Apresentação realizada na conferência Socialism 2016, realizada entre 4 e 7 de julho de 2016, em Chicago, EUA. Publicada pela Links International Journal of Socialist Renewal. Enviada especialmente por seu autor para publicação em espanhol, no Suplemento semanal Marxismo en el Siglo XXI, para o tradutor Marcelo Yunes. Traduzido para o português por Esquerda Web.

A evolução da análise de Leon Trotsky sobre a burocracia soviética

Por THOMAS M TWISS

Em sua exposição, Paul Le Blanc fez um breve panorama da situação cada vez mais sombria na União Soviética nos anos posteriores à revolução, da resistência heroica da Oposição de Esquerda e da “noite negra” do stalinismo em meados e no final da década de 1930. Também apresentou uma síntese da teoria definitiva de Leon Trotsky sobre a burocracia soviética e destacou — a meu ver, com acerto — o valor dessa elaboração para compreender esse período histórico.

O que pretendo fazer aqui é esboçar brevemente o desenvolvimento da análise de Leon Trotsky sobre o problema da burocracia soviética, com o objetivo de alcançar uma compreensão e uma apreciação mais profundas de sua teoria definitiva, com todos os seus pontos fortes e também suas limitações. Pois, como observou Leon Trotsky em seu prefácio de 1933 a uma coletânea de seus escritos da Oposição, “é impossível compreender corretamente as ideias políticas ou científicas sem conhecer a história de seu desenvolvimento”.[1]

Na Rússia do início do século XX, assim como no Ocidente atual, a palavra “burocracia” possui vários significados. A compreensão mais comum, partindo de sua definição original, é que “burocracia” se refere ao “governo dos escritórios” (bureau), ou, por extensão, aos “escritórios que governam” a sociedade. Nessa linha, após a revolução, muitos bolcheviques associavam “burocracia” à elevação dos aparelhos do partido e do Estado acima do controle das massas, dos proletários ou da base. Essa compreensão se expressava na obra O Estado e a Revolução, de Vladimir Lenin, escrita às vésperas da Revolução Russa, e aparece de forma dispersa em muitos de seus escritos e discursos posteriores. Também era particularmente marcante nas posições dos diversos grupos de oposição que floresceram no partido e em seu entorno entre 1918 e 1923. Por exemplo, isso se evidencia na crítica de Aleksandra Kollontai, da Oposição Operária, em 1921, ao afirmar que 

“o problema reside na resolução das questões (…) por meio de decisões formais que descem das instâncias centrais (…). Uma terceira pessoa decide nosso destino: essa é toda a essência da burocracia”.[2]

Um segundo sentido de “burocracia” para os bolcheviques — assim como hoje para nós — refere-se à ineficiência e ao excesso de formalidades administrativas. Também aqui se trata de um tema recorrente nos escritos e discursos de Vladimir Lenin nos primeiros anos do poder soviético. Mas, nesse período, foi Leon Trotsky quem descreveu de maneira mais sistemática o problema da burocracia em termos de ineficiência.

Isso provavelmente se deve ao fato de que, como comissário da Guerra, Trotsky estava quase exclusivamente preocupado com o funcionamento eficiente do Exército Vermelho e, especialmente, das instituições econômicas que lhe forneciam insumos. Trotsky utilizou o termo “burocracia” de diversas maneiras específicas ao longo desse período. No entanto, com maior frequência, quando falava de biurokratiia entre 1919 e 1923, sua preocupação era com a ineficiência que, a seu ver, havia contaminado “a própria estrutura de nossas instituições econômicas [soviéticas]”.[3]

Trotsky denominou esse fenômeno de glavkokratiia, isto é, o governo dos glavki e dos tsentry. Os glavki e tsentry eram mais de cinquenta departamentos do Conselho Supremo da Economia Nacional que dirigiam os diversos ramos da indústria durante o período do Comunismo de Guerra.

