A decisão de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representa uma nova ofensiva do imperialismo estadunidense na política brasileira. Essa medida busca ampliar mecanismos de pressão política, financeira e diplomática sobre o Brasil em meio à disputa eleitoral de 2026. Trata-se de uma resposta à crise do bolsonarismo após o escândalo do Banco Master para recuperar protagonismo através da pauta da segurança pública. A resposta do governo Lula 3 e do lulismo em geral  permanece restrita ao terreno diplomático e institucional. Mas, apesar da polarização entre lulismo e bolsonarismo por cima, importantes lutas sociais seguem se desenvolvendo por baixo, como a mobilização contra a escala 6×1, apontando para o surgimento de um novo metabolismo da luta de classes e para a necessidade de construir imediatamente instrumentos de unidade e coordenação das lutas dos trabalhadores e setores oprimidos.

ANTONIO SOLER

A decisão do governo Donald Trump de classificar o PCC e o CCV – organizações criminosas – como organizações terroristas constitui um dos fatos políticos mais importantes da conjuntura nacional recente. Independentemente do seu alcance real, trata-se de um movimento com importantes implicações políticas que tem por objetivo projetar de forma aberta a influência do imperialismo estadunidense sobre a dinâmica da disputa político-eleitoral brasileira às vésperas do início do processo eleitoral de outubro de 2026.

Essa medida não se dá no vácuo político, ocorre em uma conjuntura internacional e nacional marcada pelas crises múltiplas, polarização de várias ordens e incertezas permanentes. No âmbito nacional vivemos uma polarização por cima entre o governo Lula e o campo ultrarreacionário dirigido pelo bolsonarismo, que agora é ditada pela contra-ofensiva bolsonarista após a condenação dos golpistas de 8 de janeiro. Esse processo não começou agora. O tarifaço imposto anteriormente por Trump já havia representado uma ingerência imperialista direta sobre a soberania nacional brasileira, evidenciando a disposição de Washington de utilizar instrumentos econômicos para pressionar o país e alterar a dinâmica política nacional. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e o novo tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros constitui um novo passo nessa direção, ampliando os mecanismos pelos quais os Estados Unidos buscam intervir na soberania nacional a favor do bolsonarismo.

A novidade da conjuntura nacional não é a polarização entre lulismo e bolsonarismo, fenômeno que estrutura a política nacional há vários anos, mas por dois outros elementos: essa polarização passa a ser atravessada de forma cada vez mais direta pela intervenção do imperialismo estadunidense, que passa a influenciar de maneira mais explícita a própria dinâmica da disputa política nacional, e, também, por importantes lutas de vanguarda de impacto nacional que seguem se desenvolvendo por baixo da crise institucional e intra-institucional, demonstrando que a dinâmica política brasileira não pode ser reduzida às disputas entre governo, Congresso e Judiciário, entre governo de conciliação de classes e oposição ultrarreacionária.

Imperialismo e terrorismo de Estado

A decisão de Trump de classificar as organizações criminosas como terroristas deve ser analisada para além de seus aspectos jurídicos. PCC e CV, como dito antes, são organizações criminosas que utilizam métodos de terror para atingir seus objetivos ligados ao lucro, mas não podem ser enquadrados formalmente como organizações terroristas, pois estas utilizam sistematicamente o terror com objetivos políticos.

Ao classificá-las como terrorista como faz com outras organizações internacionais, O aspecto decisivo é que a utilização dessa classificação pelo trumpismo tem como finalidade criar uma amálgama conceitual entre organizações terroristas clássicas, organizações guerrilheiras e narcotráfico para obter novos instrumentos de pressão estratégica, política, financeira e diplomática sobre o Brasil e outros países. Nos últimos anos, Washington vem ampliando o uso da “legislação antiterrorista” como instrumento de projeção de poder sobre a América Latina, vejamos exemplos: o Tren de Aragua, originário da Venezuela e atualmente presente em diversos países da América do Sul; a Mara Salvatrucha (MS-13) e a Barrio 18, com atuação em El Salvador, Honduras e Guatemala; o Clã do Golfo (Autodefesas Gaitanistas da Colômbia), principal organização narcotraficante da Colômbia; além de cartéis mexicanos como o Cartel de Sinaloa, o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), o Cartel do Golfo, o Cartel do Nordeste (Cartel del Noreste) e a Nueva Familia Michoacana. Essas são organizações se constituíram como uma nova lumpen burguesia transnacional que. tem como finalidade a obtenção de lucro através de atividades criminosas que nada tem a ver com a resistência política contra qualquer forma de opressão ou exploração, por essa razão não as defendemos sob nenhuma hipótese, mas somos da mesma forma contra que sejam usadas como justificativas para a intervenção imperialistas sobre nossos países.

