Em toda a sociedade capitalista, qualquer luta séria de classes é levada a cabo, acima de tudo, no campo econômico e político. Separar daqui a questão das escolas é uma utopia absurda, pois não é possível desligar a escola (assim como a “cultura nacional” em geral) da economia e da política (Lênin, 1981, p.51, Apud Oyama, 2014, p.10)
Por THIAGO EMANUEL
Gostaríamos de começar este texto saudando a todos os professores e professoras. A todos os que, cotidianamente, lutam para transformar a sociedade a que estamos submetidos, que através de suas ações — das trocas cotidianas com as novas gerações que hoje saem às ruas pelo mundo inteiro — contribuem para que estes se desenvolvam como sujeitos críticos e atuantes sobre suas realidades. Estes professores que militam pela educação emancipatória, utilizando das ferramentas trabalhadas em diálogo com os processos sócio-históricos, relacionados com as realidades dos estudantes, contribuem para que estes compreendam a necessidade urgente de se colocarem de pé contra todas as formas de exploração e opressão. Recordava o brilhante marxista argentino Milcíades Peña o que “Engels disse a seus alunos: “a primeira coisa que devem aprender aqui é a estar de pé””.(2014, p.13).
Neste dia 15 de outubro, celebra-se o dia nacional do professor, uma data comemorativa para homenagear o ofício docente. Mas, para além da celebração desta importante e fundamental profissão para a edificação de qualquer sociedade — principalmente para uma sociedade de superação da exploração e opressão que é necessária ser fundada — hoje também é um dia para refletirmos sobre as próprias condições que se encontram os professores, estudantes, escolas e a educação em sua totalidade.
O professor em um mundo em chamas
A profissão docente tem papel fundamental e basilar na construção de qualquer sociedade — principalmente na sociedade de classes, particularmente no capitalismo, onde a produção e a ciência estão apartadas uma da outra — , não à toa é uma das áreas mais estratégicas para o desenvolvimento cultural e social. O que será ensinado e para qual objetivo, está sempre alinhado com as questões econômicas e sociais de um determinado lugar e momento histórico. Os currículos, programas pedagógicos e demais formas de administração dos sistemas educacionais oficiais, são sempre pensados a partir dos interesses de uma determinada classe. Sejam escolas privadas ou públicas, estas continuam submetidas à lógica de reprodução do capital, como nos apresenta Mészáros em seu livro “Educação para além do capital”. Por essa razão é necessário que o espaço escolar, seu currículo e métodos de ensino sejam um campo central de disputa politica, do contrário o trabalho escolar não passa de mera reprodução das desigualdades sociais posta
Quando olhamos para o mundo, observamo-lo em ebulição, com conflitos militares e geopolíticos ocorrendo dia após dia, elementos crescentes de barbárie em todos os cantos, mas também revoltas por baixo que questionam, nas suas mais variadas formas, a atual ordem capitalista: a dialética da reversibilidade que condiciona e reabre as perspectivas para o relançamento do marxismo revolucionário e, assim, para possíveis revoluções neste século. Entender o mundo é fundamental, pois, sem conseguirmos analisar os acontecimentos, tirar conclusões e principalmente, compreender como podemos interferir sobre a realidade concreta do desenvolvimento histórico, visando transformá-lo radicalmente, estamos fadados à derrota e a perpetuação da exploração. A educação que tenha como projeto a emancipação humana, que dentro e fora dos âmbitos formais, impulsione essa tarefa das atuais e futuras gerações de superar a sociedade capitalista, é essencial no processo de transição e de edificação da sociedade socialista. Hoje, o mundo nos implica cada vez mais essa necessidade de entender a fundo a dinâmica das coisas – do mundo – e transformá-las, mas devemos nos lembrar quem foram aqueles que primeiro nos deram esse vislumbre do conhecimento e da chama à luta.
