a dimensão nacional. O importante é construir a mobilização e ampliar a participação.

São Paulo deve ser um dos principais centros da mobilização. Estamos preparando carro de som, faixas, divulgação e organização do trajeto. A concentração está prevista para as 10 horas no Pacaembu.

Queremos uma mobilização forte nas ruas, com grande participação dos entregadores. Não queremos simplesmente parar estabelecimentos isoladamente. Queremos demonstrar a força da categoria e pressionar o poder público.

Porque o governo federal tem instrumentos para intervir na situação. Não se trata de dizer que apenas o governo Lula é responsável pelo problema. Governos anteriores também não resolveram a questão.

Mas o governo atual está dizendo que representa os trabalhadores. Então precisamos perguntar: se representa os trabalhadores, por que não toma uma medida concreta para garantir uma taxa mínima?

A mobilização serve justamente para colocar essa contradição em evidência.

NL — Existe o risco de o breque ser utilizado politicamente pela direita contra o governo ou que se transforme um palanque eleitoral?

Renato — Existe esse risco. A insatisfação da categoria é enorme e, se a esquerda não disputar politicamente esse processo, a extrema direita pode tentar canalizá-lo.

Por isso precisamos apresentar uma perspectiva que não seja simplesmente “contra Lula”. Precisamos mostrar que existe um conflito entre trabalhadores e empresas e que o Estado também precisa ser pressionado a tomar medidas concretas.

A categoria precisa construir sua própria posição política, independente dos governos, das empresas e dos partidos.

Então, de forma alguma, o breque não pode ser utilizado como palanque eleitoral. Quem for apoiar deve estar lá para apoiar os trabalhadores. Não faz sentido transformar a manifestação em distribuição de material de candidato.

A prioridade é a reivindicação da categoria. Primeiro vem a luta dos entregadores.

NL — Qual é, então, o principal objetivo do próximo breque e suas perspectivas?

Renato — O objetivo é mostrar que a categoria não aceita mais essas condições. Queremos uma taxa mínima, o fim do “Mais Entregas” e mudanças concretas nas condições de trabalho.

A ideia é colocar empresas, governo e Congresso diante da força dos trabalhadores. Se o governo realmente quer dialogar com a categoria, precisa apresentar respostas concretas.

Assim, O breque não pode ser um acontecimento isolado. Precisamos construir uma organização permanente dos entregadores, fortalecer novas lideranças e ampliar a articulação nacional.

A mobilização mostrou que existe uma insatisfação muito grande. Agora precisamos transformar essa insatisfação em organização, consciência e capacidade de luta.

O desafio é fazer com que os trabalhadores deixem de ser apenas indivíduos isolados trabalhando para plataformas e passem a atuar coletivamente para defender seus próprios interesses.