Agora, essa política trumpista alcança diretamente o Brasil, o que pode ampliar mecanismos de monitoramento financeiro, sanções econômicas, cooperação repressiva internacional e formas de ingerência sobre assuntos internos do país. A importância desse processo não deve ser subestimada. Por ora não parece muito razoável qualquer intervenção militar direta dos Estados Unidos sobre o Brasil, pois  não se trata de um país devastado como a Venezuela quando invadida em 3 de janeiro do corrente ano. O fundamental é que, com essa medida, o trumpismo, a exemplo do tarifaço de 50% de todos os produtos brasileiros em forma de retaliação contra a sentença de prisão a Bolsonaro e os golpistas do dia 8 de janeiro, ataca novamente a soberania nacional e os direitos democráticos das massas. Pois, uma vez que temas como segurança pública e combate ao crime organizado tendem a ocupar um espaço crescente na disputa eleitoral deste ano, essa já é uma interferência direta na agenda político-eleitoral de outubro deste ano em favor do bolsonarismo.

Embora a figura de Trump ocupe o centro dos acontecimentos recentes, seria um erro interpretar o episódio apenas como resultado de suas posições pessoais. A utilização da pauta da segurança pública como instrumento de influência regional corresponde a uma tendência mais ampla da política externa estadunidense. O combate ao narcotráfico e ao crime organizado tem sido utilizado há décadas para justificar mecanismos de monitoramento, cooperação militar e pressão política sobre países latino-americanos. O que muda agora é que essa estratégia passa a ser mais sistemática e atingindo em cheio sobre o Brasil e a América Latina  que visa uma ofensiva neocolonial sobre a região, isso em um momento de crescente polarização internacional, de imperialismo territorial e crise geopolítica.

A decisão de Trump de classificar organizações criminosas locais coloca uma questão que deve ser enfrentada: afinal o que é terrorismo? A classificação de terrorismo pelo imperialismo e pela burguesia não passa de cinismo, pois costuma ser usada amplamente para denominar grupos armados não estatais que resistem a suas ocupações ou ataques, não como o método privilegiado dos Estados burgueses contra grupos explorados e oprimidos para instalar, ampliar ou preservar a sua dominação. A experiência latino-americana oferece inúmeros exemplos. Durante a Guerra Fria, ditaduras militares apoiadas ou toleradas por Washington recorreram ao terrorismo de Estado para esmagar organizações operárias, estudantis e populares. Prisões clandestinas, assassinatos políticos e desaparecimentos tornaram-se instrumentos permanentes de governo. No caso brasileiro, a ditadura instaurada em 1964 utilizou amplamente esses métodos contra opositores políticos, sindicalistas e movimentos sociais.

O mesmo padrão pode ser observado na atuação internacional do imperialismo. Intervenções militares, golpes de Estado, bloqueios econômicos e operações clandestinas foram frequentemente justificados em nome da defesa da democracia, da segurança internacional ou do combate a ameaças externas. No entanto, seus efeitos concretos envolveram a imposição do medo, da destruição e da submissão política sobre povos oprimidos inteiros. Mas, como observava corretamente Leon Trotsky, em Por que os marxistas se opoem ao terrorismo individual[1], afirma que “nossos inimigos de classe têm o costume de queixar-se de nosso terrorismo. Eles gostariam de por o rótulo de terrorismo a todas as ações do proletariado dirigidas contra os interesses do inimigo de classe. Para eles, o método principal de terrorismo é a greve. A ameaça de uma greve, a organização de piquetes de greve, o boicote econômico a um patrão super explorador, o boicote moral a um traidor de nossas próprias filas: tudo isso e muito mais é qualificado de terrorismo. Se por terrorismo se entende qualquer coisa que atemorize o prejudique o inimigo, então a luta de classes não é outra coisa senão terrorismo. E o único que resta considerar é se os políticos burgueses têm o direito de proclamar sua indignação moral acerca do terrorismo proletário, quando todo seu aparato estatal, com suas leis, polícia e exército não é senão um instrumento do terror capitalista”. Assim, a questão central em um mundo organizado diretamente pela violência do Estado burguês contra os explorados e oprimidos, não é a existência ou não da violência, mas qual classe a exerce, de que forma e a serviço de quais interesses históricos está a serviço. Outra coisa totalmente diferente são as organizações criminosas como o PCC e o CV, elas não tem nada a ver com o terrorismo praticado por grupos politicos. Ou seja, o problema dos atentados e das ações terroristas realizadas por pequenos grupos ou mesmo por organizações de massas é que eles podem atingir indivíduos, mas deixam intactas as estruturas econômicas, políticas e sociais que reproduzem a dominação de classe e colocam a classe trabalhadora e os oprimidos na defensiva.