Uma das características fundamentais deste “mundo em ebulição”, são as condições materiais cada vez mais precárias, com as novas gerações cada vez mais submetidas ao pauperismo e sem perspectivas de um futuro em comparação com as anteriores. Esta é a primeira geração que possuí condições mais precárias do que as suas antecessoras, devido à acentuação dramática das contradições do capitalismo sob o processo de hegemonia do neoliberalismo desde o fim da década de oitenta e o início dos anos 2000. Os jovens já não tem perspectivas — e nem condições materiais — de adquirir um imóvel próprio, possuem condições cada vez mais precárias de trabalho, com longas jornadas laborais, intermitência, baixos salários, retiradas de direitos, horas a fio em transportes públicos precários, dentre outros elementos que incidem diretamente sobre a reprodução da vida da classe trabalhadora de forma geral. Além das condições materiais e imediatas, elementos subjetivos e psicossociais também se sobressaem. Diversas questões psicológicas e psiquiátricas acometem a juventude hoje em proporções inéditas e assustadoras. O suicídio é a terceira maior causa de mortes de jovens de 10 a 29 anos no mundo inteiro, conforme a OMS, ficando atrás somente de mortes por acidentes de trânsito e homicídios. Além disso, grande parte da população jovem sofre com algum tipo de transtorno psiquiátrico, como depressão, ansiedade ou algum tipo de distúrbio comportamental. Um a cada sete jovens, sofre com algum transtorno mental.
É neste mundo que o professor se encontra e encontra seus alunos. Um mundo complexo e com a contradição dos elementos que condicionam o desenvolvimento histórico explodindo feito pipocas em uma panela – com cada vez mais pressão. Mas é tarefa do professor, buscar maneiras de fazer com que este mundo seja compreendido sob uma ótica de uma ciência crítica e classista, visando a compreensão da juventude sobre seu papel e suas tarefas na luta de classes.
Nos últimos anos, observamos no Brasil um aumento exponencial da mercantilização da educação e da transformação das escolas em projetos de mini-empresas e formadoras de mão de obra ultra precarizada. — como é o caso do iFood e outras empresas que investem nos itinerários “formativos” do Novo (e perverso) Ensino Médio, ou com o processo de militarização das escolas por Tarcísio de Freitas, entre outros tantos exemplos.
A mercantilização da educação, o controle de tendência despótica do trabalho docente incorrem necessariamente em metas e mais metas, desvios de função, pressão das secretárias para com os diretores que reproduzem essas cobranças a seus professores e estes a seus alunos, criando um ciclo de pressão para atender as metas desprovidas de propósito e sentido coletivo. Sob a tendência mundial da plataformização das esferas sociais e do trabalho, as escolas foram inundadas com milhares de plataformas digitais. Estas plataformas criaram um clima hostil na sala de aula, com a liberdade de cátedra sendo colocada em cheque cada vez mais, com a obrigação da utilização de slides prontos, plataformas nas quais não conseguimos mais desenvolver nossas sequências pedagógicas e outros absurdos que somente a sociabilidade do capital — ou melhor, a não sociabilidade — poderia proporcionar. Vale salientar que este processo de plataformização também espolia o trabalho intelectual docente, retirando a produção das sequências didáticas e os processos de avaliação do ensino da mão do docente e colocando na mão do estado e das empresas detentoras destes aplicativos. Este processo torna a educação e seus processos alheios e estranhos a comunidade educacional, a escola e a comunidade como um todo. O professora é cada vez mais submetido a um processo de subsunção real de seu trabalho a maquina estatal e ao capital, bem como os alunos também perdem sua autonomia e o que prevalece é um processo bancário de preenchimento de abas e cumprimento de tarefas vazias.
Estas características citadas, junto de diversas outras, como a questão de poucos profissionais concursados e com estabilidade, abertura de vagas de professores para pessoas não formadas, a participação e atuação intransigente de grandes empresas e fundações no ministério da educação, dentre outras, contribuem cada vez mais para o “fracasso” — consciente e planejado — da educação brasileira.