Para Leon Trotsky, a glavkokratiia apresentava dois aspectos problemáticos: por um lado, um centralismo excessivo, expresso no controle rígido da indústria pelos glavki, de cima para baixo; por outro, um centralismo insuficiente, devido à ausência de um plano único que coordenasse o trabalho de todos os glavki.[4]

Em razão da glavkokratiia, explicava Trotsky, peças de reposição e insumos disponíveis em uma fábrica muitas vezes não podiam ser transferidos para outra fábrica da mesma região que deles necessitava com urgência. Por exemplo, em janeiro de 1920, ele se queixou de que uma fábrica de Moscou havia permanecido inativa por dois meses enquanto aguardava uma correia de transmissão; outra precisou interromper suas atividades várias vezes por falta de lona; uma terceira não conseguia produzir tijolos de silicato porque não havia recebido a estrutura para o motor a vapor. Em todos os casos, as peças e os materiais estavam disponíveis localmente, mas não puderam ser transferidos para a fábrica que deles necessitava devido à glavkokratiia.[5]

A solução proposta por Leon Trotsky para esse problema foi conceder maior autonomia às empresas e introduzir uma coordenação econômica nas organizações regionais e distritais, bem como nas instâncias superiores, por meio do planejamento econômico centralizado. De fato, a análise de Trotsky sobre a glavkokratiia representava uma crítica contundente à ineficiência da indústria soviética sob o Comunismo de Guerra e nos primeiros anos da Nova Política Econômica (NEP) que se seguiu. Nesse ponto, como observou o historiador Lars Lih, Trotsky tocou em uma fibra sensível da consciência popular.[6]

Inclusive, foi citado de forma favorável por Grigory Zinoviev, seu principal rival naquele momento, e pelo economista anticomunista russo-estadunidense Leo Pasvolsky.[7] E, no final de 1922, Vladimir Lenin acabou compartilhando ao menos parte das recomendações de Trotsky relativas ao planejamento econômico, derivadas diretamente de sua análise da glavkokratiia.[8]

No entanto, também é evidente que o foco quase exclusivo de Trotsky na ineficiência, em suas observações sobre a burocracia nesse período, estava ligado à sua “excessiva preocupação com o aspecto puramente administrativo das questões”, como apontou Vladimir Lenin em seu Testamento.[9] Isso fazia com que deixasse de lado o problema político mais amplo do retrocesso da democracia operária, que vinha sendo documentado por diversos grupos de oposição. Além disso, é justo afirmar que essa preocupação concentrada de Trotsky com a questão da eficiência foi, ao menos em parte, responsável por seu apoio a políticas centralizadoras e autoritárias que, de fato, contribuíram para o enfraquecimento da democracia operária.

De todo modo, no final de 1923, Leon Trotsky já começava a formular uma nova análise da burocracia, impulsionada por uma série de acontecimentos que incluíam a deterioração geral do regime do partido nesse período, a política de Joseph Stalin em relação às nacionalidades na Geórgia e as manobras contra o próprio Trotsky. Mas, em igual ou até maior medida, essa mudança em seu pensamento surgiu diretamente de sua análise da glavkokratiia.

Em abril de 1923, o XII Congresso do Partido finalmente aprovou a proposta de planejamento econômico centralizado defendida por Trotsky, pela qual ele vinha lutando há anos como solução para a glavkokratiia. No entanto, em outubro daquele mesmo ano, em violação direta das decisões do Congresso, nada havia sido feito para implementar esse planejamento. Isso contribuiu de maneira decisiva para que Trotsky reconhecesse que o problema da burocracia era mais profundo do que uma simples questão de ineficiência.