A alternativa ao terror exercido pelo Estado imperialista ou seus aliados, não reside em ações isoladas de minorias e nem na política campista – que dá apoio militar a esse ou aquele campo da burguesia ou do imperialismo -, mas do uso necessário da força ligado diretamente à mobilização consciente e independente das massas trabalhadoras para se libertar do jugo burguês/burocrático. Nesse sentido, por exemplo, estamos incondicionalmente do lado povo palestino em sua luta contra o colonialismo e o genocídio exercido pelo Estado de Israel e pelo imperialismo, em que pese que tenhamos profundas diferenças com o programa e os métodos do Hamas; outra coisa totalmente diferente ocorre em relação às organizações criminosas, essas não as defendemos sob nenhum aspecto.

Enfim, equiparar organizações criminosas a organizações guerrilheiras está a serviço exclusivo da ideologia e da política imperialista. Por essa razão, a relevância da decisão estadunidense não reside apenas na classificação jurídica do PCC e do CV como “terrorista”. O aspecto decisivo é que ao enquadrar essas organizações sob a nomemclatura de “terrorismo”, Washington se autoatribui direitos de intervenção financeira, política, diplomática e militar sobre outros países, transformando uma categoria política em um perigoso instrumento de projeção de poder geopolítico em um mundo em crise, polarizado e em desordem.

Lula, a conciliação e os limites da defesa da soberania

A decisão de Trump, no caso brasileiro, deve ser compreendida à luz do momento político vivido pelo bolsonarismo. O escândalo do Banco Master tornou-se um dos principais fatores de crise institucional e intra-institucional na conjuntura recente que pegou em cheio o STF e, por consequência, o governo Lula. À medida que vieram à tona elementos que ligavam Daniel Vorcaro ao entorno bolsonarista, especialmente a Flávio Bolsonaro com o áudio que flagrava Flávio Bolsonaro cobrando a bagatela de R$ 60 milhões ao “irmão Vorcaro”, à revelação que o Fundo de Pensão dos Aposentados do RJ transferiu aproximadamente R$ 4 bilhões ao Master e que o Banco de Brasília transferiu R$ 6,5 bilhões à mesma instituição, tudo sob ordens de governadores bolsonaristas, o caso gira a metralhadora política à extrema direita.

As pesquisas divulgadas após o escândalo indicaram uma recuperação da posição eleitoral de Lula e uma queda de Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, candidatos como Caiado e Zema mostraram-se incapazes de ocupar o espaço aberto pela crise do bolsonarismo. Foi nesse cenário de desgaste que setores da extrema direita passaram a buscar formas de recuperar a iniciativa política. A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos e sua aproximação com Trump devem ser compreendidas como parte desse movimento. Poucos dias depois do encontro, veio o anúncio da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.

Mais do que uma simples manobra diversionista, a medida já vinha sendo discutida no interior do governo Trump e permitiu ao bolsonarismo deslocar parcialmente o foco do debate público do escândalo financeiro para a segurança pública, a repressão e endurecimento penal. Manobra que serve também para ofuscar a única vitória política do governo na Câmara dos Deputados que aprovou a emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho de 44h para 40h semanais – vitória parcial, mas de dimensões históricas como resultado da mobilização de vanguarda por baixo e da pressão da opinião pública.[2] Além disso, ao reforçar a associação entre crime organizado, insegurança pública e suposta fragilidade das políticas governamentais de Lula 3, o bolsonarismo procura reconstruir um discurso capaz de aglutinar sua base social. Trata-se de uma operação política destinada a recuperar terreno em um momento em que o bolsonarismo enfrenta dificuldades para apresentar uma alternativa econômica ou social capaz de dialogar com os problemas concretos vividos pela maioria da população.

