Por VICTOR ARTAVIA

Na segunda-feira (16), Cuba experimentou um apagão total após o colapso de seu sistema elétrico nacional. É o sexto evento desse tipo ocorrido no último ano e meio. Isso evidencia a grave crise energética que o país atravessa, a qual é consequência de uma rede elétrica obsoleta, agravada pelo brutal “bloqueio petrolífero” imposto pela Casa Branca.

Um ataque imperialista contra a autodeterminação do povo cubano

Em relação ao cerco promovido pela administração Trump, é importante destacar que se trata de uma operação imperialista para esmagar à autodeterminação nacional da ilha.

O presidente dos Estados Unidos quer fazer em Cuba o que já fez na Venezuela, isto é, transformar-se no “juiz” que decide quem deve governar o país e teledirigir um governo fantoche da Casa Branca. Ou seja, trata-se de uma tentativa de destruir o que resta da revolução anticapitalista de 1959, em especial a independência conquistada em relação ao imperialismo.

É isso que o presidente estadunidense busca ao impor como condição a renúncia de Díaz-Canel, algo que, segundo a imprensa internacional, estaria sendo exigido como parte das negociações abertas com o regime.

Caso isso se concretize, significaria que Cuba voltaria a se transformar em um “cassino-prostíbulo”, como nos tempos de Batista, e não em uma emancipação do regime burocrático. Para isso, conta com o apoio da gusaneira (NT: “bando de vermes”) cubana, que tem em Marcos Rubio um representante direto na Casa Branca. Sua intenção é recuperar as propriedades que perdeu após o triunfo da revolução cubana.

Por tudo isso, nos opomos a que o presidente cubano renuncie sob pressão do imperialismo estadunidense. Cabe exclusivamente ao povo cubano decidir quem deve governar a ilha.

A ilha dos “clarões”

Nos últimos anos, os apagões tornaram-se um elemento da vida cotidiana no país. Em muitos bairros de Havana, por exemplo, são comuns cortes de eletricidade por períodos de até quinze horas, enquanto em outras províncias se estendem por 24 horas ou mais.

Diante disso, a população cubana diz que na ilha há “clarões” — uma forma sarcástica de explicar que a eletricidade aparece apenas por pequenos intervalos ao longo do dia, já que a “normalidade” é viver sem luz.

Somados aos cortes “parciais” rotineiros, o país passou a sofrer apagões nacionais há dois anos. Em 2024, foram registrados três em um intervalo de dois meses: o primeiro ocorreu em 18 de outubro, devido a uma falha na central elétrica Antonio Guiteras; o segundo aconteceu em 6 de novembro, por conta dos efeitos do furacão Rafael; e o terceiro ocorreu em 4 de dezembro, novamente por falha na mesma central.

Em 2025, ocorreram outros dois apagões totais: um em 14 de março, devido a um incêndio em uma subestação em Havana; outro em setembro, por uma nova avaria em Guiteras. A esses se soma o apagão de 16 de março, desta vez no contexto da “asfixia energética” promovida por Trump contra a ilha.

As causas da crise energética

A recorrência dos apagões se explica por dois fatores principais. Por um lado, as centrais termoelétricas são bastante antigas e obsoletas, pois datam das décadas de 1960 e 1970. Para se ter uma ideia do estado crítico em que se encontram, basta observar que nove das 16 unidades estão fora de operação. Isso não é um detalhe menor, considerando que — em teoria — garantem 40% do fornecimento elétrico do país.

De acordo com diversos estudos independentes, o deterioramento dessas centrais se deve a uma falta crônica de investimentos no setor energético, cujas consequências estão sendo sentidas atualmente. Estima-se que seriam necessários entre 8 e 10 bilhões de dólares para modernizar a rede elétrica.

Por outro lado, a crise se agravou significativamente devido ao bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos desde o início do ano. Trata-se de um ataque imperialista que fere o direito à autodeterminação nacional do povo cubano, e que fez com que nenhum navio petroleiro chegasse aos portos da ilha desde 9 de janeiro. Isso provocou a paralisação total dos geradores que funcionam com diesel e óleo combustível, responsáveis por outros 40% da eletricidade do país.

Em média, Cuba necessita de 110 mil barris de petróleo por dia, dos quais produz apenas 40 mil. Ao longo das últimas décadas, o regime cubano compensou esse déficit com petróleo proveniente da Venezuela, que cobria cerca de um terço das necessidades da ilha. Essa fonte foi abruptamente interrompida após pressões da Casa Branca e o papel colaboracionista assumido pelo governo de Delcy Rodríguez.

Além disso, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a Casa Branca pressionou seu governo a interromper o envio de petróleo da PEMEX à ilha. Em 2025, Cuba recebia cerca de 12 mil barris diários do México; já em 2026, recebeu apenas um carregamento isolado no início de janeiro.