Trotsky expôs essa nova compreensão com maior clareza durante a luta interna no partido entre 1926 e 1927. Nesse período, apontou duas dimensões distintas do “burocratismo” no Estado e no partido. Em parte, para Trotsky, o problema envolvia o centralismo excessivo, o autoritarismo e o retrocesso da democracia operária no regime do partido e do Estado. Nessa linha, em junho de 1926, definiu a “essência da burocracia” como “o domínio ilimitado do aparelho do partido”.[10]

Mas, no mesmo período, Trotsky e a Oposição também destacaram o que identificavam como a dimensão de classe do problema. Como explicava a Plataforma da Oposição em 1927:

“a questão do burocratismo soviético não é apenas uma questão de formalismo administrativo e excesso de funcionários. No fundo, trata-se de uma questão do papel de classe desempenhado pela burocracia, de seus vínculos sociais e de suas simpatias (…) em relação ao nepman [comerciante capitalista. TT] e aos trabalhadores não qualificados (…), etc.”.[11]

Para Leon Trotsky e a Oposição, esse papel de classe era evidente nas políticas econômicas da direção; especificamente, na incapacidade de enfrentar os problemas econômicos dos trabalhadores no processo de industrialização e na orientação voltada para os camponeses ricos, ou kulaks, e para os nepmen. No plano internacional, o papel de classe da burocracia assumia a forma de alianças com parceiros burgueses e pequeno-burgueses que enfraqueciam a revolução, como no Reino Unido e na China.

Trotsky sustentava que a mudança no equilíbrio entre as classes sociais na União Soviética podia explicar ambas as dimensões do problema. Argumentava que, no início dos anos 1920, o proletariado soviético havia ficado exausto pela guerra civil e desmoralizado pela distância entre as expectativas e a realidade do poder. Ao mesmo tempo, a introdução da Nova Política Econômica havia promovido a revitalização política e econômica dos elementos burgueses.

Essa mudança na correlação de classes na sociedade soviética exerceu uma pressão à direita sobre os aparelhos do partido e do Estado, resultando em um “desvio da linha de classe proletária”. Assim, para implementar suas políticas conservadoras, a direção stalinista recorreu a práticas antidemocráticas e repressivas, especialmente contra a Oposição, que representava a ala proletária do partido.[12]

Por sua vez, as políticas autoritárias e conservadoras da direção haviam contribuído para novos deslocamentos à direita no equilíbrio das forças de classe. Na caracterização de Leon Trotsky, a corrente stalinista que havia chegado ao poder em virtude desse processo tinha um caráter “centrista”, situada entre o oportunismo pleno da direita e a posição revolucionária proletária do leninismo à esquerda. O maior perigo era que novas derrotas do proletariado ou da Oposição enfraquecessem a resistência da classe trabalhadora soviética, o que levaria a novos deslocamentos à direita no poder, podendo inclusive culminar na restauração do capitalismo.

Para Trotsky, o caminho mais provável dessa restauração era o que ele denominava “Termidor”, isto é, “uma forma particular de contrarrevolução realizada em etapas (…) que se apoiaria, em sua fase inicial, em elementos do próprio partido governante”.[13] Nesse contexto, o objetivo da Oposição era impedir a restauração e restabelecer políticas proletárias. Sua estratégia, enquanto a União Soviética permanecesse um “Estado proletário”, era rejeitar a via da revolução e limitar seus esforços à tentativa de reformar o partido e o Estado.

A teoria de Trotsky sobre a burocracia soviética nesse período era profunda e elegante, e parecia bastante plausível entre meados e o final dos anos 1920. No entanto, pouco depois, os acontecimentos demonstraram até que ponto essa teoria era falha. Trotsky havia previsto que, caso a Oposição fosse derrotada, a corrente centrista se desintegraria, a direita do partido assumiria o poder, as políticas do partido se deslocariam ainda mais à direita e o capitalismo seria restaurado, provavelmente por meio de um Termidor. No final de 1927, a Oposição de Esquerda foi derrotada, com milhares de oposicionistas expulsos e exilados. Mas, evidentemente, a direita não chegou ao poder. Em vez disso, consolidou-se o domínio do centro, que se voltou para seus aliados moderados e, em seguida, adotou políticas econômicas e internacionais que, tomando como referência o próprio esquema de Trotsky, pareciam tão “à esquerda” que escapavam completamente daquele quadro teórico.