A reação do governo Lula 3 ao episódio da classificação do PCC e do CV como “terrorista” revelou mais uma vez a vulnerabilidade da estratégia adotada pela conciliação de classes lulista diante da contra-ofensiva da extrema direita associada às pressões do imperialismo trumpista. A resposta do governo permaneceu estritamente confinada à defesa diplomática, por fora da luta política real, da soberania nacional. Entre as principais declarações, Lula afirmou que PCC e CV  “são terroristas para as comunidades brasileiras e para a sociedade brasileira”, mas acrescentou que “não são os terroristas que o Trump quer”.[3] O grande problema dessa orientação política, como apontamos acima, é que Lula defende a soberania estritamente no campo das instituições burguesas, não da luta de classes. Não identifica que o terrorismo de Estado, na verdade, é um instrumento de dominação e colonização privilegiado do imperialismo que foi potencializo pelo trumpismo.

Essa limitação decorre da própria natureza do projeto político estratégico do lulismo. Desde seu retorno ao governo em 2023, Lula buscou reconstruir uma ampla frente de conciliação burguesa e das instituições do regime, que foi acompanhada pelo conjunto da esquerda da ordem (PT, PSOL e PCdoB). Essa estratégia permitiu derrotar eleitoralmente Bolsonaro e estabilizar parcialmente o regime político após a crise aberta pelo bolsonarismo, mas como essa vitória se deu apenas no marco  eleitoral e por uma pequena margem de 1,8% dos votos, não conferiu uma vitória eleitoral que tenha colocado uma nova situação e hegemonia política.

Ao conter a mobilização – como é parte fundamental e inegociável da estratégia lulista – dos trabalhadores e dos setores oprimidos para defender a soberania nacional, o governo mantém a disputa no terreno privilegiado do imperialismo, do ultrarreacionarismo e da classe dominante: as instituições burguesas, a diplomacia e os acordos por cima. O resultado é uma postura defensiva que busca administrar os conflitos políticos, econômicos e sociais que não pode alterar as relações de força que lhes dão origem, principalmente em um cenário distinto do governo Lula 2 (2007- 2011) em que havia robusto crescimento econômico internacional e valorização das commodities e a extrema direita não era uma força de massas no Brasil. Assim, em um novo cenário internacional marcado por crises, polarização e incertezas, como apontamos acima, e com o ascenso da extrema direita a um movimento de massas, o lulismo, ao não ter um programa de transformação real da realidade e ao não se apoiar na estratégia da mobilização direta das massas, além de não poder superar a polarização calcificada que marca a situação nacional, abre flancos para a volta da extrema direita ao poder.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente porque a defesa da soberania nacional não pode ser separada das condições concretas da economia e da política. A dependência econômica, a vulnerabilidade diante das pressões externas, a precarização do trabalho e a submissão aos interesses do capital financeiro internacional fazem parte da polarização estrutural. No entanto, o governo Lula 3 seguirá enfrentando a questão nos estreitos limites da institucionalidade burguesa, da dependência econômica e da frágil soberania política de um país dependente como o Brasil para fugir de qualquer enfrentamento mais profundo com a burguesia e com o imperialismo. Assim, a defesa da soberania nacional lulista é limitada porque permanece subordinada à preservação dos acordos que garantem a governabilidade burguesa.

Polarização e o surgimento de um novo metabolismo político

Entretanto, a polarização por cima entre o lulismo e o ultrarreacionarismo descrita acima não deve ser confundida com ausência de resistência por baixo. Sob a superfície da disputa entre governo e extrema direita continuam se desenvolvendo importantes processos de resistência político-social.

Como exemplos disto, e também do potencial anticapitalista dessas lutas, ao final do ano para cá tivemos importantes greves de categorias nacionais (petroleiros, trabalhadores dos Correios e funcionários das universidades federais) por reajuste salarial e contra a privatização dos serviços; a mobilização dos indígenas do Baixo Tapajós contra a dragagem, a privatização dos rios e devastação ambiental, a luta dos entregadores por Apps por melhores taxas, direitos trabalhistas e contra a precarização geral do trabalho e, agora, a luta das universidades estaduais de São Paulo por permanência, inclusão e defesa da universidade pública.

Como conquista parcial, mas de profundo e amplo impacto nacional sobre a vida dos trabalhadores, tivemos na semana passada a vitoriosa luta contra a escala 6×1. Da mesma forma que as mobilizações que citamos previamente, diferentemente dos debates que permanecem confinados aos círculos institucionais do economicismo ou do politicismo, ambas expressões da burocratização, do sectarismo e da despolitização, essa reivindicação surgiu da experiência concreta de milhões de trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas e condições cada vez mais precárias de trabalho.