Por esta série de dificuldades e entraves, além do baixo prestígio atual da carreira, é que poucos escolhem seguir os cursos de licenciatura e pedagogia. Porém, de forma dialética, mesmo com as dificuldades latentes, existem recompensas e tarefas que nem mesmo a pior das condições imposta, impede que estes bravos guerreiros sigam perseverando e lutando por uma educação de qualidade e um mundo mais justo.
Mais do que professores, educadores!
Ser professor é muito mais que depositar conhecimentos previamente acumulados em outras pessoas. Este trabalho, que além de tudo, é também um ofício, pois demanda um processo permanente de formação. Todo bom professor tem sempre aquele incômodo permanente, aquela coceira intelectual e a necessidade de se atualizar, compreender as novas tendências educacionais, mas principalmente, entender o mundo que se transforma e se incendeia e pensar, “como posso tentar fazer com que meus alunos compreendam algo?”, “como dar sentido para o que eu passo em aula para meus estudantes?”. Essa necessidade de desenvolvimento contínuo e transformação de sua prática é algo marcante nesta carreira, que também é uma vida.
O trabalho docente se assemelha à vida do militante. Em ambos os casos, os dois devem sempre estar se atualizando, entendendo as mudanças que ocorrem para compreender a melhor forma de intervir, visando uma transformação e alteração do status quo. Em ambos a vida secular e a vida laboral não se separam. O professor ao longo de sua semana, mesmo sob condições precárias, não consegue deixar de pensar em seus alunos, de alguma forma. Este sempre está reflexivo sobre sua prática, pensando “como vou falar com tal aluno”, “aquela aluna passou por determinada coisa, vou falar com ela” e esse pensamento também se insere na sua jornada atípica, pois boa parte do trabalho docente, não se realiza fisicamente em sala de aula, mas fora dela, nos processos de elaboração de materiais, reflexões sobre as condições dos estudantes e como trabalhar com uma determinada turma. O militante também, pois na luta deve levar adiante com ímpeto suas causas e demandas, assim como o professor. Krupskaya e Lounatcharsky defendiam, assim como boa parte dos teóricos da pedagogia socialista, o ativismo pedagógico pela emancipação humana e a transformação radical da escola — para uma escola do trabalho, uma escola que não fosse apartada da vida social e política.
O professor é um militante por natureza, pois este luta, cotidianamente, pelas melhores condições de seus educandos. Esta luta pode se dar por meio de sua aula, ou por meio de brigas com a diretoria para melhores condições materiais dos estudantes, seja por se manifestar e levar as suas pautas e da escola adiante por meio de mobilização, combate ao processo de mercantilização da educação e tantos outros.
Esta categoria sabe lutar — e como não saber! —, mesmo sobre todas as adversidades hoje imposta a ela, mesmo sendo uma das categorias que mais sofre com a questão da saúde mental pelas enormes pressões externas e internas postas a eles, o professor continua a se preocupar com os educandos e com o futuro destes. A carreira docente é uma categoria que possuí uma especificidade ontológica. Ser professor é um trabalho relacional entre pessoas. Uma ciência de humanos, sobre humanos e para humanos, na qual o afeto e a empatia são intrínsecos a sua prática. Se importar com os estudantes, ter empatia por eles e compreender suas realidades é fundamental no processo de ensino e aprendizagem. Como lidar com alunos diversos, com as realidades, experiências de vida e concepções únicas. O professor se adapta e se coloca no lugar de cada um deles, na medida que consegue e que lhe é possível. O trabalho docente não é somente sobre seus objetos de estudo, suas respectivas áreas (geográfica, matemática, história, etc.) mas é um trabalho sobre sujeitos e suas relações, consigo e com o mundo.