Assim, a combinação de um sistema elétrico obsoleto e sem investimentos, somada à ofensiva imperialista de Trump, coloca Cuba à beira de um colapso energético, econômico e social.

A planificação burocrática

Segundo o governo cubano, a falta de investimentos e os apagões são consequência do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde 1962, responsável por perdas de mais de 170 bilhões de dólares.

Recentemente, o chanceler cubano Bruno Rodríguez afirmou que “se o bloqueio fosse suspenso por dois meses, disporíamos dos recursos que permitiriam garantir o combustível para gerar eletricidade”. Essa declaração exemplifica a narrativa maniqueísta da burocracia castrista, segundo a qual todos os problemas do país decorrem dos ataques do imperialismo e, portanto, o governo da ilha estaria isento de qualquer responsabilidade.

Não colocamos em dúvida o caráter criminoso e ilegítimo do bloqueio imperialista, assim como suas terríveis consequências sobre a economia da ilha. Mas isso não significa que capitulemos às direções burocráticas e aos seus relatos maniqueístas, segundo os quais todas as problemáticas econômicas e sociais são responsabilidade exclusiva dos Estados Unidos e, consequentemente, o regime cubano está isento de culpa.

Pelo contrário, na atual crise energética, a gestão da burocracia castrista tem muito a ver com a situação. Trata-se de um governo que opera por meio de um regime antidemocrático de partido único, que lhe garante enormes privilégios e, ao mesmo tempo, amplifica os efeitos da crise (incluindo os custos do bloqueio imperialista) sobre a ampla maioria da população cubana.

Como é sabido, os altos mandos militares representam um dos setores mais privilegiados da ilha, tendo ampliado seu peso no governo após a ascensão de Raúl Castro ao poder, em 2008. A principal fonte desses privilégios é o Grupo de Administração Empresarial S.A. (GAESA), uma empresa criada em 1995 e vinculada ao Ministério das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), que controla um complexo entramado de negócios, incluindo hotéis, pousadas, restaurantes, cafeterias, centros recreativos, agências de viagem, imobiliárias, companhias aéreas, importadoras, locadoras de veículos, armazéns, empresas de transporte marítimo, serviços de mensageria e encomendas, comércio atacadista, bancos, empresas financeiras, serviços de auditoria, empresas de construção, além de toda a rede de lojas varejistas em CUC e, atualmente, em MLC.

Em outras palavras, o GAESA constitui um núcleo central da atividade econômica da ilha e, embora formalmente seja uma empresa estatal de “caráter socialista”, na prática é dirigida pela burocracia militar, que não presta contas a nenhum órgão do Estado. As propriedades sob seu controle não estão subordinadas à Controladoria-Geral da República, e suas auditorias são internas, com resultados não acessíveis ao público.

Dessa forma, a suposta “propriedade socialista de todos” é, na realidade, administrada de maneira discricionária por uma classe política de burocratas que controla o aparato de um Estado proprietário dos principais meios de produção do país.

Isso ajuda a explicar a forma arbitrária como são investidos os recursos estatais em Cuba. Segundo um artigo recente do The New York Times, “nos últimos 15 anos, o governo cubano investiu cerca de 24 bilhões de dólares em hotéis”. Trata-se de um gasto sem justificativa aparente, considerando que o turismo apresenta uma tendência de queda: em 2018, o país recebeu 4,7 milhões de turistas, enquanto no ano passado esse número caiu para 1,8 milhão.

De acordo com Paolo Spadoni, professor da Universidade de Augusta citado na reportagem, o governo inaugurou 70 empreendimentos turísticos e acrescentou 22 mil novos quartos entre 2014 e 2025. Atualmente, a ilha conta com 85 mil quartos de hotel, mas a taxa de ocupação é de apenas 20%.

Enquanto isso, apesar do investimento massivo em hotéis vazios, não houve investimento no sistema energético. Segundo Spadoni, isso se deve ao fato de que os hotéis são administrados pela Gaviota, uma subsidiária do GAESA. Em sua avaliação, é provável que “os militares estejam adotando uma ‘visão de longo prazo’ ao buscar controlar ativos valiosos”.

Em outras palavras, a burocracia castrista priorizou investimentos em setores que geram retornos imediatos e que, ao mesmo tempo, podem ser convertidos em propriedade privada caso o capitalismo seja restaurado na ilha.

Essa é a “racionalidade” por trás da planificação “irracional” do orçamento em Cuba: um sistema orientado para a acumulação burocrática, e não para interesses operários ou socialistas.