Em que pese que os dirigentes do Movimento VAT (Vida Além do Trabalho) – surgido em 2023 desde a base contra a escola cala 6×1 -, que teve como seu principal protagonista o influenciador e balconista de farmácia Rick Azevedo, acabaram por burocratizar o movimento, não permitindo uma ampla construção e ampliação das lutas para setores mais amplos, a pressão por baixo contra essa escala de trabalho cresceu e se manteve de forma orgânica, o que obrigou o sistema político a se posicionar diante dela.

De qualquer maneira, a luta contra a escala 6×1 é mais um exemplo de uma novo metabolismo da politização da luta de classes no Brasil que comprova que novos setores da nossa classe, a exemplo do que foi a antiga classe operária, a partir de suas lutas estão se tornando o centro aglutinador de camadas mais amplas da classe trabalhadora e dos oprimidos, pois, mesmo em lutas de vanguarda estão conseguindo impactar a vida nacional, obtendo vitórias e/ou fazendo governos, a extrema direita e a burguesia retroceder.

Uma das características mais marcantes da atual conjuntura é que a conciliação de classes tem fracassado no oferecimento de respostas aos principais problemas enfrentados pela população. Apesar da intensidade dos conflitos entre governo e extrema direita, questões como a precarização do trabalho, o custo de vida, a crise habitacional, a violência, a degradação ambiental e a concentração de renda seguem sem solução estrutural.

Em todos casos de lutas apontados acima, tratam-se de conflitos que não nasceram das disputas eleitorais ou dos acordos institucionais, mas das contradições concretas produzidas pela exploração do trabalho, pela expansão predatória do neoextrativismo, do ultraliberalismo e do regressismo da extrema direita. Desta forma, esse novo metabolismo demonstra que reivindicações ligadas às condições concretas de vida rompem os limites setoriais, se politizam, aglutinam setores e, por isso, podem ir para além da polarização por cima entre lulismo e bolsonarismo e, de fato, fazer a correlação de forças se alterar se encontrarem no interior da esquerda, dos movimentos e organizações pontos de apoio.

Essas experiências revelam que existe uma vida política própria dos trabalhadores e setores oprimidos que continua operando independentemente dos ritmos da disputa por cima. Ainda que inicialmente fragmentadas, elas expressam tendências reais de resistência e organização que escapam aos limites da polarização administrada por cima pelo lulismo. Por essa razão, a disputa entre lulismo e bolsonarismo, embora continue organizando grande parte da vida política nacional, encontra no novo metabolismo da luta de classes por baixo uma nova mediação ou contratendência. A polarização por cima permanece como eixo central da política institucional, mas encontra dificuldades crescentes para dar respostas resolutivas para as crescentes tensões políticas, econômicas e sociais. Esse é um novo fenômeno em relação ao qual a esquerda independente não pode deixar de observar, atuar e se apoiar.

Apostar na unificação das lutas em curso

Estamos em uma nova circunstância da conjuntura nacional. Essa combina uma vitória parcial importante da classe trabalhadora com a aprovação do fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho na Câmara dos Deputados – a PEC ainda tem que ser votada no Senado e pode encontrar importantes resistências do ultrarreacionarismo -, o desgaste de Flávio Bolsonaro pelo seu envolvimento até o pescoço no escândalo do Master e a contra-ofensiva da extrema direita a partir da nova interferência imperialista de Trump na agenda política nacional.

É preciso extrair as lições fundamentais não apenas do fracasso da conciliação de classes promovida pelo lulismo, mas também dos limites da postura sectária e economicista adotada por setores da esquerda revolucionária que têm sido incapaz de ver o brotar de um novo metabolismo da luta de classes no Brasil. Diante da crescente ingerência imperialista, o governo Lula segue apostando prioritariamente nos mecanismos da institucionalidade, na negociação diplomática e nos acordos necessários à governabilidade burguesa. O resultado tende a ser uma disputa conduzida essencialmente por cima, nos marcos do Congresso, do Judiciário e das eleições. Na melhor das hipóteses (!), isso reproduz a mesma correlação de forças existente hoje, culminando em mais uma vitória política de Lula sobre Flávio Bolsonaro, sem alterar de forma significativa a situação política ou a relação de forças entre as classes.