Ao mesmo tempo, apesar desses “giros à esquerda”, o regime continuava se afastando cada vez mais da democracia operária. Do exílio, Leon Trotsky passava então a formular críticas penetrantes à política soviética “pela direita” e a denunciar a deterioração do regime. Ao mesmo tempo, parecia estar ao menos parcialmente consciente de que sua teoria anterior era insuficiente para compreender a realidade do início dos anos 1930. Em consequência, começou a realizar uma série de ajustes explícitos e implícitos em sua teoria, que tendiam a enfatizar a autonomia da burocracia em relação às classes sociais. Ainda assim, continuou insistindo que sua análise anterior era essencialmente correta e seguiu utilizando-a para interpretar o que estava ocorrendo.

O resultado foi um conjunto de afirmações, conclusões e previsões que hoje parecem profundamente equivocadas. Vejamos algumas delas: as repetidas declarações de Trotsky, em 1928-1929, questionando a seriedade da mudança na política stalinista; seu argumento de que essa inflexão se devia à pressão da Oposição; sua concordância com a tese da direção de que a coletivização representava um movimento espontâneo do campesinato; sua aceitação da validade das acusações nos julgamentos de 1928-1931 [contra supostos “sabotadores”. MY]; suas afirmações ocasionais de que os excessos da industrialização e da coletivização se deviam à sabotagem capitalista; e suas reiteradas advertências de que a direção estava prestes a dar um giro à direita e consumar um Termidor.

No entanto, em última instância, dois acontecimentos precipitaram o que chamo de uma verdadeira revolução no pensamento de Trotsky. O primeiro foi a chegada ao poder de Adolf Hitler na Alemanha, em 1933. Trotsky considerou esse fato como o maior desastre para a classe trabalhadora mundial desde a Primeira Guerra Mundial, responsabilizando diretamente a direção stalinista por ele. O segundo foi a repressão que se seguiu ao assassinato de Sergei Kirov, em dezembro de 1934, o que levou Trotsky a afirmar que “a dominação da burocracia sobre o país, assim como a dominação de Stalin sobre a burocracia, alcançaram praticamente sua consumação absoluta”.[14]

Com base nesses dois acontecimentos, Trotsky passou a introduzir uma série de modificações em sua posição anterior. O efeito acumulado dessas mudanças foi a formulação de uma nova teoria, que incorporava uma compreensão muito mais ampla da autonomia da burocracia soviética como formação social.

A apresentação mais completa da nova teoria de Leon Trotsky apareceu em A Revolução Traída, concluída em 1936. Nela, Trotsky oferecia essencialmente duas explicações distintas para as origens do poder burocrático: uma funcional e outra histórico-política.

Em sua explicação funcional, Trotsky partia do reconhecimento de que a União Soviética não era uma sociedade socialista, como afirmava Joseph Stalin, uma vez que o socialismo pressupõe uma sociedade de abundância e relativa igualdade. Em vez disso, a URSS era uma sociedade atrasada, em transição do capitalismo ao socialismo. Nesse contexto, teria sido necessário criar um “gendarme” — a burocracia — para regular o consumo. Mais especificamente, sua função teria sido estimular a produção por meio da desigualdade distributiva, ou aquilo que Trotsky descrevia como “normas burguesas de distribuição”.[15]

No entanto — argumentava Trotsky —, ao defender as vantagens de uma minoria, a burocracia acabou “retirando a melhor parte para si”. Assim, “das necessidades da sociedade nasce um órgão que, ao ultrapassar em muito sua função social necessária, transforma-se em um fator autônomo”.[16]