Uma economia em crise agravada pela asfixia petrolífera

A crise energética e o cerco imperialista de Trump ocorrem em meio a um momento econômico extremamente difícil para Cuba. A produção industrial de 2024 foi a mais baixa em 40 anos, e o turismo registrou, em 2025, seus piores números das últimas duas décadas (excetuando o período da pandemia).

Segundo o Centro de Estudos da Economia Cubana (CEEC), o Produto Interno Bruto do país caiu 5% no último ano, acumulando uma retração de 15% desde 2020.

O CEEC também apontou que a crise energética arrastou toda a economia para uma espiral descendente. A geração de eletricidade caiu 13,7% em termos interanuais — antes mesmo do embargo petrolífero de Trump.

Além disso, a inflação oficial foi de 14,07% em 2025, embora estimativas independentes a coloquem em torno de 70%.

Diante disso, as condições de vida da população cubana se deterioraram significativamente. Os salários já não cobrem necessidades básicas. Um dado que expressa a gravidade da crise social é o aumento da mortalidade infantil, que subiu cinco pontos percentuais desde 2020, chegando a 9,8 por mil nascidos vivos.

“Cuba atravessa o que pode ser considerado uma ‘conjuntura crítica’, definida pela sobreposição de múltiplas crises: mal-estar social, questionamento das instituições, ruptura da ‘normalidade’, emergência de novos sujeitos sociais com papel político, estagnação do modelo anterior e um debate — explícito ou não — sobre o projeto de país”, concluiu o relatório do CEEC.

Diante do desabastecimento de combustível, o governo decretou uma série de medidas de austeridade, que se assemelham às que foram aplicadas durante o Período Especial nos anos 1990.

Por exemplo, foram suspensas as aulas presenciais nas universidades, foi determinado o fechamento temporário de várias empresas estatais, reduziu-se o serviço de transporte entre as províncias e foi estabelecida uma semana de trabalho de quatro dias (de segunda a quinta-feira). Além disso, há relatos de que cirurgias foram suspensas nos hospitais.

Junto a isso, como era previsível, vários hotéis com baixa ocupação foram fechados e, além disso, as companhias aéreas foram informadas de que não havia combustível para o reabastecimento dos aviões, o que fez com que a quantidade de voos diminuísse drasticamente.

Diante disso, há várias semanas circulam imagens e relatos internos que dimensionam o grau da crise social na ilha. Ruas cheias de lixo não recolhido porque os caminhões não têm gasolina, carroças movidas por tração animal funcionando como transporte público, ou pessoas angustiadas porque o pouco dinheiro que possuem é gasto na compra de alimentos ou medicamentos a preços exorbitantes que, devido aos apagões, acabam apodrecendo ou se estragando em pouco tempo.

Por isso, não surpreende que cresça o descontentamento da população contra o governo cubano, que é identificado — com razão — como parte do problema. Sabe-se que os burocratas e suas famílias vivem em uma “outra” Cuba, cheia de luxos e sem medidas de austeridade. Uma realidade que desmente a fantasia de que se trata de um “Estado operário burocrático”, como ainda sustentam algumas correntes trotskistas (do PTS até o arco de organizações oriundas do morenismo).

Devido à crise energética e social, tornam-se cada vez mais frequentes os protestos locais contra os apagões, pois as condições de vida se tornaram extremamente difíceis. São protestos legítimos que refletem o esgotamento das massas diante da gestão da burocracia cubana, o que ficou plenamente evidente com o incêndio da sede do Partido Comunista em Morón (periferia de Buenos Aires), ocorrido há alguns dias.

Seria um “crime contra o socialismo revolucionário” abordar os protestos em Cuba contra os apagões a partir dos relatos da burocracia castrista. Fazer isso significa perder a independência política diante de um regime burocrático e autoritário que, além de não ter nenhuma perspectiva histórica, é responsável por explorar e oprimir o povo cubano.

Diante da crise atual, cabe repudiar o criminoso bloqueio econômico e petrolífero do imperialismo estadunidense contra Cuba, que viola o direito à autodeterminação nacional da ilha. É preciso alertar que a emancipação do povo cubano do regime burocrático não virá pelas mãos de um imperialista como Trump, que, desde que chegou à Casa Branca, apoiou o genocídio sionista em Gaza, está bombardeando o povo iraniano e transformou a Venezuela em um quase protetorado colonial dos Estados Unidos.

Por outro lado, defendemos o direito à autodeterminação do povo cubano não apenas em relação ao imperialismo, mas também frente ao regime autoritário e burocrático castrista. Isso significa que apoiamos o direito à liberdade de organização e de manifestação do povo cubano, pois as mobilizações contra os apagões e o desastre provocado pelo governo cubano após décadas de planejamento burocrático são totalmente legítimas.