Como já afirmamos, os acontecimentos mais significativos do período demonstram que existe outra dinâmica em curso. A luta contra a escala 6×1, as mobilizações dos entregadores por aplicativo, as resistências indígenas e diversos conflitos sociais mostram que os trabalhadores e setores oprimidos continuam produzindo suas próprias formas de intervenção política que podem mudar a realidade e, se generalizadas, a polarização por cima e a correlação de forças sociais. Entretanto, parte significativa da esquerda independente tem sido totalmente incapaz de tirar a fundo conclusões desse novo metabolismo político.

Se é verdade que o lulismo responde à crise por meio da conciliação institucional e da administração dos conflitos dentro dos marcos do regime, também é verdade que setores importantes da esquerda socialista têm se mostrado incapazes de apresentar uma alternativa política à altura da situação. A resistência dos novos atores da luta de classes demonstram que existe uma energia real de luta por baixo da superfície institucional. Contudo, essas experiências seguem aparecendo no tecido político nacional de forma dispersa, sem encontrar mecanismos permanentes de coordenação, centralização e ação comum na medida que a esquerda independente tem sido incapaz de apontar para espaços de unificação da luta por baixo.

Essa limitação aparece de forma particularmente evidente na atuação da esquerda independente e, em especial, do PSTU e do MRT. Embora mantenha uma posição de independência política em relação ao governo Lula e à extrema direita, sua intervenção permanece no estreito campo do economicismo. Diante de uma conjuntura marcada pela crise do regime político, pela polarização entre lulismo e bolsonarismo e pela crescente ingerência imperialista, mas também de vivas lutas por baixo que impactam a realidade do país, essas organizações não são capazes de apontar absolutamente nenhuma proposta de construção de instâncias nacionais capazes de unificar os diferentes processos de mobilização em curso.

Na Reunião da Direção da CSP-Conlutas de São Paulo, com o aval das organizações que apontamos acima, foi aprovado um documento que afirmava que “é preciso fortalecer a unidade entre as categorias, as jornadas unificadas de luta e a unificação para derrotar a política dos governos”, mas apesar de usar várias vezes o conceito de “unidade” não foi capaz sequer de propor ativamente nenhum fórum de organização para a luta contra a interferência imperialista, para dar continuidade à luta contra a escala 6×1 no Senado e para apoiar as universidades estaduais que enfrentam diretamente Tarcísio de Freitas. Ou seja, uma importante plenária estadual de lutadores sai sem nenhuma resolução concreta para a unificação efetiva das lutas em curso, para unificar as forças políticas da esquerda nas eleições, para enfrentar o imperialismo, a extrema direita e os ataques dos governos.

A tarefa colocada pela nova conjuntura política não se resume a resistir aos ataques da extrema direita, denunciar a intervenção imperialista ou apontar os limites da conciliação de classes promovida pelo lulismo. É igualmente fundamental construir instrumentos de unidade e coordenação capazes de transformar as lutas hoje existentes – protagonizadas por novos e antigos setores de vanguarda – em uma força social e política apta a disputar os rumos do país. Além dos instrumentos de unificação dos lutadores, como plenárias ad hoc e outras iniciativas necessárias para dialogar com setores mais amplos da sociedade, o período de pré-campanha eleitoral coloca uma tarefa adicional: a construção de uma candidatura unificada da esquerda socialista por meio de uma frente política. A luta contra a extrema direita se trava prioritariamente nas ruas, mas deve contar também com uma representação política que contribua para impulsionar uma perspectiva independente e de conjunto para os trabalhadores e os setores populares.

Nesse sentido, é um tremendo erro também que o PSTU, única organização da esquerda independente no Brasil que dispõe de legalidade eleitoral, não tenha a tática de construir uma frente político-eleitoral que cumpra o papel apresentar uma candidatura unificada para atuar nas lutas e nas eleições com o objetivo de unificar os setores mobilizados, derrotar nas ruas e nas urnas o imperialismo e a extrema direita e, além disso, os ataques do governo Lula 3. Sem essa mediação política independente, voltada para a mobilização permanente e autodeterminada, a crise continuará sendo disputada pelos de cima. É necessária a construção imediata de frentes de luta dos setores mobilizados e uma frente política da esquerda socialista para contribuir para que emerja uma alternativa anticapitalista dos trabalhadores e oprimidos que supere os impasses estruturais da conjuntura brasileira.

[1] Veja em https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1911/11/terrorismo.htm

[2]  Veja análise do contexto, impacto e contradições da votação em: https://esquerdaweb.com/fim-da-6×1-uma-conquista-parcial-de-dimensoes-historicas/

[3] Veja em https://shre.ink/3FjM

2 COMENTÁRIOS