A explicação histórico-política de Trotsky era semelhante à que ele havia apresentado em 1926-1927. Mais uma vez, descrevia o cansaço e a desilusão do proletariado. Mais uma vez, apontava para o ressurgimento da confiança da pequena burguesia, mas agora indicava a burocracia — e não os elementos burgueses — como a principal beneficiária desses processos. Apoiada na passividade dos trabalhadores de vanguarda e no respaldo dos trabalhadores mais atrasados e da pequena burguesia, a burocracia havia derrotado a Oposição de Esquerda e usurpado o poder em uma transição que Trotsky agora caracterizava como Termidor.[17]

Outro elemento importante da nova explicação de Leon Trotsky era sua admissão de que as práticas introduzidas pelos bolcheviques nos primeiros anos do poder soviético haviam contribuído para o processo de burocratização. Uma delas foi a proibição dos partidos de oposição, instituída como um “ato episódico de autodefesa”. Outra foi a proibição de frações dentro do partido, também apresentada como uma “medida excepcional”, mas que, como reconhecia Trotsky, acabou se revelando “muito do agrado da burocracia”.[18]

A nova ênfase de Trotsky na autonomia da burocracia era particularmente visível em sua análise da política econômica e internacional do stalinismo. Considerando um espectro muito mais amplo de questões do que nos anos anteriores, voltou a apontar o desvio da política soviética em relação às práticas bolcheviques e/ou a uma política socialista ideal. Em cada caso, reconhecia que o atraso da sociedade soviética e seu caráter de transição explicavam parte desse desvio. Mas, em todos os casos, segundo Trotsky, a maior parte desse desvio era concebida para beneficiar exclusivamente a burocracia e as camadas privilegiadas a ela associadas.

A ênfase de Leon Trotsky na autonomia da burocracia também se tornava evidente em sua nova análise das possibilidades de restauração capitalista. Antecipando a eclosão de uma guerra, Trotsky advertia que a restauração poderia ocorrer por meio de uma intervenção imperialista, caso a revolução socialista não se realizasse no Ocidente.[19]

No entanto, deu ainda maior destaque ao caminho interno da restauração. À luz do reconhecimento da autonomia da burocracia e dos efeitos de suas políticas, Trotsky já não sugeria que a restauração pudesse ocorrer como resultado de uma revolta, ou da pressão, dos kulaks e dos nepmen. Em vez disso, sustentava que a própria burocracia soviética, em determinadas circunstâncias, buscaria restaurar o capitalismo.

Por ora, explicava Trotsky, a burocracia defendia a propriedade estatal “como fonte de seu poder e de suas rendas” e também por temor ao proletariado. No entanto, seus privilégios eram instáveis e não podiam ser transmitidos hereditariamente a seus descendentes. Em consequência, para a burocracia,

“será inevitável que busque apoio nas relações de propriedade”.[20]

É importante reconhecer que, assim como suas posições anteriores sobre a burocracia, a teoria final de Leon Trotsky apresentava tanto grandes fragilidades quanto importantes pontos fortes. Provavelmente a principal dessas fragilidades tenha sido a manutenção da caracterização da União Soviética como um “Estado operário”. Era simplesmente contrário ao bom senso descrever a URSS dessa forma em um momento em que os trabalhadores não tinham qualquer possibilidade de controlar o Estado, e quando milhões de operários e camponeses — assim como praticamente toda a Oposição de Esquerda, grupo que Trotsky considerava como “vanguarda proletária” — desapareciam nos gulags.

Outro problema era que, apesar da revolução em seu pensamento iniciada em 1933, Trotsky ainda tendia com frequência a subestimar a autonomia tanto da burocracia quanto de Joseph Stalin. Por essa razão, costumava superestimar a capacidade de resposta da burocracia a forças de classe externas e, por vezes, estabelecia conexões entre escaladas repressivas e inflexões políticas à direita que simplesmente não se sustentam à luz dos fatos.