Ser professor é também ser um educador . Ser professor é ser corresponsável pela vida futura de diversos estudantes, marcando positiva, ou negativamente, a vida destes. Na vida adulta, sempre lembramos daquele professor que nos auxiliou no ensino fundamental, daquele que acreditou e depositou confiança em nós, o professor que no ensino médio mudou drasticamente a visão que tínhamos de nós mesmos. Mas também lembramos daqueles professores que eram carrascos, que repassaram suas frustrações a nós, que em vez de lutarem, haviam desistido, mas não queriam “abandonar o barco” (mas ali seguiam por não encontrar nenhuma outra forma de subsistência). O derrotismo abarca, infelizmente, a categoria docente, e com todos os elementos já citados e impostos pela lógica do capital, não é surpreendente. Mas assim como o militante, que mesmo com todos os fatores contra, mesmo com as dificuldades e complexidades da realidade, lutam, e seguem adiante sua tarefa revolucionária. O bom professor, este que entende que se ele não lutar, se não levar adiante uma perspectiva de transformação radical da sociedade, não terá êxito em sua missão de educar, pois a educação formal pouco, ou quase nada tem a oferecer uma vez que está submetida à reprodução da lógica burguesa e da reprodução do capital (Mészáros 2005). Mas lembremo-nos. A educação vai muito além da sala de aula, muito além das paredes da escola e dos currículos formais.
Feliz dia do professor/educador!
Queremos saudar e agradecer a todos os professores, que seguem lutando, seguem combatendo o obscurantismo e o negacionismo, que por meio de suas aulas, por meio de seu próprio exemplo que repassa para os estudantes, como alguém que não se cala diante de toda injustiça deste mundo e se coloca no movimento para lutar e virar este mundo do avesso! Queremos saudar e reivindicar os que infelizmente foram abatidos pelo cansaço, pela exaustão ou até mesmo pela violência e que tiveram que abandonar esta bela e laboriosa profissão. Agradecemos e saudamos todos os professores que impactam a vida de milhões de estudantes ao longo de sua vida, que alteram as concepções de mundo, ampliam a visão dos jovens e seguem formando as novas gerações para lutarem por um outro mundo.
Lênin, em diversos discursos, tratou da importância da juventude no processo de edificação do socialismo, da necessidade que os jovens superassem o conhecimento acerca do que é comunismo somente pelas palavras de ordem e jargões, mas mergulhassem a fundo em sua teoria e compreendessem radicalmente o processo de auto-emancipação das e dos trabalhadores. É papel também dos educadores que lutam e militam pelo socialismo que, em suas instâncias fora da sala de aula, em seus partidos, organizações, cursinhos populares e em todos os âmbitos que seja possível, levem adiante essa tarefa de formação da juventude — que apresentem este caminho tratando da importância da teoria e da práxis revolucionária.
Esta é a beleza deste trabalho, deste ofício, desta escolha que muda completamente nossas vidas. Ser professor é ouvir “é para copiar?”, “vale nota?”, “vai cair na prova?”; mas também é ouvir “prô, você me ajudou a estudar e consegui passar no vestibular em uma universidade pública”, “puxa prof, aquela conversa que tivemos no ensino médio mudou minha cabeça e me fez não desistir!”. Frases de nossos alunos que nos marcam, nos acalenta e nos dão combustível para continuar, para romper com a inércia e lutar contracorrente. Lutar contra a mercantilização da educação, contra o sucateamento e a plataformização. Lutar e continuar lutando por uma educação pública, laica, gratuita e de extrema qualidade para todos e todas e que de fato seja emancipatória para a classe trabalhadora e suas filhas e filhos.
Que levemos adiante essa chama de esperança e militemos por uma educação socialista e que de fato seja emancipatória. Somente a educação que esteja a serviço do povo, que de fato rompa com esta lógica da sanha pelo lucro, irá libertar as futuras gerações da classe trabalhadora de seus grilhões. Viva cada professora e professor que luta por este horizonte e se somam, lado a lado, em nossas fileiras.











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