Também houve fracassos significativos em suas previsões. Um deles foi que, contrariando suas expectativas, a URSS saiu vitoriosa da guerra sem que tivesse ocorrido uma revolução no Ocidente. Outro foi que o colapso definitivo da URSS ocorreu muito mais tarde do que Trotsky previa; é evidente que ele considerava que, na ausência de uma revolução política, a restauração capitalista estaria próxima já no final dos anos 1930.[22]

Em ambos os casos, Leon Trotsky subestimou profundamente a durabilidade do regime. No que diz respeito ao processo de restauração, também se equivocou ao prever que o eventual colapso provocaria uma guerra civil.[23] De fato, embora tenha havido uma série de guerras e conflitos no território da antiga União Soviética, nenhum deles se assemelhou, nem em escala nem em caráter, à guerra de classes que Trotsky havia antecipado.

Ainda assim, essas fragilidades e erros não devem nos impedir de reconhecer alguns dos notáveis pontos fortes da teoria final de Trotsky. Por exemplo, sua insistência na autonomia da burocracia e de Joseph Stalin, bem como nas clivagens que dividiam as diferentes camadas da sociedade e da própria burocracia soviética, tornava essa teoria mais complexa, plausível e sofisticada do que suas análises anteriores sobre a burocracia. Por essa razão, exerceu grande influência não apenas entre os marxistas ocidentais, mas também entre estudiosos do meio acadêmico.[24]

A teoria formulada em A Revolução Traída continha uma aplicação criativa de categorias e conclusões derivadas diretamente do marxismo clássico, bem como de suas próprias análises anteriores sobre o desenvolvimento desigual e combinado.

Outra característica importante da interpretação de Trotsky, destacada por Perry Anderson, foi seu notável “equilíbrio político”.[25] Isso se evidenciava, por exemplo, na distinção que Trotsky estabelecia entre os desvios necessários da política stalinista em relação às normas bolcheviques e socialistas e aqueles desvios que beneficiavam exclusivamente a burocracia. Esse equilíbrio, inerente à sua teoria, ajudou-o a evitar cair tanto no extremo do stalinismo quanto no da stalinofobia.

Além disso, devemos considerar a confirmação particularmente impactante das previsões de Leon Trotsky sobre o destino final da União Soviética. A mais significativa delas foi a previsão de que a própria burocracia “será inevitável que busque apoio nas relações de propriedade”. Diversos estudiosos observaram que foi exatamente isso que ocorreu no final dos anos 1980 e reconheceram explicitamente a lucidez de Trotsky nesse ponto.[26]

Quanto ao processo de restauração, Trotsky havia antecipado que, caso um partido burguês chegasse ao poder, “encontraria não poucos servidores entre os burocratas atuais”.[27] Nesse sentido, vale registrar que um estudo de 1996 revelou que 75% da equipe dirigente de Boris Yeltsin, 74% do governo russo e 82% da elite regional provinham da nomenklatura.[28]

Por fim, há a previsão de Trotsky de que o regime que acabaria emergindo seria autoritário e repressivo: “Um regime bonapartista ou, em termos modernos, fascista”.[29] Ainda que “fascista” possa ser um exagero, “bonapartista” parece uma caracterização bastante precisa do regime de Vladimir Putin.

Em conclusão, diria que, apesar de suas limitações — que eram significativas —, a teoria final de Trotsky sobre a burocracia soviética representou um feito político e intelectual notável. Foi, como afirma Paul Le Blanc, uma das expressões mais brilhantes da resistência à noite sombria do stalinismo. E segue sendo um ponto de partida útil para uma compreensão mais profunda da experiência histórica da URSS e do stalinismo.


Notas

[1] Leon Trotsky, Writings of Leon Trotsky [1932-33], edição de George Breitman e Sarah Lovell (Nova York: Pathfinder Press, 1972), p. 87.

[2] Alexandra Kollontai, Selected Writings of Alexandra Kollontai, tradução de Alix Holt (Nova York: W.W. Norton and Company, 1977), pp. 191-2.

[3] Leon Trotsky, Khoziaistvennoe stroitel’stvo Sovetskoi Respubliki, vol. 15 de Sochineniia, Gosudarstvennoe izdatel’stvo (Cleveland, OH: Bell and Howell, 1963), pp. 146-7.

[4] No IX Congresso do partido, no final de dezembro de 1920, Trotsky definiu glavkokratiia como “o governo dos glavki separados e centralizados verticalmente, sem ligação organizacional e mal coordenados em sua atividade”. Trotsky, Khoziaistvennoe stroitel’stvo, p. 217.

[5] Trotsky, Khoziaistvennoe stroitel’stvo, p. 39.

[6] Lars Lih, “‘Our Position Is in the Highest Degree Tragic’: Bolshevik ‘Euphoria’ in 1920”, em History and Revolution: Refuting Revisionism, edição de Mike Haynes e Jim Wolfreys (Londres: Verso, 2007), pp. 129, 131.

[7] RKP(b), Deviataia konferentsiia RKP(b), Sentiabr 1920 goda: Protokoly (Moscou: Izdatel’stvo politicheskoi literatury, 1972), p. 141; Leo Pasvolsky, The Economics of Communism: With Special Reference to Russia’s Experiment (Nova York: The Macmillan Company, 1921), pp. 207-11.

[8] Ver a correspondência entre Vladimir Lenin e Leon Trotsky em The Trotsky Papers, edição de Jan M. Meiher (Haia: Mouton and Co., vol. 2, 1971), pp. 774-89.

[9] Vladimir Lenin, Collected Works (Moscou: Foreign Languages Pub. House, 1960-70), vol. 36, pp. 594-5.

[10] Leon Trotsky, The Challenge of the Left Opposition (1926-27) (Nova York: Pathfinder Press, 1980), p. 65.

[11] Ibid., p. 341.

[12] Ibid., pp. 103-4, 166, 168-9, 170, 206, 208, 255, 390-1, 491.

[13] Ibid., p. 263. Por outro lado, era possível que a restauração ocorresse por meio de um “derrubamento contrarrevolucionário aberto” do Estado soviético, enfraquecido pelas políticas da direção. Trotsky, Challenge (1926-27), pp. 260-1.

[14] Leon Trotsky, Writings of Leon Trotsky [1934-35], edição de George Breitman e Bev Scott (Nova York: Pathfinder Press, 1971), p. 169. Ver também Thomas Twiss, Trotsky and the Problem of Soviet Bureaucracy (Chicago: Haymarket Books, 2015), pp. 330-400.

[15] Leon Trotsky, The Revolution Betrayed: What Is the Soviet Union and Where Is It Going? (Garden City, NY: Doubleday, Doran & Co., 1937), pp. 52-60, 112-113. [*]

[16] Ibid., p. 113.

[17] Ibid., pp. 88-92.

[18] Ibid., pp. 95-6.

[19] Ibid., pp. 226-7.

[20] Ibid., pp. 249, 251, 254.

[21] Por exemplo, em 1935 Trotsky acreditou erroneamente que as reformas de mercado na agricultura eram apenas o início de um giro à direita sob pressão dos camponeses ricos. Trotsky, Writings [1934-35], pp. 159-60. Em 1936 descreveu o governo soviético e a Comintern como “a agência política do imperialismo em relação às massas trabalhadoras”. Leon Trotsky, Writings of Leon Trotsky [1935-36], edição de Naomi Allen e George Breitman (Nova York: Pathfinder Press, 1977), p. 274. E, em 1935, sustentou que a direção necessitava aumentar a repressão para implementar suas iniciativas nas políticas agrária e internacional. Trotsky, Trotsky’s Diary in Exile, tradução de Elena Zarudnaya (Nova York: Atheneum, 1963), pp. 20-1, 66, 90.

[22] Em The Transitional Program for Socialist Revolution (1938), Trotsky apresentou os Julgamentos de Moscou como refletindo, em parte, conflitos entre defensores e opositores da restauração. E acrescentou que “cada novo dia de seu domínio contribui para decompor os fundamentos dos elementos socialistas da economia e aumenta as possibilidades de restauração capitalista”. Leon Trotsky, The Transitional Program for Socialist Revolution, edição de George Breitman e Fred Stanton (Nova York: Pathfinder Press, 1973), pp. 143-5.

[23] Ver, por exemplo, Leon Trotsky, Writings of Leon Trotsky [1937-38] (Nova York: Pathfinder Press, 1976), p. 37.

[24] Sobre esse ponto, ver, por exemplo, Duncan Hallas, Trotsky’s Marxism (Londres: Bookmarks, 1984), p. 28; John Plamenatz, German Marxism and Russian Communism (Londres: Longmans, Green, and Co., 1954), p. 303; Henry Reichman, “Reconsidering ‘Stalinism’”, Theory and Society, 17, 1, p. 67; Hillel Tickten, “Leon Trotsky’s Political and Economic Analysis of the USSR, 1929-40”, em The Ideas of Leon Trotsky, edição de Hillel Tickten e Michael Cox (Londres: Porcupine Press, 1995), p. 65.

[25] Perry Anderson, “Trotsky’s Interpretation of Stalinism”, em The Stalinist Legacy: Its Impact on Twentieth-Century World Politics, edição de Tariq Ali (Hammondsworth, Middlesex, Inglaterra: Penguin Books, 1984), p. 124.

[26] R.W. Davies, “Gorbachev’s Socialism in Historical Perspective”, em Stalinism: Its Nature and Aftermath: Essays in Honor of Moshe Lewin, edição de Nick Lambert e Gabor Rittersporn (Armonk, NY: M.E. Sharpe, Inc., 1992), p. 69; Stephen White, Russia’s New Politics: The Management of a Post-communist Society (Cambridge, Reino Unido: Cambridge University Press, 2000), p. 291; Allen C. Lynch, How Russia Is Not Ruled: Reflections on Russian Political Development (Cambridge: Cambridge University Press, 2005), p. 77; David Lane, The Capitalist Transformation of State Socialism: The Making and Breaking of State Socialist Society and What Followed (Londres e Nova York: Routledge, 2014), pp. 130-31. Diversos especialistas também apontaram a “privatização desde baixo”, iniciada por funcionários do partido e do Estado já em 1987-1988, como uma causa importante do colapso da URSS. Ver Thane Gustafson, Capitalism Russian Style (Cambridge: Cambridge University Press, 1999), pp. 26-7; Lane, Capitalist Transformation, pp. 131-40; Lynch, How Russia Is Not Ruled, p. 74; Stephen Kotkin, Armageddon Averted: The Soviet Collapse 1970-2000 (Oxford: Oxford University Press, 2008), pp. 113-17; David M. Kotz e Fred Weir, Russia’s Path from Gorbachev to Putin: The Demise of the Soviet System and the New Russia (Londres e Nova York: Routledge), pp. 105-25; Stephen L. Solnick, Stealing the State (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998), pp. 7-8.

[27] Trotsky, Revolution Betrayed, p. 253.

[28] Olga Kryshtanovskaya e Stephen White, “From Soviet Nomenklatura to Russian Elite”, Europe-Asia Studies, vol. 48, nº 5 (jul. 1996), p. 729; White, Russia’s New Politics, p. 421.

[29] Trotsky, Challenge (1926-27), p. 493. Essa previsão é do final de 1927, mas provavelmente o Trotsky posterior concordaria com ela.

[*] Utilizamos a versão em espanhol das citações de La revolución traicionada da edição de Gallo Rojo-Antídoto, Buenos Aires, 2008 (nota do tradutor).